«A Igreja Evangélica perdeu espaço na História. Nós perdemos o espaço na ciência quando nós deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas. Quando nós não questionamos. Quando nós não fomos ocupar a ciência. A Igreja Evangélica deixou a ciência para lá. "Ah, vamos deixar a ciência caminhar sozinha". E aí cientistas tomaram conta dessa área. E nós nos afastamos» – diz ela.
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15.1.19
Luther King faria hoje 90
Não vos posso prometer que não vos batam,
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa,
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco.
Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo.
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Quando o PPD se dizia «de esquerda»
I Congresso do PPD, Novembro de 1974.
Quando algum PSD não se cala com o regresso às origens, não perder esta pérola.
(Via Renato Soeiro no Facebook)
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As 50 sombras de um Portugal atrasado
«O PÚBLICO deu conta da notícia do Expresso sobre a retirada de alguns versos do poema Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, de um livro escolar da Porto Editora. Estão em causa versos com notório conteúdo sexual.
O que me importa na notícia, para além de lamentar a mutilação de qualquer peça literária, em qualquer circunstância, é ainda a pequenez de espírito de algumas mentes que, por dever de ofício, deveriam revelar uma muito maior largueza de vistas.
Trata-se, contudo, de um mero sintoma de uma questão bem mais profunda e que permanece em Portugal à entrada da década de 20 do séc. XXI: o modo como se encara o sexo. E isto temporalmente próximo de uma reportagem em que se dava nota de “terapias de conversão” de homossexuais, alegadamente levadas a cabo por uma psicóloga que insistia em se afirmar católica e com o beneplácito de alguns sacerdotes. Que Freud e outros autores da sua escola de pensamento neguem a homossexualidade qua tale, é um facto científico já desmontado por quem estuda a área.
Somos, na verdade, uma nação que ainda não percebeu que a sexualidade humana é uma mera componente da nossa personalidade e que, sendo por certo de grande relevo, não nos define na totalidade, nem dita o que mais interessa na relação que estabelecemos uns com os outros. Significa isto que, numa sociedade em que o sexo se acha tão sobrevalorizado, dizer-se hetero, gay, bi, lésbica, intersexo, trans, ou qualquer outra coisa, é apenas e tão-só a assumpção, para o/a próprio/a de um rótulo que o/a ajuda a sentir-se enquadrado/a.
E o ser humano necessita, para se sentir mais seguro, de etiquetas. Sou do FCP, sou bancário, sou de esquerda, gosto de francesinhas, aprecio cinema de Hollywood. Uma espécie de cartão de cidadão que nos identifica quase sempre mais perante os outros que perante nós. E isto porque nós somos isso tudo e o seu contrário, dependendo dos dias, dos minutos e dos segundos.
Não se define o humano, por natureza indefinível, e o convite que os tempos actuais nos lançam é o de não insistirmos em definir as pessoas pelo seu sexo, orientação política, ideológica, pertença a um clube. Somos bem mais que isso. Qualquer caracterização serve apenas e tão-só para saciarmos a vontade humana de defesa do outro: ele/ela está já etiquetado/a e, por isso, dentro das minhas categoriais cognitivo-comportamentais, já sei como lidar com ele/ela.
Simplesmente, a auto e heteroetiquetagem podem provocar dores internas imensas. E dissabores profissionais. Pessoalmente, quando falo com alguém, por instinto, parto do princípio que essa pessoa é, no mínimo, dotada da mesma massa cinzenta que eu. É uma característica que me tem sido de grande utilidade, tantas são as vezes que vejo um engravatado fazer figuras tristes ante um suposto esfarrapado de cabelo desgrenhado e que lhe dá dez a zero em inteligência, argumentação e cultura.
Em Portugal, o hábito ainda faz, em grande medida, o monge. E se o hábito não corresponde à etiqueta, então não será grande coisa. Entre um advogado enfatado e um outro de jeans e t-shirt, p. ex., sem que se saiba nada sobre qualquer deles, é humano a maioria decidir-se pelo da gravata. Que pode bem ser o menos competente. Avaliamos ainda muito o conteúdo pelo recipiente, esquecendo que os melhores conteúdos se estão a marimbar para a suposta beleza onde se acham contidas.
A luta fratricida no PSD é mais um exemplo disto. Agora sabemos melhor quem são “eles” e “nós” e é caricato o coro de virgens ofendidas com a luta pelo poder de Montenegro e sua entourage. O que é um partido político senão uma forma mais ou menos organizada de chegar e conservar o poder, num sistema político que, imperfeito, é melhor que todos os demais juntos? Se é bonito, eticamente falando? Talvez não, mas também não é mais bonito ser frontal que andar diariamente a fustigar Rio pelas costas? E aí virá uma clarificação, pelo que voltamos à necessidade do preto e branco, do maniqueísmo que nos tem seguros (não é nenhuma piada ao lugar paralelo que se quer estabelecer entre a luta de galos Seguro/Costa). Tudo normal. Só fumaça. Apenas é notícia porque urge preencher o espaço.
Com o que se volta à absoluta necessidade que tantos têm de pensar por nós. “Estes versos podem chocar e é melhor tirar para não causar embaraços aos professores”. Mentes pequeninas. Nada deve ser truncado. E a reflexão que esses precisos versos provocaria em espaço de aula? E os professores não necessitam de ser provocados, certamente detendo estratégias que lhes permitissem explicar o agora truncado na economia do poema e da lírica pessoana? Mas não. Há gente que gosta de pensar por nós. E vai daí – mesmo que sem maldade –, quer-nos poupar a coisas “desagradáveis”. E o que é a vida se não um constante diálogo com sentimentos de dor e prazer, como diriam Bentham e companhia?»
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14.1.19
«As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação» (3)
Terceira parte da conversa de Fernando Rosas com Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, co-organizadores do livro «As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação» no Socialismo 2018.
(Daqui)
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“Coletes amarelos” e nouveau regime: mais um sinal para as democracias do mundo
«Na capa da edição online do jornal francês Le Monde está escrito: “Ato IX: 84.000 ‘coletes amarelos’ em toda a França, maior mobilização”. A reportagem continua dizendo que “O ato IX da mobilização de ‘coletes amarelos’ continuou no sábado, 12 de janeiro, dois meses depois do primeiro dia de ação, em 17 de novembro, e três dias antes do lançamento do ‘grande debate nacional’ desejado por Emmanuel Macron. No início da noite, o Ministério do Interior contava 84.000 manifestantes em toda a França (incluindo 8000 em Paris) e quase 35.000 a mais do que na semana anterior. Após uma diminuição na mobilização durante as férias, o protesto já havia se recuperado em 5 de janeiro, com 50.000 manifestantes (incluindo 3500 na capital). Para este nono sábado, várias chamadas foram lançadas por figuras do movimento: Paris, Bourges e várias outras grandes cidades. Alguns atos foram apimentados com violência no final do dia, mas nenhum grande estouro deve ser lamentado”.
Ao acompanhar a manifestação em Paris pude notar a estratégia inicial dos manifestantes divulgando mais de um lugar para a concentração a fim de confundir o serviço policial e o governo: a dúvida estava entre iniciar a caminhada do Arco do Triunfo ou da Praça da Bastilha (a distância entre os dois pontos é de aproximadamente seis km).
Fui para o Arco do Triunfo por volta das 10h da manhã e quase não havia manifestantes no local, poucos “coletes amarelos” se reuniram próximo a esquina da Avenue des Champs-Élysées. O aparato policial era poderoso, muitas viaturas e policiais bem armados já indicavam que a manifestação realmente seria de grandes dimensões.
Após conversar com alguns manifestantes e entender que, na verdade, o ponto de encontro seria na Bastilha, apanhei um desses patinetes elétricos para me deslocar mais rapidamente até ao local (os metrôs na região central estavam bloqueados devido aos protestos). A Bastilha era uma antiga prisão e ficou conhecida devido à sua tomada ter sido considerada o marco inicial da Revolução Francesa ocorrida a 14 de julho de 1789.
O chamado movimento dos “coletes amarelos” (Mouvement des gilets jaunes em francês) é um movimento de protesto que começou com manifestações na França em 17 de novembro de 2018. Suas principais reivindicações são inicialmente relacionadas contra o aumento dos combustíveis e posteriormente ampliadas contra as injustiças sociais de uma forma geral. O colete de alta visibilidade é item obrigatório em todos os carros na França, daí provém o nome do movimento.
Caminhar junto com os Gilets Jaunes durante cinco horas foi uma experiência interessante, pois foi possível notar a heterogeneidade do imenso grupo de manifestantes. As diferenças eram de natureza etária: jovens, crianças e idosos compunham o grupo. A diversidade ideológica também emergia das mensagens escritas nos coletes: uns contra o capitalismo, outros contra políticas ecológicas. Mas um tema parecia ser unanimidade nos gritos de guerra dos manifestantes e nas inscrições que carregavam nos coletes: a renúncia do Presidente francês Emmanuel Macron.
O alvo dos protestos é o establishment na sua face política, econômica e fiscal. Democracias tradicionais entram em colapso? É com essa pergunta que se inicia o livro de Steven Levinsk chamado Como as Democracias Morrem?, lançado logo após a posse do Presidente Donald Trump.
Os autores tratam da insatisfação com o estado atual de coisas que tem levado a escalada de movimentos radicais no mundo inteiro. A chamada extrema direita está ganhando cada vez mais espaço na Europa e nos EUA. No entanto, é importante notar que o movimento francês contra as medidas do governo Macron conseguiu reunir o cidadão médio (que se vê cada vez mais refém de tributos e taxas e com salários reduzidos), a extrema esquerda (anticapitalista), a extrema direita (anti-imigração).
Apesar da heterogeneidade mencionada, durante todo o percurso da Bastilha até o Arco do Triunfo houve cooperação e harmonia entre os manifestantes. Durante a passagem do imenso grupo por um cruzamento, os organizadores orientaram os demais manifestantes a fim de que abrissem passagem para uma ambulância que passava na rua perpendicular.
Na chegada ao Arco do Triunfo iniciou-se o confronto entre os manifestantes e o grupo de policiais que tentou conter a passagem do grupo utilizando bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. A tensão tomou conta da Praça Charles de Gaulle e a dispersão de idosos e crianças foi necessária dado o nível de violência entre manifestantes e policiais.
As democracias e os direitos sociais estão sofrendo um processo de desgaste ao redor do mundo: escândalos de corrupção, mal-uso do dinheiro público, injustiças sociais e deficiência na prestação dos serviços públicos como saúde, educação e segurança que reforçam desigualdades têm afetado negativamente a percepção da humanidade sobre a eficiência da democracia como regime de governo “menos pior”.
Nenhum regime político foi, é ou será perfeito. As lideranças do mundo devem ficar atentas ao recado dos “coletes amarelos”, pois estamos vivendo um tempo em que a cidadania exige mais transparência, prestação de contas e redução de privilégios para grandes bancos, multinacionais, magnatas e poderosos.
Há pouco mais de 200 anos, bem aqui na França, foi derrubado o chamado ancien régime feudal. Se as democracias não respeitarem tais reivindicações e se adequarem aos novos tempos, podemos estar presenciando o início de uma nova era. Uma era ainda desconhecida.»
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13.1.19
O «Público» esgotou hoje?
Dizem-me que sim, em muitos locais onde habitualmente se acumula. Adivinhem porquê. Nobre povo, aos pés de Cristina.
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«As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação» (2)
Segunda parte da conversa de Fernando Rosas com Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, co-organizadores do livro "As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de libertação" no Socialismo 2018.
(Daqui)
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A guerra de audiências é tão feia
«Percebe-se bem a zanga que lavra nesta guerra pelas audiências: nas vésperas da estreia do programa da Cristina Ferreira, Goucha convidou um nazi, a coisa parecia ter corrido bem, falou-se do caso, mas acabou por dar bernarda, perdeu logo a liderança das audiências, e daí encontrou um santo remédio, anunciou um fascista para a semana seguinte, Alexandre Frota. É uma galeria de horrores? Que nada, é uma feroz guerra pela audiência e pela publicidade, é dinheirinho. E, se o Presidente telefona à Cristina, a resposta é convocar a coleção dos energúmenos que parece que Goucha quer adotar. Se uma chora de comoção pela honraria, o outro promete o ator porno que se vangloria de uma violação, agora justificada como uma comédia stand up, entre muitas outras aleivosias (e depois o homem não vem no dia aprazado, malcriado). O sujo é mesmo sujo.
O convite de Goucha a Mário Machado foi interpretado como um gesto político e o convite a Frota logo de seguida só reforçou essa ideia. Mas continua a ser errada uma grelha de leitura política ou a teoria sobre a invasão fascista na comunicação social (já nem me refiro à pretensão de que um programa com um delinquente é uma restituição do pluralismo que falta). O único motivo de Goucha é a guerra das audiências, o que não desvaloriza o convite a um delinquente condenado a uma soma de 19 anos de prisão, e nazi declarado, ou vontade de promover o porradismo de Bolsonaro. Aliás, Goucha tentou apresentar Machado como um homem de “ideias” e o convite como uma forma de democracia, ou até de higiene preventiva, mas recuou logo e suspendeu a rubrica. Insistiu depois convidando Frota porque os números foram constrangedores: estava a valer metade do programa concorrente. A bolsa das audiências é que ativa o disparatómetro em que se tornou esta novela. Pode-se por isso temer que o programa passe a incluir, depois das receitas de cozinha, uma secção para ouvir os simpáticos milicianos que depois da emissão tiram a maquilhagem, dizem boa-noite e vão organizar a caça aos negros ou aos homossexuais, ou espancar mulheres pelas ruas fora. Se der audiências, pode estar certo que vai ser proposto.
De tudo, o que verdadeiramente me incomoda é que esta questiúncula, provocada por uma escolha publicitária que mostra como, na luta por umas receitas de bilheteira, um programador até pode utilizar a promoção da indiferença perante as violências racista e fascista e outras barbaridades, oculta o que é verdadeiramente perigoso. É mesmo essa guerra sem freio pelas audiências. Esse é o vale tudo. E esse vale tudo até já está entre nós em modo ambicioso, num canal perto de si, e tem estaminé no sofisticado populismo de gravata, que carimba as opiniões, que exibe a pretensão de falar com o povo, se não mesmo em nome do povo. Essa é a televisão de grande audiência que pode vir a ajudar um futuro partido de extrema-direita ou simplesmente a transformação de alguns dos partidos atuais. Deixemos o Machado na cela que escolheu, há por aí gente mais perigosa e que parece mansa, mas que, como diria o Aleixo, não sendo o que parece, parece o que não é.»
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