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31.8.21
Balsemão sobre Marcelo
Ouvir a partir do minuto 1:37.
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Um país esvaziado
«Agosto é por norma sinónimo de pausa na atualidade política e agenda mediática, regra que este ano se confirmou, ressalvadas as exceções da catástrofe política e humanitária no Afeganistão e da evolução da vacinação. A aproximação do congresso do PS resumiu-se à polémica sobre a sucessão do líder e o tabu que deixará de o ser em 2023, não havendo propriamente temas inovadores a saltar à vista nas três dezenas de moções sectoriais.
Depois do retrato desolador de um país desequilibrado e esvaziado traçado pelos censos 2021, poderia esperar-se uma discussão sobre a visão que o partido no poder tem para revitalizar o país, mas o tema resume-se ao eterno apelo à regionalização (em que ninguém acredita seriamente) e a um clássico discorrer sobre as oportunidades para o interior do país.
Mais do que um problema do interior, a demografia é já uma questão central para o futuro do país. E deveria suscitar um sobressalto cívico, ser assumida como uma causa que interessa a todos, onde quer que vivam. Como pode ter futuro um território que desliza sempre para duas ou três cidades, sem polos intermédios de atração, sem sinais de inverter tendências sustentadas ao longo de décadas? Como se explica esta espécie de conformismo com os slogans de sempre, com as promessas de incentivos e de investimentos que, na hora da verdade, não mudam nada de estrutural?
As perguntas são inquietantes quando desfiadas em tempos de reflexão dos partidos que há muito vão ocupando o eixo de governação. E quando se aproximam as eleições autárquicas e muitos projetos se discutem entre eleitores cada vez mais envelhecidos e, sobretudo, cada vez mais descrentes o maior drama é exatamente esse: a falta de horizontes de esperança e a sensação de que se atingiu um ponto de não retorno em muitos municípios. Os autarcas não podem ser bodes expiatórios das sucessivas perdas dos seus territórios. A escala local é demasiado pequena para, sozinha, promover políticas capazes de atrair e fixar pessoas. Sem ação política no Terreiro do Paço, nada será possível. Esse deve ser um desígnio nacional.»
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30.8.21
Costa e os sucessores
«António Costa é um centralizador. Gosta de acreditar que controla tudo no Governo e no PS. O que não quer controlar não lhe interessa ou está a cargo de pessoas que ele vê como prolongamentos de si mesmo. Como centralizador que é, acredita que controlará a sua sucessão. Mário Soares tentou-o e não conseguiu. Nem Guterres ou Sócrates o conseguiram, para me ficar pelos que experimentaram o poder. Nem Cavaco Silva, no PSD. Mesmo Durão Barroso, que escolheu o homem que lhe sucederia no Governo, se saiu mal. É uma guerra perdida. Conseguiram-no Francisco Louçã e Álvaro Cunhal, em partidos com culturas diferentes da do PS.»
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Um novo capítulo nas relações internacionais
«Os dias passam e o mundo continua a ver as imagens dramáticas captadas no perímetro exterior ao aeroporto de Cabul, agora agravadas pelo ataque bombista. Essa é a parte mais visível do choque e do pavor dos afegãos que não acreditam nas promessas feitas pelos talibãs. Mas há mais Afeganistão para lá de Cabul. No país, sobretudo nas principais cidades, vive-se o mesmo pânico e desespero. Só que aí sofre-se longe dos olhos do mundo. Quem vive nessas regiões e pode, procura refugiar-se no Paquistão ou noutros países vizinhos.
Há quem pense que estas imagens ficarão na memória da humanidade por muitos anos. E que serão recuperadas cada vez que for conveniente atacar os países ocidentais. Isso vai de facto acontecer. São cenas que deixam uma péssima representação do Ocidente, de abandono, incoerência e improvisação. Já a questão da memória é mais improvável. As duas últimas décadas têm sido infelizmente abundantes em tragédias humanas. Mas cada nova desgraça tende a esconder as anteriores. A lembrança do que aconteceu na Síria ou, mais recentemente, das situações dramáticas que as populações do Líbano, de Myanmar e outras vivem quotidianamente, é cada vez mais ténue. De momento, a derrocada afegã ocupa todo o ecrã.
O que não podemos esquecer é que no olho do furacão dos conflitos estão pessoas. É tempo de pensar em termos de gente de carne e osso, homens, mulheres e crianças, que sofrem todas as violências, humilhações, terrores e misérias que estas crises provocam. A segurança internacional e a diplomacia devem reportar-se, acima de tudo, ao quotidiano de quem é vítima dos extremismos, dos abusos de poder e de todo o tipo de tiranias, sejam elas em nome de um caudilho iluminado, de um partido detentor da verdade absoluta ou de uma bandeira religiosa.
Há três décadas, o PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - ajudou-nos a descobrir uma evidência que ninguém antes queria ou conseguia ver. Com o lançamento do primeiro relatório sobre o desenvolvimento humano - e dos seguintes, ano a ano - sublinhou que o crescimento económico só faz sentido quando tem como objeto central os indivíduos, de modo a tirar cada um da pobreza, da ignorância e da ignomínia. Não é o PIB que conta, mas sim o progresso que cada pessoa consegue realizar em termos de uma vida com mais dignidade.
As cenas à volta do aeroporto de Cabul deveriam ter um efeito similar. E do mesmo modo que os relatórios do PNUD serviram para criar novas alianças em matéria de cooperação para o desenvolvimento, a aflição e as incertezas que resultam da cedência do poder aos talibãs devem ser vistas como oportunidades para estabelecer pontes entre as grandes potências, a China e a Rússia incluídas. A reunião do G7 desta semana podia ter sido aproveitada para envolver Beijing e Moscovo no debate sobre as condições do reconhecimento da nova realidade afegã. Infelizmente, tal não aconteceu. A única preocupação foi a vã tentativa de convencer Joe Biden a prolongar a presença militar dos EUA para além de 31 de agosto. A reunião confirmou, uma vez mais, que no Ocidente não há outra liderança para além da voz da América.
O G7 deveria mostrar-se especialmente inquieto com o tipo de governação que os talibãs vão impor. A Rússia está consciente dos riscos para a estabilidade dos seus aliados na Ásia Central. A China está preocupada com a defesa dos seus interesses no Paquistão - os chineses não excluem um cenário em que terroristas paquistaneses e outros possam atuar, no futuro, a partir do Afeganistão e ameaçar o corredor económico que une a China ao porto de Gwadar, no oceano Índico. Quer a China quer a Rússia teriam certamente muito interesse em participar nessa discussão com os países do G7. Assim se transformaria uma crise numa oportunidade de aproximação entre potências rivais. Ganhariam todos com esse tipo de diálogo, a começar pelos cidadãos do Afeganistão.
Esta proposição pode parecer irrealista. Mas o virar de página que nos é imposto pelos talibãs exige que se olhe para as relações internacionais com uma imaginação nova e de futuro. Quem irá agarrar esse desafio?»
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29.8.21
Congresso do PS
Estive a ver agora o discurso do dr. António Costa, convencida de que se tratava do encerramento do congresso do seu partido, que ele falaria da estratégia que tem para o futuro do mesmo, o que pensa sobre o que pode e deve ser mudado, como é que o PS se situa no terrível momento de perigo para a democracia que vivemos no mundo e até em Portugal, como é que os seus militantes se vão organizar e comprometer para receber as avalanches de novos imigrantes, etc. etc.
Enganei-me: ouvi não um secretário geral, mas um primeiro ministro triunfante e «em paz de espírito» pela acção do seu governo «no caminho certo», que enumerou uma lista sem fim de vitórias e de promessas de medidas mais ou menos avulsas (algumas sem dúvida importantes) para um futuro próximo. A propaganda soma e segue, o mundo e a estratégia continuam confinados.
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O direito à busca da felicidade
«Se o conceito de "direito à busca da felicidade" fosse algo de real para os políticos e fazedores de opinião, o parecer do Comité Económico e Social Europeu de 22/10/2008 que, entre outras propostas, sugeria que "uma política que deixe de basear-se exclusivamente na importância unilateral do crescimento económico e seja determinada igualmente por factores sociais e ambientais poderá permitir escolhas políticas mais equilibradas e contribuir para uma economia mais sustentável e mais solidária", para usar uma expressão popular, não teria caído em cesto roto.
Mas claro que caiu, apesar de haver economistas que já demonstraram que o PIB, como conceito económico, não se tem mostrado capaz para resolver os problemas das comunidades humanas no século XXI. Só o que os Donos deste Mundo preferem impor-nos a sua realpolitik, da qual resultam tragédias como aquela que está a acontecer no Afeganistão (não é a primeira e infelizmente não será a última).
Não fora a desgraça de tantas vítimas, seria completamente risível ver os que bramavam que "a América não negoceia com terroristas" a ceder a todos os ultimatos dos talibãs. Estes actos vão ter seríssimas e graves consequências, cujos efeitos se irão prolongar no tempo.
O que é particularmente terrível, quando estamos a viver tempos em que as forças e os estados que nunca cumpriram as regras de convivência internacional consagradas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Carta das Nações Unidas, neste momento, já nem se dão ao trabalho de disfarçar o ódio que têm a esses valores ético-sociais, à Democracia e ao Estado de direito. Mas não, a narrativa que agora se pretende criar é que há uns terroristas (os que bombardearam o aeroporto de Cabul) que ainda são piores que os talibãs. Afinal, não é só o Chega que vai ser "normalizado" - os talibãs também o vão ser.
Não contem comigo para esse "peditório". Porém, os ataques aos direitos humanos também ocorrem no Ocidente - e há que os combater, pois não são só os extremistas muçulmanos que não querem que as mulheres "saiam à rua". Combatê-los a todos sem excepção.
Volto à inseminação post mortem. Devido a uma cruel postura burocrática de uma unidade do SNS, a Ângela Ferreira e o Hugo tiveram de esperar um ano antes de iniciar os procedimentos de PMA, quando não estava em causa verificar a existência de uma situação de infertilidade, mas sim tratar uma situação de preservação da fertilidade futura. E a Lei da PMA e os regulamentos aprovados pelo CNPMA, durante o tempo em que fui presidente dessa entidade, permitiam que o procedimento se tivesse iniciado de imediato. Teria sido possível, se tudo corresse bem, ao Hugo ter conhecido esse seu filho ou filha. Espero que a ignomínia e a crueldade não prossigam com a concretização do acto de destruição do material genético do Hugo, só por razões de pura e mesquinha burocracia. A Ângela, uma brava Mulher do Norte, com uma coragem notável e inspiradora, não merece mais este agravo.»
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