29.10.16
Há 80 anos, a chegada ao Tarrafal
No dia 29 de Outubro de 1936, chegaram à Colónia Penal do Tarrafal, criada por Salazar alguns meses antes, os primeiros 153 deportados. Mais exactamente, desembarcaram no local onde eles próprios foram obrigados a construir o campo de concentração que os encarceraria. Durante a existência deste «Campo da Morte Lenta», por lá ficaram 32 vidas, 32 pessoas cujos corpos só foram transladados para Lisboa em 1978.
Encerrado em 1954, devido a pressões internas e internacionais, o Campo foi reaberto na década de 60 (e permaneceu ativo até ao 25 de Abril), com o nome de «Colónia Penal de Chão Bom», para albergar os lutadores pela independência de Angola, Guiné e Cabo Verde.
1978 - transladação e cortejo para o cemitério do Alto de S. João, em Lisboa:
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A isto, chama-se o quê?
A «selva» de Calais foi arrasada, mas não acabou: pela segunda noite, os menores não acompanhados, que lá ficaram, dormiram ao relento. Que mundo é este, que Europa é esta?
. Coisas importantes, coisas menos importantes e coisas nulas
José Pacheco Pereira, no Público de hoje, aborda várias questões. Escolho algumas:
«2. É-me incompreensível que gestores de um banco do Estado, mesmo com o bizarro acordo feito para não os equiparar a gestores públicos, não tenham de apresentar a declaração de rendimentos ao Tribunal Constitucional. Sou, por outro lado, muito menos crítico dos salários que lhes pagam — sempre achei que se devia pagar salários competitivos em várias áreas do Estado e do governo, quando as funções são muito complexas e especializadas e exigem conhecimentos e experiência que só existe no sector privado. Prefiro que se recrutem os melhores, porque, se o forem, poupam-nos muito mais do que aquilo que ganham. Mas estes salários milionários implicam responsabilidades acrescidas pelos resultados e, como se faz no privado, deveriam estar indexados a esses resultados.
Não sei muito bem que condições colocaram para aceitar o lugar, e se nessas condições se incluía a não obrigação de declarar os seus rendimentos, mas se foi assim foi um erro do ministro e um erro de avaliação próprio. Será apenas uma questão de tempo, até terem de o fazer a bem ou a mal.
3. A viagem do Presidente Marcelo a Cuba é puramente lúdica. Ele queria tirar uma fotografia com Fidel antes de este morrer, o que para um anticomunista como Marcelo é muito interessante de analisar do ponto de vista psicológico. Na verdade, é uma selfie de famoso com famoso, embora a dimensão das famas e o seu conteúdo sejam muito diferentes. (…)
5. Querer saber onde está Mário Nogueira para o picar para sair para a rua com a Fenprof. Querer humilhar o PCP e o BE “por estarem tão mansinhos” e picá-los para quebrarem com fragor a “paz social”. Queixar-se de que não há manifestações e chorar de saudades pela desocupação do espaço em frente das escadarias da Assembleia. Apelar à CGTP para que faça greves e motins como fazia “antes”. Dizer com mágoa, como Marques Mendes, “quem os viu e quem os vê”, com saudades de “quem os viu”. A lista do ridículo seria interminável. Ó homens! Eles têm uma coisa muito mais importante do que a rua — ganharam poder político. Ó homens! E, muito mais do que isso, têm poder político para ajudar melhor a “rua” do que se viessem para a rua. Aliás, é isso mesmo que, dia sim, dia não, vocês dizem. Então, em que ficamos? “Quem governa é o BE”, ou o “PS meteu-os no bolso”? Não foram “eles” que perderam poder, foram vocês. E sempre podem ocupar o vazio da rua e das manifestações, está lá à disposição. E não há causas mobilizadoras? Ou não há gente?
6. Sócrates é o pior da política portuguesa e que possa continuar a fazer política pelos intervalos da chuva mostra bem como existe uma degradação da vida política e como isso é indiferente aos partidos, neste caso a começar pelo PS. Eu nem sequer estou a escrever isto pressupondo que ele seja culpado das graves acusações que lhe fazem — isso é para outro foro e até lá existe a presunção de inocência. Não é por isso, é por tudo o resto. Pagou ou não ao “Abrantes” (e o PS veja lá se não continua a ter outros “Abrantes” em funções...)? Escreveu ou não os livros que têm o seu nome ou encomendou-o a um nègre? Comprou ou fez comprar milhares de livros seus para fazer subir a obra nos tops? Para cada uma destas acusações que não envolvem necessariamente crimes, uma vez explicada a origem do dinheiro, está-se perante um homem que vive e respira na mentira e que envenena o poço da nossa república. Sócrates é o exemplo vivo de alguém que mostra todos os dias como os partidos políticos são mais sensíveis à dissidência e ao delito de opinião do que a reiteradas “más práticas”, isto para usar um eufemismo.»
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28.10.16
Desfecho cristalino
Perdeu a ONU para Guterres? Ganha na conta bancária. Estava escrito nas estrelas que lhe dariam um rico futuro.
. Muito bem, Itália e Grécia
No momento em que a Comissão está a rever o orçamento da EU, os primeiros-ministros italiano e grego avisam o V4 (Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria) que vetarão o acesso daqueles países a fundos estruturais se não aceitarem refugiados.
Respect. Refugiados são mais importantes que décimas de déficits.
. Ein Zug de Chelas
«O ministro das Finanças da Alemanha voltou a atacar o Governo: "Portugal estava a ir bem até chegar este Governo".
Temos sorte em Schäuble não ter vindo dizer que o Deutsche Bank está como está desde que chegou o Governo de Costa. Schäuble tem mesmo uma obsessão connosco. Uma embirração que eu não sei se não terá a ver com a calçada portuguesa.
Diz o ministro das Finanças alemão que este Governo não está a cumprir as promessas que o anterior fez. É exactamente por isso, shor Schäuble, que existe este Governo. Primeiro, porque as promessas que o anterior Governo lhe fez eram diferentes das que o anterior Governo nos tinha feito, antes de vencer as eleições. Segundo, porque como as promessas que esse Governo lhe fez não prometiam nada de bom, na primeira oportunidade, mudámos para outro. Chama-se alternância. É próprio da democracia e tenho o palpite que, em breve, o senhor Schäuble vai sentir isso na pele. Alguém sabe como é que se diz "ide marrar com o comboio de Chelas" em alemão? (…)
O mais curioso, neste ataque ao Governo actual, e defesa do anterior, é que se por acaso Schäuble se lembra de ligar agora a televisão, do bunker onde mora, no nosso Canal Parlamento e vê Passos e Cristas a pedirem para este Governo aumentar as pensões mais baixas, vai ter uma surpresa e só não tem um ataque cardíaco por ausência do órgão.
Segundo as minhas recordações, para a troika schaubliana da austeridade, as pensões eram para ficar todas congeladas até ao fim do século ou, numa hipótese mais remota, até a GNR conseguir apanhar o Piloto. Em relação a este último assunto, eu desconfio que a PSP e a GNR ainda não apanharam o fugitivo de Aguiar da Beira de propósito, porque o Estado, este ano, espera obter uma maior receita fiscal com imposto sobre cartuchos.»
João Quadros
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27.10.16
Calais e os autocarros para transporte de refugiados
Assentos de autocarros envoltos em plástico para esvaziar Calais e encaminhar os refugiados para novos locais. Degradante? Estalou a polémica, em França e não só, mas ninguém quer assumir a responsabilidade pela decisão.
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João Lobo Antunes
No dia da sua morte, a Visão republicou hoje um belo texto de António Lobo Antunes:
O meu irmão João
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Lá vai o português
Pensando ainda em José Cardoso Pires que ontem recordei, «ressuscito» um texto que nunca me canso de reler. Está lá tudo, estamos lá todos.
Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.
Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.
No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda.)
Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.
Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.
Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.
É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.
Assim, como?
José Cardoso Pires, E agora, José?, Moraes Editores, 1977.
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