19.9.18

O enlevo de Marques Mendes pela maioria absoluta



Francisco Louçã no Expresso diário de 18.09.2018:

«Marques Mendes, um dos dois únicos comentadores políticos na televisão generalista de canal aberto e em horário nobre, a par de Paulo Portas (um terceiro, Júdice, passou recentemente para o canal cabo da sua estação), usa o seu poder com intensidade, arte e manha. Não seria de esperar nada de diferente e cumprimento-o por isso. Para mais, sendo tão conhecida a sua inclinação partidária, dado que foi presidente do PSD, é um comentador que não se esconde atrás de um biombo de santarrona imparcialidade. Essa assunção da sua cor política é uma forma de respeitar os espectadores.

Mas a surpresa vem do que diz. Naturalmente muito concentrado no acompanhamento do seu partido, que desconfiava de Santana Lopes e não gostava de Rui Rio sempre esteve bom de ver. Que por isso atende com alguma indiscreta volúpia aquelas viragens de sentimentos nas reuniões laranjas, tantas vezes sopradas pelos próprios para encherem as sinaléticas de algumas gazetas, isso também é evidente no seu comentário. O que menos se esperaria é o interesse e até o desvelo com que milita em prol da maioria absoluta do PS.

Esse empenho é indesmentível. Marques Mendes pode num domingo embandeirar em arco com uma sondagem que dá o PS a subir, mesmo que longe da miraculosa maioria, mas ignorará depois a sondagem seguinte, que sempre bafejara o partido mas que agora o dá por mais afastado dessa meta. Mendes carregará nas dissensões do seu próprio partido e, suprema ironia, indiscretamente até elogiará Santana pela escolha do enviesado nome de Aliança para a sua aventura, pois elas e ele favorecem o propósito maioritário. Mendes procurará informação, conselho e até conforto junto de fontes autorizadas do primeiro-ministro, pois isso lhe permite fazer anúncios antecipando medidas do governo, o que convém a uns e a outros, mas vai mais longe, assumindo ousadamente as dores das polémicas do executivo, vergastando os críticos de Costa e elogiando as manobras do executivo. Se o PS menospreza os seus parceiros, Mendes desprezará; se o PS os denigre, Mendes metralhará. Ele terá sempre o adjetivo mais afiado, a acusação mais grave e a sentença mais definitiva. Se há debate, Mendes ficará sempre costista, até mesmo cesarista se a tanto for impelido.

Vai nisto uma lógica coerente. A direita que conta, a dos chefes de empresas, da finança, dos bastidores e das pontes entre esses e a política, a dos fundos imobiliários, a das instituições europeias, toda essa gente já desistiu do PSD nestas eleições de 2019 e não leva a sério nem Assunção Cristas nem muito menos Nuno Melo. Assunto encerrado, esses partidos ou o tal salvador que é convocado ritualmente pelas preces do Observador e de alguns iluminados filhos de Hayek e Reagan, nenhum deles tem préstimo para servir esta elite tão habituada aos carinhos do Estado, os primeiros por fraqueza e o outro por constrangedora inexistência. O PS é o único partido em que confiam para esses favores.

Só que, para cumprir, o PS tem que se livrar da corja de esquerda que obriga a entendimentos contra privatizações, ou a não acelerar as bondosas parcerias público-privado, ou que convoca os fundadores para proteger o Serviço Nacional de Saúde das benesses de um mercado tão ansioso. Aquela esquerda que só pensa em gastar dinheiro com políticas sociais e em diminuir os generosos benefícios fiscais que, como toda a gente sabe, são o motor do desenvolvimento, essa é a razão das nossas dificuldades. Contra tal plebe, o PS precisa da maioria absoluta para cumprir o desígnio de ser o que a direita deseja para o governo deste país à beira-mar plantado. E, sabedor, Mendes atira-se à tarefa, com alto gabarito. Até se arrisca ao paradoxo e suprema ironia de atacar Rio por não ser alternativa a Costa, enquanto defende a omnipotência de Costa contra qualquer putativa alternativa.

Mas que o faça com um ano de antecedência, não lho aconselharia, se bem que o PS cometa o mesmo erro. É precipitação, é tempo demais, as sarrafuscas de agora vão ficar esquecidas, nem se pode manter durante tanto tempo a telenovela. A emoção, a informação plantada, a dúvida, a insinuação, tudo isso tem que atuar depressa, atacar com estrépito, e quem é que aguenta tamanha intriga por um ano inteiro? Os advogados da maioria absoluta estarão um ano a desdizer-se, que isto vai tão bem e que por isso é preciso mudar de estilo de governação, que foi um sucesso e que por isso é precisa uma maioria absoluta para acabar com a confusão, que uma maioria absoluta não é nada parecida com a do anterior governo do PS, por ser aberta como a geringonça, e por isso mesmo ela tem que acabar. Tudo errado. A luta pela maioria absoluta devia ser discreta e mesmo Marques Mendes, que só pode falar com fanfarra pois vive numa televisão, devia entender que o seu costismo é pícaro demais. Como sempre, a ânsia de servir a causa maiorista pode ser contraproducente. Alguém quer um ano a ser industriado pela pose da salvífica maioria absoluta?

Por tudo isto, até sugiro a Catarina e a Jerónimo de Sousa que agradeçam a Marques Mendes. Enquanto ele prossegue a sua cruzada basta-lhes virarem-se para os eleitores e eleitoras e perguntarem candidamente: é mesmo isso que querem?»
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18.9.18

Homenagem póstuma a Kolontár e Devecser



«Nunca esquecerei a imagem de um rio vermelho que rasgava a planície branca. Foi em junho de 2011, quase nove meses depois da tragédia que atingiu Devecser e Kolontár, duas localidades deixadas ao esquecimento na Hungria.

Em outubro de 2010, já no mandato de Viktor Orbán como primeiro-ministro de novo, Devecser partiu-se ao meio cerca de 40 minutos depois de ter rebentado o reservatório que armazenava os detritos tóxicos de uma fábrica de alumínio das redondezas. Uma parte da localidade foi literalmente varrida por ondas tóxicas de dois metros de altura. As mesmas que, já com menos força, haviam de chegar a Kolontár e tingir as suas terras de vermelho. Na altura chegaram-nos algumas, poucas, imagens da tragédia das lamas vermelhas. Orbán presidia também à União Europeia nesse momento e nada podia manchar esse exercício, nem mesmo as mortes, as pessoas hospitalizadas ou as vidas destruídas pela tragédia.

No Parlamento Europeu tentámos várias vezes agendar o debate, mas de todas as vezes fomos silenciados pelo acordo de cavalheiros. Foi assim que decidi ir à Hungria e visitar as populações afectadas. (…)

O voto desta semana para sancionar o governo húngaro foi um voto pela defesa dos direitos humanos mais básicos e fundamentais. Aplicar sanções à Hungria não tem que ver com sermos mais ou menos críticos da actual norma vigente na União Europeia. Tem a ver com dignidade e o respeito pelos valores universais. Quando já nem isso tivermos, não nos resta nada. Também assim espero ter homenageado as famílias de Devecser e Kolontár.» 

Marisa Matias
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RTP? Cada vez melhor...



Não quero acreditar que a RTP tenha confundido os dois Francos – o espanhol e o «nosso». E daí... não sei, não.
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Angola: assim é que tinha sido perfeito


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E se Trump diz alto o que muitos pensam calados?



«O mundo é um lugar mais estranho, mais perigoso e mais complexo visto de um congresso de jornalistas em Austin, no Texas - onde estou por estes dias. Sobretudo na semana em que Bob Woodward editou o livro sobre a administração Trump, um relato da loucura que se vive na Casa Branca a que o autor chamou, sem pejo, Fear, Medo. E na ressaca da publicação pelo The New York Times do artigo anónimo de dentro da própria administração, em que o funcionário que o escreveu relatava um "estado de sítio".

Estes dois episódios são os mais recentes na guerra em que os media e Donald Trump entraram. Cada um dos lados tem usado as armas à disposição. Trump aproveitando algum descrédito do jornalismo e a fragilidade financeira das empresas de media desde que a concorrência de outras fontes de informação, como as plataformas e redes sociais, se tornou feroz. Os jornais amplificando todas as falhas, ridículos e exageros de uma figura caricatural e pouco ortodoxa. Os jornalistas estão acossados, os políticos e poderosos esfregam as mãos, o povo assiste na bancada.

Nunca se falou tanto em verdade num congresso de jornalistas. Dantes, não era preciso. Era a ordem natural das coisas. Os jornalistas perseguiam-na, os leitores acreditavam. Agora, com tantas versões da realidade a circular no inferno informativo, voltou a ser. "Sim, há uma verdade e uma mentira, sim, há factos e não, não há verdades alternativas, e uma notícia falsa, simplesmente não é notícia, é uma mentira", quase gritava Evan Smith, o fundador do Texas Tribune, um jornal online que só cobre política e políticas públicas e que apareceu para combater o que aqui se designa por deserto informativo - quando os grandes grupos abandonaram os pequenos mercados.

Fechados num hotel de Austin, no congresso da Online News Association, os jornalistas podem ter tendência a fazer aquilo que nas redações é um dos pecados capitais - olhar o mundo do seu ponto de vista. E o do público? Os cidadãos? Trump grita alto o que muitos pensam em surdina? E se tudo o que aqui, nos EUA, se vive tão à flor da pele seja o que se passa em todo o mundo de forma mais ou menos subterrânea?

A crise dos media é apenas um sintoma. Não é apenas a crise do jornalismo, é a crise da própria noção de democracia e do que os cidadãos querem fazer com ela, e nela. O jornalismo está a definhar, é certo - os dados da Pew mostram que há, hoje menos 23% dos jornalistas que havia há dez anos. Mas isso só acontece porque as pessoas, os consumidores e cidadãos, não valorizam o jornalismo - e não estão dispostas, por exemplo, a pagar por esse "serviço". Se quisessem escrutínio, como querem cervejas ao final da tarde num dia de calor, pagavam o escrutínio como pagam as cervejas. Se quisessem a verdade, e não mais uma versão do achismo, quanto mais escandaloso melhor, talvez estivessem dispostas a recusar o isco de cliques das notícias "mais ou menos" verdadeiras, mais ou menos ficcionais. O mesmo estudo do Instituto Pew mostra que 57% dos que veem notícias através das redes sociais esperam que sejam "altamente pouco rigorosas".

O jornalismo não está isento de culpas - por se ter distanciado do que as pessoas precisam, por se ter fechado em castelos de cristal, por ter estado mais perto do poder do que das pessoas, por não ter sido sempre rigoroso nem ter usado a integridade como o seu modelo de negócio. O que até é estranho, sendo que a vontade de ser jornalista envolve sempre uma missão altruísta, como dizia Dan Rather numa sessão: "Querer ser parte de algo maior do que só nós próprios, parte de alguma coisa que conta, que importa e se importa." Mas que ninguém tenha dúvidas. Como diz o The Washington Post, a democracia morre na escuridão. E é missão de todos iluminá-la.»

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17.9.18

Dica (811)



Construir puentes!, no muros! (Federico Mayor Zaragoza) 

«En las últimas tres décadas, gracias en buena medida a la tecnología digital, podemos expresarnos libremente y saber lo que acontece en todas partes. Ahora “nosotros, los pueblos” por primera vez en la historia somos mujer y hombre, y tenemos voz. No podemos ser cómplices. No debemos seguir indiferentes e insolidarios. Vamos a construir puentes y derribar muros. Si no lo hacemos, si no aprendemos las lecciones de la historia, seremos culpables… “Fingí que no sabía… y ahora voy con mi conciencia a cuestas, insomne noche y día”.
Sabemos. Actuemos. La indiferencia, nos advierte Rosa Montero, es una indignidad.»
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Marcelo: o ridículo não mata, essa é que é essa



Marcelo confunde professores com marinheiros do tempo das descobertas ou algo assim.


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E quanto à China: surpresa?




«Os 10 primeiros lugares são agora ocupados por Nova Iorque, Londres, Hong Kong, Singapura, Shanghai, Tóquio, Sydney, Beijing, Zurique e Frankfurt. (…)
O relatório indica também que nos 10 principais centros financeiros globais, a região da Ásia-Pacífico conta com seis, a região da Europa Ocidental com três, e a região norte-americana com apenas um.»
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Pedrógão Pequeno



«De um dia para o outro Pedrógão Grande transformou-se em Pedrógão Pequeno. Não foi um truque de magia: tratou-se, simplesmente, de destruir, sem piedade, um símbolo de solidariedade em nome da esperteza gananciosa.

Algo que parece típico neste país. Quando face a tantas questões inquietantes sobre a validação dos processos das casas por reconstruir o presidente da câmara municipal local, Valdemar Alves, apenas diz: "Se punham lá primeira habitação, como podemos dizer à pessoa que não era?", que responder? Investigando, talvez.

Num país em que, para tudo, o Estado pede certificados, comprovativos e demais papéis para satisfazer a sua burocracia, dar dinheiro de portugueses solidários para reconstruir casas sem verificação é algo que se faz levianamente? Pelos vistos, é. Só se comprova o que dá jeito. Portugal sempre foi um refém feliz da corrupção. O exemplo vem de cima porque Portugal é um país de desconfiados. Desconfiamos sempre dos suspeitos do costume. E dos outros.

Os portugueses conseguem, ao mesmo tempo, desconfiar dos políticos, dos polícias, dos árbitros, dos professores e dos médicos. Em contrapartida há uma desconfiança muito mais sinistra. O Estado desconfia dos portugueses. Desconfia que estes não pagam impostos e que se esquecem de pagar o estacionamento. Investiga-os.

Mas parece que isso só se aplica aos pacóvios. No que é importante verificar, o Estado esquece-se de o fazer. Ou cria condições para que isso não seja feito. Agora ninguém responsável sabe o que quer que seja. Não se compreende é como, num país que faz tanta filtragem, com medo de alguém estar a aldrabar o Estado, casas de segunda ou terceira habitação, ou simplesmente abandonadas, tenham sido abençoadas com dinheiro dos cidadãos crentes.

A burocracia e a inércia fazem parte do Estado e também dos partidos políticos que convivem com este mundo paralelo. Mas se rapidamente não se assumir uma terapia de choque, o Estado e os partidos que não se demarcam deste triste estado das coisas acabarão condenados a uma irrelevância que acabará por consumi-los.»

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16.9.18

Dica (810)




«Twenty-first century European politics has been characterised by patterns of electoral volatility, alongside the recent economic and ongoing refugee crisis. This has allowed ‘populist’ parties on both the right and left to capitalise on the electoral failure of mainstream centre left and right parties.»
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Caçar refugiados




«"Hoje é um bom dia para ir à caça", e Dinko Valev, 31 anos, avalia o céu - está mais limpo do que uma rua escandinava. É ele o dono deste ferro-velho e é com o dinheiro que aqui fatura que financia o exército paramilitar de que é líder - e que denominou de Movimento Nacionalista Búlgaro.

"Comecei sozinho há três anos a vigiar a fronteira de moto todo-o-terreno. Agora somos 50 homens, temos sete tanques e um helicóptero." O que é que fazem exatamente? "Caçamos refugiados, na Bulgária é um desporto", diz ao DN. "Chamem-lhe migrantes, chamem-lhe refugiados, chamem-lhe o que quiserem, que para mim eles são potenciais terroristas que põem a Europa em perigo. Não os podemos, nem vamos, deixar entrar."»
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Os robôs vão mesmo roubar-nos o emprego?



«As contas podem ser feitas de várias formas. Nenhuma favorece os humanos na guerra contra os robôs pela manutenção dos postos de trabalho. O Fórum Económico Mundial antecipa que os avanços da robótica e da inteligência artificial colocarão cinco milhões de profissionais no desemprego até 2020. A Universidade de Oxford defende, que nos próximos 25 anos, 47% dos empregos que hoje conhecemos podem desaparecer. A consultora EY avança que, em sete anos, um em cada três postos de trabalho serão substituídos por tecnologia inteligente e os vários estudos que a Deloitte já realizou sobre o tema referem que, até 2030, 40% dos empregos atuais não existirão.

Mas é o próprio partner da Deloitte em Portugal, Sérgio Monte Lee, a aconselhar prudência na análise. Como em todas as revoluções, também nesta a análise não pode ser feita apenas a partir de uma das perspetivas, a eliminação de postos de trabalho. É preciso refletir sobre a natureza dos empregos extintos e sobre a tipologia dos novos empregos que a automação ajudará a criar. Um dos estudos mais citados sobre o futuro do emprego, de Carl Frey e Michael Osborne (2014), demonstra que as profissões que enfrentam maior risco de substituição estão sobretudo associadas ao desempenho de tarefas rotineiras e braçais, mas não necessariamente pouco qualificadas.

A prática demonstra que a tecnologia está também a substituir profissionais qualificados, como contabilistas, analistas de crédito, bancários e outros que exercem funções complexas mas repetitivas. Mas nem por isso a qualificação deixará de ser relevante no futuro. O estudo da Deloitte reforça que os novos empregos a criar serão forçosamente mais qualificados, requererão uma reciclagem técnica constante e um leque de competências comportamentais-chave como a capacidade de resolução de problemas complexos, a criatividade e o raciocínio matemático, sem esquecer a inteligência emocional (a tal que nos distingue das máquinas).

As máquinas continuam a necessitar de humanos que as operem. Pelo que a cooperação entre homens e máquinas no mercado de trabalho afigura-se como o caminho mais certo e até os empresários já o reconhecem. “82% dos líderes empresariais esperam que as suas forças de trabalho humanas e tecnológicas funcionem, em equipas totalmente integradas, nos próximos cinco anos”, conclui um estudo da Dell realizado a 3800 líderes de empresas globais.

Revolução transversal

Na verdade, os impactos da inteligência artificial no emprego vão já muito além da substituição do homem pela máquina. Não é só o emprego que está a mudar, mas também o modo como procuramos emprego e os processos de recrutamento em si. A inteligência artificial já ganhou terreno na identificação de candidatos, na triagem de currículos e até numa das mais essenciais e críticas etapas do processo de seleção, a entrevista.

Se durante décadas a maior preocupação de um candidato era criar um currículo capaz de passar no crivo do diretor de Recursos Humanos, a tecnologia alterou isso. Há cada vez mais empresas a substituir a triagem manual de currículos (e até a validação das informações dos candidatos) pelo uso de algoritmos que aceleram o processo. Na fase da entrevista, momento determinante do processo de seleção, os robôs também já estão em destaque. O robô Vera, criado por uma startup russa em 2017, é já utilizado por gigantes como a Ikea, L’Oréal e PepsiCo, Microsoft, Burger King e Auchan para entrevistar candidatos — humanos! — em processos de recrutamento. Isto dispensa a intervenção humana dos especialistas em recrutamento e seleção? Ainda não, mas já lhes coloca tantos desafios como aos candidatos. A questão de fundo não é se os robôs vão ou não eliminar postos de trabalho. É se os humanos estão preparados para ‘coabitar’ com os robôs nas várias dimensões da sua vida.»

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