«Estas presidenciais exigem grande jogo de cintura. O voto está solto, a oferta é pouco entusiasmante e o almirante das vacinas veio baralhar as contas. A crise do PS, associada à sua incapacidade crónica de gerir este dossiê, ajuda à festa. Desta vez, os socialistas lá picaram o ponto no apoio burocrático a António José Seguro. Pela falta de entusiasmo, suspeito que pressintam que, marcado pelo ressentimento com um partido que o enxotou, ele não lhes venha a ser especialmente favorável se vencer. A forma como recebeu o apoio também foi morna. Parece mais confortável na companhia de passistas. Não perceberá que esta absurda aliança é um presente envenenado: recorda à esquerda a sua “abstenção violenta” quando o país vivia a mais violenta ofensiva austeritária. Se os discípulos de Passos lhe estão agradecidos, mais valia ficarem quietos.
Perante o deserto à esquerda, Seguro prefere atirar-se para um espaço sobrelotado, onde tem de concorrer com Ventura, Cotrim, Marques Mendes e Gouveia e Melo, do que se concentrar, para ir à segunda volta, nos eleitores de esquerda. São entre um terço e 40% dos eleitores (pegando nas duas últimas eleições, que correspondem às suas marcas mais baixas) e estão desalentados com a oferta. Para além de Seguro, só haverá três candidaturas tribunícias a disputar a liga dos últimos. Tanto terreno por desbravar que Seguro parece desprezar. Tal como Marques Mendes, está muito longe de conquistar a totalidade dos votos já minguados do seu próprio partido. Mas, enquanto o primeiro tenta segurar os eleitores da AD — prometendo oferecer o Governo, o Parlamento, as duas Regiões Autónomas, as cinco maiores Câmaras Municipais e a Presidência ao mesmo partido —, Seguro desiste da sua base natural de apoio (o PS), que está muitíssimo longe de conquistar.
Henrique Gouveia e Melo percebeu que o eleitorado de esquerda está a ser negligenciado. Sabe que tem parte do voto da direita menos ideológica, mas com gosto pela farda, pela autoridade e pela autoridade da voz de comando. Que tem boa opinião sobre o seu papel na vacinação e acredita na sua independência. Tendo essa segurança e percebendo que, por ali, já não tem por onde crescer depois da chegada de André Ventura, partiu para alto-mar, onde há muitos náufragos de esquerda. Muito voto solto, que não tem quem fale para si. Se conseguir somar parte da esquerda que cochila com Seguro ao centro absoluto, que quer alguém desligado dos partidos, e à direita pouco ideológica, que liga menos ao que ele diz que veta e aprova mais o conforto da farda, terá votos mais do que suficientes para ir à segunda volta. Chegado aí, será o mínimo denominador comum contra o candidato que tiver pela frente. Sobra a resistência de alguns civilistas, que não adoram a ideia de ver um militar em Belém. Somos poucos. E os que acham que experiência política não é cadastro, é currículo para quem deseja ser árbitro de um jogo que é suposto conhecer. Somos ainda menos.
Em pouco mais de uma semana, o grumete da política prometeu moderar a vertigem xenófoba do país e travar uma contrarreforma laboral radical, desaconselhou revisões constitucionais profundas, identificou-se com Mário Soares e deixou claro que não dará para o peditório das dissoluções sucessivas. Enquanto Seguro se perdia, achando que fala para todos ao mesmo tempo, Gouveia e Melo conseguiu ganhar a atenção de muitos órfãos destas presidenciais. Nunca me espantou que um militar inexperiente conseguisse apanhar a maré deste tempo, respondendo à necessidade de autoridade com uma farda centrista. Nem me espantou o prestígio que conquistou durante a pandemia. A direita nunca percebeu a importância de figuras protetoras em tempos de medo, de que ele, Graça Freitas e Marta Temido foram exemplos. Também não me espanta que, mal tenha começado a falar e a cometer erros, tenha começado a cair nas sondagens. O que me espanta é o instinto político agora demonstrado por quem nunca esteve na política. Estranho é que Seguro, que anda por aí desde a ‘jota’, ainda não o tenha.
Nota: quando ser primeiro-ministro não foi o mais importante que se fez na vida, quer dizer que se construiu qualquer coisa extraordinária. Mas Balsemão não foi apenas um magnata da imprensa, foi cultor do pluralismo. Fez nascer este jornal quando a “situação” era a ditadura e resistiu à incomunicabilidade em que a nossa democracia vive. Foi, como escrevi no Expresso Online, um cavalheiro da liberdade. Só com a sua falta descobriremos tudo o que lhe devemos.»

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