8.8.17

Dustin Hoffman, octagenário

Dustin Hoffman nasceu em 8 de Agosto de 1937. Faz hoje portanto 80 anos. Parece impossível, mas o calendário não perdoa.

Protagonizou dezenas de filmes, mas eu fixei sobretudo os da sua primeira fase. E se The Graduate (1967) não foi o seu primeiro filme, foi certamente aquele em que alcançou fama e que o lançou no mundo do cinema. Com ele, e com Rain Man, ganhou dois Óscares.

Mas não consigo separá-lo de um outro – Kramer vs. Kramer – que vi e revi nem sei quantas vezes.





A capa de um LP que ainda anda cá por casa:

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Neymar, o negócio e o futebol



«Os meandros do futebol constituem um labirinto de interesses infinito, e salta à vista de todos a quantidade de gente que beneficia com o negócio. Os agentes, as marcas patrocinadoras, os dirigentes dos clubes, o comércio de franchising, os jornais, rádios e televisões, os Estados e as economias locais e nacionais onde ocorrem os grandes eventos (e onde estão sediados os clubes de maior prestígio), etc., etc. É, sem dúvida, um fenómeno social complexo, que assenta em fatores psicológicos e socioculturais (além dos económicos), e é por isso que desperta tantas paixões, mesmo entre muitos daqueles que têm plena noção dos seus efeitos mais perniciosos na sociedade. Sendo o futebol, na atualidade, não só um desporto mas uma indústria global, é inevitável o seu impacto socioeconómico. A ligação do “mercado futebol”, quer a oligopólios, marcas e grupos empresariais, quer aos próprios Estados que o usam estrategicamente, é reveladora da sua força simbólica e poder financeiro.

A transferência de Neymar do Barcelona para o Paris Saint-Germain (PSG) e os valores escandalosos da operação (222 milhões de euros), que ocupou as prime-news das televisões e jornais do mundo inteiro, dizem bem da importância económica — e política — do futebol. No caso, um pequeno Estado — o Qatar — está no centro da jogada. (…)

Se nos lembrarmos que o Qatar será sede do Mundial de futebol de 2022 e, por outro lado, que o presidente do PSG é o catari Nasser Ghanim Al-Khelaifi (muito próximo do Emir do Qatar, Tamim Al Thani), ex-presidente de uma cadeia televisiva com o exclusivo dos grandes jogos (beIN), e que a Autoridade de Investimento do Qatar (QIA) é a dona do PSG (um fundo soberano, que pertence ao governo do Qatar), fica claro que a promiscuidade entre os negócios do futebol assume neste caso um estatuto de política de Estado.

De um lado, há o interesse em usar o nome de um dos mais famosos jogadores do mundo para promover a jogada de charme que será, a nível internacional e do ponto de vista do país, o Mundial do Qatar (sobretudo se correr bem) e, por outro lado, temos um Presidente francês recém-eleito (ainda mais jovem que o presidente do PSG), desejoso de afirmar o seu estilo moderno e desempoeirado, mas sobretudo a confirmar a sua conhecida intimidade com o mundo financeiro. E aí, é claro que o sistema fiscal francês agradece os impostos aplicados aos milhões dos salários e transferências de jogadores de futebol em que Neymar é apenas o exemplo. (…)

Estamos todos enleados nas mesmas engrenagens socioculturais. O valor agregado que faz aumentar exponencialmente os lucros das sociedades gestoras de fundos, os salários de presidentes e empresários de jogadores, os montantes das transferências e os ordenados pornográficos dos grandes ídolos não vem unicamente da especulação financeira e da corrupção. Emana da sociedade de consumo em que vivemos. E, portanto, dos nossos hábitos. Ou seja, eles são ídolos não apenas devido à capacidade técnica, aos golos e à intensidade e beleza das jogadas, mas porque há milhões de aficionados que pagam bilhetes, quotizações, compram jornais desportivos, assinam canais de TV, etc., que alimentam o mercado e a máquina mediática promotora da idolatria.

No final de uma semana de trabalho, assistir a um jogo decisivo é um lenitivo insubstituível. Uma “alienação consciente” e libertadora. Todos os centros urbanos do mundo estão povoados de bares e ecrãs plasma, por isso mesmo. Os portugueses adoram futebol e vibram intensamente com os grandes jogos — embora, devido ao excesso de clubismo, percam mais tempo em discussões inúteis do que a apreciar o jogo, ao contrário, por exemplo, da Inglaterra, país berço do futebol. Nada justifica (a não ser o mercado das audiências) as horas infinitas semanais dedicadas a “discutir” futebol nos principais canais televisivos em Portugal.

Mas, mesmo admitindo que, por absurdo, um dia a exaustão propagandística atingisse o seu ápice, alguém acredita que seria possível uma “greve geral” ao futebol? E alguém se pergunta como seria a vida de um povo deprimido se não existisse um entretenimento tão poderoso como este? Quanto vale o “orgasmo coletivo” do golo decisivo do nosso clube de coração? Em que outras atividades existem tantos profissionais de origem popular que atingiram o topo? Haverá uma atividade mais democrática (ou meritocrática) do que o futebol? Algum português poderia ficar indiferente à gloriosa vitória da nossa seleção no Euro 2016? (…)

O futebol é emoção e arte em movimento. Por isso produz e reproduz formas identitárias dotadas de um poder simbólico e político tão impressionante. Por isso os milhões $$$ são alimentados por milhões.»

Elísio Estanque
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7.8.17

Dica (603)



"Tudo o que remeta para a questão da raça é tabu em Portugal" (Entrevista a Pedro Schacht Pereira por Fernanda Câncio)
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Maravilhas do Photoshop!





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07.08.1975 – É conhecido o «Documento dos Nove»



O «Documento dos Nove» (também conhecido como Documento Melo Antunes) é imediatamente associado a 1975 mas há muito quem o relacione com o 25 de Novembro e julgue portanto que foi publicado perto dessa data. Não é o caso: foi divulgado, no Jornal Novo, em 7 de Agosto de 1975.

«Os Nove» eram Melo Antunes, Vasco Lourenço, Sousa e Castro, Vítor Alves, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves e Vítor Crespo, mas o manifesto foi ainda assinado por Ramalho Eanes, Garcia dos Santos, Costa Brás, Salgueiro Maia, Rocha Vieira, Fisher Lopes Pires e outros membros das Forças Armadas.

Em pleno Verão de 1975, na véspera da tomada de posse do célebre V Governo Provisório (o último a ser presidido por Vasco Gonçalves), os signatários quiseram posicionar-se em contraponto às teses políticas do documento «Aliança Povo/MFA. Para a construção da sociedade socialista em Portugal», apresentado um mês antes (em 8 de Julho) e passaram a representar publicamente a facção moderada do MFA, recusando «tanto o modelo socialista da Europa de Leste como o modelo social-democrata da Europa Ocidental, defendendo um projecto socialista alternativo baseado numa democracia política, pluralista, nas liberdades, direitos e garantias fundamentais».

Vale e pena ler ou reler este Documento dos Nove, sabendo o que sabemos hoje e estando onde estamos. É um exercício que aconselho a quem se interessa por esse ano crucial e absolutamente decisivo da nossa História relativamente recente, por aquilo em que ele a condicionou e condiciona ainda. Discuti-lo deste ponto de vista daria pano para mangas, mas nem tento. Mas não resisto a transcrever um parágrafo que resume, de certo modo, aquilo que «Os Nove» defendiam e prometiam:

«Lutam por um projecto político de esquerda, onde a construção duma sociedade socialista – isto é, uma sociedade sem classes, onde tenha sido posto fim à exploração do homem pelo homem – se realize aos ritmos adequados à realidade social concreta portuguesa, por forma a que a transição se realize gradualmente, sem convulsões e pacificamente.» 
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Para gente crescida

Neymar, o poder do dinheiro e os impostos



«Sobre a ida de Neymar para o PSG as opiniões dividem-se tanto como o dinheiro que o clube francês deu, num cheque, ao Barcelona: 222 milhões de euros.

O futebol chegou a um novo mundo. Resta saber como este será. No El País, Ramon Besa escreve: "Não há um jogador de futebol mais desconcertante no mundo do que Neymar. O brasileiro é um jogador fabuloso que se distingue por irritar os adversários com a sua língua e seu drible, e por enfurecer os seus companheiros por perder os primeiros minutos de cada jogo trocando ou a ajustar as chuteiras, seja em Camp Nou ou em Miami.(…) O brasileiro quer ser na Europa o camisa 10 que é no Brasil. Por isso, teria decidido de forma legítima sair da zona de conforto e brigar com Messi e com Cristiano Ronaldo pela Bola de Ouro jogando no time com sede em Paris. (…) Até hoje não se sabe com certeza quanto Neymar custou ao Barça quando este ganhou a disputa pelo brasileiro com o Real Madrid. Também não será fácil saber quanto custará a operação que pode levá-lo ao PSG."

Feliz está o ministro francês das Finanças, que já vê milhões de impostos e IVA defronte dos olhos. Disse Gérald Darmanin: "Se Neymar vier mesmo para um clube francês, o ministro das Finanças fica feliz pelos impostos que ele pagará em França. Vale mais que esse jogador de futebol pague os seus impostos em França do que não pague em parte alguma." Fala-se de algumas centenas de milhões de euros de impostos para os cofres franceses. No Sport, de Barcelona, Lluís Mascaró massacra Neymar: "Este é o melhor exemplo do que significa o desporto profissional hoje em dia: o dinheiro acima de tudo. Exactamente o que pensou Neymar e o seu pai-representante. Aceitaram a oferta do PSG porque representa muitíssimo mais dinheiro para ambos. Estamos num mundo de mercenários em que os sentimentos e os valores representam bem pouco. Ou nada." No fim, sobra uma bola e um campo relvado.»

6.8.17

Eu ainda sou do tempo em que a França era um país respeitável

Dica (602)



Do sorriso de Fehér (Ana Sousa Dias) 

«Podermos ver em tempo real algo que está a acontecer é um feito extraordinário que a tecnologia nos dá. Mas um direto de informação não é uma câmara de vigilância à espera de que alguma coisa aconteça.» 
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Tu n’as rien vu à Hiroshima



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A nova guerra das estrelas da Europa



«Em 1977, passam agora quatro décadas, duas descargas eléctricas devolveram alguma energia à cultura urbana ocidental e delimitaram o novo mundo económico, social e económico em que ainda vivemos.

George Lucas estreava o primeiro filme da saga "Star Wars". Os Sex Pistols lançavam o seu primeiro álbum. Aparentemente nada de comum havia entre os dois factos. Mas, cada um à sua maneira, mostravam que as águas calmas em que navegava a cultura precisavam de uma tempestade que agitasse as ideias. (…) Tantos anos depois percebemos que a visão do mundo de George Lucas triunfou: a tecnologia tornou-se o guia espiritual da nossa sociedade de consumo. O ruído dos Sex Pistols ou foi absorvido pela sociedade ou atirado para as suas margens. A sociedade deslocou-se para o mundo virtual, como até hoje é visível na distribuição musical. O ruído é como a dor: as sociedades só gostam de o ver do outro lado da fronteira. Basta olharmos para a crise da emigração ou para os que ficaram excluídos da sociedade digital para percebermos isso.

Estamos novamente num limiar de mudança. A destruição da classe média, pilar da democracia e do Estado social, coloca desafios crescentes. Por outro lado voltámos à lógica de tribo. A eleição de Donald Trump nos EUA é um sintoma disso. Um mundo multipolar coloca-se defronte dos nossos olhos e as recentes sanções à Rússia, aliadas às rotas económicas da seda da China mostram que novas alianças se estão a forjar. E isso implica a destruição da célebre parceria EUA/Europa, que foi o pilar das sociedades mundiais no último século. As sanções económicas dos EUA à Rússia colocam um dilema à Europa, porque elas atacam a estratégia energética do Velho Continente: que é mais importante, uma aliança com os cada vez mais proteccioistas EUA, ou uma abertura à China, à Rússia e a outros? É um dilema estratégico que vai definir os próximos tempos, agora que estamos no limiar de uma nova revolução energética (aliada aos problemas ambientais que só alguns americanos não vêem).

A decisão dos EUA de aplicar mais sanções à Rússia vai obrigar a Europa a aproximar-se desta e da China. Ao colocar sob pressão as fontes de energia europeias (porque prevê sanções a empresas europeias ligadas à construção de pipelines para trazer energia da Rússia para a Europa), os EUA dão um tiro no pé. E nesse aspecto os EUA também ferem a Turquia, velho aliado. O tempo de "Star Wars" e dos Sex Pistols teve o seu auge com os reinados de Reagan e Thatcher e estabeleceu a nova paz da economia de mercado no mundo. Mas agora são os outros (China, Rússia) que defendem o comércio livre. Não deixa de ser um paradoxo.»

06.08.1945 – Hiroshima: os relógios pararam às 8:15



É um ritual: republico este post quase todos os anos. Ter ido a Hiroshima marcou-me para sempre.

Se eu apenas pudesse guardar duas fotografias, dos milhares que fui tirando por esse mundo fora, escolheria estas. De má qualidade, sem dúvida, mas que me recordam dois objectos expostos no Museu de Hiroshima, que nunca mais esquecerei. Numa, um relógio que parou à hora exacta em que a bomba explodiu. A outra fala por si.

Foi há 71 anos.



Parque Memorial da Paz de Hiroshima - algumas imagens:
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