20.2.11

Conta-me como vai ser

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1969 foi o ano em que toquei pela primeira vez num computador. Com o delicioso pormenor de então me pentear exactamente como a senhora do vídeo...

(Via Manuel Vilarinho Pires no Facebook)
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Mal vai o país…


… onde se lê isto no principal semanário de referência:

«Durão e a greve da CP - Na semana em que o presidente da Comissão Europeia fez uma viagem mistério para encontros com o Presidente da República e o primeiro-ministro – talvez para dar conta das pressões para que Portugal recorra rapidamente ao apoio externo – milhares de portugueses sofriam os efeitos de uma sucessão de greves naquela que é uma das empresas mais endividadas do Estado: a CP. A greve está consagrada na Constituição. Nas actuais circunstâncias do país, o bom senso dos trabalhadores e dos sindicatos também o devia estar.»
(Fernando Madrinha, Expresso, 19/2/2011)

O título parece insinuar que foi mau «mostrar» a Durão Barroso que acontecia uma greve em Portugal, precisamente quando ele vinha em tão nobre missão… Mas percebe-se depois que há mais e que suspender a democracia durante seis meses seria pecar por defeito: sine die é que é, até alguém decretar, em Bruxelas ou sabe-se lá onde, que a «crise» acabou e que vamos todos ser felizes para sempre! Sempre a melhorar…
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19.2.11

Taprobana


Custou mas está decidido: irei em breve não para além, mas à Taprobana propriamente dita – ou Ceilão ou Sri Lanka, como se preferir. Ficaram para trás outras hipóteses de viagens, sendo que Líbia e Egipto não me pareceram, neste momento, destinos turísticos muito aconselháveis…

Assim sendo, (juro que não fiz de propósito, a não ser que o meu subconsciente tenha agido por mim), na véspera de uma tomada de posse ali para as bandas de Belém, ponho-me a milhas, no sentido estrito do termo. Também falharei a discussão de uma moção de censura que assustou meio mundo e nem sei quantas manifestações com dezenas, milhares ou mesmo um milhão de pessoas que calcorrearão as ruas de Lisboa. Não sei se encontrarei pedra sobre pedra no regresso, mas julgo que sim: não verei nas televisões, do outro lado do mundo, o Terreiro do Paço transformado numa pequena Praça Tahrir.

E espero que, entretanto, não haja vulcões que se lembrem de vulcanizar, contágios de revoluções que se revolucionem muito para Oriente ou justas greves que parem aeroportos. Um tsunami também não me dava muito jeito…
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A revolução e os lixos


No Babelia de hoje, um belo texto de Antonio Muñoz Molina, onde se fala muito de Portugal 74 e não só.

«Algunas de las revoluciones mejores de la mía [vida] les han sucedido a otros. La primera alegría política desbordada de la que tengo recuerdo me sucedió una tarde de finales de abril en Madrid, en 1974, cuando compré el diario Informaciones, que era el que leíamos los antifranquistas, y vi el titular que anunciaba la Revolución de los Claveles en Lisboa. La dictadura acababa de caer, pero había caído al otro lado de la frontera. (…)

La libertad era posible, aunque fuera en otra parte. Nosotros imaginábamos que una dictadura era como una fortaleza de muros de hormigón y troneras blindadas que sólo sería posible tomar por asalto o derribar a cañonazos: pero en Portugal el edificio entero de la dictadura se había desmoronado sin que los militares alzados contra ella dispararan sus fusiles, y sin que los carros de combate tuvieran otra misión que la de servir para que la gente feliz escalara sus torretas. (…)

Ahora me acuerdo de aquellas revoluciones siempre ajenas, triunfales o fracasadas, viendo imágenes de las multitudes en esa plaza que de pronto se ha agregado a la geografía de la libertad, la plaza Tahrir, escuchando voces de egipcios en la radio pública americana y en la BBC, leyendo los reportajes admirables de The New York Times, donde el periodismo se sigue ejerciendo como un oficio responsable de adultos. Las decepciones de tantos años, el cinismo instintivo español, no llegan a malograrme la alegría, la antigua alegría delegada por la libertad súbita de otros. Lo que vaya a pasar mañana o el mes que viene no se sabe. Lo que pasa hoy nadie lo vaticinaba hace sólo un mes. La economía, la politología, la sociología han demostrado tener el mismo rigor predictivo que la ufología. Pero esta mañana me ha alegrado el día ver en la portada de The New York Times a la gente joven de la plaza Tahrir recogiendo hacendosamente la basura acumulada en los últimos días. En mi país las grandes alegrías colectivas suelen tener un origen alcohólico o futbolístico, y dejan tras de sí un rastro de toneladas de basura que siempre recogen otros.» (O realce é meu.)
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O Expresso da Parva Noite


Quem viu ontem ao habitual programa da SIC N, às 23h de 6ª feira, não perdeu a oportunidade de assistir a um triste espectáculo. O tema era os Deolinda (ainda!…) e um painel totalmente desequilibrado (ó Pluralismo no debate…), de três senhores encartados – Vicente Jorge Silva, Pedro Lomba e António  Dornelas – tentou, em vão, «abater» um Tiago Gillot, extraordinariamente calmo e bem estruturado, que nunca deixou de colocar as questões no plano em que elas devem ser postas, sem demagogias nem temores.

Ficarão para o anedotário da noite duas intervenções de Vicente Jorge Silva: a reivindicação da condição de precário, apesar de receber uma reforma e de continuar a fazer muitos biscates, e uma frase que disse e repetiu, com convicção lapidar, referindo-se ao pós-25 de Abril: «A liberdade paga-se com precariedade». Nem mais.

(O programa pode ser visto aqui.)
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18.2.11

O tempo é outro, não as cerejas

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(Via Mariana Avelãs no Facebook)
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Medo ou optimismo?


Tendo como referência o valor do PIB, foi declarado que a China ultrapassou o Japão, é já a segunda potência mundial e poderá tirar o primeiro lugar aos Estados Unidos em 2025.

Percurso complicadíssimo e cheio de escolhos, num país em que cerca de cem milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, a inflação derrapa, o perigo de a bolha imobiliária rebentar é uma realidade, há falta de mão-de-obra qualificada em muitos sectores e onde as exportações representam 40% do PIB, quando os seus principais mercados externos estão em recessão ou perto dela.

Last but not the least, o governo chinês sabe que não poderá dominar e contrariar eternamente as reivindicações de direitos políticos dos seus cidadãos e tem de encarar uma vez por todas essa situação.

Externamente, a China enfrenta a desconfiança da Europa e dos Estados Unidos que temem a sua hegemonia no plano económico e desconfiam da concorrência no palco geopolítico mundial.

E, no entanto, há também razões para optimismo: «Devíamos regozijarmo-nos porque centenas de milhões de chineses estão a conseguir, pouco a pouco, sair da miséria. Mas há mais do que isso. Uma economia chinesa próspera é uma oportunidade para o conjunto do planeta. Grande consumidora de matérias-primas, ela dá um novo impulso aos países produtores, nomeadamente de África e da América Latina. Com uma população de 1.300 milhões de habitantes, oferece um gigantesco mercado às grandes e às pequenas multinacionais que lhe fornecem produtos e serviços.»

(A partir daqui.)

Claro que tem de ser possível tirar partido das grandes potencialidades de tudo isto e de muito mais. Mas não sei se estamos no bom caminho, sobretudo se temos no horizonte os enquadramentos ideológicos mínimos, indispensáveis para gerir correctamente o que aí está e o que está para chegar, necessariamente a velocidades vertiginosas. O modelo de gestão da actual «crise» não augura nada de bom. Optimismo muito mitigado, portanto…
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Não será assim tão simples...


... mas continuo a seguir o que se passa no Butão e os sucessos e insucessos do «Gross «National Happiness». Neste vídeo, o conceito apresentado de um modo muito elementar.


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Adiantando leituras


É já para amanhã que está convocada mais uma manifestação na Argélia, depois de uma outra, relativamente frágil e fortemente reprimida. No turbilhão de acontecimentos simultâneos em tantos países, tendemos a considerá-los todos mais ou menos iguais, ou pelo menos todos «árabes», o que está longe de corresponder à realidade.

No caso argelino, há uma composição étnica complexa que introduz variantes específicas: não existem apenas árabes, mas também berberes com uma longa tradição de lutas ela afirmação da identidade, o que está longe de facilitar lutas e unidades.

Talvez porque é o único de todos estes países que conheci minimamente, durante uma estadia razoável, e porque não estive só em Argel mas também na Cabília e vi as diferenças, sou especialmente sensível a este caso e aconselho a leitura de um texto publicado ontem no Buala.

«Os falantes da língua berbere ou tamazight representam um quarto a um terço da população argelina. Desde a independência do país, o árabe sucedeu ao francês como língua oficial. A política linguística argelina traduz-se por uma arabização massiva da administração e do ensino. É então em Cabília, região nordeste da Argélia, que se encontra o maior movimento de luta contra este fenómeno político-religioso. Sobretudo desde 1977, altura da criação da Universidade de Tizi-Ouzou, que esta região tem sido palco de troca ideológica, etnográfica e cultural mas também de repressão e controle por parte das autoridades oficiais do estado.

Um dos movimentos mais marcantes da afirmação da identidade amazigh na Argélia foi a “Primavera berbere” que marca o primeiro movimento popular espontâneo e abre caminho a outros movimentos que pretendem pôr em causa o regime argelino, até então nunca contestado, desde a independência do país em 1962. A Primavera berbere ocorre a partir de Março em Cabília e seguidamente, em Argel.

Para além do plano político, esta luta tinha objectivos sociais no sentido de encorajar uma geração de intelectuais a comprometerem-se num combate democrático e no plano cultural. O objectivo era quebrar o tabu linguístico e cultural, o que claramente traduz a vontade de pôr em causa a arabização intensa de toda a máquina administrativa em detrimento do berbere. Esta tomada de consciência identitária chegou a Marrocos onde estes eventos são comemorados. A Primavera Berbere é celebrada anualmente.»

(Continua aqui.)


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