29.12.10

O drama de um homem bom


Deus parece ter abandonado a Bélgica, onde não está a ficar pedra sobre pedra. Sem conseguir formar governo há mais de seis meses, não sabendo sequer se sobreviverá muito tempo como país, é também um dos cantos da Europa com mais casos de pedofilia dentro da Igreja. Desta vez com estrondo: um dos seus mais prestigiados membros, o cónego François Houtard, confirmou ter abusado de um menor, há 40 anos, depois de uma prima o ter agora denunciado.

Se o nome dirá pouco à maioria dos portugueses, o mesmo não acontecerá para quem se movimente hoje em meios alteromundialistas, se recorde ainda do seu activíssimo papel durante o Concílio Vaticano II e como fundador da revista Concilium (que acompanhei desde o primeiro minuto) ou, como eu, o tenha conhecido como professor na Universidade onde ambos estudámos: Lovaina, na Bélgica.

Estava em curso neste momento uma campanha no sentido de o seu nome ser proposto como candidato a Prémio Nobel da Paz 2011, mas Houtard já pediu que a mesma cessasse imediatamente. Membro importante do Fórum Social Mundial, sempre atento à problemática da globalização, Houtard recebeu, em 2009, um prémio da UNESCO pela Promoção da Tolerância e da Não-Violência.

Devia eu proclamar escândalo e condenação por ser conhecido mais um horrendo criminoso? Talvez, mas não consigo. Hoje, não me sai da cabeça o drama que este homem bom, de 85 anos, estará certamente a viver. Vítima, antes de mais, de uma absurda lei de celibato, que o obrigou a viver como anjo que não era e o empurrou para algo que certamente não queria.
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11 comments:

Nuno Gaspar disse...

Lindo.

fernando f disse...

Gostei, da sua postura.

JMG disse...

Não estou a ver a relação entre a obrigação do celibato e a pedofilia. Se este clérigo não tinha perfil para obedecer ao ditame (aliás, na minha opinião, absurdo) da Igreja a que pertence, o que tinha a fazer era ou sair da Igreja, ou arranjar uma amante.

Miguel Serras Pereira disse...

Joana,
gostei do teu post e aprovo-o no essencial. Mas acho que falar de "crime" e "horror" é um pouco excessivo. "Fraqueza lamentável" chega muito bem. Convém não sermos farisaicos na questão.
O que se passa - ao que parece - é que um tipo que era padre tocou por duas vezes os orgãos genitais de um sobrinho, imagino que com alguma brejeirice e concupiscência. Falar em "violação" parece-me equívoco, pois que evoca a forma máxima da coisa.
E há também que distinguir os abusos cometidos ao abrigo de instituições de ensino (religiosas ou não) e este tipo de episódios familiares. Na circunstância, H. prestou contas à família e agiu em conformidade. Vir desenterrar a história quarenta anos depois parece-me bem mais condenável do que a chamada "violação" (que, evidentemente, não aprovo).
Por fim, há que ter alguma phronésis ou sentido das proporções. Não é tudo a mesma coisa, nem todas as faltas se equivalem, nem todas são crimes. Não sei se não desagradrá a muitos o que vou dizer: mas ao ler a notícia e, a seguir, este teu corajoso post, lembrei-me de um comentário da Agustina a propósito dos excessos anti-pedófilos de bom tom: dizia ela que, pelos critérios propostos pelos defensores das crianças em matéria do que deve ser proibido e punido, o seu próprio avô seria considerado "pedófilo".
Abraço

miguel (sp)

Joana Lopes disse...

Miguel,
Estou de acordo, de um modo geral, com o que escreves. E, mesmo tendo usado termos talvez demasiado fortes para o que esteve em causa, foi grande a polémica provocada por este post, em mais de um local no Facebook (os comentários rareiam aqui, passaram quase todos para lá...). Se ainda lá estás, vê aqui uma parte.

Pedro Argenti disse...

Não me surpreende que muitas pessoas que cometeram atos ilegais dos quais se arrependam sejam excelentes indivíduos que muito tenham contribuído para causas legítimas.

O que me deixa pasmo é ver o quanto as pessoas se deixam chocar pela pedofilia como se dela surgissem todos os problemas de uma sociedade. Não percebem o óbvio e contrário: temos Estados que corroboram o obscurantismo das estruturas da igreja, temos injustiças sociais que se encarregam de encaminhar crianças e jovens à exploração sexual, temos uma cultura de massa repleta de mensagens ao mesmo tempo degeneradas e conservadoras.

A pedofilia na igreja virou passatempo da imprensa e das autoridades belgas, uma vez que estão desgovernados e já não há mais o que ser dito sobre as tais negociações. É vantagem para o Estado belga futricar nas lixeiras da igreja, assim evitam que se vasculhem as do ministério das finanças, da justiça, etc.

João Bernardo disse...

Imaginei um romance, um livro cristão, seria assim. Um homem comete um pecado, arrepende-se e constrói toda a sua vida, de então em diante, em cima desse arrependimento. A sua vida passou a ser aquilo que um grande místico do final do século XVIII, Saint-Martin, Le Philosophe Inconnu, chamou «prece activa», uma prece em acção. E quarenta anos depois alguém lhe quer recusar o que foi o motor e a razão de ser dessa prece. Dostoievsky chegou ao fundo das coisas, num dos sonhos de Ivan Karamazov, ao retratar o Demónio como a personificação da mediocridade.

septuagenário disse...

Penso que há poucas vítimas da pedofilia da velha igreja em portugal, porque quem nos dava a catequese eram garotas que mal acabavam a catequese iam prós bailaricos com os rapazes.

E os padrecos descubriam sempre uma geitosa no confessionário para os distrair.

Penso eu que foi assim que a maioria "escapou".

João "o discipulo amado" Silveira disse...

Realmente toda esta argumentação tem muita lógica, como este senhor é um sociólogo marxista, que hoje em dia não tem nada a ver com a Igreja Católica, é logo apelidado de santinho, e inimputável. A culpa é da Igreja, que obriga (como?) os padres a não terem relações sexuais. Pobre do padre que abusou da criança que não tem culpinha nenhuma, coitado.

Joana Lopes disse...

João, «o discípulo...»
Quem é que lhe disse que FH não tem nada a ver com a Igreja actualmente? Diz isso por ele ser marxista? Ainda aí vai???

João "o discipulo amado" Silveira disse...

Ainda aí vou? Essa é uma pergunta que deve ser feita a alguém que em pleno séc.XXI ainda continua a ser marxista!

Mas se não acredita no que digo, talvez acredite nas próprias palavras do FH:

"- O senhor é sacerdote. Algum dia pensou em realizar seu trabalho intelectual fora da Igreja Católica?

- Praticamente é o que estou fazendo! Não estou fora do Evangelho, nem fora da igreja como Povo de Deus; porém, não estou em convergência com a instituição central, isso está claro."

Nesta mesma entrevista, o moderno FH diz que: "não podemos dizer que não existe democracia em Cuba."

E além disso declara-se a favor do aborto. Como se vê, é uma pessoa em perfeita comunhão com a Igreja.

E a sua tese que ele só cometeu actos pedófilos por causa da "absurda lei do celibato" cai por terra quando se vê que a esmagadora maioria dos padres nunca abusou de nenhuma criança.

Se esses todos se conseguiram controlar, então o problema não está nessa "lei", mas sim na vontade da pessoa.

Isto para já não dizer que ninguém é obrigado a ir para padre, e que quando um homem escolhe, e é escolhido para, esse caminho sabe perfeitamente que terá de ser celibatário.