23.7.11

Se a Amazónia deve ser internacionalizada


... internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro.

A história tem onze anos mas merece ser recordada. O brasileiro Cristovam Buarque, hoje senador e que foi ministro da Educação de Lula em 2003-2004, respondeu a um estudante que o interrogou sobre a possibilidade de internacionalizar a Amazónia com o discurso que pode ser ouvido neste vídeo.



O texto do discurso:

«Fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia, durante um debate, nos Estados Unidos. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha. De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia.

Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia é para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da humanidade.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.

Ídolo

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Nuvens de Bruxelas


Um texto de José Manuel Pureza. (Os realces são meus.)

Os Governos europeus reconheceram o que era evidente: a teimosia em não aceitar a reestruturação da dívida grega não era cegueira, era mesmo estratégia deliberada de provocação da bancarrota. E a reestruturação aí está, depois de tantas juras de que nunca aconteceria. Bruxelas entrou no caminho da razão? Não, não entrou. Porque cedendo aqui, manteve o essencial da sua fidelidade à ortodoxia penalizadora das economias. É verdade que os juros deixaram de estar num patamar de agiotagem declarada. É verdade que os prazos de pagamento da dívida foram alargados. Mas o Conselho Europeu deixou duas mensagens claras, ambas erradas e ambas sombrias para as economias e as sociedades da Europa.

A primeira é a de que os programas de austeridade não serão beliscados. O que Bruxelas nos está a dizer é que a recessão se mantém como horizonte desejado para as nossas economias e que as privatizações baratas dos bens comuns se mantêm como receita. Emagrecer a parte da economia que se relaciona com a grande maioria das pessoas e engordar até à obesidade mórbida os que mais têm – eis o credo desta governação económica da União Europeia. Empobrecer as sociedades e retirar pressão aos direitos e aos salários é o seu programa político. Não fossem os portugueses acreditar que finalmente a União Europeia tinha reconhecido a necessidade de respirar de quem trabalha, Passos Coelho apressou-se a advertir que não haverá abrandamento do programa de austeridade do Governo. “Antes pelo contrário”, sublinhou. Os boys da direita com guia de marcha para as prebendas públicas e os titulares de dividendos isentos do imposto que vai subtrair metade do subsídio de Natal aos trabalhadores e à classe média podem dormir descansados. Nada se alterará. A Europa assim manda.

A segunda mensagem é a de que, aceite para a Grécia, esta reestruturação não será aceite para mais nenhum Estado membro. Novo erro. Porque mostra que Bruxelas insiste em segmentar uma crise que é europeia e não de cada país. A lógica traduzida na insistência em que “a Irlanda não é a Grécia”, “Portugal não é a Irlanda” ou “Itália e Espanha não são Portugal” foi sempre uma lógica armadilhada. À Esquerda cabe desmontar o engodo nacionalista desta lógica e contrapor-lhe que, diante dos ataques sem fronteiras contra os salários e os direitos, nós somos portugueses, mas somos também gregos, italianos ou irlandeses. E, já agora, também somos alemães.

(Daqui)
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«Não destruirão a nossa democracia»


Da Noruega chega o horror, em notícias e em imagens. Impossível sequer imaginar, há menos de um mês, quando passeei por aquelas mais do que pacíficas ruas de Oslo. O mundo sempre imprevisível, neste caso pelas piores razões.

Sem mais comentários, o discurso do primeiro-ministro:



«Eles não nos destruirão, eles não destruirão a nossa democracia. (…) A resposta à violência é a democracia.»
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22.7.11

Dantes era assim (6)


Sem pressas.
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Eça dixit: «Nós estamos num estado comparável à Grécia»


«Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte.»

Eça de Queirós, Farpas (1872)

(Daqui)
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Num 22 de Julho


… em 1969, o actual rei de Espanha foi designado pelas cortes espanholas como sucessor de Franco, jurando-lhe lealdade e respeito pelas leis vigentes, o que cumpriu - é bom não esquecer.

Sempre que vejo elogiar a Transição espanhola, quando comparada com o 25 de Abril, vem-me à memória este (terrível) vídeo:



(Ler: El rey juró lealtad a Franco y todas sus leyes.)
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Uma não-notícia?

@Paulete Matos



Artigo 13.º20
Ex‐Presidentes da Assembleia da República
1 ‐ Aos ex‐Presidentes da Assembleia da República que se mantenham no exercício do
mandato de Deputado é atribuído, nas instalações da Assembleia da República, um gabinete próprio.
2 ‐ Os ex‐Presidentes da Assembleia da República poderão ser apoiados por um funcionário da sua livre escolha, a destacar do quadro de pessoal por despacho do Presidente da Assembleia da República.

No fundo, Mota Amaral terá exactamente os mesmo privilégios que os vice-presidentes em exercício (Guilherme Silva, Ferro Rodrigues, Teresa Caeiro e António Filipe têm direito a gabinete individual, secretária, carro e motorista), o que não me parece propriamente um escândalo de lesa- pátria. Há outros bem piores.

Se todos deviam andar de lambreta e calçar alpercatas, isso é já uma outra questão…
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O medo é uma cena que a mim não me assiste

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Em dois dias, visto por mais de um milhão de pessoas. A Ana Sousa Dias explica.
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21.7.11

Antes que o dia acabe


A Bélgica também é isto. E sempre:

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Promiscuidade como regra?

@Paulete Matos

Afinal sempre há alguns benefícios colaterais da presença da troika em Portugal. Por exemplo, um relatório que lhe foi enviado pela TIAC (Transparência e Integridade – Associação Cívica), ponto de contacto em Portugal de uma organização internacional de luta contra a corrupção.

O Jornal de Notícias de hoje dedica uma página inteira a este tema (sem link), pela qual se fica a saber não só que «dos 230 deputados que integravam o anterior Parlamento cerca de 70 (um terço) eram simultaneamente administradores, gestores ou consultores de empresas que tinham directamente negócios com o Estado», como, mais concretamente e «melhor» que, «na Comissão Parlamentar de Obras Públicas, “quase metade dos deputados eram administradores de empresas privadas de obras públicas”» (sic!).

Chama-se a atenção da troika para o facto de algumas medidas previstas no Memorando (privatizações, parcerias público-privadas, etc.), poderem criar mais oportunidades para corrupção, «dada a forte promiscuidade entre interesses públicos e privados em Portugal» e acusa-se a Comissão de Ética, «uma das vergonhas do Parlamento», de «branquear todo e qualquer conflito de interesses». A cada momento, os deputados não sabem que interesses estão a defender: «Representam o povo junto do seu sector ou os seus sectores junto do Estado?»

É também sublinhada a facilidade com que dirigentes políticos transitam para empresas privadas que anteriormente tutelavam, defendendo-se um período de nojo mais longo e abrangendo também empresas públicas.

Fidedigno ou exagerado, este estudo merece toda a atenção. Porque não temos uma Assembleia de anjos, mas sim de seres humanos, todo o cuidado é pouco e mais vale prevenir do que remediar. Para além de que, como é sabido, à mulher de César não lhe basta ser honesta…

P.S. – No mesmo relatório, é abordada a já clássica discussão sobre compatibilidade entre exercício de advocacia e actividade de deputado, neste caso com link para a JN: Um quinto dos deputados são também advogados.
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Aleluia: chegou o pluralismo à ICAR!