12.5.07

Canções na memória (I)


«Quando trauteámos When I'm sixty four (...), não parámos para pensar que chegaríamos aos sessenta e quatro bem mais rapidamente do que então teríamos podido imaginar». («Entre as brumas da memória...», p.119)



When I'm 64 (The Beatles, 1967)

When I get older, losing my hair, many years from now,
Will you still be sending me a Valentine, birthday greetings, bottle of wine?
If I'd been out 'till quarter to three, would you lock the door?
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?

You'll be older, too. And if you say the word, I could stay with you.
I could be handy, mending a fuse, when your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside, Sunday mornings, go for a ride.
Doing the garden, digging the weeds, who could ask for more?
Will you still need me, will you still feed me, when I'm sixty four?

Every summer we can rent a cottage in the Isle of Wight if it's not to dear.
We shall scrimp and save.
Grandchildren on your knee, Vera, Chuck, and Dave.
Send me a postcard, drop me a line stating point of view.
Indicate precisely what you mean to say, yours sincerely wasting away.
Give me your answer, fill in a form, mine forever more.
Will you still need me, will you still feed me, when I'm sixty four?

11.5.07

Fátima 1967 - A visita polémica de um Papa


Paulo VI com a irmã Lúcia (13/5/1967)
(Postal da época)


Há quarenta anos, era grande a consternação nas hostes dos chamados «católicos progressistas» portugueses. Desde que se levantou a hipótese de Paulo VI vir a Fátima em Maio de 1967, para as comemorações do 50º aniversário das aparições, que se temia que essa visita funcionasse como uma quebra do isolamento internacional a que Portugal estava sujeito, sobretudo desde o início da guerra em África, e como um aval às orientações políticas do governo português.

Em Entre as brumas da memória..., dedico um capítulo não só a esta viagem de Paulo VI como a outras que tiveram a ver com Portugal, nomeadamente à sua ida a Bombaim, que Salazar considerou uma afronta inaceitável (por causa da anexação pela União Indiana, alguns anos antes, de Goa, Damão e Diu). Deixo aqui um extracto desse capítulo (pp. 52-56):

«Na segunda metade do ano de 1966, começou a ser ventilada a hipótese de Paulo VI se deslocar a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em 13 de Maio de 1967.
Em Novembro de 1966, a Conferência Episcopal dirigiu-lhe um convite formal nesse sentido, mas só em 1 de Maio de 1967 é que foi oficiosamente comunicada a decisão definitiva à embaixada de Portugal no Vaticano. (...)

Já há algum tempo que os que se tinham alegrado com as viagens a Jerusalém, a Bombaim e à ONU temiam que a vinda a Fátima se concretizasse. (...)
Mas já que a vinda do papa se apresentava como inevitável, havia que recorrer à imaginação e tentar tirar partido de uma situação de facto. E o tempo era muito escasso.
Foi entregue na Nunciatura uma carta que um dos filhos do Coronel Varela Gomes escreveu ao papa, pedindo-lhe que intercedesse pela libertação do pai que se encontrava preso pela PIDE. Terá havido fuga de informação por parte da Nunciatura: segundo Maria Eugénia Varela Gomes, o
Correio da Manhã publicou, alguns dias mais tarde, um artigo em que o conteúdo da carta foi mencionado e distorcido. No entanto, ela crê na eficácia da iniciativa, já que está convencida de que à mesma se ficou a dever a redução das medidas de segurança a que o marido estava sujeito, de um ano e meio para seis meses.
(...) José Manuel Galvão Teles e eu pertencíamos à Junta Central da Acção Católica e essa condição abria-nos muitas portas. Decidimos pedir uma audiência particular ao Núncio Apostólico. Audiência concedida, apresentámo-nos, juntamente com Nuno Teotónio Pereira, e expusemos as nossas preocupações sobre o que nos parecia inevitável: o aproveitamento da visita do papa para fins políticos favoráveis ao regime. Insistimos na importância de tudo ser feito para o evitar. Fomos tão incisivos quanto soubemos. (...)

Aproximava-se o dia 13 de Maio. Soube-se que o Vaticano tinha “despolitizado” a viagem: o papa não viria a Lisboa (o avião papal aterraria em Monte Real), não condecoraria ninguém (em Bombaim, o presidente da União Indiana tinha recebido a mais alta condecoração concedida pelo Vaticano a não cristãos), não seria hóspede do governo mas sim do bispo de Leiria.
Sabe-se agora que, cerca de uma semana antes da viagem, o governo recebeu uma informação da Embaixada de Portugal em Madrid, segundo a qual se preparavam atentados contra personalidades portuguesas de vulto e contra o próprio papa. De Nova York, terá vindo uma outra notícia dizendo que um grupo de oficiais estava a organizar um golpe de estado contra Salazar. Estes boatos obrigaram a um reforço das medidas de segurança em Fátima, impedindo, por exemplo, que Paulo VI fizesse alguns percursos a pé, como inicialmente previsto.

Entretanto, em Lisboa, continuavam os protestos.
Foi preparada uma iniciativa importante: a elaboração de um documento altamente sigiloso, a fazer chegar directamente ao papa, no qual um numeroso grupo de antigos e então actuais dirigentes da Acção Católica e de outras organizações de leigos, que como tal se identificavam individualmente a seguir à respectiva assinatura, informavam detalhadamente Paulo VI da situação existente em Portugal, por eles considerada contrária aos ensinamentos da Igreja e do próprio papa. Havia que garantir que o documento fosse entregue em boas mãos. Alguém nos disse que a pessoa a ser procurada em Fátima era Monsenhor Loris Capovilla, que tinha sido secretário particular do papa João XXIII e que integraria a comitiva de Paulo VI. E foi assim que o nosso livre trânsito, como convidados oficiais por sermos membros da Junta Central da Acção Católica, permitiu que encontrássemos Capovilla e que José Manuel Galvão Teles lhe entregasse a carta. (...)

Nos bastidores do poder, passaram-se episódios que só muito mais tarde viemos a conhecer. Com a aversão que tinha a Paulo VI e com a sua proverbial misantropia, Salazar ficou furioso quando soube, na véspera das comemorações e já em Monte Real, que o Papa queria que a irmã Lúcia estivesse presente, porque considerou tratar-se de um acto puramente demagógico. Ameaçou mesmo regressar imediatamente a Lisboa, mas acabou por ficar – no Hotel de Monte Real, onde a estadia, com meia pensão, custou 220$00.
Confessaria no dia seguinte que o que mais apreciara na visita do Papa fora a fúria que ela provocara nos seus inimigos.

As cerimónias decorreram em Fátima com toda a pompa e emoção generalizada, na presença de mais de um milhão de pessoas. Os membros da Junta Central da Acção Católica foram convidados privilegiados, juntamente com as autoridades civis e eclesiásticas, e estiveram por isso presentes, como tinham exigido, na tribuna de honra, erguida em frente da Basílica. Foi estranho ver, a poucos metros de distância, Américo Tomás, Salazar, a irmã Lúcia e o papa, quando desejávamos tanto que tudo aquilo não estivesse a acontecer, que não passasse de um simples pesadelo.
Entretanto, Paulo VI foi almoçar, recatadamente. Como tinha pedido: sopa, frango, um pouco de vinho tinto e um cálice de Porto.
Recebeu-nos mais tarde, numa das muitas audiências que se seguiram às cerimónias religiosas.
Tínhamos feito o que pareceu ser possível – e que foi bem pouco.
Nunca mais voltei a Fátima.

Para Franco Nogueira, “foi um dia de grande emoção popular, de grande espectáculo, de grande política para a ala conservadora da Igreja.”
Para os que não se incluíam nessa “ala conservadora”, as feridas estavam abertas e, para alguns, não se fechariam.(...)»

* * *

Como os leitores deste blogue se distribuem por grupos que dão para vários peditórios, deixo, aos eventuais interessados, os links para os discursos que Paulo VI fez em Fátima, em 12 e 13 de Maio de 1967:
* Discurso ao Presidente da República
* Discurso ao Corpo Diplomático
* Discurso ao Episcopado Português
* Discurso aos Representantes dos Leigos Católicos
* Discurso aos Representantes das Comunidades Cristãs Não Católicas
* Homilia durante a Missa no dia 13 de Maio
* Discurso de Despedida

8.5.07

«Eu falei na PIDE»


Têm sido publicados muitos estudos sobre os presos políticos durante a ditadura. Mas ainda não encontrei nenhum (falha minha?) que se debruçasse, especificamente, sobre a problemática de quem não resistiu à tortura e, por esse motivo, denunciou pessoas e factos.

Foi este texto de João Tunes, no Água Lisa(6), que me levou ao depoimento de Nuno Teotónio Pereira numa obra recente (*). Considero importante que NTP tenha assumido publicamente que falou na prisão, sob tortura, provocando a prisão de outras pessoas (já o tinha feito na RTP, em entrevista a Ana Sousa Dias, julgo que em 2004). Como diz J. Tunes no texto acima referido, este facto «...levanta a questão de quanta parcialidade e composição do retrato histórico do antifascismo é difundida através dos depoimentos oficializados e considerados correctos na absolutização da dicotomia de heróis para um lado (os resistentes) e diabos para outro (Salazar e pides). Como se fosse possível uma tal grandeza universal numa qualquer comunidade clandestina, género “fábrica de heróis”...». Num outro texto do mesmo blogue, J. Tunes retoma a questão e relata um caso real elucidativo.

Julgo que é necessário que se aborde claramente esta temática, deixando de tratar hagiograficamente – ou farisaicamente – os resistentes ao fascismo.

Estou especialmente à vontade para abordar este assunto. Nunca fui presa (talvez com alguma sorte). Sou viúva de alguém que cumpriu uma pena de seis anos e que, apesar de nove dias consecutivos de tortura do sono, se recusou a responder a toda e qualquer questão durante os interrogatórios, incluindo a que dizia respeito à confirmação da sua própria identidade. Um dos meus amigos mais próximos, quando esteve preso e teve medo de falar, cortou parte da língua. Conheci, pessoalmente, muitos outros casos de gente que não abriu a boca. Nunca deixarei de os admirar profundamente, pela força e pela coragem, absolutamente notáveis, por vezes brutais, que revelam.

Teria eu falado se tivesse sido torturada? Nunca o saberei, mas tenho que admitir que sim, já que não vislumbro em mim quaisquer características especiais de heroicidade.

Acho que é tempo – antes que seja demasiado tarde para alguns – não de apagar os factos mas, muito pelo contrário, de os trazer à luz do dia, de mostrar a sua dimensão e os seus contornos. Não para denunciar, nem para justificar – simplesmente para repor a verdade e para matar fantasmas. De que forma? Não sei exactamente. A colaboração dos próprios é indispensável mas muito difícil, o que só por si evidencia a complexidade e a importância do problema.

Mas é ou não fundamental que fique claro que a conquista da democracia não foi (só) obra de santos e de mártires?


(*) Rui Galiza e João Pina, Por Teu Livre Pensamento..., Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

7.5.07

Fátima e os milagres do «Sol»


Preparem-se porque, lá para o fim desta semana, vamos ser bombardeados com as comemorações dos noventa anos das aparições – em maior ou menor grau, conforme a evolução dos processos jornalísticos em curso, nomeadamente a saga sobre a C. M. de Lisboa. Mas virão.

De resto, os prenúncios aí estão e a minha alma está parva.

O jornal Sol de Sábado passado (5/5/2007) publicou os resultados de uma sondagem sobre o posicionamento dos portugueses face a Fátima. Sem nenhuma razão para duvidar do carácter fidedigno da peça, fiquei em estado de choque. Algumas das percentagens reveladas:

• 69% dos portugueses acreditam nas aparições;
• 52,5% vão a Fátima pelo menos uma vez por ano;
• 15,4% já lá foram a pé.

Há mais números, muitos mais, mas fixemo-nos nestes.

Assumindo que somos dez milhões, há 6 900 000 que acreditam que, há noventa anos, Nossa Senhora apareceu às três crianças. Mais mulheres que homens (hélas!), mais velhos que novos (ainda assim, 55% dos jovens entre os 15 e os 24 anos), sobretudo católicos (mas não só: também 26,8% de «sem religião» – leram bem: sem religião mas acreditando nas aparições!!!).

Fazendo fé no que está escrito, mais de cinco milhões dos nossos compatriotas rumam em direcção à Cova da Iria pelo menos uma vez por ano. Há mesmo cerca de 500 000 que lá vão uma ou mais vezes por mês – e não vive tanta gente nas redondezas!...

Mais de 1 500 000 já foram a Fátima a pé. Será mesmo verdade? Pergunta para quem está a ler esta prosa: conhecem muitas pessoas nestas circunstâncias? Eu só tenho um amigo que o fez, para cumprir uma promessa, quando o Sporting ganhou o campeonato. Mas esse assume-se como maluco. Viverei numa redoma?

Enganaram o Sol? O Sol está a enganar-nos? Ou será que isto é mesmo o país real?!!!


P. S. 1 – Não sou leitora habitual do Sol, mas o Luís Osório aguçou-me o apetite ao falar desta sondagem no programa Fim de Semana, do RCP. «Roubei-lhe», aliás, a ideia para o título deste post...

P.S. 2 – Voltarei em breve ao tema Fátima, até porque, no Entre as brumas..., dediquei um capítulo às viagens do papa Paulo VI, nomeadamente à sua vinda aquando das comemorações do 40º aniversário das aparições, em 1967.

6.5.07

Hoje somos todos franceses II


Levez-vous,
Il est Sarzo moins le quart





Hoje somos todos franceses!

Dis moi!!!

Nicolas Sarkozy,

Pourquoi ton père

A fui la Hongrie?

Vale a pena ver e ouvir!...

4.5.07

4/5/1968 - Proibição de homenagem a Luther King


Entre as Brumas da Memória..., pp.116-118:

«Em 4 de Abril, foi assassinado Martin Luther King – com o seu sonho, foi um pouco do nosso que morreu também. Em Roma, Paulo VI comparou este assassinato à paixão de Cristo (...).

Pastor da Igreja Baptista, Luther King tornou­­­‑se, desde muito novo, líder dos movimentos não violentos contra a discriminação dos negros americanos. Tinha apenas trinta e nove anos quando foi assassinado.

Em jeito de homenagem, foi preparada e agendada uma sessão a ser realizada em Lisboa, no dia 4 de Maio, exactamente um mês após a sua morte. O local escolhido foi a Igreja de Santa Isabel – com grande empenho, o prior cedeu o anfiteatro anexo à igreja para a realização da iniciativa. Duas frases encabeçavam a convocatória: "Traz contigo uma flor" e "Por cada flor estrangulada, há milhões de sementes a florir".

Deveria ser projectado o filme
Marcha em Washington, que mostra uma concentração, em 28 de Agosto de 1963, em que mais de 250.000 pessoas exigiram emprego e liberdade. Falaram actores como Marlon Brando e Sidney Poitier, cantores como Joan Baez e Mahalia Jackson. Esta última interpelou Luther King gritando: "Fala­‑lhes do teu sonho!". Pondo de parte um curto texto mais ou menos formal preparado para o efeito, Luther King fez então um longo discurso em torno de uma frase que viria a ficar célebre: "I have a dream today!" – sonho de uma América de liberdade e democracia, de todas as raças, de todas as cores e culturas.
[No fim deste texto, verá como pode aceder a um video sobre esta Marcha, com o discurso de MLK na íntegra.]

Na sessão em Lisboa, o filme seria seguido de um debate orientado por Lindley Cintra, Fátima Pereira Bastos, José Carlos Megre e Frank Pereira. Na véspera da data prevista, a PIDE comunicou ao Pe. Armindo Duarte, então prior da paróquia de Santa Isabel, que a sessão estava proibida. Interrogou­‑o sobre os objectivos da mesma e sobre os responsáveis pela sua organização. Dois dos intervenientes previstos – Lindley Cintra e José Carlos Megre – foram também chamados para interrogatórios. Uma das preocupações da polícia foi averiguar se era a Pragma que estava por trás da organização. Deve ter continuado convencida de que sim, apesar das respostas negativas dos interrogados, já que arquivou toda a documentação sobre esta sessão no Processo sobre aquela Cooperativa. Mas não era: ela resultara da iniciativa de um pequeno grupo de amigos que, de passagem por Paris três semanas antes, tinham assistido a uma sessão semelhante e que resolveram reproduzi­­­‑la em Lisboa. Os principais organizadores foram os irmãos Maria da Conceição e Manuel Moita, Maria Antónia Pacheco e Joaquim Osório de Castro.

À hora marcada, concentraram­‑se centenas de pessoas em frente da igreja de portas fechadas. Como em muitas outras ocasiões, tudo acabou com dispersão, à força, desta vez por agentes da polícia à paisana.

Foi depois elaborado, e amplamente distribuído, um folheto intitulado Porquê? com um breve relato dos acontecimentos. Terminava com uma citação do próprio Luther King:

"Não vos posso prometer que não vos batam,
Não vos posso prometer que não vos assaltem a casa,
Não vos posso prometer que não vos magoem um pouco.
Apesar disso, temos que continuar a lutar pelo que é justo".»






Veja aqui o discurso de MLT na íntegra

2.5.07

Paris, 3 de Maio de 1968


Foi este o dia decisivo da mais espectacular revolta estudantil de que há memória. Esta afectou muito profundamente a França, tão profundamente que há um antes e um depois do Maio de 68. Só assim se explica que os franceses continuem a brandir armas em seu nome, como está a acontecer em plena segunda volta da campanha para as eleições presidenciais. Lá chegarei.

A repercussão foi grande no mundo inteiro, dos EUA à China e ao Japão, passando pelo Brasil e pela Argentina. Até em Portugal, onde vivíamos o cinzentismo dos últimos meses do reino de Salazar, se fizeram sentir alguns sobressaltos para uns e muito fascínio para outros - para a minha geração, Paris era a pátria cultural e política e Maio de 68 funcionou como a visão de um paraíso apenas a 2 000 km de distância.

Se há ligações óbvias entre o movimento francês e outros seus antecessores na Europa e nos EUA, a verdade é que nenhum deles teve a mesma força e o mesmo impacto. Foi, certamente, a maior insurreição geral em países desenvolvidos desde a segunda guerra mundial.


A origem mais próxima desta crise estudantil prende-se com a ocupação da universidade de Nanterre em 22 de Março. No dia 2 de Maio chegou ao Quartier Latin, em Paris.


Mas foi no dia seguinte, dia 3, que atingiu maiores proporções. O desenrolar dos acontecimentos foi absolutamente alucinante, começando por uma reunião de solidariedade com Nanterre, passando por ameaças de confrontos entre grupos rivais de estudantes e culminando, ao princípio da tarde, com um pedido do reitor à polícia para que evacuasse a Sorbone. Seguiram-se cinco horas de verdadeira batalha campal, com barricadas, cocktails Molotov, pedradas, matracas e gases lacrimogéneos, que se saldaram por dezenas de feridos e mais de 500 prisões. Os distúrbios continuaram nos dias que se seguiram.

O movimento não se manteve fechado no mundo dos estudantes: extravasou para o do trabalho, a nível de operários, de camponeses e do sector terciário, reuniu-se numa gigantesca manifestação em 13 de Maio e esteve na origem de uma longa greve geral incontrolada.

O que houve de absolutamente específico, e de certo modo inesperado, foi que não estiveram em questão (apenas) motivações sociais ou laborais, mas sim exigências de alterações profundas a nível do relacionamento humano e dos costumes. Recorde-se que uma das causas para a ocupação de Nanterre foi a revindicação de os rapazes passassem a ter acesso às residências universitárias femininas... Ainda hoje se debatem em França, com grandes desacordos, estes temas ligados às características do fenómeno. Não vou por aí.

Mas lembrar-nos-emos sempre da apologia da subversão e da transgressão, do «é proibido proibir», da « imaginação ao poder» – da grande utopia.

Foram-se acalmando as hostes, foi dissolvida a Assembleia Nacional em 30 de Maio e realizaram-se eleições legislativas (que os gaulistas ganharam por larga maioria) no mês de Junho.

Mas nada ficaria na mesma.

Ainda agora, e volto à campanha para as eleições presidenciais, o mais provável (até ver) futuro presidente da República francesa, Nicolas Sarkozy, disse, em discurso muito acalorado (e estava muito calor em Bercy no passado dia 29...):
"Mai 1968 nous avait imposé le relativisme intellectuel et moral. Les héritiers de mai 1968 avaient imposé l'idée que tout se valait, qu'il n'y avait donc désormais aucune différence entre le bien et le mal, le vrai et le faux, le beau et le laid. Ils avaient cherché à faire croire qu'il ne pouvait exister aucune hiérarchie des valeurs. D'ailleurs, il n'y avait plus de valeurs, plus de hiérarchie. Il n'y avait plus rien du tout !".

Surgiram logo protestos de protagonistas lendários de 68. Cohn-Bendit (sempre ele...) disse que Sarkozy é um bolchevique e Jacques Lang veio declarar:
"J'ai participé aux événements de Mai 68. Cela a été un moment de libération dans un pays qui à l'époque était relativement claquemuré. Mai 68 a été un moment où se sont affirmés des droits nouveaux dans tous les domaines".

Ségolène Royal comentou a intervenção de Sarkozy (num comício em 1 de Maio):
"Quelle mouche l'a piqué? (...) Il a tenté de liquider une partie de l'Histoire: Mai 68" e lembrou que, em 68, "De Gaulle a dit que la société voulait le dialogue et la participation et que on lui a répondu par la force (...). Mais Mónsieur Sarkozy n'est pas le général De Gaulle».

Quase quarenta anos depois, a polémica continua viva.

E bem vivos estão também, na nossa memória, os célebres slogans de 68. Aqui ficam uns tantos. Estou certa de que acordarão nostalgias em alguns «soissante-huitards» que por cá andam...


* Soyez réalistes, demandez l'impossible!

* Dessous les pavés, c'est la plage!

* La chienlit, c'est lui! L'anarchie, c'est je!


* Les murs ont des oreilles. Vos oreilles ont des murs.

* Mettez un flic sous votre moteur.

* Ici, on spontane.

* Le rêve est réalité.


* Nous somes tous des juifs allemands.

* J'ai quelque chose à dire, mais je ne sais pas quoi.

* Ne prenez plus l'ascenseur ! Prenez le pouvoir!

* Le pouvoir est au bout du fusil. (Est-ce que le fusil est au bout du pouvoir ?)

1.5.07

1º de Maio de 1973 - o último sem liberdade

(José Dias Coelho, 1961)


As manifestações do 1º de Maio de 1974 foram tão fortes, ficaram de tal maneira gravadas na memória de quem as viveu, ou de quem vai vendo as imagens ano após ano, que podemos ser levados a esquecer o que eram os 1ºs de Maio no tempo do fascismo. Mas não devemos.

Recordo hoje o último – o 1º de Maio de 1973 –, citando uma circular da CNSPP (Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos), datada de 9/5/1973:

«Tem-se verificado, nas últimas semanas, um acentuado agravamento da repressão política no nosso país: com o pretexto de impedir quaisquer manifestações públicas por ocasião do 1.º de Maio, procedeu a Direcção-Geral de Segurança à prisão indiscriminada de um elevado número de pessoas, em várias localidades e pertencendo aos mais diversos sectores de actividade profissional. Só durante o período que decorreu de 7 de Abril a 7 de Maio tem a CNSPP conhecimento de terem sido presas 91 pessoas, cujos elementos de identificação se possuem já. Sabe-se, no entanto, que muitas outras dezenas de pessoas foram detidas (...)
No 1.° de Maio, as zonas centrais da cidade de Lisboa e Porto foram teatro de grandes concentrações por parte das forças das diversas corporações policias e parapoliciais (com agentes fardados e à paisana). No Rossio e em toda a área circundante essa presença não se limitou ao papel de intimidação ou de repressão, mas adquiriu características de verdadeira agressão: espancamentos brutais e indiscriminados, grande número de feridos, dezenas de prisões. Dessa agressão foram vítimas muitos trabalhadores, assim como estudantes e outras pessoas que se limitavam a passar pelo local».

O cenário repetia-se todos os anos, cada vez com maior repressão, porque se reforçava a resistência e a reacção dos portugueses a condições políticas e sociais absolutamente insuportáveis e a uma interminável guerra colonial. Eram muitas as movimentações de trabalhadores, habitualmente concretizadas em greves (totalmente proibidas e reprimidas, como é óbvio). Em Abril e Maio, há que referir, as de empresas como: CUF, Mague, Cel-Cat, Cabos d'Ávila, bancários, etc., etc.



Entretanto, no fim da década de 60 e nos primeiros anos da de 70, tinham surgido novas formas de luta com organizações como a LUAR, a ARA e as Brigadas Revolucionárias.


Na madrugada desse 1º de Maio de 1973, as Brigadas Revolucionários fizeram explodir engenhos que destruíram dois pisos do Ministério das Corporações, na Praça de Londres em Lisboa. Na véspera, tinham distribuído panfletos convocando para as manifestações do 1º de Maio, em cerca de 200 localidades, através do rebentamento de petardos.

Durante a tarde, foram recebidos telefonemas com falsos alertas de bomba em várias empresas de Lisboa. Veio a saber-se depois que o objectivo da iniciativa era «libertar» mais cedo os trabalhadores para que pudessem participar na manifestação. Lembro-me perfeitamente deste facto porque uma dessas empresas foi a IBM, onde eu trabalhava. E lá fomos alguns (poucos...) para o Rossio.




Um ano depois foi a festa. Inesquecível. Quase irreal.

29.4.07

«Ufanosos do nosso ideal»

Sempre tive um fascínio por hinos. Não chega para que me dedique à hinologia, mas a verdade é que me intrigam. Guardo na memória uns tantos – sabe-se lá como e porquê –, que sei de cor há muitos anos. (Será por isso que escolhi para título do meu livro um verso do hino nacional? É bem possível...)

Antigamente, ensinavam-nos muitos. Já nem falo dos religiosos propriamente ditos, mas dos da pátria, das escolas, das organizações.

O que me impressiona é que os hinos se entranham de tal maneira em quem os interpreta que conseguem fazer esquecer o conteúdo. Quem canta um fado, pensa no que está a dizer – não quem canta um hino. Os hinos desempenham um papel puramente simbólico que oculta todos os possíveis despautérios escondidos na letra. Dizem-se, convictamente, palavras estranhas e absolutamente desconhecidas. Quando oiço os garbosos jogadores da selecção nacional de futebol, perfilados antes dos jogos internacionais, pergunto-me se algum deles já parou para tentar saber o que são «egrégios avós»...

Vem tudo isto a propósito de um mail que o Abílio Tavares Cardoso me enviou ontem, com a pérola abaixo transcrita. Parece que isto foi cantado, pelo menos, até 1960...



Hino do Seminário de Santarém

Mocidade a vibrar generosa
Nós a vimos a Cristo ofertar
E seremos a luz radiosa
Para a senda do bem apontar

Prometemos p’la nossa bandeira
Evitar o que ao mundo seduz
E espalhar pela Pátria inteira
A doutrina pregada na Cruz

Refrão

Ufanosos do nosso ideal
Eia avante por Deus com ardor
E faremos surgir Portugal
P’ra uma aurora de paz e de amor

28.4.07

A polícia política de Salazar



«Conversas com História»
A polícia política de Salazar
Irene Pimentel (*)

FNAC (Chiado)
2/5/2007
18h30




(*) Irene Pimentel é investigadora, tendo defendido, em Janeiro de 2007, uma ítese de doutiramento intitulada A PIDE/DGS - História da Polícia Politica do Estado Novo

26.4.07

Livros de Memórias

Embora não exista entre nós uma tradição memorialística significativa, parece que, desde há algum tempo, os livros de memórias estão definitivamente na moda.

Mas este não é novo. Encontrei há dias, mais ou menos por acaso, numa espécie de Feira do Livro, a obra que Raimundo Narciso publicou há sete anos:

A.R.A., Acção Armada Revolucionária – A História Secreta do Braço Armado do PCP, Dom Quixote, Lisboa, 2000, 410 p.

É, de facto, mais um livro de memórias, escrito de dentro das histórias, de leitura extremamente agradável e fácil, apesar do detalhe com que são descritas acções, situações e pessoas; «(...) o registo - por quem o viveu - da luta abnegada, das aventuras, medos, raivas, coragens, de homens e mulheres com nome e rosto (...)».

Fiquei a saber muito mais sobre acontecimentos de que conhecia a existência - mas não a substância - e que localizava mal no tempo.

Para quando documentos semelhantes sobre outras organizações, algumas delas até contemporâneas da ARA e com características, pelo menos parcialmente, semelhantes? Estou a pensar, obviamente, na LUAR e no PRP/BR. Era importante que os protagonistas não desaparecessem sem deixarem o seu legado.