26.8.25

26.08.1914 – Julio Cortázar

 


Julio Cortázar nasceu na embaixada argentina em Ixelles, Bruxelas, poucos dias depois de as tropas alemãs terem entrado na cidade. Com três anos foi para a país de origem dos pais, de onde viria a sair com 37, em oposição à ditadura. Instalou-se então em Paris e foi lá que viveu até morrer.

Inovador como poucos, mestre no conto curto, iniciou uma nova forma de fazer literatura latino-americana e com ela influenciou muito e muitos. «Blow-up», de Michelangelo Antonioni, baseia-se num dos seus contos: «As Babas do Diabo».
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Cântico Negro

 


Estado de fumo

 


«Cheguei à minha aldeia, vizinha de Alpedrinha, na passada segunda-feira. O fogo já tinha descido encostas, galgado caminhos, desenhado no território uma geometria sem lógica, cheia de linhas de ameaça que os mapas não previam e que o vento reescrevia à sua vontade.

Os meus pais tinham decidido ficar. Na cidade, não se compreende o porquê. É perigoso, imprudente. Porque não fogem? Mas basta atravessar o país para perceber que ali, onde o socorro é incerto e o Estado é uma ausência ruidosa, a única estratégia é resistir. Quando não há garantias de que alguém virá proteger a casa, protege-se a casa. Porque as paredes ancoram. Porque, se elas caírem, arde também o que as rodeia. Ficar, nestas terras, também é proteger os outros.

As noites foram longas, tensas, dormia-se pouco. Dormia-se em turnos. Regavam-se os muros, as árvores, os caminhos, os telhados. As sirenes estavam longe, mas não sossegavam. À nossa frente, a Gardunha ardia em colunas que subiam e desapareciam como fantasmas. A cada rajada de vento, temia-se o desvio.

E, do outro lado, ninguém nos dizia o que fazer.

As aldeias organizaram-se como podiam. Homens com pás. Mulheres com baldes. Tratores a abrir caminhos improvisados. Grupos de Facebook a substituir o comando. Era ali que se anunciavam evacuações, que se mapeavam acessos, que se pediam braços. A informação não tinha centro, estava dispersa, vinha de mensagens, de boatos, de chamadas entre vizinhos. As juntas de freguesia publicavam comunicados em redes sociais. A GNR local, apesar de atenta, não sabia de nada. E assim se decidia: entre telefonemas, alertas, mãos no ombro. A logística da sobrevivência nascia da comunidade e não da estrutura.

Falei com um homem da Enxabarda. Contou-me que estava em casa quando o irmão ligou: os pais, numa aldeia mais a norte, estavam a ser evacuados. Subiu para a mota e foi. Chegou já com o fogo a cercar. Passou horas com uma pá, porque não havia água. Não havia bombeiros. Não havia ordens. A aldeia resistiu porque as pessoas estavam lá.

A sensação era a de um país sem Estado. Sentia-se que a promessa de proteção estava diluída em discursos. Lá, entre o plano e o incêndio, há uma distância onde só cabem os corpos.

Durante dias, a terra queimava e o Primeiro-Ministro permanecia no sul. Mergulhos, sorrisos, fotografias partilhadas entre fagulhas, a fórmula 1. As imagens cruzaram-se. E o país viu. Não foi só infeliz. Foi desadequado. Foi injusto. Há momentos em que o poder não pode estar longe, mesmo que não tenta nada para oferecer. Há presenças que se exigem pela sua própria existência.

O discurso do Pontal foi a confirmação de uma ausência prolongada. Um reflexo de governo fechado sobre si, como se a sua função fosse gerir o tempo mediático. Um sinal de que, por vezes, o exercício do poder esquece que o país não se resume às luzes de Lisboa.

Dias depois, quando o fogo ainda não parece dar tréguas mas as cinzas já deixam ver a paisagem queimada, chega o Governo. De gravata preta e rosto solene, o Primeiro-Ministro aparece, em Viseu, com o semblante esperado. Diz que lamenta “a percepção”. Mas não lamenta os seus erros. Diz que compreende “a sensibilidade”. Mas não reconhece o abandono. E anuncia medidas. São dezenas. Muitas têm nome de plano. Outras de promessa. Quase todas parecem responder à mesma lógica: tapar os buracos deixados pelas chamas. Ajudar quem perdeu. Indemnizar o que ardeu. Compensar a ausência com apoios. É o ritual habitual: o país arde, o Governo aparece, as câmaras registam, os papéis circulam.

Mas há um problema antigo nisto tudo: as ajudas tardam, e a prevenção nunca chega. E há a memória da família de Avelino Mateus Ferreira, morto em 2017, que três anos volvidos ainda não tinha recebido as indemnizações prometidas. Ainda há casas por reconstruir, caminhos por limpar, planos por cumprir. E, enquanto isso, os incêndios regressam. Repetem-se. Reescrevem os mesmos lugares com a mesma fúria. E o que se escuta da política é, invariavelmente, o mesmo som de sempre. Só se ouve depois da tragédia.

Arder não é excepção. Tornou-se, para Portugal, uma forma de agosto. E talvez isso nos diga mais do que gostaríamos.

Dizem-nos que o clima mudou. E é verdade. Mas a meteorologia não explica tudo. Portugal arde duas, três, quatro vezes mais do que os países vizinhos que têm a mesma secura, o mesmo calor, o mesmo verão. Há algo de estrutural na nossa fragilidade e que foi sendo tecido ao longo de décadas, à sombra do crescimento rápido e do abandono lento.

Somos o país da paisagem esquecida. Das encostas entregues a quem nelas consiga lucrar. Das árvores que ardem depressa porque crescem depressa. Uma floresta desenhada como conomia. A monocultura tornou-se o nosso modelo de ocupação. E o eucalipto o nosso símbolo de urgência: cresce, rende, arde.

(É uma anomalia no mediterrâneo. Espanha concentra as monoculturas de eucaliptos na Galiza — onde começou o fogo que se alastrou para território nacional — e nas Astúrias. Outra exemplo é Itália, que vê a maior parte da sua área rural ocupada por latifólias.)

Mas há outras árvores, e há outras formas de pensar o território. Folhosas autóctones, mosaicos de gestão, margens ripícolas que travam, desacelaram o fogo. Não é utopia nenhuma. É ciência, pode ser práctica, pode ser política. Se houver vontade de a fazer.

Mas fazer isto exige tempo. E dinheiro. E uma palavra que a democracia raramente pronuncia: continuidade.

França, que arde menos, começou a pagar o que chama o “custo da paisagem”. Aceitou que prevenir não é mais barato, mas é mais justo. Porque evita perdas que não se contam apenas em hectares. Contam-se em histórias, em casas salvas por uma pá, em noites acordadas com medo que o vento mude de lado.

Portugal já tem planos. Tem fundos. Tem palavras. O que lhe falta é densidade. A gravidade que obriga a pensar o território a partir do futuro. Não basta plantar. É preciso manter. Não basta manter. É preciso rever. E, sobretudo, não basta prometer. É preciso reordenar o olhar: da árvore para a floresta, da floresta para a aldeia, da aldeia para a terra.

Talvez o pacto de regime que o primeiro-ministro agora propõe venha tarde. Talvez não. Mas só será um pacto se aceitar o óbvio: uma paisagem que resiste custa. E não custa pouco.

Mas custa menos do que um país que arde todos os verões.»


25.8.25

E esta porta?

 


Porta de entrada do restaurante “A Velha Sinagoga”, Praga, 1907.
Arquitectos: František Weyr e Richard Klenka.

Daqui.

1944 – A libertação de Paris

 



Entre 19 e 25 de Agosto de 1944, a libertação de Paris pôs fim a quatro anos de ocupação. Desde 22 de Junho de 1940, a cidade era administrada pela Alemanha.

Charles de Gaulle, chefe do Governo Provisório, fez um discurso à população, que ficou célebre e imortalizado em algumas frases: «Paris outragé! Paris brisé! Paris martyrisé! Mais Paris libéré!».






E há também canções «eternas»:


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Chiado 25.08.1988

 



Só 29 países no mundo são democracias plenas, as autocracias e as ditaduras estão a impor-se

 



Os brinca na areia

 


«Esta crónica não é sobre os falhanços do Estado no combate aos incêndios — seja pela falta de meios aéreos e terrestres, seja pela absoluta descoordenação. Não é, tão-pouco, sobre o crónico insucesso na prevenção — seja pela desordenação florestal, seja pela ausência de limpeza das matas. E também não é sobre as alterações climáticas — sejam as ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, seja a desertificação associada ao despovoamento. Sobre tudo isto muito se tem escrito, tanto nos últimos dias como ano após ano, desde que o fogo se tornou arma política. A lógica é sempre a mesma: para quem está na oposição, a culpa é de quem governa; para quem governa, a culpa é de todos, mas sobretudo do governo anterior.

Não sendo esta uma reflexão sobre o falhanço coletivo, importa sublinhar, ainda assim, que esta maneira de ser português prejudica profundamente as populações do interior. Mesmo aqueles que escapam sem a mais leve queimadura acabam vítimas do “deixa arder”. “Não tem paralelo”, afirma Marcelo sobre o que já se passou este ano, consciente de que morreram pessoas e arderam milhares e milhares de hectares. Ao ouvir o Presidente da República, fica-se com a impressão de que a brutalidade dos números de 2017 justifica tudo. Mas, muito antes disso, entre incêndios, aos do interior já lhes tinham retirado hospitais, escolas e agências bancárias. Construíram-lhes autoestradas de sentido único, rumo ao litoral, onde se concentram os empregos. E os que não conseguem fugir tornam-se um pouco mais pobres a cada ano que passa.

Génios do marketing político

Esta crónica é sobre os políticos que, de tão geniais, acabam por fintar-se a si próprios e a atirar a bola para o calçadão. Aqueles que estão sempre mais interessados em endrominar o povo do que em resolver os seus problemas. Os que, através dos pactos que propõem, tentam convencer-nos de que a culpa é precisamente dos mesmos com quem dizem querer pactuar. Do mesmo modo que os que agora são oposição se desfizeram em explicações que os ilibavam quando estavam no poder.

Os que, a meio do mês, estavam felizes e satisfeitos consigo próprios — com o pé na areia e o copo na mão — e se queixavam dos fogos que lhes estragavam a imagem festiva na televisão, não fazem um verdadeiro mea culpa: limitam-se a sacudir a água do capote. Pela análise do professor Marcelo, ficamos a saber que o grande plano é, afinal, muito semelhante ao que Costa apresentara — e que pouco ou nada resolveu. Pelo estremecimento de Marta Temido, ficamos a perceber que pode estar tudo colado com cuspe.

Fogo nas presidenciais

Antes da indignação coletiva que o ecrã dividido potenciou, o candidato presidencial Gouveia e Melo mostrou-se envergonhado com a avaria dos meios aéreos e pediu o fim do “Estado do improviso”. Logo surgiu o seu principal adversário, Rebelo de Sousa, estendendo a mão ao governo e garantindo que a coordenação era “espetacular”,enquanto o seu candidato, Marques Mendes, alinhava no politicamente correto que só permite discutir o combate aos incêndios quando já não houver nenhum incêndio para apagar.

Generalizada a indignação pela festa que não foi suspensa, Marcelo percebeu que tinha de mudar de campo. Depois de fintar meio mundo em apoio ao governo, resolveu recuar e fintar o outro meio, apontando o dedo a quem “está em execução e decide em cima da hora [porque] muitas vezes chega tarde ou não percebe bem o alcance [da situação]".

Nestes tratados de hipocrisia e cinismo, há pelo menos uma coisa em que temos de concordar: andamos todos — com honrosas exceções — a fingir que existem soluções fáceis, dependentes apenas da boa-vontade de quem detém o poder em cada momento. Mas, depois de improvisarem no combate aos fogos, acabam sempre por ter de improvisar também na comunicação política, quando percebem que, por muito elaborado que seja, o spin nunca consegue sobrepor-se à realidade.

Os políticos tradicionais estão viciados em falar uns para os outros e perderam a capacidade de perceber o que sente e pensa o povo. Com a desculpa do que aprenderam em 2017, deixaram de ir para o terreno — onde estava Gouveia e Melo, não para atrapalhar o combate, mas para ouvir quem tudo perde. O almirante rapidamente se deu conta de como crescia a indignação das populações do interior, deixadas ao deus-dará no meio do fogo. Lembram-se do autarca de Arganil, desesperado, a gritar que tinha avisado que aquela “merda” ia acontecer? Foi no dia da festa, mas a festa ainda nem tinha começado!»


24.8.25

Neve

 


Vaso "Paisagem de Neve" em vidro marmorizado com gargalo serrilhado. Decoração finamente gravada em camafeu e pintada com esmaltes policromados, representando uma paisagem florestal. 1890-1900.
Daum Nancy.

Daqui.

Relax!

 


24.08.1916 – Léo Ferré

 


Léo Ferré nasceu no Mónaco, o pai trabalhava no Casino, a mãe era costureira e Léo, com 7 anos, já cantava no coro da catedral.

Deixou-nos preciosidades que resistem a todas as décadas, com letras suas ou de Aragon, Rimbaud e mais uns tantos. Três entre muitas outras:






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Colisão com a democracia

 


«Vale a pena revisitar o discurso feito pelo primeiro-ministro (PM) no passado dia 14, no Pontal. Não porque seja um discurso estruturado, mas sim pela lógica política (programática e de ação) em que assentou, e pelo que, entretanto, vamos constatando de ausência de respostas aos grandes problemas com que se depara quem trabalha e vive em Portugal.

Luís Montenegro, enquanto líder parlamentar do PSD reclamava, com estridência, o escrutínio democrático. Em pouco tempo, tornou-se um líder agastado - e muitas vezes sofrido ao ter que dar a cara - que embirra com os jornalistas que lhe fazem perguntas. Colocou o Tribunal Constitucional (TC) sob suspeição, acusando desbragadamente os juízes. Acompanhou o Chega e a Iniciativa Liberal no ataque à Constituição da República. Dá-lhe jeito instabilizar o TC, como passo para lhe impor outra composição que facilite a desconstrução da Constituição da democracia.

O PM insiste na velha lengalenga "nós governamos para as pessoas", querendo com isso inculcar na cabeça dos cidadãos que o escrutínio aos seus atos governativos não passa de ataque político contra os interesses dos próprios cidadãos, porque quem os interpreta é exclusivamente ele (Salazar também assim entendia). A governação tem sempre como destinatários os cidadãos. A questão é saber-se, com objetividade e rigor, quem beneficiam e quem prejudicam as políticas adotadas: isso implica questionamentos, debate transparente e participação das representações coletivas - políticas, sociais, económicas e culturais - com as quais se estabiliza e faz funcionar o sistema de pesos e contrapesos que dão vida à democracia.

Percebem-se as razões porque Luís Montenegro anda com pressa. Tem consciência da sua personalidade (o caso Spinumviva terá aparições múltiplas) e, acima de tudo, sabe muito bem que o seu Governo e o programa que vai executando se amparam em forças antirregime. O amplo setor neoliberal do PSD prossegue na convicção de que tomando a agenda da extrema-direita a controla ou aniquila. Tantas vezes e em tantos países já vimos este filme, que acaba sempre mal.

O que temos hoje à vista? Um ataque brutal aos direitos no trabalho e aos fundamentos do direito do trabalho para consolidar uma política de baixos salários e de desconstrução do sistema de relações coletivas de trabalho assente em valores democráticos. Em grande medida, as alterações nas políticas de imigração associam-se a esse objetivo. O SNS está a ser crescentemente corroído por dentro, porque, apesar das críticas justificadas que muitos cidadãos lhe fazem por ser difícil o acesso em muitas situações, os portugueses têm consciência de que foi uma extraordinária conquista. A mesma estratégia de ataque vai surgir em relação à Segurança Social.

A pressa do PM mostra-nos muitos perigos, mas também pode significar fragilidade do Governo.»