27.12.25
27.12.1943 – Joan Manuel Serrat
Chega hoje aos 82, nasceu no bairro Poble Sec de Barcelona, numa família de operários. Começou por cantar em catalão, passou depois para castelhano no fim da década de 60, o que provocou fortes acusações de traição por parte dos seus conterrâneos. Mas em 1968, selecionado para representar a Espanha no Festival Eurovisão da Canção, disse que só o faria se cantasse em catalão, proposta que não foi aceite e que esteve na origem da proibição, pelo governo, que actuasse na televisão e que as suas canções fossem transmitidas na rádio.
Os anos forma passando e, no Natal de 2014, estoirou de novo a polémica por ter recorrido de novo ao catalão, na TVE, poucos minutos depois do discurso do rei.
Em Novembro de 2015 terminou uma turnê em que deu mais de 100 concertos na América Latina, Estados Unidos e Europa. E continuou. Em 2017 e 2018, realizou outra
turnê – "Mediterraneo da Capo" – para comemorar o 47º aniversário de seu mítico
disco "Mediterraneo".
Algumas clássicas:
Do concerto realizado em Barcelona, em 2022:
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O peso cultural e social de se estar “em cima” ou “em baixo”
George Cruishank, The British Beehive, 1867
«Nunca fui da escola da “identidade dos portugueses” que teve um papel relevante no Estado Novo e que, de vez em quando, emerge com a ascensão do nacionalismo, como se passa nos dias de hoje com formas bastante perversas. Uma delas foi o exemplo nacional que o primeiro-ministro resolveu dar aos portugueses com um jogador de futebol, o Ronaldo, que é hoje um pajem de um assassino saudita, o que, aliás, não é alheio aos momentos em que parece que apenas o futebol enche o peito da turba com Portugal. É irónico ver agitar as bandeirinhas de um estranho Portugal que em vez das quinas tem pagodes chineses, mas não deixa de ser um retrato da correlação forte entre o nacionalismo futebolístico e a ignorância.
Mas nasci em Portugal, sou português, patriota no sentido em que me honram a língua, a literatura e, quer queira quer não, fui feito pela nossa história, muitas vezes pela via mais próxima de uma família antiga e pela cidade que me “moldou”, o Porto. Por tudo isto, esta é também a minha identidade, e dá-me pena e preocupação que tudo o que nós temos de melhor, e nalguns casos de muito melhor, como é a nossa ímpar literatura e o seu instrumento, a nossa língua, estejam numa profunda crise, exactamente quando elas são, mais do que nunca, necessárias para a boa “identidade” dos portugueses. É por isso que é um insulto aos portugueses atirar-nos como modelo motivacional da psicologia barata o Ronaldo. Estamos ao nível do Big Brother.
Mas, como de costume, os nossos nacionalistas, que se excitam todos por se dizer que fomos um povo esclavagista, ficam cegos, surdos e mudos quando um país que teve Fernão Lopes, João de Barros, Fernão Mendes Pinto, Damião de Góis, Manuel Bernardes ou o Padre António Vieira — e não é por acaso que escolho estes nomes — aparece personificado por um jogador de futebol de uma forma que nunca teria sido usada para o Eusébio, a começar porque este era preto.
Uma das razões pelas quais quando se olha para Portugal com a obsessão identitária se comete um erro que não é inocente é esquecermos um dos traços mais presentes no nosso povo, de cima a baixo, dos pobres e dos ricos, é a prevalência de comportamentos conformes ao lugar social de cada um. Quem esteja atento, percebe que quem está em cima sabe onde está e lembra-o a quem não o veja nesse lugar e não reconheça a sua autoridade social, assim como quem está em baixo sabe muito bem qual é o seu lugar e quais os custos de não o reconhecer na submissão, mesmo invisível. Quanto aos do meio, é mais complicado, porque é um mau lugar para se estar, muito incómodo, principalmente quando se olha para cima e nunca se é tratado como igual. Toda uma indústria vive deste dilema da classe média, a começar pelos reality shows, das revistas do jet set à moda e aos seus os locais, sejam ginásios, sítios de férias, restaurantes, viagens, espaços de consumos culturais. Mas numa sociedade profundamente desigual no plano económico, cultural e social os comportamentos fixam-se no lugar onde se está e onde se deve estar.
Há muitos exemplos de como essa hierarquia se “respira” como o ar. Por exemplo, a GNR, que fazia durante a ditadura as prisões nos campos, sabia que lhes podia começar a bater mal entravam na carrinha, enquanto a PIDE torturava, mas não deixava de saber de que família vinha o preso e proceder em consequência. Por outro lado, o escritor que escreveu um romance histórico sobre o escândalo dos Ballet Rose cometeu um anacronismo quando colocou um nobre titular envolvido a almoçar com um agente da PIDE, coisa que ninguém da “alta”, criminoso que fosse, faria, porque um agente da PIDE não se colocava na mesma mesa de um conde ou marquês. Um outro exemplo é a crueldade dos pobres com os outros pobres. O recente episódio de o ministro da Educação — que tem, como se diz, origem “humilde” — achar natural dizer que os estudantes das classes baixas são pobres, porcos e maus, e que por isso estragam as residências universitárias, é outro exemplo.
A dificuldade de tratar o peso das hierarquias sociais em Portugal é que elas transportam no seu interior aquilo a que os marxistas chamam “luta de classes”, ou seja, remetem para a desigualdade e a exclusão, como se dizia em termos pedantes, para a Weltanschauung.
Percebo muito bem que olhar se pode ter sobre o que eu escrevi, no fundo, criticar o Ronaldo, atirar ao Chega os erros de ortografia, e confrontar os nossos governantes que estão todos a “reler o Eça” (a resposta mais comum à pergunta sobre que é que estão a ler) com Fernão Lopes padece de um total e completo snobismo. Talvez, mas, exactamente por aquilo por onde comecei, é que responder à bruta à ignorância agressiva dominante é a melhor maneira de ser patriota. Ah! E outra coisa: lutar para que os portugueses ganhem mais, saiam da pobreza, tenham mais opções na sua vida, tenham uma boa e justa vida, o grande objectivo da democracia, a felicidade.»
E não averá outros?
«É assim que chegámos ao ac¬tual panorama presidencial, em que — eu, pelo menos — tenho a sensação de que não vou escolher um Presidente para servir o país, mas sim ajudar a resolver o futuro de alguém que de outra forma nada teria que o distinguisse. Já tivemos notáveis pessoas que nos serviram na política, no Governo, na Presidência da República ou mesmo na oposição, muitas das quais tocaram e logo fugiram, assustadas ou revoltadas com o generalizado instinto de linchamento da multidão. Quando passamos em revista a lista dos que nos governaram, dos que se sentaram na Assembleia da República ao que se vê hoje. E isto não é nostalgia nem envelhecimento amargo, é apenas a constatação de que, em condições normais, os povos têm o que merecem e o que escolheram ter.»
26.12.25
Mao Tsé-Tung
Chegaria hoje aos 132. E, com a diferença de fusos horários, até pode ter nascido no «nosso» dia de Natal.
26.12.1930 - Jean Ferrat
Representante típico de gerações de intérpretes politicamente comprometidos, para sempre ligado a «Nuit et Brouillard» e a tantos outros títulos, o eterno «compagnon de route» do Partido Comunista Francês, que não hesitou em denunciar a invasão de Praga em 1968. E muito mais.
C'est un nom terrible Camarade / C'est un nom terrible à dire / Quand le temps d'une mascarade / Il ne fait plus que fremir / Que venez-vous faire Camarade / Que venez-vous faire ici / Ce fut à cinq heures dans Prague / Que le mois d'août s'obscurcit.
Mas não só:
Mas não só:
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Não escolhemos os imigrantes, escolhemos a economia que os atrai
«A Itália chocou com a realidade que nos espera: sem imigração em massa, constante e planeada, o Estado Social não chega ao fim do século. A população italiana caiu para menos de 59 milhões e, mesmo com algum aumento da natalidade, cairá para 55 milhões em 2035, 49 milhões em 2050 e 28 milhões no final do século. A população ativa descerá de 62% para 52%, pondo em causa pensões, serviços públicos e crescimento económico. Precisa de 350 mil imigrantes líquidos por ano até 2035 e 480 mil até 2050. Contando com as saídas, seriam necessários 490 mil e 620 mil vistos anuais. No total: 13,5 milhões de novos imigrantes líquidos nos próximos 25 anos. Perante a evidência, um governo eleito para fechar portas começou a abrir as janelas. E o problema não é italiano: a Alemanha precisa de 400 mil imigrantes por ano, vários países do Leste vivem brutais crises demográficas, Espanha e Grécia enfrentam declínios difíceis de inverter, e Portugal, como sabemos, só cresce graças à imigração.
Sem imigração, a sustentabilidade da Segurança Social estaria gravemente posta em causa — como estará com a promoção, procurada nesta contrarreforma laboral, do trabalho não declarado. E sectores inteiros da economia e de assistência social fundamental deixariam de funcionar. A agricultura, a construção, a restauração, a hotelaria, a limpeza, os cuidados a idosos, a assistência domiciliária e vários serviços essenciais de apoio social dependem de mão de obra estrangeira. A imigração não é apenas um fator de crescimento, é uma condição de sustentabilidade do Estado Social. Há um argumento crítico a que sou sensível: usando uma linguagem marxista, a imigração poderia estar a cumprir a função de “exército industrial de reserva” para conter ou baixar salários. No entanto, grande parte da investigação disponível não mostra que ela tenha um impacto significativo sobre os salários. Os efeitos negativos tendem a ser muito limitados e localizados. A estagnação salarial resulta de fatores como a baixa produtividade, a fraca capacidade negocial do trabalho e a estrutura da economia. Isso combate-se com a legalização de imigrantes, negociação coletiva e modernização da economia. Os imigrantes tendem a concentrar-se em empregos que já eram mal pagos, precários ou rejeitados pelos trabalhadores nacionais. A imigração não cria esses salários, entra num mercado que já os produzia.
Tenho avisado para os riscos de uma visão exclusivamente utilitarista dos imigrantes. Mas andamos a fazer o debate ao contrário. O problema não é a imigração, é o modelo económico que a molda. Portugal continua a crescer apoiado em atividades de baixo valor acrescentado. A criação de emprego tem-se concentrado no turismo, na agricultura intensiva e sazonal, na construção, na logística e nos serviços urbanos de baixa remuneração. São sectores que absorvem muita mão de obra, mas têm produtividade reduzida, salários médios baixos e elevada rotatividade. No turismo e na agricultura, a sazonalidade e os contratos temporários são dominantes; na construção e na logística, a subcontratação e a instabilidade laboral são frequentes. Há criação de emprego, mas desqualificado e frágil. Este padrão corresponde a uma economia extrativista — extrai recursos naturais, como água e solo, pressiona infraestruturas públicas e baseia a sua competitividade em trabalho barato. Cria pouco capital humano duradouro, pouca inovação e fraco retorno para as comunidades.
Quem quer resolver o problema selecionando imigrantes qualificados inverte a ordem dos fatores. Da mesma forma que não bastou investir na qualificação para que as empresas se qualificassem, selecionar perfis de imigrantes não altera a estrutura da procura de trabalho. Os fluxos migratórios respondem às oportunidades disponíveis: tipo de emprego, salários, condições de trabalho, perspetivas de progressão e reconhecimento de qualificações. Numa economia que oferece, em grande escala, trabalho desqualificado e mal pago, mesmo quem chega com mais formação acabará no subemprego, desperdiçando competências, porque é isso que o mercado absorve. Recebemos imigração pouco qualificada e perdemos nacionais qualificados porque a nossa economia absorve mais os primeiros do que os segundos. A questão não é escolher melhor quem entra, é mudar o que o país oferece. Não se seleciona imigração no vazio: fazem-se opções económicas que determinarão quem quer vir. Uma economia mais qualificada, mais produtiva e mais enraizada cria melhor trabalho, integra melhor e atrai perfis mais qualificados.»
25.12.25
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