22.9.09

A voto útil não se olha o dente
















Restam três dias de campanha e jogam-se as últimas cartadas em ruas, palcos, feiras e até em gabinetes de Belém.

Tudo leva a crer que «les jeux sont faits», ou seja que o PS ganhará, com maior ou menor margem, e que o Bloco passará a terceira força - as sondagens que sairão amanhã e depois reforçarão, muito provavelmente, esta «crença». E, no entanto, os dois partidos do centro continuam a esgrimir a arma do voto útil, em todas as direcções, numa tentativa de dramatizarem o dilema e de despertarem um eventual sentimento de culpa nos que querem votar mais à direita ou mais à esquerda.

O argumento também vale para o PSD (que pouco me interessa), mas fixemo-nos no caso do PS. Tudo se passa na campanha e na blogosfera (e de que maneira…) como se não fossem os seus dirigentes e o actual governo os únicos responsáveis pela diminuição drástica no número de votos, pela falta de maioria absoluta ou até por uma eventual, embora pouco provável, vitória do PSD. Como se alguém tivesse roubado esses votos ao PS e não tivesse sido ele a perdê-los ao longo dos últimos anos.

Temos assistido às mais variadas vitimizações e a todos os ataques imagináveis. Aparentemente, eu e mais 20% de malandros, que vamos votar no BE ou no PCP, devíamos sentirmo-nos obrigados a salvar agora a situação com o tal voto útil – tristemente, de corda ao pescoço, de olhos vendados ou engasgados com um sapo na garganta. Do mesmo modo que, a 28 de Setembro, seremos certamente considerados responsáveis pela viabilização de um governo minoritário do PS, «forçando» aqueles em quem votámos a aceitá-la, com o mínimo de hesitações possível.

Mas, no ponto a que chegámos, o que é desejável é que, na nova AR, os partidos à esquerda do PS estejam tão fortalecidos quanto possível. Não se trata de um bando de malfeitores, mas de pessoas que querem tudo fazer - juntamente com o PS, evidentemente -, para que este país progrida e saia dos últimos lugares em quase todas as estatísticas. Será necessário negociar muito, respeitar, ceder – a democracia portuguesa amadurecerá, finalmente.

Se tudo se passar assim, é uma nova etapa, absolutamente imprevisível ainda há poucos meses, que deve ser aberta com profissionalismo, entusiasmo e vontade de vencer - e, também, com a alegria que ainda resta de uma 5º feira de Abril, que só aconteceu há trinta e cinco anos.

(O título deste post foi roubado a Júlio Machado Vaz)

7 comments:

Jorge Conceição disse...

Claro! E nada me repugna, antes pelo contrário,uma colaboração com determinados sectores do PS. Isto quer dizer é que nesta actual direcção do PS não confio, quer nas políticas nacionais, quer nas internacionais. Basta recordar as recentes apostas de Sócrates nesta área, na União Europeia (com o apoio a Durão Barroso) e na UNESCO, desautorizando o representante de Portugal naquele orgão, José Maria Carrilho, que também é do seu partido (ao mandar apoiar a eleição de Farouk Hosni).

ANA VIDIGAL disse...

"Será necessário negociar muito, respeitar, ceder – a democracia portuguesa amadurecerá, finalmente"

Espero que tb o saibam fazer com o PSD, caso este ganhe as eleições (pois até ao lavar dos cestos é vindima).

"Eles" (PSD) também não são "um bando de malfeitores, mas de pessoas que querem tudo fazer (...)para que este país progrida e saia dos últimos lugares em quase todas as estatísticas"

"Se tudo se passar assim, é uma nova etapa, absolutamente imprevisível ainda há poucos meses, que deve ser aberta com profissionalismo, entusiasmo e vontade de vencer - e, também, com a alegria que ainda resta de uma 5º feira de Abril, que só aconteceu há trinta e cinco anos" para todos os Portugueses (digo eu)

E agora vou para a festa do Lux, “eu e mais 20% de malandros” que do maralhal geral podem entrar pela porta 4 eheheheheh

PS, Ah tb fiquei estupefacta com a profundidade da analise política deste post(A voto útil não se olha o dente)

António P. disse...

Boa noite Joana,
Vivemos em democracia. O voto é livre.
Não há malandros.
Mas há ingénuos.
Ainda bem que quer "fazer coisas juntamente com o PS " pena é que o PC e o BE, ou pelo menos os seus dirigentes não o queiram.
Como já aqui disse uma vez : O PC,partido apoiante de tudo o que é ditadura ( até o Irão ),é um partido de esquerda ???
E o BE não é apenas um Movimento ?Não dei porque tivesse realizado um congresso fundador com aprovação de um programa político.
É um Movimento que navega à vista e que no dia que algum ( ou alguns ) dos seus dirigentes falar em estar no poder....implode. Nunca vi ex-ml, ex-PC's , ex-maoistas e ex-trotsquitas funcionarem juntos. Se é que são ex ?
Sem rancores desejo-lhe sorte.
Cumprimentos

Joana Lopes disse...

Obrigada, António. Já por aqui nos encontrámos várias vezes e não será hoje que ficaremos de acordo, mas é sempre com prazer que o leio.
Veremos como corre o futuro próximo - ainda há muitas variáveis em causa.

Jorge Conceição disse...

Evidentemente que o Bloco de Esquerda teve um congresso fundador, embora talvez não tenha udaso essa designação (ela era obrigatória? acho que, se era, os regulamentos não terão sido integralmente lidos...) O tal congresso, ou Convenção, como então se chamou, foi há 10 anos no antigo Cinema Roma, e actualmente sede da Assembleia Municipal de Lisboa. Embora eu não seja militante do Bloco de Esquerda, confirmo que se realizou, porque estive lá e posso garantir que não nasceu "por geração expontânea", pois participei dois ou três anos antes em várias reuniões que começaram por um número reduzido de pessoas diferentes origens ideológico-partidárias, que foi crescendo e ganhamdo coerência e estrutura. Posso também afirmar que na sessão de constituição do Bloco estiveram cerca de 900 pessoas, número bastante superior às quase três dezenas que constitíram em 1973 o PS em Paris.

A dificuldade de ver convergências ds esquerda de origens diversas, ou mesmo a afirmação de "nunca ter visto", é porque nunca foi capaz de olhar com olhos de ver o que se tem passado fora de portas, com a França por referência mais próxima geograficamnete e isto apesar das recentes divisões no PS francês (aliás agora mais exemplo de divergências do que de convergências...).

JMG disse...

"para que este país progrida e saia dos últimos lugares em quase todas as estatísticas. Será necessário negociar muito, respeitar..."

Aqui este malfeitor do outro lado do espectro acha que nunca o reforço da influência de cripto-comunistas ou comunistas tout-court se traduziu em parte alguma em progresso material, muito pelo contrário. Digo-o sem acinte. E acrescento que, embora o preço a pagar fosse alto, um governo em que o peso do BE fosse determinante talvez fosse uma coisa boa: afastaria da esquerda muita gente excelente que por lá anda e, por espaço de uma geração, vacinaria o eleitorado contra a doença infantil do esquerdismo.

Joana Lopes disse...

Malfeitor, porquê, JMG? «Do outro lado do espectro», certamente...