28.10.25

Para os que acham estranho o que disse Passos Coelho, ouçam o que diz Leitão Amaro!

 


«Na anunciada intenção da AD de não privilegiar ninguém na formação de maiorias para legislar, o PS pensa que está num ménage à trois e acaba sempre por descobrir que é apenas o pau de cabeleira. Chega a ser patética a forma como o Partido Socialista se presta a uma negociação a três que, em assuntos da agenda de Ventura, acaba sempre da mesma maneira: até à véspera, parece que o PSD se vai entender com os socialistas, mas há depois umas “negociações de última hora” que atiram sempre o partido de Montenegro para os braços do Chega.

Normalmente, a decisão de negociar à direita e à esquerda passa por um desabafo público, de Hugo Soares ou de Luís Montenegro — quando não dos dois —, sobre os “ciúmes” que André Ventura e José Luís Carneiro é suposto terem por não estarem em exclusivo na relação com a formosa aliança de direita no Governo. No final, as boas intenções ministeriais para chegar a uma lei o mais consensual possível transformam-se num ataque duríssimo aos socialistas, acusados de terem escancarado as portas aos “invasores”.

O que se passou recentemente com a lei da burca, a lei dos estrangeiros e, agora, a lei da nacionalidade confirma que a AD assumiu, em definitivo, a agenda da direita radical. Não lhes interessa convencer o PS a ceder para se encontrarem a meio de um caminho que permita regular com eficácia o fluxo da imigração e a integração dessas pessoas na sociedade portuguesa. Nesta matéria, a última coisa que interessa aos partidos do Governo é terem o Chega de fora, livre para acusar a AD de estar do lado dos socialistas e dos “invasores”. Se, pelo caminho, puderem ter o PS a defender algo diferente do que defendia, tanto melhor, porque, em vez de elogiar a evolução da posição política, isso permite acusá-lo de ser responsável pela atual situação — seja lá o que isso for, para lá de uma perceção generalizada.

É com base nessa perceção que se alimenta a teoria da grande substituição, não se estranhando, por isso, que Pedro Passos Coelho — que, quando era primeiro-ministro, dizia que devíamos ter presente “a justiça moral inerente a uma política de imigração mais aberta”, lembrando até o problema demográfico das sociedades ocidentais — nos alerte agora para a questão de que “qualquer dia também acontecerá cá aquilo que acontece noutras sociedades, em que as pessoas, os nacionais que fazem parte daquela sociedade, se sentem estrangeiras na sua própria terra”. Com ironia, pode dizer-se que esse dia já chegou: basta ir ao Chiado, em Lisboa, ou à Ribeira, no Porto, por exemplo. Resultado da principal atividade económica do país, feita por estrangeiros (imigrantes) para estrangeiros (turistas).

Amaro alinha com Renaud Camus: a “grande substituição” não é uma teoria da conspiração, é um movimento em curso a que é preciso dar nome; o nosso ministro chama-lhe a grande “reengenharia”.

Não se peça para levar estas declarações a pretexto de um debate político, onde quase todos os exageros são admitidos. O ministro da Presidência falava no briefing do Conselho de Ministros, a pergunta do jornalista era esperada, a resposta estava pensada, e o Governo quer mesmo que os portugueses pensem que o PS os prejudicou, ao “escancarar as portas”, porque tinha a intenção de se beneficiar com o mal deles.

A expressão “reengenharia demográfica” sugere que o Governo do PS tentou alterar a composição populacional de Portugal através de políticas de imigração, e a expressão “reengenharia política” pretende sustentar a ideia de que essas mudanças demográficas teriam impacto político, alterando o eleitorado. Ou seja, ao regularizar imigrantes (que mais tarde podiam obter a nacionalidade portuguesa e votar), o PS estaria a moldar o mapa eleitoral a seu favor — manipulação eleitoral por via demográfica.

Tudo isto diz muito sobre o plano onde o Governo quer colocar o debate à volta da imigração e da nacionalidade, ocupando por completo o espaço do Chega. Mas diz muito mais sobre a fragilidade política em que se encontra o PS. E, talvez, sobre a miséria moral a que admite sujeitar-se. Até quando vai o PS sujeitar-se a sair enxovalhado destas negociações tripartidas?»


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