24.4.18

Onde estive eu no 25 de Abril? Foi assim



Noite cerrada, o telefone a tocar pouco depois das quatro da manhã, alguém que me diz que a tropa está na rua, uns minutos de espera, de ouvido colado a um velho aparelho de rádio, a voz inconfundível de Joaquim Furtado: «Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de se recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma.»

No primeiro acto de desobediência a novas autoridades, que ainda nem o eram, saí imediatamente e só regressei a casa na madrugada do dia seguinte. Fui ter com amigos, reunimos máquinas fotográficas, deambulámos de carro e a pé pela cidade – horas e horas primeiro pelas ruas da baixa, depois no Carmo até à rendição de Marcelo.

Pelas 11 da manhã, quando absolutamente nada estava ainda decidido, alguém me tirou esta fotografia, no Largo do Corpo Santo, em Lisboa – guardo-a como a mais preciosa de toda uma vida. Tinha acabado de perguntar àquele soldado, empoleirado no tanque, o que se passaria a seguir. Que não sabia, mas que estava com Salgueiro Maia e que tudo ia correr bem. E eu também não duvidei, nem por um minuto, que sim, que ia acabar o pesadelo em que vivera desde que tinha nascido. Sem me passar pela cabeça temer o que quer que fosse.

Já no Largo do Carmo, a espera, as dúvidas, os boatos, o megafone de Francisco Sousa Tavares – e também os cravos, a Grândola. Pelo meio algumas corridas, evacuação obrigatória do local quando se pensou que o quartel não se renderia a bem, almoço tardio com últimos feijões do fundo de uma panela numa tasca do Largo da Misericórdia, pelo mais total dos acasos na companhia de José Cardoso Pires; um carro estacionado mesmo em frente, com as quatro portas abertas para o que desse e viesse. Regresso ao Carmo, o desenrolar de tudo o que se sabe, o poder que Marcelo Caetano não quis deixar cair na rua antes de sair de chaimite, os gritos sem fim de vitória, que se cravaram na memória e ainda hoje fazem arrepiar. A liberdade, enfim, que nunca se imaginara poder ser tão grande.

Passaram 44 anos. Portugal é hoje, sem qualquer espécie de dúvida, um país melhor do que era naquela quinta-feira de Abril. Mas não é aquilo que sonhámos, não foi por isto que tantos lutaram durante décadas de ditadura, que alguns morreram, não é o que podia e o que devia ser hoje. Falhámos uma oportunidade única, nós que tivemos na mão uma das mais belas revoluções dos tempos modernos. Os humanos não são deuses omniscientes, e ainda bem, porque teria sido absolutamente insuportável, naquela primeira semana luminosa, naquele 1º de Maio triunfante, uma espécie de «regresso ao futuro» em que pudéssemos ver o Portugal de hoje.

O mundo está agora mais perigoso, a Europa navega à vista sem que se entenda nem mais ou menos para onde, muitos regimes não democráticos estão a tomar as rédeas do poder. Sem sabermos exactamente como, nem muitas vezes com que instrumentos, resta-nos continuar a lutar pelo futuro, com a mesma força com que festejámos a chegada da democracia há quarenta e quatro anos. É também para isso que ainda estamos vivos.

Uma primeira versão deste post, entretanto alterada, fez parte de uma brochura que a APRe! divulgou em 25 de Abril de 2014, com textos escritos por um grande grupo de membros da Associação.
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5 comments:

chakra indigo disse...

Muito bom, quem me dera ter tido a oportunidade de viver in loco esses tempos....

esteves, ayres disse...

Não vou aproveitar-me deste espaço para falar do golpe militar do 25 de Abril 74.
Que para muitos foi uma revolução! Mas quem viveu de perto esteve no movimento, sabe bem que nunca houve interesse em fazer qualquer revolução, até porque os capitães estavam mais interessados e defender os seus interesses, e os Spinolistas, a continuar e a defender a continuação da guerra nas ex. colonias.
E bom que se diga; que o povo esteve na rua, esses sim, tentaram por todos os meios fazer uma revolução, mas aos poucos foi sabotada (miseramente por gente que se dizia de esquerda). Houve mais tarde um golpe e um contragolpe organizado pelo MFA/SUV e outros partidos que se diziam de esquerda e comunistas. Depois em 1976 houve uma outra tentativa de golpe, Organizado por um partido e aproveitando-se dos paraquedistas, onde ocuparam algumas Bases Áreas, e prenderam alguns oficiais democratas. Espero que um dia se venha esclarecer tudo isto, a verdade e os factos.

JHS disse...

Cara Joana Lopes,
Saúdo, com emoção, o dia inicial, claro e limpo. Compreendo e compartilho o seu júbilo no Largo do Corpo Santo, naquela manhã. Conheço a fotografia. Será que posso saber a razão que a leva a publicá-la com um corte (omitindo quem estava a seu lado)? Se o motivo for pessoal, desculpe desde já a minha observação, que retiro, compreendendo até que não divulgue este meu comentário. Mas se não for, acho que, por princípio, não se devem fazer cortes, muito menos numa fotografia destas, numa data destas, num local como este, retratando um lance tão crucial e maravilhoso da vida do nosso país, que fazem da dita fotografia (como reconhecerá) um documento histórico, em relação ao qual, a tesoura deve ficar de lado.
25 de Abril, sempre!
José Henrique Soares

Joana Lopes disse...

Razões pessoais.

Clara disse...

Muito Obrigada por partilhar . Eu sou da geração pós 25 de abril mas é tão bom ouvir esta história que fala (para variar das histórias que ouvimos todos os dias nos mass media) de coesão, de ideais de fraternidade e de justiça social. Obrigada.