5.4.10

Difamação, diz ele


Era fatal como o destino: César das Neves viria a terreno defender a igreja e atacar o resto do mundo. E de que maneira!

«O contexto é a guerra cultural. Parecendo combater a pedofilia, visa-se a promoção do aborto, eutanásia, divórcio, promiscuidade.» Leia-se e releia-se.

Quando se critica um padre por ter abusado de uma adolescente, está-se a dizer que ela deve abortar. Quando se suspeita que Ratzinger possa ter contribuído para o encobrimento de casos de pedofilia, sugere-se que ele vá a uma clínica suíça pedir que o matem. Quando não se entende que um pregador franciscano seja tonto, é porque se insinua que isso se deve ao facto de ter uma tia divorciada. Quando se condena que, ao logo de décadas, padres reconhecidamente pedófilos tenham sido apenas deslocados para outros locais, continuando a ter contacto com crianças, ah pois com certeza: o objectivo é promover a promiscuidade!

(P.S. – A propósito deste último ponto, leia-se isto.)
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4 comments:

Miguel Serras Pereira disse...

Muito, muito bem, Joana.

Só uma nota mais. O CN acaba por deixar escapar o que de facto o preocupa na seguinte passagem, marcada por um contra-senso ainda mais evidente do que os outros: a referência à psicologia infantil, que, diz ele, deveria ser discutida, em vez da política eclesiástica.

"Quem realmente se ataca são, não pedófilos, mas o Papa, cardeais e bispos. Discute-se, não psicologia infantil, mas política eclesiástica".

É, com efeito, a "política eclesiástica" - a política da organização da Igreja, a política que a Igreja luta por ver adoptada pelos Estados e imposta à sociedade, etc. -que CN deplora ver tornar-se tema de debate aberto tanto dentro como fora da Igreja. E, de facto, a discussão do papel político que a Igreja desempenha no mundo e a da sua organização hierárquica inerna são inseparáveis. Como tu e alguns outros, entre os quais me incluo, temos nas últimas semanas procurado tornar mais claro.
Abraço

miguel

Vitor M. Trigo disse...

Completamente de acordo, Joana.

Ao que pode chegar a falta de dignidade para se escrever o que este energúmeno escreveu.

Mas felizmente que há sítio para que estas incríveis posições sejam dadas a conhecer. É preferível do que fiquem escondidas entre as portas da igreja.

Nuno Gaspar disse...

O texto de César das Neves é certeiro. E se alguém tem dúvidas de que é de uma guerra cultural que se trata, basta dar uma espreitadela nos blogs em que participa, Joana; é notório o prazer que exibe ao aproveitar qualquer oportunidade para malhar na Igreja Católica e humilhar quem nela se reconhece. Entristece-me ver pessoas tão brilhantes como você ou Miguel Serras Pereira, a quem devo dos momentos de discussão intelectual mais estimulantes a que assisti na minha terra e muitas leituras que me marcaram, encalhadas doentiamente numa fobia tão previsível e gasta.
Falem de outras coisas. Sobre este tema já sabemos o que vão dizer.

Joana Lopes disse...

Obrigada pelos elogios, Nuno Gaspar, mas não acredito no que leio vindo da sua parte: acha o texto de CdasNeves certeiro? Está portanto de acordo com o parágrafo que transcrevi? Então só me dá alento para continuar a escrever sobre o assunto...