5.3.21

A coragem de Mamadou Ba

 


«Mamadou Ba tem quase um metro e noventa, é corpulento e exibe um sorriso meio irónico, meio desafiador que parece dizer “eu vim para vos lixar a cabeça.” Sabe-se como, em geral, os brancos não gostam de negros impertinentes. A arrogância é uma característica deplorável, mas num negro ela torna-se quase inaceitável. Querem um exemplo? Ljubomir Stanisic, o último macho-alfa do planeta, tão seguro de si que quase explode de confiança. Desbocado, temerário, agressivo, parece um homem sempre pronto a recorrer à violência e que, por isso mesmo, e só por isso, não tem de recorrer à violência. Resultado? É uma estrela. Pagam-lhe milhões. Se fosse um negro? Deus nos livre!

O negro aceitável é humilde, bondoso, dócil, submisso. Pode ser intratável, mas apenas no raio limitado das suas competências. Por exemplo, o foco, a obstinação, o fervor maníaco de um Nélson Évora em competição é valorizado porque é lúdico, canalizado para uma atividade de regras estabelecidas e indiscutíveis. Fora isso, preferimos um Obikwelu, um tipo desarmante de tão simpático e genuíno, mas cujas características – que nada me faz acreditar que não sejam genuínas – tocam no nosso subconsciente: “este preto não é perigoso.”

Com Mamadou Ba a história é outra. Pela sua postura, pela sua função desestabilizadora, é uma ameaça à tranquilidade geral. Como se recusa a encaixar no tipo narrativo mais conveniente para a maioria da população – branca – é quase a personificação do negro malévolo, perigoso, vingativo, eventual assaltante ou violador, o “turra”, o negro insubmisso, ingrato, que recusa as migalhas da misericórdia branca e exige ser tratado como um homem e, assim, cria um abalo sísmico no interior de um sistema em que o negro que levanta a voz é sempre mais ameaçador que um branco – porque o branco nem sequer tem de levantar a voz.

Adversários e inimigos de Mamadou Ba gostam de dizer que é um provocador, retirando dessa forma substância e conteúdo à sua intervenção política. Ba seria apenas um agitador, alguém que se diverte a chatear os outros. E é possível que haja esse lado de provocação, mas o que é que quase certo é que, numa sociedade como a nossa, a tolerância para com um provocador negro é infinitamente inferior à reservada aos provocadores brancos.

Que se saiba, Mamadou Ba nunca usou de violência física nem advoga qualquer tipo de violência, não é líder de um grupo terrorista nem, que eu tenha conhecimento, alguma vez ameaçou alguém. Mas é uma ameaça ao sossego, a um certo consenso podre acerca do lugar apropriado para os negros na nossa sociedade. É normal que muitos canalizem para ele o ódio que têm de conter noutras circunstâncias e com outras personagens, que o vejam como uma ameaça porque ele, ao falar como fala, ao intervir como intervém sendo negro em Portugal, é um sujeito raro.

Muitos acusam-no de contribuir para a destruição da harmonia social ao inventar uma questão racial que não existe. Mas a maior ameaça a essa suposta harmonia social é a própria existência dele nos termos por ele escolhidos. E as reações a essa postura destroem o mito da harmonia social que é apenas a ideia de que harmonia é cada um se manter no lugar que lhe está destinado. E Mamadou Ba não aceita isso.

Em termos políticos, não concordo em quase nada com Mamadou Ba e acho que a atomização da sociedade em pequenas células identitárias é nefasta e contraria os princípios de uma verdadeira democracia e de uma República. Há dias, estava a ouvi-lo na televisão e acho que não concordei uma única vez com ele. Mas admiro-lhe a coragem e o desassombro. Num país de subalternos e medrosos, não é coisa pouca.» 

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