6.7.18

Horário de Verão sempre?



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«A Comissão Europeia lançou uma consulta pública que estará ativa até ao dia 16 de agosto: pretende avaliar se vale a pena mudar a hora duas vezes por ano para estar mais adaptada aos padrões da luz do dia.»

Eu prefiro o de Verão, mas fico com curiosidade de saber como responderiam os islandeses se pertencessem à UE: mudar ou não a hora deve fazer-lhes uma diferença do caraças!
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África é um país?



«Como moçambicana migrante, procuro acompanhar os desenlaces políticos no meu país e na região, o que nem sempre é fácil. Das páginas disponíveis on-line, uma das minhas favoritas é Africa is a country [África é um país], um espaço de sátira à persistência de representações coloniais e sobre a diversidade de problemas do continente no presente. Há alguns anos, Binyavanga Wainaina num artigo cáustico desvelou as heranças coloniais presentes em muitas descrições sobre África, sobre um continente com cerca de 1,2 mil milhões de pessoas e culturas muito diferentes entre si, e que são frequentemente tratadas como uma só, como um único país. No campeonato mundial de futebol, a decorrer ainda, participaram várias equipas africanas, representando vários países. Porém, na maioria das análises eram apresentadas como ‘equipas africanas’. Só que a Coreia ou o Japão, selecionados pelo continente asiático, mas não são chamados de ‘equipas asiáticas’.

PUB Uma discussão sobre as representações de alteridade sugere que se trata de representações políticas, com um largo lastro histórico. O conceito predominante de África é por demais homogeneizante, contendo realidades diversas e bastante heterogéneas. De modo semelhante, não existe uma Europa ou uma Ásia como entidade única.

A história hegemónica de África contem ainda uma forte carga de violência epistémica, fruto da persistência das referências da biblioteca colonial. As omissões, os esquecimentos, as ausências, as fabricações e os estereótipos, que resultam na distorção e negação da historicidade da humanidade africana, impossibilitam uma leitura mais complexa das decisões, intervenções, resistências e autonomias. Falar sobre África significa questionar e desafiar crenças de estimação, pressupostos declarados e múltiplas sensibilidades.

A construção de representações sociais do continente africano é reificada pelo uso de categorias conceptuais como tribo(s) e etnia(s), tradicionalismo(s), doenças endémicas, atraso, subdesenvolvimento, instabilidade política, categorias que exigem uma reflexão sobre o seu conteúdo. Um denominador comum é a pobreza da África na produção de conhecimento. A ‘pobreza’ de África está relacionada, como vários sublinham, com a sua produtividade intelectual. Este facto pode ser avaliado a partir das referencias a África em publicações internacionais (muito alta, mas maioritariamente produzida fora do continente) e os fracos investimentos (por governos africanos) em pesquisa e desenvolvimento. Numa das suas crónicas, o escritor moçambicano Mia Couto referia-se à situação de Moçambique, dizendo que “a maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos”. A pobreza no campo da produção de conhecimento representa um perigo para o futuro de Moçambique, atingindo diretamente a atual geração de moçambicanos e as gerações futuras. Por outro lado, é também verdade que muito tem sido escrito sobre a complexidade social e histórica de Moçambique. Podem os moçambicanos ser ouvidos, também, como agentes ativos de produção de conhecimento sobre o seu país, sobre o continente e o mundo?

O moderno colonialismo atuou simultaneamente como ‘missão civilizadora’ e ideologia baseada numa epistemologia que procura legitimar a dominação e a exploração do ‘outro’. Este projeto assentou na conceção do ‘outro’ não como indivíduo ou parte de uma comunidade - com as suas economias, estruturas de poder e saberes -, mas como uma representação homogénea, imaginada em função dos objetivos políticos e das fantasias dos colonizadores. Esta é a visão dominante sobre ‘África’, reiterada por Nicolas Sarkozi (então presidente de França), num discurso proferido no Senegal, em 2007, onde afirmou que:

A tragédia da África é que o homem africano não entrou ainda o suficiente na história. O camponês africano, que há milénios convive com as estações do ano, cuja vida ideal é estar em harmonia com a natureza, conhece apenas o eterno recomeço do tempo pontuado pela repetição sem fim dos mesmos gestos e ações. Mesmas palavras.

Pensar o continente africano, como parte do mundo, requer uma outra perspetiva epistemológica, em que a diversidade do continente encontre eco e dê forma ao sentido de ser e sentir África no plural. Este desafio encontra eco nas Epistemologias do Sul, a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que se ultrapasse o peso das representações sobre os outros, para que se reconheça o Sul global na sua diversidade. Esta proposta, como o autor sublinha, tem por objetivo permitir que os grupos sociais oprimidos representem o mundo por si mesmo, nos seus termos, pois somente assim serão capazes de mudá-lo de acordo com suas próprias aspirações. A luta pela história, arte, literatura, e outras formas de conhecimentos africanos continua, pois, no século XXI, ecoando o desafio de vários políticos e académicos africanos, pela descolonização mental, pelo reconhecimento do lugar das múltiplas Áfricas no mundo. Significa conhecer as histórias e os desejos dos jogadores das várias equipas nacionais africanas que participaram no campeonato do mundo de futebol de 2018.»

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5.7.18

Claude Lanzmann (1925-2018)



O seu célebre filme Shoah, que dura mais de nove horas, pode ser visto AQUI (Parte I) e AQUI (Parte II).


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Dica (779)




«If the Union wants a sustainable solution to its migration crisis, it must channel a healthy share of its tariff revenue from global commodity trade to finance development in labour-sending countries. In other words, stop migration at its origin by eliminating the push factors at source. Migration decisions are always economic: individuals and families, when they decide to move, are not irrational; they risk their lives for a chance at a better life abroad. When they choose to overpay human traffickers, they weigh the risks and dangers against expected benefits in a new land.
Clearly, there are no short-cuts. To its credit, the 29 June EU conclusions on migration call for increased investment in Africa to help the continent achieve a “sustainable socio-economic transformation” to raise African living standards. But that is just the start of the complete rethink that is required.»
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França – os pobres que esperem: há futebol




«Emmanuel Macron avait prévu de le présenter à la mi-juillet. Pour des questions de calendrier et de Coupe du monde de football, l’Elysée préfère attendre la rentrée.»

Qual é a pressa?
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A cimeira da capitulação



Daniel Oliveira no Expresso diário de 04.07.2018:

«Quando foi a crise financeira convencemo-nos que era por causa da Alemanha que nada se podia fazer. Em parte é verdade: o euro foi desenhado à medida das necessidades e receios de Berlim, a resposta à crise foi limitada pela necessidade de resgatar a banca alemã e francesa da exposição às dívidas soberanas dos países periféricos e muito do que se decide no Banco Central Europeu é, apesar de algumas momentos excecionais, determinado pelos tabus alemães. Mas é otimismo pensar que a vontade de um Estado é mais importante do que todos os interesses privados, sobretudo os do poder financeiro, que se movem em Bruxelas. Foi a confluência do poder dos Estados mais fortes da Europa e do poder financeiro que determinou aquilo que a Europa fez e não fez para enfrentar a crise de 2008-2011. E foi o que fez e o que não fez que criou as condições para o crescimento exponencial de movimentos de extrema-direita.

Mas tivemos, na última cimeira do Conselho Europeu, a oportunidade para relativizar o poder alemão. Merkel precisava de um acordo mas, como se viu, estava disposta a ceder em toda a linha, externa e internamente. Podemos disfarçar, mas António Costa explicou de forma clara: “O Conselho não fez mais do que mandatar a Comissão e o Conselho para dialogarem com as Nações Unidas, com a Organização Internacional para as Migrações, com países terceiros para explorar uma ideia, e nada mais do que isso”. E o que se empurrou com a barriga não é mau, é péssimo. Quando o primeiro-ministro do Governo italiano, um fantoche da Liga e dos idiotas úteis do 5 Estrelas, diz que “este Conselho Europeu marca o início de uma Europa mais responsável” estamos conversados.

O que sai desta cimeira são as plataformas de desembarque, os centros controlados e o reforço da vigilância das fronteiras. Não é qualquer política de solidariedade entre Estados para acolher os refugiados, até porque a extrema-direita do Leste deixou claro que não daria nada para esse peditório. A maioria das plataformas de desembarque deverão funcionar em países exteriores à UE. A ideia de garantir um circuito oficial que seja uma alternativa ao negócio dos passadores seria excelente. Mas a “estreita cooperação com países terceiros” denuncia a repetição do vergonhoso acordo com a Turquia para que países sem qualquer respeito pelos direitos humanos recebam os refugiados, em troca de dinheiro, para os conter fora da Europa, em centros de detenção degradantes. Não é difícil imaginar o que é ter o Egito, a Líbia ou a Argélia a garantirem a segurança destes migrantes.

Os centros controlados, para receberem pessoas resgatadas em operações de salvamento e selecionar refugiados entre os migrantes irregulares (a serem recambiados ao seu destino), parecem encaminhar-se para centros de reclusão de imigrantes. E os meios financeiros e materiais da UE serão canalizados para o controlo de fronteiras. Perante a tragédia humana que está à nossa frente, a prioridade é para impedir a entrada e “intensificar significativamente o regresso efetivo de migrantes irregulares” à sua origem. É para políticas de regresso que se podem meios e nova legislação. Todos os problemas são para ficar para lá das fronteiras europeias. Quanto a uma Europa solidária para receber em conjunto os refugiados, nada.

O que saiu do Conselho Europeu encaminha tudo para a repetição do acordo com a Turquia no norte de África, a contenção de imigrantes do outro lado da Mediterrâneo, a construção de centros de detenção e toda a prioridade à intensificação do regresso compulsivo. A extrema-direita de Órban e Salvini não se limitou a impedir qualquer solução. Foi o confronto entre a extrema-direita do Leste e a extrema-direita italiana que encaminhou a Europa para as suas soluções. E provou que a Alemanha não é imbatível. A diferença é que a extrema-direita é bem mais firme na defesa da sua sinistra agenda do que a esquerda foi quando era preciso garantir a coesão europeia e a solidariedade com os países do sul. Mesmo nesta última cimeira, os governos de extrema-direita foram claros ao explicar que vetariam um conclusão se não fosse a que desejavam. Já Costa bracejou, protestou e assinou. A diferença é que a União que realmente existe está muito mais próxima de Órban do que de Tsipras. O primeiro é integrável sem ceder um milímetro, o segundo só o foi quando se vergou.

E isto aconteceu apesar de, supostamente, Merkel e Macron terem como bandeiras humanistas uma política diferente para a imigração. Continuem a pôr as fichas em quem, na última década, fez tudo para minar qualquer sentimento de dever solidário entre os europeus, impondo às vítimas da crise o egoísmo alemão, e num boneco cheio de retórica cosmopolita desde que a França esteja primeiro, e não iremos muito longe. Quando os seus egoísmos não estão em causa, a Alemanha amocha e a França é a França. Mandam os Salvini, os Órban e todos os que mostram ao Mundo o verdadeiro rosto da Europa. E é por isso que as lições europeias a Trump só me provocam um sorriso amargo. Diz o roto ao nu...»
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4.7.18

Sem sofá? Nããã...


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Dica (778)




«Uma das razões pelas quais a insurreição grega de esquerda contra a ordem estabelecida da UE falhou em 2015 foi a falta de aliados. Os populistas da direita têm uma estratégia diferente. Eles trabalham a partir de dentro da UE formando alianças. A sua ambição é assumir as instituições da UE e destruí-la a partir de dentro. Salvini está de olho nas eleições europeias de maio de 2019 e as suas hipóteses parecem boas.
É possível que os principais grupos de centro-esquerda e centro-direita do Parlamento Europeu sejam aniquilados por dois adversários. Um deles poderá ser um novo grupo liberal pró-europeu, liderado por Emmanuel Macron, presidente de França. O outro poderá ser um grupo variado de populistas e nacionalistas. Eles poderão encenar uma aquisição do Partido Popular Europeu, o grupo de centro-direita. Ou unirem-se num partido europeu independente. De qualquer forma, eles encontrarão maneiras de afirmar a sua influência.»
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Victor Jara – finalmente!



Justiça condena 9 militares pelo assassínio do ativista Victor Jara.

43 anos depois. Mas mais vale tarde do que nunca.


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Mal-entendidos



Isto lembra-me uma história verídica: o meu marido era médico e disse uma vez a uma doente: «Dispa-se e pendure no cabide». Como ela nunca mais aparecia, foi ver e percebeu que a mulher tentava mesmo... pendurar-se no cabide.
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António Costa passou a ser um tipo banal?



«Quando o primeiro-ministro António Costa decide ir cortar uma fita, para publicitar o início das obras de melhoria do IP3, não está a fazer nada de original na história da governação deste país: afinal não há fontanário, estatueta ou passeio público, construídos dentro destes 92.212 quilómetros quadrados de terreno a que chamamos Portugal, que não tenham merecido cerimoniais inaugurativos com a presença das mais altas e prestigiadas individualidades. É uma tradição.

Quando o primeiro-ministro António Costa fica a saber por um dos autarcas presentes no evento, o presidente da Câmara Municipal de Viseu e social-democrata Almeida Henriques, que aquela era já a quarta vez que se fazia uma cerimónia a anunciar o início das obras de melhoria do IP3, não está a ser confrontado com algo de anormal: de certeza que, daqui até ao final de 2022, quando as obras ficarem concluídas, vários grupos de governantes, de hoje e de amanhã, regressarão a essa estrada para cortar outras fitas a um ritmo de, pelo menos, uma dúzia de cada um dos 75 quilómetros de intervenção - e assim tratarão de glorificar para a lente de TV mais próxima a sua proverbial sabedoria na gestão dos bens públicos. Sempre foi assim. É uma tradição.

Quando o primeiro-ministro António Costa garante que os 134 milhões de euros para pagar este arranjo, essencial, são um investimento que serve para o Estado "salvar vidas" ao "assegurar a segurança rodoviária" numa parte da longa tira de alcatrão que leva as pessoas da Figueira da Foz, na costa atlântica, até Vila Verde da Raia, na fronteira com Espanha, não está a ser original: são incontáveis, na história desta nação, os casos de governantes capazes de cobrar à opinião pública medidas capazes de poupar portugueses a um confronto inesperado com a morte. Esta ocasião até nem era das mais disparatadas para o fazer, dado o trágico registo de acidentes dos troços em causa. Os políticos não perdem uma ocasião para mostrarem que se preocupam connosco, é uma tradição.

Quando o primeiro-ministro António Costa afirma que a decisão de avançar com este investimento implica "que estamos, simultaneamente, a decidir não fazer outra obra", para acrescentar que "quando estamos a decidir fazer esta obra, estamos a decidir não fazer evoluções nas carreiras ou vencimentos" está a seguir uma velha tendência do breviário político luso, capaz de misturar alhos com bugalhos para obter, nas audiências, um efeito sonante. É uma tradição.

Acontece, porém, que a discursata do líder do executivo liga diretamente os 134 milhões de euros a gastar pelo Estado numa via rodoviária com a limitação da despesa com funcionários públicos. Esta comparação legitima todas as outras comparações equivalentes anteriormente feitas por sindicatos, grevistas, militantes da oposição, dirigentes partidários, adversários, colunistas de cadastro diverso, tantas vezes apelidados pelos governantes de "populistas", "demagógicas", "irresponsáveis" ou, pretensiosamente, "tecnicamente erradas".

Gostaria, portanto, de perguntar ao primeiro-ministro, depois de colocar nos dois pratos da balança a reparação de uma pequena parte dos 279 quilómetros totais do percurso do IP3, precisamente a zona que não é autoestrada (e continuará a não ser) e, no outro prato da balança, os aumentos salariais reivindicados por cenetans de milhares de trabalhadores, o que acha se nessa balança colocássemos outros ingredientes? Dou só três exemplos: