«Agentes de segurança são acusados de tortura e abuso sexual; saldo dos protestos aponta 18 mortos, 584 feridos e 2.600 presos no país.»
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25.10.19
Pântano ou oásis?
«A estabilidade, segundo António Costa. "Este Governo é para quatro anos, comigo não há pântanos", assegura numa reunião do Grupo Parlamentar do PS.
Liberto dos compromissos à Esquerda que cimentaram toda uma legislatura, a rejeição da "teoria do pântano" do 2.º Governo de António Guterres (demissionário após os maus resultados nas autárquicas de 2001 e de pouco mais de dois anos de poder em agonia) é usada por Costa para uma revisitação da "teoria do oásis" de Braga de Macedo, corriam os tempos idos de Cavaco Silva. Até que que haja obstáculos intransponíveis que permitam vitimização, gere-se a maioria relativa, navegando à vista, até ao limiar da maioria absoluta assim haja perspectiva. António Costa pode estar mesmo convicto de que os eleitores esquecerão facilmente as virtudes dos acordos à Esquerda dos últimos anos. Uma questão de fé na táctica.
A "geringonça" - que muitos apelidavam de experimentalismo táctico condenado ao insucesso - foi um teste de referência de quatro anos e acrescentou dimensão democrática à leitura política do país. Inspirou pluralismo, diversidade e a ideia de que é possível fazer mais com outros protagonistas. Apesar do lamentável fim da imunidade portuguesa à presença da extrema-direita no Parlamento, também assim se compreende a vontade popular em abrir o hemiciclo a novas forças partidárias. E assim vamos. A estabilidade para Costa é agora um movimento transitório. Está tudo bem até que fique mal. Receita para quatro anos de instabilidade em oásis.
Se Guterres era o primeiro-ministro do diálogo e caiu num pântano, Costa aborda um oásis a falar só para os seus. A quantidade não conduz forçosamente a qualidade mas 50 secretários de Estado é número redondo, "trade mark" para o XXII Governo Constitucional. Somando estes números a ministros, serão 70. A ideia de que todos-não-somos-de-mais viaja desde tempos imemoriais. Compete às elites compreender o esforço colectivo dos homens. Durão Barroso, precisamente aquele que em 2002 sucede ao pântano de Guterres, assegura que "as elites portuguesas não têm estado à altura da capacidade notável de resiliência que o povo português tem demonstrado". Se "a nossa fronteira não é em Vilar Formoso", como assegura, também a sua não será a da vergonha. Durão Barroso transporta o manual das portas giratórias e do esforço individual para as olear. É também, sabemos agora, possuidor de admiráveis qualidades para se ler ao espelho. O pântano é mesmo aqui.»
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24.10.19
A noite longa do Chile
Neste momento, já passa da meia-noite em Santiago do Chile. O silêncio, que habita as ruas de forma triste e dolorosa, é quebrado pelas canções de Violeta Parra, que atravessam as janelas de casas e edifícios. Então, o grito “milicos vuelvan a los cuarteles” quebra a noite, até que a música volta a acalmar e a aproximar pessoas que, em democracia, se encontram privadas de liberdade.»
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Nacionalismos estúpidos
«Boris Johnson mostrou-se chocado com a morte de 39 migrantes ilegais, um sentimento seguido por todos nós, europeus. E também os nossos pensamentos, tal como os do primeiro-ministro britânico, "estão com todos os que perderam a vida e seus familiares".
Mas a trágica morte de 38 adultos e um adolescente, dentro de um contentor de um camião que entrou no Reino Unido vindo da Bélgica, não pode ficar sem responsáveis políticos. Jean-Claude Juncker não poderia ter sido mais claro quando, no seu discurso de despedida no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, considerou o Brexit uma perda de tempo.
No balanço do seu mandato (2014-2019), confessou o desgaste com a luta contra o que chamou de nacionalismos estúpidos e lamentou que a Europa não tenha conseguido ir mais longe noutros domínios, como, por exemplo, na política de refugiados, apontando o dedo à falta de esforço dos estados-membros. Enquanto Boris Johnson brinca ao "in e out" da União Europeia, dezenas de pessoas morrem todos os dias a tentar fugir da fome e da guerra.
Portanto, nesta Europa a 28 não pode haver lugar para discursos de misses pela paz no Mundo e de outros chavões para exigir a coroa. Na verdade, a vida de milhares de pessoas tem estado refém de líderes políticos que não têm mais do que cinco minutos, entre as lagostas e o champanhe, para arranjar uma solução realmente digna desse nome.
A morte de milhares de pessoas não é compatível com a paciência de quem elege eurodeputados, nem de quem abre a porta à morte do seu semelhante.
Até lá, as fotos de crianças e adultos mortos na praia ou em contentores de camiões vão continuar a encher o espaço mediático e os nossos olhares chocados continuarão a ser apenas isso. Uns olhos como quaisquer outros.»
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23.10.19
Chile: de Luis Sepúlveda para o presidente Piñera
«El chileno vive con la fantasía de pertenecer a la clase media solo por tener una tarjeta de crédito. Han hipotecada su vida, compran los zapatos a crédito... cuando un chileno va de compras le preguntan: "¿Cómo lo va a financiar, en cuantos meses?". Lo que logró la dictadura fue convencer a una gran mayoría de chilenos de que el sistema funcionaba.
De oasis Chile no tenía nada, era un volcán que iba a hacer erupción. Las últimas medidas de Piñera son de un desparpajo increíble, no solo el alza del metro sino lo que se suma a ello. Una reforma tributaria que perdona a los grandes industriales las deudas contraídas con el fisco. El mismo Piñera es un deudor: de 30 años que debía de contribuciones por una de su propiedades solo pagará tres años porque en Chile los delitos económicos prescriben muy rápidamente, eso es parte de la normalidad chilena.
Piñera, además de su prontuario delictual personal, que lo inhabilitaría para ser presidente en cualquier país, es un tipo de una inteligencia menos que limitada, creo que incluso la derecha se haría un gran favor a sí misma si lo removieran del poder. Yo le digo: renuncie, hágale un favor a los chilenos, váyase con sus riquezas. Váyase si es posible a la m.... y sin pasaje de regreso.»
(Daqui)
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Brexit?
In the year 2525, if Brexit is still alive…
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O diabo está nas pequenas coisas
«Formado o Governo, composta a lista das Secretarias de Estado, os alertas multiplicaram-se e parecem avisados: que o novo Governo é velho, que a ordem dos ministros de Estado parece recado ou ajuste de contas, que continua a não haver um número dois, o que quer dizer que o primeiro-ministro fica sempre exposto a todas as tempestades, que a rejeição de um acordo de maioria parlamentar é calculismo que pode falhar em muitos momentos difíceis, que insinuar que há um acordo secreto com um partido é ofensa, que a continuação de um ministro que anunciou a despedida é vulnerável, que alguma substituição de secretário de Estado por gente do partido reduz a capacidade técnica, que a entrada de novos-socialistas laranjas pode dar asneira, que o aparelho de negociação do Governo no Parlamento parece querer manter uma lógica muito Largo do Rato, como a dos últimos meses do Governo anterior, que isso já deu mau resultado uma vez e que um defeito não costuma melhorar com a insistência – tudo conclusões razoáveis. Mas falta notar o essencial: é que, em 2019 e talvez em 2020, o maior risco do Governo não é nem a sua autossatisfação, que abunda, nem os seus adversários à direita, que faltam, nem sequer as contas em Bruxelas, que reluzem. É antes o diabo das pequenas coisas. Era melhor não as ignorar.
As pequenas coisas são as que o Governo mais facilmente esquece, ou simplesmente classifica como uma insistência enfadonha de quem não tem visão para os grandes rasgos do futuro. Elas são a urgência pediátrica que funciona como um semáforo, o hospital que espatifa dinheiro em contratações de empresas de trabalho médico temporário e itinerante, o estaleiro de obras de uma ala pediátrica que parece ter sido antecipado para uma visita eleitoral, sobrando depois uma obra de Santa Engrácia, a escola que não pode abrir porque não tem funcionários, o metropolitano que nos faz esperar longamente antes de aparecer pelo túnel, a falta da professora de Inglês ou de Ciências durante todo o ano, os pais que se juntam à porta da escola a perguntar quando é retirado o amianto ou são substituídos os contentores por salas. Tudo isso são as pequenas coisas, todas elas sintoma de problemas comuns e persistentes. Só que o Governo não vai ligar a nada disto. Centeno ditará que estas maçadas são com o titular da respetiva pasta e esse dirá que não tem nem dinheiro nem ânimo para o pedir mais uma vez. A chefia do Governo preferirá que nem lhe falem destas arrelias minúsculas.
O problema é que este diabo das pequenas coisas anda mesmo por aí e o telejornal vai colecionar estes acontecimentos, alguns passageiros, outros exagerados, sendo que na maioria dos casos falta voz a quem pergunta por prazos ou por soluções. E assim se vai fazendo mossa num Governo que parece indiferente às pequenas coisas. Imagino que no Castelo nem se notem estes episódios de água mole em pedra dura, ou que se registe somente que quem refila é a “pequena gente”, para lembrar uma frase de Macron a propósito disto mesmo.
O problema é que vinte anos de desinteresse pela ferrovia talvez fiquem bem escalpelizados num relatório, mas não transportam quem espera um comboio, e que a perda ou o não rejuvenescimento das equipas de especialistas nos hospitais e centros de saúde servem de diagnóstico mas não abrem as portas das urgências. Se o Governo continuar a querer fazer os grandes relatórios e os brilharetes e não se dedicar às pequenas coisas, a contratação de pessoal e a organização dos investimentos e dos serviços, bem pode esperar pelo dia em que alguém olhará para trás e cobrará pelos anos em que, havendo juro negativo, se optou pela pachorrenta lentidão.»
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