20.8.08

«Proletáři všech zemí, odejděte!»

A mensagem com que Cavaco devolveu à Assembleia da República o diploma sobre a lei do divórcio ainda é mais complicada do que a comunicação ao país sobre os Açores. De facto, deve passar-se algo de estranho naquele palácio cor-de-rosa.

Politicamente correcto seria explicar aqui porque é que a direita, o PR e os bispos são péssimos por serem contra a lei do divórcio, mas não estou para aí virada.

À minha volta, conheço muito pouca gente que ainda se case (devo viver num mundo especial...). Há cada vez mais criancinhas de respeitáveis clãs burgueses que dizem, com toda a naturalidade: «Na minha família ninguém se casou». Ouvi isto há uns dias e achei uma delícia.

Agora as meninas que ainda querem vestido branco e flor de laranjeira que aturem o Cavaco, os deputados e o bispo Azevedo. Continuem até a trocar de nome, romanticamente, para terem o apelido do marido (essa então nunca percebi mesmo e não caí nela, nem há trinta e muitos anos).

Claro que sei que não é tão simples assim e que há problemas reais, mas toda esta discussão caseira me pareceu hoje muito pouco interessante. Passei parte do dia a pensar em Praga 1968, a ver filmes com tanques a entrarem na cidade, a ouvir canções de Marta Kubišová.

Enquanto ouvia o Luís Delgado misturar divórcio com manobras eleitorais, não me saíam da cabeça algumas palavras de ordem dos jovens checos do 22 de Agosto:

«Acorda Lenine, que Brezhnev endoideceu»

«Proletáři všech zemí, odejděte!»
(«Proletários de todo o mundo, desapareçam!»)

Estive noutra.