8.1.22

E António Costa o que é que prefere?

 

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08.01.1969 – Primeira «Conversa em Família» de Marcelo Caetano

 


Há 53 anos, Marcelo Caetano dirigiu a primeira das dezasseis «Conversas» ao país.

Não tenho a imagem e o som da primeira, mas deixo aqui o vídeo da última: em 28 de Março de 1974, já depois do golpe falhado das Caldas, ele não sabia – e nós também não – que nunca mais teríamos aqueles cinzentos e sinistros serões na sua companhia.


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O que revelam os debates

 


«Numa campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite. (*) Já escrevi e repito, apesar da fúria de alguns jornalistas e gente de agências de comunicação que precisa de os bajular: uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação social abre caminho a perversidades. Não se trata de mediação, que é suposto ser uma função fundamental da comunicação social, trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional. Não é preciso ir mais longe do que a recente campanha interna no PSD em que a maioria dos jornalistas e órgãos de comunicação social fez campanha por Paulo Rangel e contra Rio. A coisa foi tão evidente que não é preciso dar exemplos, mas, se for preciso, abundam.

Os debates, quando não têm um interlocutor suplementar que interfere de forma agressiva no debate, prejudicando-o (como se passou em debates da SIC em que parecia que havia um terceiro participante na campanha), na parte em que há um genuíno frente-a-frente são reveladores e podem ter um papel na opinião traduzida no voto. Eles revelam, em primeiro lugar, as qualidades e defeitos pessoais dos antagonistas, traços de carácter por detrás da encenação, o que sabem ou não sabem, a inteligência, a capacidade de clareza, a riqueza vocabular, a cultura política ou a sua ausência, a experiência e aquilo a que os sociólogos chamam background assumptions, as ideias, preconceitos, gostos, que estão por detrás do discurso público. Nisto os debates são razoavelmente eficazes, e a logomaquia dos comentários posteriores pode ser útil na sua revelação e escrutínio.

É, no entanto, verdade que essa torrente de comentários, mesmo os melhores - porque muitos não têm pés nem cabeça e resultam em “notas” absurdas para mostrar como são originais os “professores” ou são exercícios de La Palisse –, se tornam em grande parte desnecessários porque os espectadores apreendem com facilidade este aspecto da comunicação, que é empático e por isso imediatamente transmissível. Por exemplo, a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se tenha por cada um deles.

Depois, há um outro nível, que é o da racionalidade, normalmente num exercício de “revelação” do outro, em que o grande e o único exemplo foi o de Rui Tavares face a Ventura. Mas a racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates. Quando Cotrim de Figueiredo disse que o Bloco de Esquerda era o “Bloqueio de Esquerda”, designação trazida no bolso de casa, acabou por conseguir que ela fosse repetida nos títulos comunicacionais – porque era para isso que tinha sido preparada –, mas por outro lado mostrava que nada mais do que dissera valia a pena repetir.

Ventura, que foi a personagem-chave nos primeiros debates pelo estilo agressivo, pareceu dominar, mas esse aparente domínio revelou algo que lhe é prejudicial, a repetição de acusações, invectivas, afirmações de peito cheio, mas de cabeça vazia, vai perdendo eficácia à medida que os debates com ele são sempre a mesma coisa. O seu único sucesso foi com Rio, que ele enredou em directo, com todos os outros ficou a falar sozinho, sem ter nada para dizer. Também aqui o debate mais conseguido foi o de Rui Tavares.

Aquilo para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério. Numa atitude hipócrita, a comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os “problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer discussão, mas que é bastante para o espectáculo, para os truques e armadilhas preparados. A rigidez da legislação eleitoral tem também um papel, ao multiplicar de forma absurda o número de debates para assegurar artificialmente a igualdade das candidaturas.

Há também um outro aspecto que é negativo nos debates tal como estes se têm desenvolvido. A obsessão de os transformar em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo populista está a colocar em cima da mesa. Ora o populismo é a grande novidade na vida política portuguesa.

Não adianta chamar fascista a Ventura, que não o é, mas sim um extremista de direita, que já basta como epíteto e é mais correcto, mas já se ganhava alguma coisa se ele fosse confrontado com as suas propostas antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”. Um exemplo é a de “cortar” os lugares de “políticos” pela metade, ou a de cortar os salários dos deputados para metade, que parecem populares, mas que são intrinsecamente antidemocráticas. Alguém lhe explica que nos milhares de lugares “políticos”, nas autarquias, por exemplo, a esmagadora maioria não são remunerados, mas o sinal de uma dedicação à causa pública, ou uma democratização da participação popular? Ou que a demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom, ou lobistas ricos com rendimentos que não precisam de ganhar um tostão para beneficiar do acesso ao poder? Ou pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos incluídos. E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro das penas dos assassinos é uma perversão da justiça, por muito que os seus apoiantes salivem com os “casos” de corrupção e se revelem indiferentes aos crimes de ódio. Em tudo isto e muito mais, tem havido falta de coragem para confrontá-lo, porque estas posições só são populares quando não se combatem com a intransigência da democracia.

Vamos ver como os debates continuam e como condicionam a ecologia da campanha.

(*) Não vi, à data em que escrevo este artigo, os debates com participação do CDS e do PAN, pelo que os julgamentos feitos não se lhes aplicam.»

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7.1.22

Os calceteiros

 


Calceteiros de Lisboa, 1907. 
Fotografia de Joshua Benoliel, AML.
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06.01.2022 – Debate Catarina Martins / João Cotrim Figueiredo

 


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Um tesourinho dos bons

 


O Facebook recorda-me que isto aconteceu há três anos. E cá vamos continuando com a cabeça entre as orelhas.
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António Costa: “uma noite mal dormida” ou insónias diárias?

 

«Em 2019, a “geringonça” tinha triunfado e mostrado ao país que sabia dar-lhe estabilidade. Com os cacos da “geringonça” agora espalhados pelo chão e por culpa de todos (não vale a pena Costa insistir em apontar o dedo a PCP e a BE), os primeiros debates televisivos já mostraram como os ânimos estão acirrados. Costa atirou-se ao ex-parceiro Jerónimo de Sousa com uma agressividade que deixou espantado o próprio líder comunista. Garantiu que não queria reerguer os muros que derrubou em 2015 ao mesmo tempo que dizia não confiar no PCP para novos acordos. Fez um vídeo inédito para criticar a prestação de Rui Rio no debate com André Ventura, no qual aquele admitiu uma prisão perpétua “mitigada”. Poupou descaradamente Rui Tavares, com quem o PS fez um acordo pré-eleitoral para a Câmara de Lisboa e que não esconde a vontade em estender a mão ao PS no dia 30 de Janeiro.

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Patins de rodas num pavilhão de gelo

 


«Harry Potter não foi convidado para um dos milhares de debates televisivos que vão, para alegria nacional, substituir as telenovelas no horário nobre televisivo. É pena, mas compreende-se. As magias que poderiam sair dos seus dedos são infinitamente menores que aquelas que os líderes partidários prometem aos crentes. A ilusão é tal que, segundo parece, Portugal pode transformar-se no paraíso. Ou no Dubai europeu.

Pura ilusão de óptica. Portugal é o sítio onde se praticam magias defeituosas, se contratam bruxos incapazes e, no fim, o prémio sai sempre aos mesmos. Estamos a um mês do Congresso da Magia para Crédulos, vulgarmente conhecido como eleições legislativas, onde os pretendentes ao grande prémio prometem transformar coelhos em elefantes, ovelhas em unicórnios e objetos inanimados em tartarugas. E, mesmo, como magia suprema, transformar os pobres e remediados em classe média. Aos espectadores apenas se pede que coloquem uns papéis dobrados na cartola.

E zás! A magia realizar-se-á! O mês de janeiro vai ser de patinagem artística com os desportistas da política a usarem patins de rodas num pavilhão de gelo. Haverá escorregadelas para todos os gostos.

O doutor António Costa quer a eternidade e o discurso único: “o que é a maioria absoluta? É metade mais um”. Pede pouco ao extenuado povo português, entre a pandemia e o regresso da “salvadora” austeridade que começa com a consoada da inflação. E que vai demolir o resto dos equilíbrios deste Estado social que os mais à Direita querem transformar numa “meritocracia” de alguns, sempre os mesmos. O que é propôr uma única taxa de IRS como clama orgulhoso o doutor Ventura, dizendo alto o que outros, mais selectos, pensam? Entre a situação e a oposição há mesmo um Harry Potter que faça a diferença nos truques e nas magias?

O professor Marcelo Rebelo de Sousa, olhando para este pântano quase tropical, pede “previsibilidade”. Da mesma forma que se pede chuva no Inverno e sol no Verão. Não é “previsibilidade” o que nos tem sido oferecido até agora? Não era previsível que a doutora Edite Estrela, depois de ter passado anos incógnita no Parlamento, possa ser recompensada com a presidência do mesmo? O doutor Medina, como já dissémos aqui há algumas semanas, é o grande sonho do doutor Costa para as Finanças. Depois do estado em que deixou Lisboa, hoje uma imensa catástrofe habitacional, quem melhor para lidar com as cativações deste antigo condado?

O que é que não era previsível no estranho caso do almirante Gouveia e Melo? É fruto de uma planta enxertada: a sonhada governamentalização das Forças Armadas (concretizada pela nova lei de Bases), objetivo há muito acalentado pelo PS e que também tem a benção de parte substancial do PSD. O vice-almirante, seduzido pelo sabor da maçã do poder, serve assim os objetivos: o poder político livra-se de uma voz incómoda (a do almirante demitido ao pontapé que se permitiu discordar da nova lei de Bases) e sossegam-se os anseios políticos do vice-almirante até à próxima jogada de xadrez. Mas estará dentro do sistema e, por isso, controlável. O dinheirito para reconverter o reabastecedor Bérrio já deve estar coberto pelo PRR. A próxima sucessão para um cargo superior nas Forças Armadas terá já a forma de nomeação de um administrador hospitalar feita pelo ministério competente. Previsivelmente, o doutor Cravinho também há-se ser presidente da AR ou de um grupo folclórico por serviços relevantes ao país.

A situação política nacional é um enorme episódio dos “Simpsons”. Onde o tempo passa mas os personagens continuam iguais. Desde o primeiro episódio da série, em 1989, até hoje, Homer trabalha na mesma central nuclear e Bart e Maggie não mudaram. No mundo sucedem-se os acontecimentos, mas os personagens são como o Dorian Gray criado por Oscar Wilde: nunca envelhecem. Da mesma forma os candidatos que se remexem ao sabor do vento nestas legislativas nem sequer arriscam. Lembremos que em 1997 foi colocado à venda o primeiro livro da série de Harry Potter, um mês antes de Tony Blair entrar no nº10 de Downing Street. Blair e Potter tinham semelhanças: tinham ganho reconhecimento pelo charme e novidade. Contra todos os bruxos do mundo (Voldemort, no caso de Potter, Bin Laden no caso de Blair), eles queriam pôr em causa a busca da imortalidade dos seus inimigos. Blair herdava a nação de Thatcher e quando ganhou o poder no Labour em 1994 era considerado um inocente. Ganhou a alcunha de Bambi. Mas depressa foi considerado um Estaline. “Da Disneylândia à ditadura em apenas 12 meses. Não sei qual prefiro”, diria mais tarde o então primeiro-ministro.

Harry Potter queria servir o mundo dos mágicos contra o dos tenebrosos bruxos. Blair tentava seduzir: “nós somos os servos, eles – os eleitores – são agora os mestres”. Mas Blair mostrou quão ténue era (e é) a linha divisória entre os conservadores e os trabalhistas, numa época em que as ideologias eram dinamitadas pela economia de mercado e pela globalização. Mas, no início, Potter e Blair queriam derrubar as estátuas da previsibilidade. Mas hoje o que propõem os nossos políticos? A previsibilidade do costume.»

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6.1.22

05.01.2022 – Debate Catarina Martins / Rui Rio

 


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Carta à República

 



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Perguntas que precisam de resposta

 


«Da conjuntura nacional de incerteza económica e sanitária dos dias em que vivemos, e de instabilidade política pelo aparente esgotamento da solução de 2015 com o chumbo do Orçamento do Estado, resulta uma dupla preocupação na generalidade da população portuguesa.

Primeiro: Um regresso às maiorias absolutas ou a permanência de soluções maioritárias através de coligações ou de acordos de incidência parlamentar? E qual o tempo de estabilidade política que a solução proposta pode oferecer?

Segundo: Quais são as medidas políticas e as ideias concretas para que o eleitorado possa percecionar com objetividade que respostas tem face ao clima de incerteza que se vive? O que vão fazer os partidos para combater a inflação, as taxas de juro (habitação), a degradação de serviços públicos, ou, na área económica, a execução dos milhões da Europa do Plano de Recuperação e Resiliência, a famosa bazuca?

Quando não há respostas, somam-se as perguntas. Quais são as soluções concretas para fazer face aos crescentes custos de energia, que impactam diretamente na vida das empresas e das famílias? E face à subida dos preços de bens essenciais num país onde cerca de dois milhões vivem no limite do aceitável? Para quando uma rede de creches que satisfaça as necessidades das famílias que moram em ambiente urbano? E quanto à escola pública, que precisa de ganhar competitividade face à crescente importância do ensino privado, que afunila a função de elevador social que só a Educação pode promover? E como é que se lida daqui para a frente com a pandemia, o maior fator de incerteza destes dias, sem que a economia fique bloqueada e protegendo um Serviço Nacional de Saúde estafado?

Na campanha, a começar pelos debates, poucas ideias concretas se têm visto. Pouco mais do que a exploração das inseguranças do eleitorado face ao quadro parlamentar que se adivinha poder sair das eleições do próximo dia 30. E essa sensação de fadiga instalada, sem respostas aparentes para os problemas com que se confrontam os portugueses, tem como consequência evidente a fragilização da Democracia. Saímos todos a perder.»

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Entretanto no Cazaquistão

 





Estive em Almaty há cerca de cinco anos. Tem quase dois milhões de habitantes, nela convivem cerca de 130 nacionalidades, foi capital política do Cazaquistão de 1929 a 1997, continua a sê-lo no plano cultural e no comercial. Não fico nada admirada que seja agora o principal grande centro dos recentes protestos pelo que então vi: apesar do sistema presidencialista «musculado» que domina o país, sentia-se uma revolta latente até no fervilhar nas ruas, num consumismo ausente em países vizinhos onde eu já estivera (e não havia islamismo ou tradições populares que «vestissem» as mulheres...)

Estoirou agora e não vai ser fácil. A seguir com atenção, até porque a Ásia Central é um barril de pólvora em potência.
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