2.1.10

Um estranho auto-retrato


Só Murakami me faria ler um livro mais adequado como presente de Natal para o eng, Sócrates do que para a minha mesa-de-cabeceira.

Leitora de uma fidelidade incondicional a toda a sua obra de ficção, de uma imaginação fulgurante, por vezes fantasmagórica, nunca me passou pela cabeça que o subtítulo do seu auto-retrato - «enquanto corredor de fundo» - fosse isso mesmo: a descrição detalhada da dedicação ao jogging, à maratona e ao triatlo como práticas desportivas e formas de terapia, dos treinos, das frustrações, do estoicismo, das pequenas vitórias, da relação de tudo isto com a escrita, como forma de concentração e sobretudo de perseverança.

Não será um grande livro, nada que se compare à força da outra inesquecível obra de não ficção (Underground), mas lê-se bem.

E estou com Murakami quando ele diz, numa das últimas páginas: «Daqui a instantes, preparo-me para nadar uma distância de mil e quinhentos metros, depois é pegar na bicicleta e percorrer quarenta quilómetros e, por fim, correr dez quilómetros. E para quê, não me dizem? Não seria mais fácil se me pusesse a deitar água numa velha panela com um buraquinho no fundo?»

Eu escolheria a panela, como é óbvio.

Haruki Murakami, Auto-retrato do escritor - enquanto corredor de fundo, Casa das Letras, 2009, 192 p.

Mais uma polémica para me tirar o sono



















Grego ou turco?

A realidade filtrada














Posso assinar, jpb?

«Provavelmente, em nenhuma outra década como na que agora começou a acabar chorámos ou rimos tanto por causa de gente que achávamos que conhecíamos. Já muito se tem falado desta virtualidade, que foi uma das grandes marcas da época: nunca tivemos tanta gente ao alcance dos dedos, nunca o mundo nos entrou tanto pela casa dentro.

Mas talvez nunca tenhamos estado tão afastados dos outros e da realidade, porque só uma parte deles - e dela - nos chega pelo monitor. E essa parte é a mais segura e asséptica: não há cheiros, nem toques, nem frio nem calor, nada nos atinge sem ser filtrado.»

1.1.10

A mulher e a costela



















Não estava nos meus planos iniciar 2010 a falar de Bento16, mas terá de ser. Há dois dias, na última audiência geral do ano, o papa decidiu analisar o pensamento de Pedro Lombardo, um filósofo italiano do século XII.

Entre muitas outras considerações, diz o papa: «E Pedro pergunta por que motivo a criação da mulher se deu a partir da costela de Adão e não da cabeça ou dos pés. E explica: “Vinha formada não como dominadora ou escrava do homem mas como companheira”». E continua a citar Lombardo quando este afirma que «assim como a mulher foi formada a partir da costela de Adão enquanto este dormia, assim a Igreja nasceu dos sacramentos que começaram a escorrer do flanco de Cristo que dormia na cruz ou seja do sangue e da água que nos libertam do sofrimento e nos purificam da culpa».

Que Bento16 tenha querido recordar esta espécie de história da carocinha numa versão de há nove séculos, em termos em que parece tomá-la à letra, já é no mínimo obscurantista da parte de um «intelectual» que sabe, como toda a gente, que isso não faz sentido. Mas quando conclui que o que acabou de citar «são reflexões profundas e válidas ainda hoje quando a teologia e a espiritualidade de matrimónio cristão aprofundaram muito a analogia com a relação conjugal entre Cristo e a sua Igreja» pretende dizer exactamente o quê? «Reflexões profundas e válidas»? Ou andará ele obcecado com relações conjugais (homens com mulheres, homens com homens e aí por diante)? Mas talvez não venha esclarecer grande coisa ao falar agora de costeletas e de cruzes.

P.S. - Já antevejo que alguns guardiões do templo venham dizer-me que o papa falava para os católicos e que os incréus não são para aqui chamados. Certo, mas as agências noticiosas do mundo inteiro difundiram a notícia e aguçaram-me o apetite. Em todo o caso, desta vez resolvi ir à fonte – ler para crer. E deixo aqui não só o link para o documento no Osservatore Romano, porque ele é longo, mas o parágrafo que interessa:

«Per avere un’idea dell’interesse che ancor oggi può suscitare la lettura delle Sentenze di Pietro Lombardo, propongo due esempi. Ispirandosi al commento di sant’Agostino al libro della Genesi, Pietro si domanda il motivo per cui la creazione della donna avvenne dalla costola di Adamo e non dalla sua testa o dai suoi piedi. E spiega: “Veniva formata non una dominatrice e neppure una schiava dell’uomo, ma una sua compagna” (Sentenze 3, 18, 3). Poi, sempre sulla base dell’insegnamento patristico, aggiunge: “In questa azione è rappresentato il mistero di Cristo e della Chiesa. Come infatti la donna è stata formata dalla costola di Adamo mentre questi dormiva, così la Chiesa è nata dai sacramenti che iniziarono a scorrere dal costato di Cristo che dormiva sulla Croce, cioè dal sangue e dall’acqua, con cui siamo redenti dalla pena e purificati dalla colpa” (Sentenze 3, 18, 4). Sono riflessioni profonde e valide ancora oggi quando la teologia e la spiritualità del matrimonio cristiano hanno approfondito molto l’analogia con la relazione sponsale tra Cristo e la sua Chiesa.»

Regressar aos «clássicos» - porque não?


31.12.09

2010? Recebam-no assim




P.S. - Por acaso, foi mais ou menos assim que entrei em 1/1/2010: uma noite absolutamente hilariante!

Da boa disposição
















Fila de espera no Califa, para comprar o dito cujo. Tentativa de diálogo:

- Estão pouco tostadinhos.
- …
- O Bolo Rainha é melhor, mas prefiro o Rei.
- …
- Embrulham com papéis tão grandes! Por isso é que está mais caro.
- …
- Já viu que não têm frutas verdes?
- …
- E pinhões? Nem vê-los, só amêndoas porque são mais pesadas!
- Então um bom ano para si.
- Bom ano? Vai ser muito pior!

(Bom ano também para si,
dr. Cavaco!)

Blogosfera 2009


30.12.09

Referendo? Sem qualquer espécie de dúvida!

















Um grupo de cidadãos portugueses inicia neste dia as diligências necessárias ao lançamento de uma iniciativa popular que proporá a realização de um referendo que incidirá sobre a seguinte pergunta:

«Concorda que o casamento possa ser celebrado entre pessoas de sexo diferente?»

Assine a petição.
Ou junte-se à Causa no Facebook.

(Iniciativa das Moscas)

A linha da vida




















O segredo está em fintar o destino e esticar a linha da vida, se possível até ao ombro.

«Devidamente adaptado, o processo tem vindo a ser seguido entre nós com o objectivo de alterar o curso da crise e o lamentável destino financeiro que se avoluma no horizonte do Orçamento de Estado. Anunciando repetidamente o fim da crise (…), espera-se que a crise se convença e a realidade não tenha outro remédio senão conformar-se à propaganda.»

Manuel António Pina, no JN de hoje.

À espera de 2010


Com um grão de nostalgia




















Não sou grande admiradora das prosas de Baptista Bastos, mas a crónica que hoje publica no DN, em jeito de balanço, tocou-me fundo.

«Fecho o ano, remato a frase e concluo: esta gente não gosta da gente. No entanto, construímos as casas deles, montamos-lhes as electricidades, as águas correntes, limpamos as suas sujidades, areamos os seus metais, brunimos as suas roupas, ensinamos os seus filhos, escrevemos os jornais e os livros que deviam ler. Esta gente dirige os nossos destinos, orienta os nossos dias, determina os nossos ordenados, impõe o nosso comportamento, comanda o nosso presente, molda o nosso futuro. (…)

Nenhum de nós é inocente. Pertencemos ao bragal de uma civilização que cumpriu a vocação do conquistador: matou, estropiou, escravizou, mas fez do mato a cama onde dormiu com as mulheres que alimentavam as fantasias dos nossos sonhos. Uma combinação perfeita de poesia e maldade. (…)

Tudo parece perdido porque tudo parece inamovível. Contudo, ante esta empresa de demolição moral e de domínio absoluto, é preciso resistir. É preciso compreender que nós somos imprescindíveis. Examinamo-los: são sombrios e tristes, desamparados de gramática e arrogantes na sua obstinada maneira de manter um socialismo ou uma social-democracia degenerados e de má-fé. Sumiu-se, nesta aflitiva e aflita mediocridade, a qualidade áurea de um projecto que nos inspirou.»