«Um em cada cinco jovens espanhóis afirmou, num inquérito do Centro de Estudos Sociológicos do país, que considerava a ditadura de Franco boa ou muito boa. Os dados alarmantes levaram os jornalistas a tentar compreender o resultado da sondagem. Questionados em entrevistas de rua, os jovens não conseguiram explicar em que pontos esse regime autoritário era melhor, fazendo apenas alusões pouco concretas ao tema da habitação, e a um "vivia-se melhor", indecoroso. Em novembro, vão cumprir-se os 50 anos da morte do ditador e as frases mastigadas e dadas a comer nas redes sociais, sem qualquer escrutínio, podem ajudar a compreender quanto os factos da história são deturpados para influenciar quem nunca viveu com medo de ser livre e sob repressão absoluta. Nessa Espanha que os mais novos, felizmente, não sentiram na pele, os rendimentos das famílias eram metade dos que os franceses auferiam e quem discordasse do regime era fuzilado, duas breves razões para o antigo ser pior. Quando se diz que era preciso Salazar reviver para acabar com a corrupção, não se lembra que do lado de cá, como no espanhol, os sistemas políticos despóticos são dominados por compadrios, onde não há lugar a escrutínio, onde não há meritocracia, onde as famílias "amigas" se sentam à mesma mesa. O saudosismo que se apregoa é uma ideia deturpada, que esconde o clientelismo anterior à democracia. Nesse tempo havia figuras dominantes a receber vantagens indevidas abusando dos cargos. A estratégia histriónica é uma ameaça à história, um perigo para a democracia. No outro dia, roubaram-me um sorriso: "já não se fazem homens e mulheres como atualmente".»

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