17.1.15

Imbróglios de uma privatização



Nicolau Santos, Expresso, Economia, 17.01.2015
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Lido por aí (211)

Liberdade de expressão e prisão de Dieudonné



Um ponto de vista de José Pacheco Pereira, certamente polémico, no Público de hoje:

«No “Je suis Charlie” e nas manifestações que se mobilizaram a partir dessa frase há várias coisas que não oferecem dúvidas. Há algumas minorias que não pensam assim, e que são coniventes com o terrorismo, por múltiplas razões, mas essas não estiveram lá. Entre os que estiveram lá, a luta contra o terrorismo é inequívoca. A luta contra a violência política é inequívoca. A luta pela liberdade, pela maior liberdade que se vive na nossa parte do mundo, é inequívoca. Já a luta pela liberdade de expressão parece inequívoca, mas é muito menos.

Uma semana depois, as autoridades francesas mostraram que “não são Charlie” prendendo um comediante antissemita, Dieudonné M’Bala, que entre outras barbaridades escreveu, nesse lugar onde se fazem hoje todas as asneiras, o Facebook, a frase “Je suis Charlie Coulibaly”. Coulibaly foi o terrorista que matou uma mulher polícia e um grupo de frequentadores da loja judaica, antes de ser abatido pela polícia. (...)

O que faz Dieudonné é socialmente perigoso? Penso que sim, mas também penso que o que fazia o Charlie Hebdo também o era, como comprovaram infelizmente os próprios. A defesa da liberdade de expressão faz-se exactamente aqui, na defesa do direito dos outros emitirem opiniões que me indignam, ofendem e enojam. (...)

Escritos perigosos há muitos e eu como muitos já os escrevemos. O que é que significa fazer a apologia da violência revolucionária numa sociedade democrática? O que é uma revolução? Tiros, mortos, prisões, pancada, como lembrava o velho Mao Zedong, uma revolução não é um banquete de gala. Pode-se encontrar, e eu conheço-as a todas, as argumentações para a diferenciar o apelo à violência assente numa base social e política, mesmo nacional, diferente do argumento étnico, mas nós só valorizamos essa diferença e a “sentimos” como menos perigosa porque o ímpeto revolucionário nas sociedades ocidentais não tem hoje muito significado e não mete medo a ninguém. Pelo contrário, os ódios étnicos parecem muito mais significativos e perigosos. Mas, em democracia, o apelo à violência cabe na liberdade de expressão, a não ser que se proíba milhares de pequenos escritos, jornais, panfletos. (...)

Quem foi morto? Vários jornalistas e desenhadores radicais e iconoclastas, vários polícias, um deles muçulmano e que podia perfeitamente detestar o Charlie Hebdo, e um conjunto de jovens judeus que estavam a fazer compras num loja kosher. Franceses e em França, em Paris, uma das sedes cosmopolitas do mundo “ocidental”, vivendo o modo de vida que reconhecemos como nosso, incluindo uma liberdade de expressão que vai até à blasfémia e ao nojo racista. Porque, quem não quer, não compra o Charlie Hebdo ou não vai ver os espectáculos de Dieudonné. Foi isso que foi atacado, é isso que temos de defender e implica “ser Charlie” e protestar com a prisão de Dieudonné.»
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Grandes causas



Expresso de hoje, 1ª página
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16.1.15

Ide e lede


João Maria de Freitas-Branco divulgou hoje, no Público, um excelente artigo – O inimigo e a resposta – que pode ser lido na íntegra por assinantes do jornal e por quem tem conta no Facebook. Quantos aos outros... não sei, talvez só com engenho e arte.

«A fé não faz do homem um ser melhor. É necessário dizê-lo com clareza: sempre que o conteúdo de uma asserção é aceite como verdade sem exigência de prova racional, instituindo o primado do irracional; sempre que a palavra de um profeta é acolhida como verdade inquestionável; sempre que se promove a crença numa entidade absoluta, numa qualquer divindade pessoal a que se atribuem qualidades absolutas; sempre que se faz acreditar em aparições, milagres e outros alegados factos sobrenaturais, abre-se a porta ao fanatismo, à acção cega, ao terror.» 
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A mudança da Europa começa no Sul



Alexis Tsipras: 
«El 25 de enero Grecia cerrará la puerta al pasado. La victoria de Syriza es la esperanza del cambio para el mundo del trabajo y de la cultura europeos. Desde la oscuridad de la austeridad y el autoritarismo a la luz de la democracia, la solidaridad y el desarrollo sostenible. Pero Grecia es solamente el inicio del cambio que viene por el Sur de Europa.» 

Na íntegra AQUI.
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A queda de um anjo chamado Francisco



Já correram mundo as afirmações que o papa Francisco fez na viagem entre a Sri Lanka e as Filipinas. Com muito boa vontade, pode imaginar-se que o violento Sol de Colombo e arredores o perturbou (parece que isso até aconteceu...) ou que, distraído com a quantidade e imponência dos elefantes cingaleses e da selva da Taprobana, se esqueceu do mais elementar bom senso. 
Ou não, ou não... «Chassez le naturel, il revient au galop» – vou muito mais por aí.

A Fernanda Câncio, responde-lhe à letra, no DN de hoje:


(Via Câmara Corporativa.)
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ASAE no seu melhor



«Esta semana soube de uma história extraordinária. Numa das zonas próximas de Lisboa que ainda têm uns restos de agricultura, uma mulher empreendedora decidiu criar o seu posto de trabalho num negócio próprio, baseado no seu talento culinário. Com recurso a produtos naturais da região, criou uma marca, com várias variedades, montou uma cozinha regulamentar e meteu mãos à obra. Pagou impostos e taxas, fez comunicação e publicidade, foi a feiras e certames e ganhou prémios de qualidade. Nas lojas da região, os seus produtos ganharam fama e começaram a ser procurados. Geraram receitas para o Estado, animaram, à sua pequena proporção, a economia local. Não recebeu subsídios, arriscou, trabalhou, divulgou, vendeu. Um dia destes entrou-lhe pela casa o Estado, vestido de ASAE, e o que encontraram para tolher as pernas à iniciativa foi uma menção num rótulo. O rótulo dos produtos tinha escrito "Best before" e, depois, a data da validade. Pois os nossos queridos agentes da ASAE mandaram suspender imediatamente todas as vendas, recolher todos os produtos e substituir "Best Before" por "Consumir antes de". O resultado disto é que desde há quase um mês que não se prepara novo produto nem se fazem vendas e se está apenas a substituir etiquetas, causando evidentes prejuízos. Os senhores da ASAE talvez pudessem ter dito alguma coisa do género "isto não é regulamentar, tem de corrigir, tem x meses (o que fosse razoável) para mudar". Mas não - tem de mudar já. Não sei se já ocorreu às almas da ASAE, que são pagas pelos contribuintes, que cada vez que tomam uma medida que pode lesar actividades económicas estão a desrespeitar quem lhes paga. Uma coisa é velar pela Lei, outra é ser cego e não olhar a meios. Assim, a ASAE não ajuda nem o país nem os contribuintes. Muito menos a economia. O Estado no seu melhor.»

Manuel Falcão

15.1.15

Ser ou não ser Charlie



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«A terceira fase foi a dos hipsters do Charlie. Isto de sermos Charlie foi giro no início, mas agora está muito visto. É uma solidariedade à condição, que vai diminuindo à medida que a dos outros aumenta. E essa fase abriu caminho para a última, que fechou o ciclo. Agora é cada vez mais frequente a declaração "Não sou Charlie". Jean-Marie Le Pen foi dos primeiros: "Não sou Charlie porque eles eram anarco-trotskistas e eu não sou.". Para que Le Pen se identifique com as vítimas, temos de esperar até que os terroristas matem um cartunista idiota.»

Na íntegra, AQUI.
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Lido por aí (210)


@João Abel Manta

* ¿Qué pasa en Grecia (y en España)? (Vicenç Navarro)

* El reto de Syriza y la izquierda (Alberto Garzón Espinosa)

* A boa moral não faz uma boa política (Francisco Louçã)
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Aves agoirentas contra a Grécia



Manuel Villaverde Cabral publicou ontem à noite, no Observador, um texto em que disserta sobre as várias eleições que terão lugar, na Europa, no ano que corre, a começar pelas gregas que caracteriza como uma «roleta a rolar como no casino».

É óbvio de que lado está a sua grande esperança ou não teria escrito: «E se o Syriza não ganhar ou não conseguir fazer governo? Será a deflação política do Podemos, para não falar dos minis-Podemos portugueses e, quem sabe, se o fim das próprias excentricidades do PS com a sua sistemática denegação de que há um seríssimo problema da despesa pública a resolver em Portugal rapidamente, passando por difícil que seja pelas reformas, a função pública e as empresas estatais.» Portanto, reza para que o Syriza falhe, para salvação da Espanha, de alguns tímidos avanços de alguma esquerda portuguesa e (pasme-se!) até do próprio PS!

O que MVC não percebe, nem quer vislumbrar, é que uma hipotética derrota da esquerda grega, no fim deste mês, adia e agrava o problema trágico dos gregos, mas não chega para travar batalhas futuras, certamente ainda mais duras já que a situação da país só piorará entretanto e porque a dimensão da revolta e o desejo de uma nova realidade são muito fortes. E que não deflacionará (antes pelo contrário) nenhum Podemos de outras paragens, porque aquilo que está em jogo na Europa é um novo modelo de sociedade pelo qual muitos estão dispostos a lutar – contra o actual que aí está, escancaradamente falhado.

MVC dá como título ao seu artigo «A roleta grega». Mas trata-se de um acto falhado: devia chamar-lhe «roleta russa» porque aquilo que ele deseja fortemente é que uma bala mortífera acerte no Syriza. Não terá essa sorte. 
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14.1.15

Por uma vitória da Grécia e dos povos da Europa



A catástrofe humanitária em curso na Grécia terá um ponto de viragem no dia 25. Nesse dia, se se confirmarem as sondagens que dão a vitória ao SYRIZA, as eleições podem colocar o país, destroçado pela austeridade da troika e de sucessivos governos neoliberais, no caminho da soberania democrática. Será um momento decisivo para todas as pessoas que vivem na Grécia.

Também será um momento importante para quem vive em Portugal, na Irlanda e em todas as sociedades sufocadas por uma farsa económica. Os programas de ajustamento estrutural fabricaram sociedades divididas. Se não lutarmos contra isto, essas sociedades entrarão num colapso definitivo e irreversível. Este não é o único caminho. A política pertence ao domínio dos seres humanos e não ao domínio da física.

A chantagem exercida pelas instituições europeias e pelo governo de coligação sobre quem tem o direito de exercer o voto livremente é inaceitável, mas tem uma vantagem: mostra-nos que temos o dever de assumir uma posição. Essa posição é clara: só um governo de esquerda pode destruir o bloqueio da dívida e da destruição social. O direito soberano de decidir sobre o destino colectivo pertence a quem vive na Grécia; o dever solidário de dizer o que pensamos e queremos pertence a quem vê estas eleições como mecanismo de desbloqueio.

Se a esquerda vencer, a dívida deixará de ser sagrada. Se a esquerda vencer, o euro e o Tratado Orçamental deixarão de ser sagrados. Se a esquerda vencer, o destino colectivo deixará as mãos de quem só gosta de eleições e liberdade quando as decisões são tomadas em gabinetes fechados por peritos convencidos da sua superioridade e oferecidas, com um laço em cima, a quem persiste numa luta ingrata pela sobrevivência.

Esse destino colectivo voltará às mãos a que nunca deixou de pertencer: a quem vive na Grécia. Uma vitória da esquerda significará a vitória sobre os tabus que nos impõem a partir do eixo Bruxelas-Frankfurt-Berlim. E, se a esquerda vencer, uma frente internacionalista unida ganhará força para questionar as verdades adquiridas dos mercados, das finanças e da especulação. As mesmas verdades adquiridas que nos impõem todos os dias.

Se a direita vencer, essa terá sido a decisão da maioria dos eleitores gregos. Mas não terá sido uma decisão livre de condicionamentos. A Comissão de Juncker não se manifesta acerca do escândalo Luxleaks, mas vai a Atenas para amedrontar pessoas e famílias que, ao longo de anos, têm resistido ao novo europeísmo, autoritário e gerador de miséria. O BCE de Draghi resgata bancos privados, mas promete apertar o garrote sobre um futuro governo de esquerda. O FMI de Lagarde reconhece não saber como ajudar a Grécia a recuperar, mas sabe que não quer a esquerda no poder.

Estão com medo. Ainda bem. Quer dizer que, afinal, há alternativas. Sabemos que essas alternativas podem não ir tão longe como alguns gostariam e irão mais longe que o desejado por alguns aliados de circunstância. É bom que assim seja. A política foi feita para definirmos, em conjunto, o nosso destino colectivo. Não foi feita para aumentar os lucros de empresas transnacionais e fundos de investimento. Depois destas eleições, os aliados de circunstância podem inventar as acrobacias que quiserem: se a esquerda vencer, a dívida e o euro já não serão ícones sagrados.

Quem vive na Grécia decidirá. Nós já decidimos de que lado estamos. Não vamos criar nenhum movimento, nem plataforma. Somos apenas um grupo de amigos que decidiu divulgar este pequeno texto.

Helena Romão
Joana Lopes
Luís Bernardo
Mariana Avelãs
Miguel Cardina
Nuno Bio
Rita Veloso
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