6.9.25

Gaza

 


«As condições de insegurança são flagrantes: à medida que avançam na Cidade de Gaza, as Forças de Defesa de Israel deixam tudo em ruínas, e os palestinianos deixarão de ter os prédios ainda habitáveis. O Exército israelita destruiu um edifício alto no sul da Cidade de Gaza, alegando que servia como centro de informações do Hamas. O ataque marca o início de uma ofensiva em larga escala, que ameaça milhares de civis encurralados e o sistema de saúde já em colapso.»


Alan, a morte que se afogou

 


«A terrível imagem de Alan Kurdi, o menino sírio de dois anos encontrado morto no areal de uma praia turca, voltou a atormentar-nos esta semana. Porque o corpo de uma criança a ser lavado pelas ondas, cara encostada ao areal, t-shirt vermelha e calções azuis, ainda nos deixa de coração partido. Mas sobretudo porque, cumprida uma década de um postal negro que forrou as capas dos jornais do Mundo (incluindo deste), percebemos que nada mudou.

A compaixão coletiva foi-se desvanecendo, ancorada numa normalização do mundo ocidental perante as tragédias humanitárias. E a desconfiança crescente em relação aos "forasteiros", sejam eles crianças ou não, fez o resto.

Desde 2015, morre, em média, uma criança afogada por dia enquanto tenta atravessar o Mediterrâneo Central entre o Norte de África e Itália. Números da Unicef certamente subestimados, devido à falta de testemunhas em grande parte dos casos. O imenso cemitério de crianças em que se converteu o oceano pode facilmente comover-nos, mas nem por isso assistimos a mudanças nas políticas de acolhimento e, em particular, no discurso político que tolda essas estratégias.»

Na íntegra AQUI.

Medo

 


«Uma vez Mário Soares disse-me que dividia os políticos em duas categorias, os cobardes e os corajosos. E que tinha muito mais complacência com os corajosos, mesmo que estivessem nos antípodas do seu pensamento político, ou fossem claramente seus inimigos. E levava isso à letra: num dia, em que estávamos a conversar antes de uma reunião no Museu Vieira da Silva/Arpad Szenes, tratou mal um antigo ministro do PS que se “encostou” à conversa, e que ele achava que cabia, pelas suas atitudes moles, na primeira categoria. E, como se sabe, coragem a Mário Soares não faltava.

Cobardia e coragem são duas palavras essenciais para usar no mundo de brutalidade em que já estamos a viver, porque a sua principal característica é o uso do medo como instrumento de poder. O exemplo perfeito vem dos EUA de Trump, com consequências devastadoras sobre a democracia americana. É o uso e abuso do poder, a vingança, a constante ameaça, a violência incluindo a morte, a prisão, a expulsão para sítios degradantes e violentos, o despedimento, as decisões prejudiciais para empresas, a perseguição de todos os que se lhe opõem, no passado, no presente e no futuro, que pretendem dobrar, humilhar, fazer ceder ao poder absoluto de um autocrata. Autocrata é obviamente um eufemismo porque Trump comporta-se como ditador, classificação que ele admite o honraria, numa daquelas conversas confusas, caóticas, perversas, malévolas, cheias de insultos e ameaças, que ele faz quase todos os dias. Disse: “Muita gente está a dizer que talvez quisesse um ditador”, ele, Trump, e embora acrescente que ele não é um ditador, gosta do “querer”. Qualquer pessoa que conheça o mecanismo psicológico do narcisista sabe que a primeira frase tem muito mais valor do que a segunda. Ele acha que é um elogio que “muitas pessoas” querem que ele seja ditador…

Mas o medo resulta, faz sempre mais cobardes do que corajosos. Ele extorquiu dinheiro de empresas, algum para ele próprio, com o pretexto de que será para a sua “biblioteca”, como sempre fez com os dinheiros de campanha para pagar despesas de advogados, ameaçou que só permitiria a realização de alguns negócios se grupos de comunicação despedissem alguns dos seus maiores críticos, e, de um modo geral, faz exigências a universidades, museus, televisões, escolas, instituições de apoio aos mais pobres, quer nos EUA, quer no âmbito das Nações Unidas, que tem que acabar com programas de inclusão, e tudo o que pareça ser “woke”, LGBTI+, feminismo, anti-racismo, falar da escravatura como um “mal”. A coisa está lá, mas começa a chegar cá.

Tenho a tentação de estar sempre a falar de Trump, porque ele, com Putin e Xi, são os maiores perigos para a humanidade. E estes são os tempos mais perigosos desde 1945, mesmo mais perigosos do que a crise dos mísseis em Cuba. O caso de Trump é o que mais riscos traz para o mundo, até porque ele está a atacar os fundamentos da maior e mais poderosa democracia do mundo, e essa fragilização é a fonte do poder dos outros. Putin e Xi crescem, um pela violência e o outro pela sagacidade do mal, pelo ânimo que lhes traz Trump. Quem esteve por detrás da força da parada militar chinesa e da mistura de ditadores que lá chegaram pelo tapete vermelho é o homem que quer a rendição da Ucrânia, o desmantelamento da NATO, que retira as forças americanas que estavam na frente europeia face à Rússia, que todos os dias enfraquece os que eram seus aliados, para bater palmas a Putin. Trump gosta de Putin e tem medo de Xi, e despreza os europeus, o Canadá, a Austrália, a Coreia e o Japão, todos os países e dirigentes que não lhe prestam vassalagem, mas, ainda mais, que não o seguem na política pró-Putin. Ele, que não sabe onde é a Hungria, gosta é de gente como Orbán, e admira com inveja Netanyahu, e só o trava por causa dessa mesma inveja, porque ele parece mais feroz do que ele, e isso prejudica-o na sua suposta intervenção para acabar as “sete” ou “oito” ou “dez” guerras com que ele diz que acabou, a caminho do Prémio Nobel da Paz.

Putin e Xi crescem, um pela violência e o outro pela sagacidade do mal, pelo ânimo que lhes traz Trump. . Putin e Xi crescem, um pela violência e o outro pela sagacidade do mal, pelo ânimo que lhes traz Trump. . Putin e Xi crescem, um pela violência e o outro pela sagacidade do mal, pelo ânimo que lhes traz Trump. . Os actos de cobardia reforçam o medo, mas um medo que pode transportar revolta. Só que não chegam, é a coragem que nestes dias conta.

O peixe, como se sabe, apodrece pela cabeça e a cabeça do “mundo livre” eram os EUA. Ou a gente a corta, metaforicamente claro, ou o resto do corpo apodrece, já está a apodrecer.»


Notícias da Flotilha

 


5.9.25

Outra bela casa

 


«Casa Joan Baptista Rubinat», Barcelona. 1909.
Arquitecto: Francesc Berenguer Mestres.


Daqui.

No sofá não se salva ninguém



«Independentemente das cores partidárias, iniciativas como a missão humanitária da Flotilla Global Sumud, que partiu ao final da tarde de segunda-feira de Barcelona rumo à Faixa de Gaza, tendo como tripulantes portugueses a coordenadora do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, o ativista Miguel Duarte e a atriz Sofia Aparício, são de enaltecer.

Sim, porque a indignação dos cidadãos do mundo ocidental perante o massacre e o genocídio que estão a acontecer à nossa frente não está a fazer o barulho necessário. (…)

Criticar uma viagem arriscada para dar voz a quem não a tem, criticar quem prefere estar no terreno em vez de se revoltar no conforto do sofá é confundir comodismo com coragem.»

Ler na íntegra AQUI.

05.09.1972 - O massacre de Munique

 


Há 53 anos, o comando palestiniano «Setembro Negro» tomou como reféns onze membros da delegação israelita aos Jogos Olímpicos que tinham então lugar em Munique. Morreram logo dois desses reféns, mas, depois de uma intervenção de resgate falhada, levada a cabo pelas forças de segurança alemãs, acabaram por morrer mais nove atletas, cinco dos sequestradores, um polícia alemão e um piloto.



Se este foi, de longe, o mais dramáticos dos acontecimentos em Olimpíadas, não foi o único que ficou marcado por interferências políticas ou por protestos:

1896, Atenas (primeiros Jogos Olímpicos da era moderna) – Boicote da Turquia.

1936, Berlim – Os Jogos Olímpicos do nazismo.

1948, Londres – Japão e Alemanha (os dois grandes vencidos da Segunda Guerra Mundial) nem sequer são convidados.

1956, Melbourne – Boicote de Espanha, Holanda e Suíça contra a intervenção soviética em Budapeste e de Líbano e Iraque contra a posição da Austrália sobre o Médio Oriente. A China abandona os Jogos como forma de protesto contra a presença da bandeira de Taiwan.

1968, México – Power Salute

1976, Montréal – Boicote de vários países africanos como protesto contra a presença da Nova Zelândia, por esta ter disputado um desafio de rugby com a África do Sul, alguns meses antes (quando estava impedida de o fazer devido ao apartheid).

1980, Moscovo – Boicote dos Estado Unidos (seguido por 60 países) como protesto contra a intervenção soviética no Afeganistão.

1984, Los Angeles – Países do bloco soviético (excepto Roménia) e Cuba retribuem o boicote de 1980.

1988, Seul – Boicote de Coreia do Norte, Cuba, Etiópia e Nicarágua.

1992, Barcelona – Devido à guerra com a Croácia e a Bósnia-Herzegovina, a Jugoslávia não é autorizada a participar como país, mas os seus cidadãos são admitidos título individual.

(Podem faltar mais casos, evidentemente.) 
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E agora, Portugal? Despenteias-me?

 


«Como é evidente, o povo português é o desgraçado da anedota. Na sequência de um acidente, um homem está no hospital com as pernas e os braços partidos, falta-lhe um olho e come por um tubo. Exasperado com a sua má sorte, solta um palavrão. Uma freira vai a passar e repreende-o:

— Não devia dizer coisas dessas, meu filho. Deus castiga.

— O que é que ele vai fazer, irmã? Despentear-me?

Para mim, que estou a perder o cabelo, a anedota não é assim tão engraçada. Sei que é possível Deus intervir de forma bastante cruel a nível capilar. Todos os dias surpreendo, ao espelho, um careca na minha casa de banho. Levo algum tempo a perceber que sou eu. Ainda assim, ocorre-me aquela anedota sempre que, na televisão, um comentador diz recear que venha aí uma crise política. Confesso que não estou muito preocupado. Creio que uma crise política seria uma lufada de ar fresco. Tivemos quatro eleições legislativas nos últimos seis anos. Uma crise, segundo o dicionário, é uma perturbação, uma mudança súbita, um percalço na marcha regular das coisas. Gostaria imenso que um percalço viesse subitamente perturbar o modo como as coisas têm marchado regularmente. Quando a marcha regular das coisas é haver eleições num período cada vez mais curto, uma crise seria uma legislatura chegar ao fim.

Parece-me que basta examinar o modo como os acontecimentos têm decorrido para perceber o que o país nos está a querer dizer. Houve eleições em 2019. E, a seguir, em 2022 — três anos depois. E, a seguir, em 2024 — dois anos depois. E, a seguir, em 2025 — um ano depois. Não sei se estão a ver onde quero chegar. É muito óbvio que se trata de uma contagem decrescente. Portugal está a contar: 3, 2, 1… Como se faz na passagem de ano. Ou antes do deflagrar de uma bomba. O país parece sentir que alguma coisa está para acabar. Como a contagem decrescente tem a ver com o espaço entre eleições, é possível que o que está para acabar seja a democracia. O cansaço gerado pela instabilidade costuma levar a um desejo de estabilidade. Fartas de legislaturas cada vez mais pequenas, certas pessoas podem sentir-se tentadas a querer experimentar legislaturas cada vez maiores. Com 48 anos de duração, por exemplo. Sendo assim, uma crise não é exactamente um problema. É capaz de ser uma necessidade.»


Consequências políticas

 


4.9.25

Uma casa fabulosa

 


«Villa Les Clématites», Arte Nova, Nancy, France. 1904-1909.
Arquitecto: César Pain.

Daqui.

Estivadores italianos prometem bloquear portos se Israel intercetar flotilha

 


«A próxima paragem da flotilha humanitária com destino a Gaza é Tunes, onde se lhe juntarão as embarcações vindas do Magrebe e mais ativistas e parlamentares de vários pontos do globo, incluindo o neto de Nelson Mandela. Também de Itália se juntarão mais barcos depois de 40.000 pessoas terem assistido em Génova à sua saída.»

Ler o texto na íntegra AQUI.



04.09.1970 - A vitória de Allende

 


Há 55 anos, Salvador Allende ganhou as eleições presidenciais no Chile.

Excertos do discurso  de vitória:



Texto na íntegra AQUI.


Eduardo Galeano em Los Hijos de los días:


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