14.5.22

Gentes deste mundo (1)

 


[Retomo, ampliada, uma série que já por aqui andou há cinco anos]

Uma cidadã como outra qualquer. Lago Inle (Birmânia), 2009.
.

14.05.1958 - Humberto Delgado no Porto

 


«Povo do Porto, a resposta está dada com esta manifestação. Façam eleições livres e venceremos!» Foi com estas palavras que Humberto Delgado se dirigiu à multidão que o aclamou em frente à sede da sua candidatura, na Praça Carlos Alberto, no Porto, em 14 de Maio de 1958. A fotografia passou a funcionar quase como uma espécie de ícone de uma campanha extraordinária.
 
Continuar a ler AQUI.
.

Saldanha Sanches

 


Doze anos desde que partiu.

Pode ser lida AQUI uma longa entrevista dada em 2008, em conjunto com Maria José Morgado, sobre a vida, a juventude, a militância.
.

O pequeno problema da guerra nuclear

 


«Uma das coisas mais absurdas e preocupantes por parte de Putin é o modo como tem agitado a ameaça da guerra nuclear. Bastava isso para o colocar no pedestal superior e único da “luta pela paz”, mas isso não acontece. “Ah” — dirão alguns dos meus amigos — “mas a NATO também as tem lá, porque não fala nelas? Não deixam de ser ameaçadoras.” Sim, tem, e são ameaçadoras, mas convenhamos que há uma diferença entre agitá-las nas declarações públicas e estar calados. “Manhosos é que eles são…” Sim, de novo, podem ser, mas há uma diferença, não há? Para a Paz.

Não é a guerra nuclear que é absurda e preocupante — é muito mais do que isso: é a facilidade com que se fala dela, porque isso diz muito sobre o grau de desespero de Putin. Esse desespero, que ele tem porque está tudo a correr mal, vem de ele saber que não há saída fácil para o erro calamitoso em que ele se meteu e meteu a Federação Russa. Mas, por muito paranóico que esteja, por muitas dúvidas sobre a sua saúde mental que existam, por muitos traços de personalidade autocráticos e violentos, ele não anda louco aos gritos pelos corredores do Kremlin e, se por acaso andar, alguém trata dele de forma pouco amável.

Putin sabe muito bem que a guerra nuclear é inganhável, sejam quais forem as circunstâncias. Ataquem primeiro ou depois, de surpresa ou com pré-aviso, não há qualquer maneira de obter vantagem num confronto nuclear. E nem sequer a modernização das armas nucleares introduz qualquer vantagem. Mesmo com as armas obsoletas do século XX contra o mais moderno arsenal de 2022, o resultado é o mesmo, aquilo que o acrónimo MAD, Mutual Assured Destruction, descreve desde os anos 50, destruição mútua assegurada. Ou seja, ninguém ganha.

As armas nucleares, ou melhor, termonucleares, têm evoluído, em particular os sistemas de detecção, as técnicas antimísseis, o comando e controlo, a sofisticação generalizada dos sistemas de armas, mas não é segredo para ninguém que evoluiu igualmente a capacidade para as disparar com tempos de resposta tão curtos que a resposta mais provável é que se eles disparam as deles, nós disparamos de imediato as nossas e fica tudo destruído pelo caminho. E os arsenais são mais do que suficientes para garantir a ultrapassagem de todos os “decoys” existentes e dar-nos o MAD certo.

Acresce que não há guerras nucleares moderadas, porque o uso de armamento nuclear táctico gera de imediato uma escalada de reposta. Não há conversas do tipo eu apenas atiro sobre Nova Iorque e tu atiras sobre Moscovo e estamos quites. O nuclear tem a característica de ser tudo ou nada, como aliás quem tem o controlo dos botões em Washington, Moscovo, Londres, Paris, Pequim, muito provavelmente Telavive, e mesmo as excepções até agora mais preocupantes de Pyongyang, Índia e Paquistão, também sabe.

Os protocolos de lançamento de mísseis nucleares na Rússia não são muito diferentes dos dos americanos, eventualmente com maior controlo dos militares, e não são a decisão de um homem solitário diante de um botão. Mais: esse homem ou esses homens sabem que, se carregarem no botão, morrem as suas famílias, os seus amigos, os seus próximos, e milhões de outros homens. Coisa trivial, quando muito suicídio pela bomba nuclear. En passant, como no xadrez, morrem também a Rússia, as paisagens familiares da Praça Vermelha, a Catedral de S. Basílio, a estátua do Cavaleiro de Bronze, as (os) bailarinas do Bolshoi, os mosteiros de Sergueiev Possad, o Transiberiano, o Hermitage, o Patriarca Cirilo, e muitos etc., embora admita que algumas destas coisas não lhe interessam muito. Mas, muito provavelmente, outras lhe interessam, morrem também os cantores de que ele gosta, o Valery Kipelov, o Vitas, a Dima Vilan, o Gregory Leps, desaparece o CSKA e o Lokomotiv, com os seus jogadores de futebol populares, o vodka fica contaminado e a sua jovem amiga que trabalhava nas galerias GUM e com quem dava “grandes passeios aos domingos” também desaparecerá no pó. Estou a falar do general que carregar no botão, metaforicamente, porque na realidade são vários botões, envelopes, malas e comunicações. E, mesmo no mais profundo dos bunkers, para quem tiver autoridade ou tempo de lá chegar, morre muito provavelmente ele próprio. É este o pequeno problema da guerra nuclear.»

.

13.5.22

Amanhã

 

.

Nossa Senhora: peregrina ou emigrante?

 


Uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima (existem 13) foi há algum tempo emprestada a uma diocese da Ucrânia. Saiu de Fátima, ainda está na dita diocese que gostava de ficar com ela.

Impossível, explicou um padre (ou bispo, não percebi) num telejornal: aquela imagem é «peregrina» e, portanto, foi mas tem de voltar. Mas já está pronta uma outra igual e essa, sim, será enviada e ficará por lá – porque não é peregrina.
.

Finlândia, a nova fronteira da NATO

 


«“O nono alargamento da NATO desde a sua fundação, em 1949, vai ficar na História como o alargamento de Putin”, escreveu o antigo primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb, poucos dias antes de o Presidente e a primeira-ministra do seu país terem assinado uma declaração conjunta a defender o pedido de adesão à organização de defesa “numa questão de dias”. “A adesão à NATO fortalecerá a segurança da Finlândia; enquanto membro da NATO, a Finlândia fortalecerá toda a Aliança”, lê-se no comunicado.

A decisão oficial será tomada pelo Parlamento já na próxima semana. A maioria dos partidos com assento parlamentar votará a favor. Num texto de opinião publicado no Financial Times, Stubb acrescenta o óbvio: “Sem o ataque da Rússia à Ucrânia, isto nunca teria acontecido”.

A neutralidade finlandesa era uma marca tão forte da sua política do pós-guerra que deu origem à palavra “finlandização” para definir os países que, pelas suas particulares circunstâncias geopolíticas, não estavam em condições de exercer totalmente a sua soberania. Em 1939, a Finlândia foi invadida pela URSS. A sua resistência heróica acabou por impor ao grande vizinho de Leste o reconhecimento da sua independência. No final da II Guerra, Moscovo impôs-lhe um estatuto de neutralidade, que se manteve para lá do fim da Guerra Fria e da implosão da União Soviética. Helsínquia preferiu encontrar na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial, quando aderiu, em 1995. A questão da adesão à NATO nunca se colocou e era essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.

Na quarta-feira, o Presidente finlandês, Sauli Niinistro, respondendo directamente às crescentes ameaças de Moscovo, limitou-se a dizer: “Olhem-se ao espelho”. Para a Finlândia, com uma fronteira de 1340 km com a Rússia, já não chegam as garantias de solidariedade e de segurança que a União Europeu dá aos seus membros. Quer formalizar o pedido de adesão à NATO o mais depressa possível, até porque durante as negociações de adesão, o país candidato ainda não está ao abrigo do Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, que garante o seu princípio fundador: um ataque a um dos seus membros é um ataque a todos os seus membros.

É também este desfasamento entre o pedido formal e a adesão que explica os acordos de segurança assinados na quarta-feira, em Estocolmo e em Helsínquia, pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. O Reino Unido, membro fundador da NATO e o aliado europeu com maior capacidade militar, incluindo nuclear, compromete-se a ir em auxílio da Finlândia e da Suécia, no caso de serem alvo de uma agressão militar. Os três países já tinham criado uma “força expedicionária conjunta” para reforçar a sua cooperação militar. Mantém-se a expectativa de que os EUA venham a dar um passo semelhante e, eventualmente, outros países da Aliança

A adesão tem de ser aprovada por unanimidade no Conselho do Atlântico Norte, o órgão político supremo da NATO, e os analistas prevêem um processo relativamente rápido. Esperam-se ainda algumas escaramuças políticas, sobretudo da parte da Turquia, mas nada com que Washington não possa lidar. Também no domínio da coesão da Aliança e da sua missão estratégica, a guerra de Putin foi um contributo inestimável.

As autoridades suecas devem tomar a mesma decisão na próxima semana. Em Estocolmo, embora a questão levante mais problemas do que na vizinha Finlândia, ninguém quer considerar a hipótese de ser o único país nórdico que fica fora das fronteiras da NATO. A coordenação entre as primeiras-ministras dos dois países tem sido visível. A previsão dos analistas é que o pedido seja feito em simultâneo.

Os dois países não constituem um fardo para a capacidade de defesa da NATO, mesmo alargando o seu território até à fronteira europeia da Rússia. Ser neutral equivale, normalmente, a dispor de uma forte capacidade militar. A Finlândia, devido à sua proximidade da Rússia (e, antes, da URSS), dispõe de um exército de quase 300 mil homens e de uma força de reservistas da ordem dos 900 mil. “Preparamos a nossa sociedade e treinamo-nos para esta situação desde a II Guerra”, disse ao Financial Times a ministro finlandesa dos Assuntos Europeus, Tytti Tuppurainen.

A Suécia tem uma história diferente. O estatuto de neutralidade data de há mais de 200 anos, o que lhe permitiu não se envolver na II Guerra. Durante os anos da Guerra Fria, procurou manter uma política externa de não-alinhamento. Dispõe de uma forte capacidade militar, construída graças à sua poderosa indústria de armamento, mas também a uma estreita cooperação com os EUA.

A guerra na Ucrânia veio alterar radicalmente as condições de segurança na Europa. Entrar na NATO pode ser um risco, mas ficar de fora é, na avaliação dos dois países, um risco muito maior. Em meia dúzia de meses, a Aliança Atlântica passará a incluir 32 países. Putin enganou-se, mais uma vez, nos cálculos.»

.

12.5.22

Bolsonaro ou Lula?

 



Tudo tem limites em termos de «preferências». Há muito que penso que VARGAS LLOSA só engana quem quer ser enganado.

Daqui.
.

Covid, sexta vaga?

 



Os mais vulneráveis serão alvos preferenciais da nova variante e os especialistas admitem que a recente subida de casos positivos de SARS-CoV-2 "provavelmente contribuirá" para o aumento da mortalidade nos próximos 30 dias.»
.

Better dead than red

 


«Um dos mais infames slogans políticos da nossa história – “better red than dead” –, tem de novo ecoado, de forma mais ou menos expressa, a propósito da invasão russa da Ucrânia. Não porque, esclareça-se desde já esse equívoco recorrente, o regime de Putin tenha algo a ver com o comunismo – a sua matriz é claramente czarista.

O próprio Partido Comunista Português sabe isso perfeitamente – daí que a sua posição não se explique, de todo, pela fidelidade ao regime de Putin. Antes, tão-só, pela sua fidelidade de sempre ao Partido Comunista Russo – foi assim durante toda a II Guerra Mundial, mesmo durante o pacto soviético com o regime nazi; foi assim em todo o processo da nossa descolonização; foi assim em todo o processo de desmantelamento da União Soviética; tem sido também assim, sem surpresa, agora.

O próprio Putin também tem usado o “argumento da desnazificação” da Ucrânia para justificar a invasão russa da Ucrânia de forma claramente cínica. Ele não acredita nessa alegação – mas acredita que, por mero “reflexo pavloviano”, ela tenha algum efeito na opinião pública, interna e externa. E acredita bem – como, também sem surpresa, se pode verificar, inclusivamente na opinião pública portuguesa.

O slogan tem, porém, ecoado, de forma cada vez mais sonora, à medida que a resistência ucraniana se amplia – e daí as crescentes sugestões, mais ou menos tácitas, para que a Ucrânia se renda. Como sempre, aduzem-se os mais diversos argumentos, em particular o de que a resistência ucraniana tem como principal beneficiário a NATO e, em particular, os Estados Unidos da América; e como maior prejudicado colateral o modelo social europeu, pelo desvio de fundos, já em concretização, para os orçamentos de Defesa dos Estados da União Europeia.

A alegação não é infundada mas não explica o crescente incómodo com a resistência ucraniana. Explica-se antes este incómodo, a nosso ver, por um conceito que a nossa cultura historicamente recalcou: o de heroicidade. Com um efeito, se há um qualificativo adequado para a resistência ucraniana é esse: heróica. E é isso o que mais profundamente nos incomoda, a todos nós que deixámos de valorizar a heroicidade e que até criámos, na nossa cultura, como seu substituto simbólico, a figura do anti-herói. Na resistência ucraniana, olhamo-nos ao espelho e vemos, com o mais profundo incómodo, quem fomos deixando de ser.»

.

11.5.22

Para pior já basta assim

 

.

IVG – A polémica do dia

 



Vale a pena ver e ouvir o que passou ontem no Parlamento (primeiros 5:21 minutos do vídeo, mas o tema volta mais adiante).
.