24.5.22

Gentes deste mundo (11)

 


Vendedeira de fruta, Hue, (Vietname), 2009.
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Estónia

 



Em Talín, milhares de pessoas cantam e recolhem dinheiro para ajuda humanitária à Ucrânia.
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Uma simples dúvida

 

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O desvanecer da ilusão coletiva

 


«Diz-se que a História não se repete. Porém, Hegel afirmou que a História se repete sempre, pelo menos duas vezes, ao que Karl Marx acrescentou: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.

Olhando para o que se passa na Ucrânia, poderíamos dizer sem hesitações que já vimos esta história! Lembremo-nos da Tchetchénia, da Síria, da Geórgia, do Cazaquistão e da já esquecida “Guerra de inverno russo-finlandesa” em 1939, quando Estaline, como agora Putin, acreditou numa vitória rápida contra um inimigo “menor”, na razão de três soviéticos para um finlandês. Os soviéticos, como agora Putin, não contavam com o espírito de resistência, diríamos hoje, de resiliência do povo invadido.

No final, não houve ganhadores. Embora o invasor tivesse conseguido atravessar a defesa finlandesa, a União Soviética foi desmoralizada e banida da Liga das Nações, a Finlândia foi forçada a assinar um tratado de paz que a obrigava a ceder 10% do território e 20% da capacidade industrial. Repetir-se-á a História na Guerra russo-ucraniana?

Para prever o futuro é preciso compreender o passado. A invasão/agressão russa à Ucrânia não nos pode deixar cair no risco cognitivo de acreditar na farsa da “desnazificação” encenada por Putin nem na teoria de defesa contra um hipotético ataque da NATO. Tal como não nos deve fazer esquecer outras guerras, outras mortes, outras comunidades despedaçadas.

À repetição da tragédia, segue-se a farsa e a ilusão coletiva de que uma III Guerra Mundial, no século XXI, é impensável e de que as democracias neoliberais e as marcas deixadas pelas guerras anteriores levariam os países a resolver os conflitos com recurso à diplomacia.

Outra ilusão coletiva foi a de que os populismos que deram origem a poderes extremistas, de qualquer quadrante, jamais regressariam ao poder. Os factos desmentem cabalmente estas expectativas. Na verdade, o desenvolvimento da comunicação social e o aparecimento das redes sociais agudizou o problema das informações falsas, das distorções interpretativas e da manipulação da opinião pública. Aldous Huxley foi muito claro quando diagnosticou que as sociedades que usam o desenvolvimento tecnológico e científico para a guerra e o domínio de povos não são democracias, mas sistemas opressivos de domínio e extermínio.

Em oposição às sociedades da última fase da modernização reflexiva, esta paradoxal agressão configura riscos associados ao uso da tecnologia e do conhecimento científico em favor de uma ideia delirante de domínio e faz parte da farsa ideológica de sociedades humanamente subdesenvolvidas e totalitárias.

Um tipo de farsa grotesca e trágica que, por força da generalização da educação e da globalização, pensávamos não mais ser possível. Esperávamos comportamentos equilibrados e inteligência no diálogo. Não foi o que vimos nos EUA, Brasil ou Índia relativamente à pandemia de covid-19, não é o que vemos hoje em algumas reações sobre a invasão russa à Ucrânia, alegando ações do passado para desculpabilizar erros presentes.

Vivíamos nos vapores do otimismo generalizado de que na Agenda do século XXI existia um consenso sobre a necessidade de combater as desigualdades sociais, de distribuir a riqueza, de universalizar os benefícios da ciência, de erradicar a fome, as doenças, as guerras e a pobreza, e combater as alterações climáticas.

Supúnhamos que na era do Antropoceno, a nova era geológica dominada pelas atividades humanas, entre os riscos antrópicos que provocam desastres e catástrofes, não estavam incluídas as decisões de invadir países nem aniquilar identidades étnicas e Estados-nação. Estávamos enganados. Ao recair na lógica dos velhos conflitos, as sociedades do Antropoceno agravam os riscos decorrentes da emergência climática. Esta agressão cruel e anacrónica faz retardar processos de transição energética sustentáveis, de restauração de ecossistemas e retroceder nos passos dados no âmbito de uma Agenda de Desenvolvimento Sustentável para o século XXI.

Não sendo evidente que os líderes e as instituições sejam capazes de criar o espírito coletivo necessário, só nos resta esperar que a resposta venha dos povos. O que esperamos dos povos é o notável exemplo de resistência e de resiliência que observamos hoje na atitude dos ucranianos face à barbárie russa. Apesar da monstruosidade dos factos, não podemos abandonar o sonho de um planeta melhor, para as gerações futuras. Investir em sociedades resilientes capazes de impedir que erros do passado se repitam, aprendendo com eles, é imperativo. Essa será a nossa melhor herança.»

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23.5.22

Gentes deste mundo (10)

 


Um enorme maori (são mesmo grandes os maoris…), em Rotorua, (Ilha do Norte da Nova Zelândia), 2017.
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Nove anos sem Georges Moustaki

 


Georges Moustaki nasceu em Alexandria, de pais judeus gregos, e morreu em Nice, com 79 anos, em 23 de Maio de 2013.

Em 1951 foi para Paris, trabalhou primeiro como jornalista, mas foi como barman que entrou no mundo da música, onde personalidades como Georges Brassens o influenciaram decisivamente (ao ponto de lhe ter «roubado» o nome, já que nascera como Giuseppe e não como Georges…) Para Édith Piaf escreveu Milord e com ela viveu um curto romance. «Brassens était mon maître, Piaf était ma maîtresse» - terá um dia sintetizado.

Algumas «preciosidades» entre muitas:






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A guerra de trincheiras continua

 


Na Ucrânia? Não só, também nas rede sociais.

Para quê? Quem é que ainda não percebeu que ninguém muda de opinião? É inútil, com «mas» ou sem «mas», porque é esta modesta conjunção adversativa que faz toda a diferença. Como alguns já disseram, em circunstâncias como a actual, mesmo vendo o mundo a cores a opinião decide-se sempre a preto e branco e não há, nem pode haver, alternativa.
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Liquidar para ser beneficiário líquido

 


«Sempre que alguém me fala na pureza das crianças, percebo que se trata de uma pessoa que não convive muito com crianças. A minha avó não tinha dúvidas sobre a minha indecência, e ainda assim esforçava-se para me manter vivo e com saúde. Essa é que é a dificuldade. Amar um ser puro é facílimo. Deixem-me dar um exemplo. Uma vez, mantive o seguinte diálogo com a minha filha mais velha, que teria uns seis anos:

— O que estás a ler?
— A biografia de um grande humorista.
— Ele era engraçado?
— Sim, muito.
— Mais engraçado do que tu?
— Bastante.
— Ele já morreu?
— Já.
— Então...

Não sei se me faço entender. É um episódio em que uma linda criança sugere, com um ignominioso “então…”, que talvez o pai possa ser o beneficiário líquido da morte de Groucho Marx. A ocorrência contém algumas revelações interessantes acerca do raciocínio da doce menina. Primeiro, ela considera que a desgraça dos outros pode ser acolhida com alegria, se significar a prosperidade dos nossos. Segundo, ela desconfia que os nossos não prosperam a menos que algo muito grave aconteça aos outros.

Quando se soube que o Presidente da República tinha dito que Portugal era beneficiário líquido da guerra da Ucrânia, lembrei-me daquela conversa. Não é todos os dias que verificamos que a nossa filha revela, aos seis anos, capacidade para ser a mais alta magistrada da nação. O raciocínio é exactamente o mesmo, com exactamente as mesmas implicações. Portugal é um atleta de alta competição. E Marcelo é o pai que lhe diz: aproveita agora, rapaz, porque todos os teus principais adversários partiram uma perna.

Não creio que seja possível apontar falhas à filosofia do Presidente. De facto, Portugal tem um problema de competitividade. E há duas maneiras de resolver esse problema: ou nos tornamos mais competitivos ou aproveitamos as ocasiões em que os outros não conseguem competir. Uma é seguramente mais fácil do que a outra, e por isso não admira que seja a nossa preferida. No entanto, há uma questão que gostaria de ver respondida: concluímos que é boa ideia dizer em público que somos beneficiários líquidos de uma catástrofe após a ingestão de que líquido? Se souberem, estou comprador de uma garrafinha.»

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22.5.22

Gentes deste mundo (9)

 


Meninos etíopes a fazerem os TPCs, Awra Amba, (Etiópia), 2013.
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Bem podia ter esperado pelos 100

 



Charles Aznavour chegaria hoje aos 98.
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O país da “raspadinha”

 


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Marcelo, Zelensky, Costa e pequenos equívocos com importância

 


«Em 2016, quando foi eleito, Marcelo era o Presidente certo para o momento: parte da sociedade portuguesa vivia em grande tensão depois de quatro anos de memorando da troika, de Governo Passos-Portas e de dez anos de Aníbal Cavaco Silva em Belém, cujo segundo mandato foi marcado por elevados índices de penosidade. Quem não se lembra de cenas como aquela de que “para ser mais honesto do que eu tem que nascer duas vezes” que levante o braço.

Marcelo na Presidência foi uma pedrada no charco: subitamente, um país amochado pela troika parecia ganhar ânimo, primeiro com a formação da “geringonça”, depois com a eleição do novo Presidente. Marcelo não criou uma persona para chegar a Belém: foi sempre assim, com os seus defeitos e virtudes, encantador, sedutor, dotado de uma euforia capaz de quebrar muitas barreiras, hiperactivo, de uma inteligência fulminante, capaz de tratar de quatro assuntos enquanto almoça a sanduíche e o Sumol de laranja. Quem não apreciava o estilo dizia às vezes que Marcelo seria um perigo em Belém: lembro-me de pensar que isso nunca aconteceria. Marcelo era dotado de um elevado sentido de Estado, pese as excentricidades.

A questão é que, neste momento, há um novo Marcelo em Belém. E, ao contrário do que tem sido recorrente em todos os Presidentes, desta vez não parece que seja a síndrome do segundo mandato. O trauma que Marcelo vive neste momento é o da maioria absoluta do PS – e, como é mais inteligente do que todos, percebeu logo que isso lhe iria retirar qualquer espaço de manobra e diminuir consideravelmente o peso político. Perante a fraqueza do PS de então, Mário Soares tomou em mãos a tarefa de fazer oposição ao Governo Cavaco – dificilmente Marcelo seguirá esta linha, perante a ausência do PSD, mas não encontrou a sua própria linha.

Ainda durante esta visita a Timor-Leste, Marcelo lamentou-se de ter dissolvido a Assembleia da República por causa do chumbo do Orçamento. Se formos ler toda a literatura que no último ano Marcelo produziu sobre a necessidade de estabilidade, quase se responsabilizando a si próprio para que essa estabilidade existisse, vemos como o Presidente sofreu dupla derrota nos últimos tempos: os seus alertas valeram zero e o eleitorado deu uma maioria absoluta ao PS. A alternativa com que tanto sonhou o Presidente nunca, afinal, tinha existido.

Pode-se enquadrar neste estado de espírito (pesado) os sinais dos últimos tempos. O Observador contou que, na audiência com os partidos, Marcelo se queixou da sua falta de influência e tempo de antena. É humano, mas deslocado.

A revelação de que Costa iria encontrar-se com Zelensky no mesmo dia em que o Presidente estaria em Timor foi incompreensível. O gabinete de Costa guardava sigilo por razões de segurança e Marcelo tratou de “dar a notícia”, para fúria não só do PS e Governo como também, revela a edição deste sábado do Sol, dos militares – o semanário cita fontes militares a acusarem o Presidente de “falta de sentido de Estado”. Outra curiosidade foi a revelação de Marcelo que iria enviar a lei dos metadados (que ainda não existe) para o Tribunal Constitucional. Nem com a lei da eutanásia Marcelo decidiu anunciar o que fazia antes de lhe chegar às mãos. Percebe-se que o Presidente viva uma crise existencial com a sua família política aos trambolhões e sem a alternativa com que sempre sonhou – mas tem urgentemente que, como se diz agora, se “reinventar”.

P.S.: A visita de Costa à Ucrânia correu bem (embora com grandes aglomerações de jornalistas). Mas as palavras amenas sobre a adesão da Ucrânia à União Europeia não podem esconder o essencial: a UE, a receber a Ucrânia, fá-lo-á numa solução tipo Macron, pelo menos a médio prazo. O show-off de Ursula von der Leyen a entregar o papelinho da adesão foi só mesmo isso: show-off.»

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