«É tempo de mudar a perceção sobre a importância dos migrantes em Portugal. Não são eles os maus da fita, mas uma extrema-direita agressiva que consegue falsear a realidade com os seus tik-toks de ódio e a hostilidade social que tem criado, e um Governo de direita que se deixa arrastar por essa retórica inflamada, o que tem feito mal à economia, ao país e à sua imagem externa, incluindo na relação com os países da CPLP.
Como demonstra a história económica, nenhum migrante se desloca para onde não há trabalho. Eles vão para onde existem necessidades de mão de obra, porque, em muitos casos, têm as famílias nos países de origem à espera das suas remessas para sobreviverem. A história da emigração portuguesa é a melhor expressão deste fenómeno, muito particularmente nas décadas de 60 a 80 para a Europa e nos séculos XIX e XX para o Brasil.
Portugal conseguiu atrair muitos migrantes nos últimos dez anos, a seguir à crise económica e financeira, porque a economia estava em expansão e o desemprego sempre a diminuir, estando hoje no nível mais baixo dos últimos anos. Daí que várias organizações continuem a insistir na necessidade de migrantes para prover de mão de obra vários setores de atividade económica.
A ideia de que os migrantes vão para um país à cata de subsídios para viver à conta do sistema é falsa, sobretudo para um país como Portugal, que só desde há muito pouco tempo se tornou também um país de imigração. É por si só uma evidência o facto de os migrantes contribuírem para a Segurança Social muito mais do que recebem dela, numa relação de 3600 milhões de euros em contribuições, contra menos de 700 mil euros de que beneficiam em prestações sociais.
Por isso, se o país hostilizar os migrantes criando dificuldades administrativas e rejeição social, ficará sem a sua força de trabalho, vital para inúmeros setores de atividade, e sem os seus impostos, que constituem já cerca de 12,5% das receitas da segurança social e com as quais é feito o pagamento das pensões dos nossos idosos.
Os migrantes suprem necessidades de mão de obra que os locais rejeitam e são uma força de trabalho essencial para as regiões do interior, a braços com um despovoamento dramático e um envelhecimento demográfico, que é o quarto mais grave do mundo. São também consumidores e investidores, ajudando à expansão da economia. Por isso, as dificuldades que a administração e a política lhes colocam são também entraves ao desenvolvimento do país e à melhoria do bem-estar coletivo.
E é também por isso que todas as dificuldades que tem havido na forma como são tratados e percecionados os migrantes nos permite hoje dizer que o Governo tem falhado em toda a linha na gestão da imigração, revelando falta de coragem e de visão para encarar este fenómeno complexo com verdadeiro sentido de Estado, racionalidade económica e humanismo. O Governo prefere culpar os governos anteriores do PS para ocultar a sua própria incapacidade para resolver os problemas de milhares de migrantes que têm a sua vida em suspenso, obrigado a filas e esperas intermináveis para obterem uma autorização de residência ou a sua renovação, confrontados com uma desorganização e lentidão que são em si mesmo o rosto pela falta de respeito pelas pessoas que são essenciais para o desenvolvimento do país.
As dificuldades colocadas ao reagrupamento familiar e no acesso a direitos sociais no âmbito das alterações à Lei da Imigração, bem como a pressão social, política e mediática permanente que tem havido sobre os migrantes acaba por prejudicar a sua plena integração em termos laborais, sociais e educativos, destruindo a capacidade do país para atrair e recrutar mão de obra.
Todo este contexto tende a criar mal-estar, insegurança e medo nos migrantes, limitando o contributo que podem dar ao país que os acolheu, onde trabalham, pagam impostos e investem. Aquilo que o Governo tem vindo a fazer, empurrado pela extrema-direita, é contribuir para a estigmatização das comunidades migrantes e, isso sim, é motivo de preocupação pelo ressentimento e animosidade que pode gerar.»

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