4.4.10

A guerra das calças




Um recorte de um velho Diário Popular fez-me recuar mais de quarenta anos, até 1969. Nele se lê que, nesse ano, as lojas passaram a vender um número absolutamente inusitado de calças a mulheres de todas as idades (Para ler, clicar na imagem.) Nesse fim de década, os costumes não eram o que até aí sempre tinham sido, Salazar já tinha caído da cadeira e, apesar das notícias filtradas, Paris e as barricadas do Maio de 68 não tinham estado tão longe como a Nova Zelândia.

Mas o que é mesmo curioso é a fotografia e respectiva legenda: «As alunas da Faculdade de Letras já ganharam a sua batalha». Não é dito qual era a batalha nem qual foi a vitória, talvez porque um lápis azul da censura tenha cortado a explicação ou porque esta foi evitada para escapar ao dito lápis. Mas eu explico.

Dava então aulas em Filosofia e a prática corrente quanto a indumentária feminina era a seguinte: só às estrangeiras, que frequentavam cursos de língua portuguesa, era permitido usar calças e a triagem era feita pela Sr.ª Clotilde. Várias gerações se lembrarão desta zelosa empregada, sempre presente pelos corredores, movendo-se lentamente dentro de uma bata preta acetinada. Quando avistava pernas femininas revestidas, aproximava- se e perguntava em voz muito baixa: «A menina é estrangeira?». Ausência de compreensão, e portanto de resposta, era interpretada como afirmativa e a autorização era tácita, mas tinha ordens para pedir às portuguesas que abandonassem as instalações da Faculdade.

Uma parte desse ano de 69 foi animadíssima na Cidade Universitária - como o foi (e de que maneira…) em Coimbra e nalgumas outras faculdades de Lisboa. Uma lista encabeçada por Arnaldo Matos ganhou a presidência da Associação de Direito (contra Alberto Costa, o ex-ministro da Justiça, então do PCP) e aqueles que viriam a fundar pouco depois o MRPP mantinham em agitação permanente, directa ou indirectamente, o conjunto das três faculdades vizinhas: Direito, Letras e Medicina. Multiplicavam-se os plenários e recordo-me especialmente de um que teve lugar no Hospital de Santa Maria, com milhares de estudantes e alguns (poucos) professores – tão poucos que, de Letras, apenas Lindley Cintra e eu nos pusemos a caminho, debaixo de um mesmo chapéu-de-chuva, insuficiente para impedir que chegássemos ao destino encharcados dos pés à cabeça. Aí foi decretada uma greve e, enquanto ela durou, é óbvio que a Srª Clotilde se recolheu atrás de uma secretária, num corredor longe do átrio, e que toda a gente fez assembleias por todos os cantos, com calças, saias e mini-saias. Não sei se os objectivos pela qual a greve foi convocada terão sido minimamente atingidos (para ser sincera, nem me lembro exactamente o que poderão ter sido…), mas ela teve, garantidamente, um benefício colateral: as calças entraram em Letras para sempre e ficaram como direito feminino adquirido. Ou seja, foi ganha a tal batalha que a fotografia refere sem explicar.

Mas a notícia do Diário Popular fala também de certas restrições em empresas e confirmo. Em fins de 1970, entrei a meio tempo para a IBM. Dava aulas de manhã em Letras e passava para o mundo da informática depois de almoço – de calças ou de saias. Alguns dias depois de ser admitida, o meu primeiro chefe perguntou-me timidamente se dava aulas na Faculdade «assim». Não percebi, ele lá se explicou e eu confirmei que sim, que vinha directamente da Lógica para os bytes. Verifiquei então que as poucas colegas que tinha nas redondezas andavam sempre de saias e disseram-me que se toleravam calças há pouco tempo, sendo recomendável que fizessem parte de fato completo… Não alterei nada e nem tive muito tempo para me preocupar, já que todas as mudanças se davam então a um ritmo tão vertiginoso que, pouco depois e sem qualquer tipo de greve pelo meio, toda a gente se vestia como entendia - no limite, até de hot pants.

Curiosamente, aos homens continuava a ser exigido a maior das formalidades: fato escuro, camisa de preferência branca, gravata (obviamente…) e cabelos curtos. Só o 25 de Abril viria a libertá-los desse dress code. A nós, poucas diferenças trouxe.

Surpresa provável para os mais novos que nos imaginam talvez sempre de saia e casaco cinzento e penteadas como a Simone de Oliveira e a Madalena Iglésias, revistas agora em velhos festivais da canção. Pois, mas não era assim.
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7 comments:

João Ricardo Vasconcelos disse...

Grande post. Obrigado Joana.

Manuel Vilarinho Pires disse...

Bom dia, Joana,
A burka não está assim tão longe de nós, a distância é mais de décadas do que de milhares de km...
Esta estorieta traz-me à memória um general manager que colocaram na IBM quando tu andavas por fora e que era mais dado à criação de estorietas.
Começou por dizer em público, em pleno movimento "back to the field", que aceitava na força de vendas toda a gente, com excepção de gays, comunistas e outra raça qualquer indesejável de que já não me recordo...
Mas depois acabou por simpatizar com o Redondo, que conheceu por ser da CT, e até lhe chegou a dizer carinhosamente "I've seen your name on a bottle!".
E a um colega que tinha acabado de regressar de Itália e com quem subiu no elevador, admirando o seu blazer italiano que não era preto, nem azul, nem às riscas pretas e azuis, reza a lenda que disse "Are you going to a circus?"...
O repórter não estava lá, mas a estorieta ficou registada na lenda de tradição oral.

Joana Lopes disse...

Obrigada, João Ricardo. :-)

Joana Lopes disse...

Manel,
Não conhecia essas histórias. Deves estar a referir-te ao GM meio inglês, meio dinamarquês, sósia do Soares. Só o vi uma vez: foi a La Hulpe e fez saber que queria conhecer.me e tomámos um pequeno almoço juntos. Chegou para ver o tipo de bicho.

carlos freitas disse...

Uma antiga professora minha enviou-me igualmente este recorte via email com uma pequena adenda que reza o seguinte. "Na sala de professores da Avelar Brotero(Coimbra), foi igualmente afixada uma autorização para "as senhoras professoras usarem calças"! Na realidade "apenas" se passaram 41 anos.

Joana Lopes disse...

Curioso, Carlos. Esse fim dos anos 60 varreu mesmo o país

Manuel Vilarinho Pires disse...

Mais tarde, e até 1974, houve outra luta, das alunas dos liceus femininos ou mistos, para as alunas serem autorizadas a não usar bata.
Eu andava num liceu masculino, onde a obrigatoriedade de bata não existia com a excepção, natural, dos laboratórios.