8.7.13

Os Jerónimos do padre Felicidade



As imagens da missa de Manuel Clemente nos Jerónimos, toda a panóplia que a envolveu e o posicionamento político (sim, político) que o novo cardeal tem vindo a fazer questão de revelar, neste momento tão complexo da vida do país, fizeram soar campainhas em muitos que «reviram» exactamente no mesmo palco – os Jerónimos – uma outra posição radicalmente diferente da Igreja, quando os tempos eram bem difíceis, a ditadura pura e dura imperava e o prior da paróquia, o padre José da Felicidade Alves, usava o púlpito, enquanto Cerejeira não lho tirou, para denunciar injustiças e falta de liberdade.

Lá esteve entre 1956 e 1968, mas foi sobretudo a partir de 1967 que as suas intervenções começaram a causar incómodo tanto ao poder político como ao eclesiástico. No início de 68, foi obrigado a ausentar-se para Paris (continuando, no entanto, como prior titular de Belém) para prosseguir estudos de Teologia Ecuménica. De visita a Lisboa por ocasião da Páscoa, resolveu fazer uma comunicação ao Conselho Paroquial , na presença de oitenta pessoas, comunicação essa que desencadeou um longo e atribulado processo que iria culminar no seu afastamento da paróquia, na suspensão das funções sacerdotais e, já em 1970, na excomunhão (ou seja exclusão da própria comunidade eclesial). Nessa comunicação de 19 de Abril, eram abordados problemas que iam da necessidade da abolição da censura, ao direito à informação e à discussão da guerra colonial.

Houve inúmeras reacções à sua remoção da paróquia, de paroquianos, de 121 padres de Lisboa, de 680 leigos. A páginas tantas, um grande grupo de pessoas solidárias com o padre Felicidade dirigiu-se de Belém para o Patriarcado, onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção da força policial (já bem posicionada nas imediações). Foi pedida uma audiência a Cerejeira que não apareceu mas enviou um secretário para dispersar os presentes. Ficará na memória de todos «Esta casa é nossa!», um grito repetidamente lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares. O cardeal não nos recebeu, mas estava reunido, a essa mesma hora, com alguns paroquianos de Belém, muito activos contra o padre Felicidade. Naturalmente...

A sua acção não parou, no quadro dos chamados católicos progressistas. Depois do 25 de Abril aderiu ao PCP, onde se manteve até morrer. Tinha-se casado civilmente em 1970, mas só em 10 de Junho de 1998, seis meses antes de morrer, trinta anos após o início de um longo processo dramático com a Igreja e quando, finalmente, foram resolvidos os problemas a nível do Vaticano, é que o cardeal José Policarpo celebrou o seu casamento canónico – tal como o padre Felicidade sempre desejara.

Ontem, «revi-o» no púlpito dos Jerónimos – jovem e corajoso. Um exemplo enorme para nós que também éramos jovens e queríamos ser corajosos.



Francisco Fanhais cantou esta canção, especialmente apreciada pelo padre Felicidade, numa sessão de homenagem, que teve lugar por ocasião do 10º aniversário da sua morte. 
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