28.5.07

Felicidade Nacional Bruta


N. B. - Já tinha escrito este texto, quando li, no Público de hoje (28/5), um artigo sobre o mesmo tema.


Vi que vai realizar-se em Lisboa um colóquio sobre «A Busca da Felicidade», o que me fez pensar no Butão.

A ideia não é nova, mas voltou a ser lembrada recentemente por alguma imprensa. No reino do Butão, mede-se a Felicidade Nacional Bruta (e a Felicidade Interna Bruta), em vez dos nossos correspondentes «Produtos».

O conceito foi introduzido pelo rei Jigme Singye Wangchuck, em 1972, para concretizar o propósito de construir uma economia baseada nos valores espirituais do budismo. Parte de um pressuposto: se o desenvolvimento das sociedades resulta da complementaridade entre progresso material e espiritual, há que promover ambos e não faz sentido medir só o primeiro.

A teoria assenta em quatro pilares:
* desenvolvimento sócio-económico justo e estável;
* preservação do meio ambiente;
* conservação e promoção da cultura e dos valores tradicionais;
* boa governação.


Nada fácil de manter num mundo global consumista.
Por exemplo: fazem-se agora os primeiros balanços do impacto da entrada da televisão no país, que só aconteceu em 1999. A este propósito, o Ministro da Informação e Comunicação disse recentemente à Reuters:
«O que me está a perguntar é o seguinte:”A televisão torna as pessoas mais ou menos felizes?” – Aumenta as expectativas e, por isso, talvez as torne mais infelizes».

Mas ela lá está. E a Internet também. Terão que ver se há Felicidade Interna Bruta que lhes resista.

P.S. – Será que o Manuel Pinho lá do sítio tem o título de Ministro da Felicidade? Fazia sentido – e era tão bonito!

Sócrates no Kremlin

27.5.07

28 de Maio - A «Revolução Nacional»


1926


O Almanaque Republicano publicou recentemente uma resenha detalhada de factos e protagonistas:

«OS QUE ARRANCARAM EM 28 DE MAIO DE 1926

A revolução recebeu inicialmente apoio de variadas facções, de anarco-sindicalistas a católicos, passando por seareiros, integralistas, republicanos conservadores e monárquicos, mas cujos líderes foram sucessivamente devorados (primeiro Cabeçadas e depois Gomes da Costa), até se atingir a estabilidade com Carmona, muito devido ao apoio do Ministro das Finanças, Oliveira Salazar que, pouco a pouco, emergiu como verdadeiro líder. Com efeito, Gomes da Costa, Cabeçadas e Carmona foram as três principais figuras durante três meses.»

Aconselha-se a leitura do texto completo aqui .


1936

No 10º aniversário da Revolução Nacional, o célebre discurso de Salazar:

«Não discutimos Deus... Não discutimos a Pátria»




1966

No 40º aniversário, foram muitas as celebrações. Os mais interessados podem ler as descrições detalhadas que delas faz Franco Nogueira (*).

Deixo aqui um excerto do texto que escrevi sobre o assunto em Entre as Brumas da Memória..., pp. 50-51.

«Nesse ano de 1966, quando se iniciou na China a Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, Portugal festejou os quarenta anos da Revolução Nacional, tendo como lema Celebrar o passado, construir o futuro.

Para assistir a esta celebração em Braga, no dia 28 de Maio, Salazar, então com 77 anos, viajou pela primeira vez de avião até ao Porto – entre os outros passageiros, acompanhado pela governanta.

Quase no fim do discurso que então proferiu, deixou o país suspenso com a seguinte frase: “Eis um belo momento para pôr ponto nos trinta e oito anos que levo feitos de amargura no Governo.” Mas continuou: “Só não me permito a mim próprio nem o gesto nem o propósito, porque, no estado de desvairo em que se encontra o mundo, tal acto seria tido como seguro sinal de alteração da política seguida em defesa da integridade da pátria.”»

(*) Franco Nogueira, Salazar, vol VI – O Último Combate (1964-1970), Civilização, 3ª ed. Coimbra, 2000, pp. 180-186.

As histórias dos católicos progressistas num "passado [que] deixou marcas"

(Texto publicado aqui)

A livraria Almedina Estádio apresenta “Entre as Brumas da Memória”, da autoria de Joana Lopes, numa sessão que terá lugar em Coimbra, no dia 31 de Maio (Quinta-feira), às 21h15, e contará com a apresentação de Rui Bebiano, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e José Dias, presidente do Conselho da Cidade de Coimbra.

“Entre as Brumas da Memória”, livro publicado pela Ambar este ano, retrata o papel que as elites católicas tiveram na luta contra o regime fascista vigente em Portugal, durante a década de 60. É indiscutível que a maioria dessas elites se identificou com os posicionamentos do salazarismo. Mas poucos sabem que foi crescendo na altura o número dos que, de dentro da Igreja, se opuseram ao regime e o afirmaram cada vez mais claramente. É sobre essa organização informal e as suas iniciativas que Joana Lopes escolheu escrever.

Em 1963/1964, os efeitos do Concílio Vaticano II – um dos grandes motores da abertura da Igreja - começam a fazer-se sentir. O conservadorismo da Igreja portuguesa, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial deixam parte dos Portugueses descontentes com o regime vigente. Movimentos de contestação aparecem. O dos “católicos progressistas” é um deles.

Apesar de a acção dos católicos da oposição nas últimas décadas da ditadura já ter sido objecto de algumas publicações, Joana Lopes decidiu dar a essa luta uma abordagem mais aprofundada, dando conta da dimensão do movimento, em termos de número de iniciativas e de pessoas envolvidas. “Poucos dos que protagonizaram [essas iniciativas] têm parado para as descrever”, argumenta a autora. Resolveu então fixar no papel o que aconteceu. “(…) Cresceu em mim o desejo de contar algumas histórias, pouco conhecidas ou já esquecidas, de um vasto conjunto de pessoas (…), que viveram intensamente os últimos anos do salazarismo e o início do marcelismo acreditando que a pertença a uma comunidade de católicos e muitas iniciativas que foram tendo - em parte por causa dessa pertença - podiam ajudar a Igreja a renovar¬ se e Portugal a sair do fascismo. Muitas dessas pessoas, nas quais me incluo, há muito que deixaram a Igreja. Mas o passado deixou marcas”, explica Joana Lopes.

Até ao fim da década de 60 – época em que se desenrolaram os acontecimentos abordados neste livro –, Joana Lopes participou activamente em várias organizações e iniciativas dos que ficaram conhecidos como «católicos progressistas». Contudo, “Entre as Brumas da Memória” não é uma autobiografia nem um livro de história, mas sim um “livro de histórias” para os que “ignoravam que alguns dos seus conterrâneos não se limitaram a viver tranquilamente sob o manto, protector e único, do Estado Novo e da Igreja portuguesa” e também “[para] os nossos filhos, que nasceram ou atingiram a idade adulta já em democracia, [e que] pouco sabem de tudo isto e têm talvez o direito de saber”, conclui a autora.

Joana Lopes nasceu em 1938 em Lourenço Marques (actual Maputo, capital de Moçambique) e é licenciada em Filosofia pela Universidade de Lovaina (Bélgica), onde também se doutorou em Lógica Matemática.

26.5.07

Canções na memória (V) - Zé Carioca

A Mª Helena Mateus fez o favor de me mandar o link para este magnífico video. Aqui fica, com algumas exlicações prévias.

E bom fim de semana!


O papagaio José Carioca (vulgo Zé Carioca) foi criado para o filme Alô, Amigos que foi lançado pela Disney nos EUA, em 1943.

Zé Carioca serve de cicerone ao Pato Donald em terras brasileiras. Diz-se que o personagem foi criado pela Disney para angariar a simpatia dos brasileiros, num esforço de "política de boa vizinhança" com os países da América Latina já que, nessa época (durante a II Guerra Mundial), os americanos procuravam aliados para a sua cruzada contra o nazismo.

Ao som de Aquarela do Brasil e Tico-tico no fubá, Zé Carioca e o Pato Donald bebem cachaça e sambam juntos.


25.5.07

Lá íamos cantando e rindo

É bom não esquecer




«A organização nacional Mocidade Portuguesa (...) abrange toda a juventude, escolar ou não, e tem por fim estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina e no culto do dever militar.»

«Para cumprimento do disposto neste artigo a M.P. promoverá a educação moral e cívica, física e pré-militar dos filiados.»

«A M.P. cultivará nos seus filiados a educação cristã tradicional do País, nos termos do § 3.º do artigo 43.º da Constituição Política, e em caso algum admitirá nas suas fileiras um indivíduo sem religião.»

«Os cadetes
[filiados com mais de 17 anos] constituem a milícia da M.P., superiormente comandada na actividade pré-militar por um oficial superior do exército ou da armada, designado pelo Presidente do Conselho, nos termos do regimento da Junta Nacional da Educação.»

«A milícia da M.P. estará sempre pronta a colaborar com a Legião Portuguesa para todos os seus fins patrióticos.»

(do Regulamento da Mocidade Portuguesa, aprovado em 4/12/1936)

24.5.07

Canções na memória (IV) - What did you learn

Versão mais ligeira do que a deste post sobre aprendizagem na escola.





What Did You Learn in School Today
(Pete Seger, 1963)

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that Washington never told a lie
I learned that soldiers seldom die
I learned that everybody's free
That's what the teacher said to me
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that policemen are my friends
I learned that justice never ends
I learned that murderers die for their crimes
Even if we make a mistake sometimes
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that our government must be strong
It's always right and never wrong
Our leaders are the finest men
So we elect them again and again
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

What did you learn in school today, dear little boy of mine?
I learned that war is not so bad
I learned about the great ones we have had
We fought in Germany and in France
And someday I might get my chance
And that's what I learned in school today
That's what I learned in school

23.5.07

Feira do Livro de Lisboa

No próximo Sábado, dia 26, a partir das 21h, estarei no stand da Âmbar (pavilhões 114 e 115).
Se alguém quiser aparecer por lá, será um prazer.

«Felizes as nações que não são obrigadas a escolher»


Ora aí está: os lisboetas tão preocupados com a parafernália de candidatos à presidência da Câmara, quando podiam viver tão sossegados se tudo ainda fosse como Salazar gostava e fazia!

“Por felicidade do País, ao desempenhar-se do encargo constitucional da eleição, não tem que escolher – felizes as nações que nos momentos cruciais da sua vida não são obrigadas a escolher, e às quais a Providência com desvelado carinho dispõe os acontecimentos e suscita as pessoas de modo tão natural a-propósito que só uma solução é boa e essa a vêem com nitidez no íntimo da sua consciência todos os homens de boa vontade! Felizes porque não se debatem em dúvidas angustiosas, porque não se arriscam em desmedidas contingências, felizes sobretudo porque não se dividem!”

(Do discurso proferido por Salazar em 7/2/1942, véspera da reeleição de Óscar Carmona, candidato único para a Presidência da República)

22.5.07

«Quando os meninos são bonzinhos...»


De vez em quando, folheio este exemplar comprado há algum tempo na Feira do Livro.

Não conheço os actuais livros escolares - os do meu filho já lá vão e o meu neto ainda anda pelo Ruca e pelo Noddy. Mas os leitores que forem, como eu, bastante «crescidos» aprenderam a ler por este (ou por uma versão anterior, com a capa exibindo uns meninos fardados da Mocidade Portuguesa e em jeito de saudação nazi). Até quando durou o reinado deste livro único? Terá chegado ao 25 de Abril? Não faço a menor ideia.

Quem teve a cabeça moldada desta maneira aos seis anos de idade, está parcialmente perdoado para o resto da vida!





«Quando os meninos são bonzinhos
e se portam sempre bem,
se estudam nos seus livrinhos,
hão-de ver os seus paizinhos
alegres, como ninguém.»



«Sabeis, meus meninos, como podeis agradar ao vosso professor?
Ouvi:
Não façais barulho na aula.
Não deiteis papéis para o chão.
Não risqueis as carteiras, nem sujeis as paredes.
Tende os livros e cadernos sempre limpos e em ordem.
Estai com atenção. Sede amigos uns dos outros. Os alunos de uma escola devem ser como irmãos.»



«- Gostei tanto de ir hoje à escola, minha mãe! A senhora professora estava muito contente, porque inaugurou uma cantina, onde os meninos pobres podem almoçar de graça. Se visse, Mãezinha! As mesas muito asseadas, os pratos branquinhos, jarras floridas e tudo tão alegre!
A sopa cheirava que era um regalo; e todos nós estávamos satisfeitos, ao ver os pobrezinhos matar a fome(...).
Perguntei à senhora professora quem tinha feito tanto bem à nossa escola e ela responde-me: - Foi o Estado Novo, que gosta muito das crianças e para elas tem mandado fazer escolas e cantinas, creches e parques.»



21.5.07

Canções na memória (III) - Only you

Esta saiu mesmo do fundo do baú...

Only you (The Platters, 1955)


Only you, can make all this world seem right
Only you, can make the darkness bright
Only you, and you alone, can thrill me like you do
And fill my heart with love for only you

Only you, can make all this change in me
For it's true, you are my destiny
When you hold my hand, I understand
the magic that you do
You're my dream come true
my one and only you

Only you, can make all this change in me
For it's true, you are my destiny
When you hold my hand, I understand
the magic that you do
You're my dream come true
my one and only you

One and only you....

20.5.07

A dissidência da terceira via

Li o livro (*) antes de ele chegar às livrarias (porque a editora fez o favor de mo enviar) e, portanto, liberta de quaisquer pressupostos com origem em opiniões alheias.

Entretanto, foram surgindo apreciações. Destaco duas: a de João Tunes no Água Lisa (6) (de um compagnon de route, naturalmente emotiva e entusiástica) e a de Rui Bebiano no Passado/Presente. (**)

Num outro post do mesmo blogue, João Tunes sublinha as semelhanças gráficas entre esta obra e o meu livro Entre as Brumas da Memória. São óbvias: basta olhar aqui para o lado direito do blogue para as ver. São também justificadas: mesma colecção da mesma editora, publicação com dois meses de intervalo, resultado do acolhimento de ambos por um excelente editor (Nelson de Matos), predisposto a dar guarida a excentricidades memorialísticas e históricas deste tipo e que, infelizmente, já deixou a Âmbar. Diz também J. Tunes que «lendo-os, as sensações de semelhança regressam à tona – estão lá todas as “igrejas” e as suas ovelhas tresmalhadas (...), confirmando as enormes semelhanças entre comunismo e catolicismo». Isso daria para muitas e longas considerações, mas hoje não vou por aí.

O livro de Raimundo Narciso (RN) é um importante testemunho, como é o que tinha escrito sobre a ARA, a que já me referi neste blogue. Se os protagonistas das histórias não as contarem, ninguém o fará por eles. Os historiadores poderão vir a «entrar na conversa», mas fá-lo-ão de uma outra maneira. E histórias não faltam a RN...

Gostaria de deixar três breves comentários que a leitura me suscitou e que nem chegam a ser críticas:

1. Na minha opinião, a imagem de Álvaro Cunhal sai de rastos. Não porque RN seja agressivo, nos termos ou nos conteúdos – muito pelo contrário, até mostra uma certa benevolência. Mas se é verdade que não existem no livro quaisquer novidades sobre a personalidade de Cunhal, os detalhes do seu comportamento, no dia a dia e em situações de ruptura, revelam, muito clara e sistematicamente, a prepotência e a intolerância que o caracterizavam.

2. Pode-se ficar com a impressão de que o problema mais importante, quase que o único, era o centralismo democrático, com todo o arsenal de considerações de ordem burocrática que lhe estão associadas. Não vi muitas clivagens ideológicas – falha minha, possivelmente.

3. Quando acabei a leitura – que fiz de um trago – tive a impressão de ter passado algumas horas dentro da Soeiro Pereira Gomes (só lá entrei uma vez, por razões familiares, mas chegou para imaginar agora alguns cenários). Nem sei se isto é uma crítica ou um elogio: se a intenção do autor, que não conheço pessoalmente, era revelar a claustrofobia em que viveu naquela casa, conseguiu perfeitamente o seu objectivo. Mas confesso que me faltou «a leitura interpretativa e historicamente contextualizada dos acontecimentos», de que fala Rui Bebiano.

Estas considerações não afectam, de modo algum, uma apreciação global muito positiva da obra – importante e de leitura incontornável.


(*) Raimundo Narciso, Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via, Âmbar, Porto, 2007, 200 p.
O autor criou este blogue relacionado com a publicação do livro.
(**) Ignoro, propositadamente, as que já li provenientes de fontes oficiais ou oficiosas do PCP, pela falta de seriedade que revelam.