3.4.15

A ficção do «tigre ibérico»



«No meio da pirotecnia política existente, um dos eixos da experiência laboratorial testada em Portugal nestes últimos quatro anos foi conseguida: a desvalorização interna. Isso foi feito à custa de baixar os salários de todas as formas. E de uma carga fiscal sem precedentes.

Os altos níveis de desemprego ajudariam a essa cómoda resignação de todos a ganhar menos (apesar de já serem dos que menos ganham na Europa "solidária" do euro). A ideia, claro, era tornar Portugal um "tigre ibérico", que rosnaria e ameaçaria os asiáticos no sector da exportação. O tiro foi no escuro e não se sabe onde acertou. Mas não foi aqui. (...).

Há um outro vector no modelo laboratorial desenvolvido em Portugal que é mais ideológico. Ele tem a ver com o ideal de implementação de uma sociedade de baixo custo. (...) É uma lógica de nova sociedade implementada pela globalização e pela digitalização. Vivemos o início de uma sociedade de "low cost", onde o baixo preço das coisas (e, desde logo, do trabalho), se junta à má qualidade dos produtos e à curta duração de vínculos ou amizades. (...)

Na sociedade de baixo custo, que o Governo implantou em Portugal como regedor de outros ideólogos, está a abrir uma nova zona de confrontos: a dos que contam um trabalho permanente face aos que vivem à deriva. O problema de quem implanta este sistema é que sem investimento a sério ele irá colapsar. E era conveniente a classe política portuguesa começar a reflectir sobre isso. Antes que seja tarde demais.»

Fernando Sobral