4.10.25

Venham mais portas

 


Porta de entrada Arte Nova, Amsterdão, 1901-1902.
Arquitecto: L. Kok Jr.


Daqui.

Pescar em Gaza

 


Enquanto os navios israelitas estavam ocupados a deter os elementos da Flotilha, os palstinos puderam pescar, o que é proibido há muito tempo.

Carlos Moedas igual a si próprio

 


04.10.2009 - O dia em que Mercedes Sosa morreu

 


Mercedes Sosa nasceu no Noroeste da Argentina, em San Miguel de Tucumán, cidade onde em 1816 foi declarada a independência do país.

Quando a Junta Militar de Jorge Videla subiu ao poder e se foi tornando cada vez mais agressiva, Mercedes, considerada peronista de esquerda, foi detida durante um concerto em La Plata, em 1979, refugiou-se depois em Paris e em Madrid e só regressou a Buenos Aires, e ao magnífico Teatro Colón, em 1982.








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Uma coisa é ser conservador, outra é ser da extrema-direita

 


«O uso da classificação de “conservador” é nos dias de hoje, na maioria dos casos, abusiva. Ela foi usada para caracterizar o activista Charles Kirk, que morreu assassinado, repetindo uma classificação usada nos EUA, mas ocultando que também nos EUA muitos órgãos de comunicação o classificaram de extrema-direita. As ideias de Kirk — defesa das armas, racismo contra os negros, que seriam melhores no tempo da agressiva supremacia branca nos estados do Sul, afirmação da inferioridade de inteligência das mulheres negras, ataque aos “trans”, submissão das mulheres aos homens no quadro da “família”, e por fim, o elemento mais moralmente impiedoso, o combate à empatia, aquilo que o une a Musk e a Trump numa visão cruel do Estado e da sociedade. Nada disto é conservador.

Essa classificação de “conservador”, pouco comum na actual política portuguesa, entrou por imitação das notícias sobre Kirk. O ADN, o partido dos bebés de plástico, colocou uma faixa a falar dos “valores conservadores”, e não tenho dúvidas de que a designação se vai tornar mais habitual, até porque é mais “simpática”. Mas, como muita coisa que por aí circula, é falsa — a classificação de extrema-direita é mais rigorosa, embora tenda a esconder o que é novo nessa zona política, mas não vale a pena perder muito espaço com isto. Mesmo que se diga verdadeira, com grandes teorizações citando Burke, não é — a não ser que se substitua a recusa da Revolução Francesa pela recusa do 25 de Abril. Conservadores é que não são.

Para simplificar, consideremos questões de estilo e de conteúdo em que a diferença é abissal. Há no conservadorismo um módico de costumes, uma recusa da má educação, dos insultos nas redes sociais, das caretas e gestos dos deputados do Chega no Parlamento. Os conservadores podem ter muitos defeitos, uma certa atracção pelo snobismo, hipocrisia, muita pose, e muitas vezes o atravessar da fronteira entre o conservadorismo e o reaccionarismo. Mas o pensamento conservador, a linguagem, a postura, são completamente distintos desta boçalidade e do programa que ela transporta, de violência explícita, e de uma certa forma, na sua intenção revolucionária, de profunda perturbação social.

Basta comparar um genuíno conservador como João Carlos Espada com a turma vociferante dos comentadores e influencers próximos do Chega ou da ala mais à direita do PSD, exaltados aos berros, ou enunciando platitudes que atribuem ao “povo” que está fora da “bolha”, com o seu anti-intelectualismo e ignorância agressiva, o uso sistemático da mentira e do exagero como discursos principais.

Quanto ao conteúdo, usando a trilogia clássica de Deus, Pátria e Família — apesar de ela própria ter deixado também, há muito na Europa, de personificar o pensamento conservador —, percebe-se a distância da extrema-direita impulsionada pelo populismo dessa trilogia.

Os nossos homens e mulheres de extrema-direita pouco têm a ver com Deus se o personificarmos na Igreja Católica, onde a maioria se proclama crente e é, no limite, religiosa não praticante. Mas, em dois aspectos, estão do lado oposto: na doutrina social da Igreja e no ataque à empatia, que sem minudências teológicas é o cerne da ideia de “caridade”. E por estranho que possa parecer, no seu ataque a outra das grandes religiões monoteístas, o Islão, que é também bem pouco “católico”.

Aliás, uma das coisas que afastavam o ditador conservador que era Salazar do nazismo (como, aliás, Pétain e o ditador católico Dolfuss da Áustria) era o paganismo dos nazis, o culto da violência rácica presente na negação do “outro”, base do racismo e do discurso contra os imigrantes. E se a Igreja cometeu muitas violências no passado, a Igreja de hoje em sociedades como as europeias é uma força de moderação e uma reserva de “empatia” para os mais fracos, como são os pobres e os perseguidos, sejam portugueses de lei ou imigrantes ao lado da lei.

Quanto à Pátria, uma coisa é ser patriota, outra ser nacionalista e xenófobo. A história portuguesa não tem H grande como todas as histórias de qualquer país. Substituir o patriotismo fundado no que fomos e no que somos por uma espécie de fanfarronice não nos engrandece, antes nos diminui. Aceitar a história como ela foi, com os momentos de violência da reconquista, do colonialismo, da escravatura, das lutas liberais, da guerra colonial, e com os momentos de redenção como o 25 de Abril, pode ser um factor de moderação. Como será para qualquer genuíno conservador ver a Pátria com o olhar dos portugueses da Peregrinação, da História Trágico Marítima, d'Os Lusíadas, de Herculano, Camilo, de Eça, mas também olhar com humildade para a Valise de Carton de Linda de Suza, ou o Oliveira da Figueira de Hergé e nos perceba, compreenda como nos percebem, para depois perceber os “outros”.

Quanto à Família, esse “valor conservador”, então é que não tem de todo qualquer sentido. São homens e mulheres do nosso tempo, com casamentos e divórcios, uniões de facto, promiscuidade, amantes, sexo, aborto, e só a hipocrisia “familiar” deles justifica que fale disto, porque entendo que cada um vive como entende, mas não é a extrema-direita que vem para cá dar lições de moral. As mulheres abortam, os maridos e namorados pagam os abortos. Só que, de novo, são apanhados pela sua hipocrisia. Uma é a violência doméstica, ou a pedofilia, que não tem nenhum papel no discurso da extrema-direita, e percebe-se porquê, até porque defender a castração química dos seus militantes é um pouco embaraçoso. Outra é que muito do machismo masculino oculta a sua homossexualidade, praticada ou latente.

Por isso, nem Deus, nem a Pátria, nem a Família.

Hoje há muito poucos conservadores e muita gente da direita radical e da extrema-direita. E chamar-lhes conservadores é dar-lhes uma caução de moderação que não só não têm como é um dos seus alvos principais.»


3.10.25

Um vaso «suave»

 


Vaso "Série Rubis", camafeu gravado com ácido e decorado com flores de amendoeira. Cerca de 1900.
François-Théodore Legras.


Lei da imigração?

 


A solidariedade não tem partido

 


«É muito triste ler os comentários nas redes sociais sobre a flotilha humanitária que pretendia chegar à Faixa de Gaza. Como também é desolador que se tente reduzir esta ação a uma questão de Esquerda e de Direita. Não devia ser. Não é.

A solidariedade não tem partido. Não tem fronteiras ideológicas. O que está em causa não é um debate político ou académico. O que importa é a vida. A vida de pessoas reais. De famílias, de crianças, de idosos, que todos os dias olham para a morte de frente.

Minimiza-se também a ajuda transportada pela flotilha. Uns afirmam que é pouca. Outros argumentam que os organizadores da viagem podiam ter escolhido outra via para fazer chegar a ajuda humanitária. Mas esses analistas, comentadores, políticos esquecem que, para quem está em Gaza, até o mínimo dos mínimos tem um valor imensurável. "Juro por Deus, eu aceitaria a morte se isso significasse poder levar um único pacote de farinha para os meus filhos, para que eles pudessem comer", diz um homem de Gaza, citado pelo serviço de notícias em árabe da BBC.»

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Flotilha: ainda há um navio a navegar

 


«O navio "Marinette", último da Flotilha Global Sumud, prossegue viagem rumo à Faixa de Gaza esta sexta-feira, apesar da interceção de 41 embarcações e da detenção de mais de 400 ativistas pró-palestinianos pelas forças navais israelitas.»

Luís Møntenegrø, primeiro-ministro da Dinamarca

 


«Mal se soube que o Governo ia dar incentivos fiscais a quem arrendasse casas a preços moderados, a medida recolheu bastantes elogios. Quando, no dia seguinte, se descobriu que o conceito de renda moderada ia até 2300 euros, o entusiasmo esmoreceu um pouco. Segundo os críticos, num país em que o salário médio ronda os 1400 euros, não se pode chamar moderada a uma renda de 2300 euros. Mas suponhamos que os dois elementos de um casal ganham, cada um, 1400 euros. Juntos, auferem 2800 euros. Podem perfeitamente pagar os 2300 euros de renda e ainda ficam com 500 euros para as outras despesas mensais. Assim já se percebe melhor porque é que se chama renda moderada. Porque o casal em causa terá de ser moderado. Moderado na alimentação, moderado nos transportes, moderado nas despesas com a educação dos filhos.

Uma pergunta impertinente repetida muitas vezes foi: onde? 
Onde é que uma renda de 2300 euros é moderada? A resposta é evidente: na Dinamarca. É frequente ouvirmos suspirar que em países como a Dinamarca se vive melhor. Pois bem, Luís Montenegro já se comporta como se fosse o primeiro-ministro dinamarquês. Agora só falta o povo acompanhar este esforço. Se temos mesmo vontade de viver como os dinamarqueses, há que começar por algum lado. O custo da habitação é um aspecto tão bom para começar como qualquer outro. A objecção do costume é: sim, mas nós não temos os salários da Dinamarca. Calma. Uma coisa de cada vez. A minha tia não tinha pássaros no jardim. Instalou uma casinha para pássaros e de repente passou a ter. O método do Governo é igual: primeiro, faz-se uma casa para pessoas que têm salários ao nível da Dinamarca. E depois essas pessoas acabarão por aparecer.

Aliás, é possível que já estejam a aparecer. O ministro da Habitação disse que as rendas de 2300 euros são moderadas para agregados familiares cujo rendimento seja de 5 mil euros líquidos — ou seja, para casais em que cada cônjuge ganhe mais de 2500 euros por mês. De acordo com um estudo recente, os trabalhadores que ganham 3 mil euros por mês ou mais correspondem a 2% da população. Significa isto que o Governo é alvo da habitual injustiça conhecida por “preso por ter cão e preso por não ter”: se não se preocupa com as minorias, é insensível; se toma medidas que beneficiam 2% da população, também é criticado. Enfim. Pela minha parte, em sinal de apoio a esta medida vou abrir uma garrafa de champanhe que adquiri a preço moderado. Na loja havia champanhe caríssimo. O que eu comprei é apenas bastante caro. Sou pela moderação.»


2.10.25

O "sucesso" de Rita Matias

 


02.10.1968 – México: «Não queremos olimpíadas, queremos revolução»

 


No dia 2 de Outubro de 1968, na Plaza de las Tres Culturas (Tlatelolco), ao Norte da cidade do México, terminou um movimento dos estudantes mexicanos que durou 146 dias. Aproveitando a realização dos Jogos Olímpicos na capital do país, tinham procurado chamar a atenção do mundo para a corrupção do poder e o autoritarismo do Partido Revolucionário Institucional, no poder durante mais de setenta anos. «Não queremos olimpíadas, queremos revolução», gritava-se entre muitos outros slogans.

Acabou por ser o único movimento estudantil da época que terminou com uma matança brutal. Ainda hoje não se sabe exactamente o número de mortos que varia entre os 44 «documentados» e os mais de 300 reivindicados pelas famílias. E os responsáveis continuam impunes.




Dez dias depois começaram os Jogos Olímpicos que viriam a ficar na História pelo célebre Black Power Salute.


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