19.4.22

Procrastinação

 


«No virar do milénio, vivíamos um período de enorme otimismo. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio faziam-nos crer que havia uma vontade generalizada de caminhar para um mundo que promovesse o bem-estar de cada um, mas com um objetivo maior, o do bem comum. Os movimentos globais que surgiram à volta destes objetivos foram inúmeros. Na área da saúde, e em particular na da malária, havia um enorme empenho em controlar a doença até 2015. E era claro que o mesmo espírito estava presente em tantas outras áreas. E mesmo quando, meses depois, o 11 de Setembro nos acordava para um futuro certamente diferente, o otimismo não se desvaneceu.

Lembro-me que, imbuídos desse otimismo, sentíamos que era urgente fazer algo de concreto para alcançar um outro objetivo do milénio — garantir a sustentabilidade ambiental. Em 1995, o “Intergovernmental Panel on Climate Change” (IPCC, criado em 1988) havia declarado que os seres humanos tinham responsabilidade nas mudanças climáticas. A lógica dizia-nos que tínhamos de assumir essa responsabilidade e reverter as nossas ações. Dois anos depois, o Protocolo de Quioto era assinado por muitas das nações mais desenvolvidas, que se comprometiam a reduzir em 5,2% as suas emissões em relação aos níveis de emissão registados em 1990, compromisso esse que deveria ser cumprido no período entre 2008 e 2012. Mas, em 2013, quando o IPCC afirmou que os cientistas tinham 95% de certeza de que os humanos eram a “causa dominante” do aquecimento global, nenhuma das promessas feitas 15 anos antes, tinha sido cumprida.

Estamos agora em 2022, e o mais recente relatório do IPCC não pode ser mais claro: “agora ou nunca”. Os milhares de cientistas envolvidos não querem deixar margem para dúvidas: “Sem reduções imediatas e profundas de emissões em todos os sectores, será impossível limitar o aquecimento global a 1,5°C.” Em paralelo, no entanto, novos slogans querem-nos fazer acreditar que basta fazer novas promessas — “zero emissões em 2050” — e desta vez é que é, vai ficar tudo bem. Mas porquê 2050? Quem sente urgência em relação a um prazo definido para daqui a 30 anos? A ideia de um prazo confortavelmente distante é sem dúvida um incentivo claro à procrastinação.

Peter Kalmus, um cientista do clima que se refere a si próprio como “aterrorizado pela inação social”, deixa claro que os fomentadores desta nova promessa apostam o futuro da vida na Terra no facto de que alguém inventará tecnologia de ponta capaz de reduzir as emissões de CO2 em grande escala. A própria ONU, a mesma organização que inscreveu objetivos ambiciosos da passagem do milénio, parece estar farta de falsas promessas. Pela voz do seu secretário-geral, António Guterres, deixou isso bastante claro: “Alguns líderes governamentais e empresariais dizem uma coisa — mas fazem outra. Ou seja, mentem. E os resultados serão catastróficos.”

Mas não estaremos todos nós também a mentir? Culpamos os líderes mundiais de inação, mas queixamo-nos dos preços dos combustíveis. A ciência diz-nos que a sobrevivência do planeta e da nossa civilização está em causa, mas grande parte da população ainda encara os movimentos ambientalistas como algo de periférico e longe dos seus interesses. E hoje, perante mais uma guerra (atroz e selvática como as guerras são!) e a ameaça nuclear, parecemos aceitar a inevitabilidade de continuarmos a procrastinar as soluções necessárias para combater o aquecimento global.

A ciência diz “agora ou nunca” mas estaremos nós preparados para o “agora”? Ou será que preferimos procrastinar e esperar que o “nunca” nunca chegue?»

.

0 comments: