10.2.10

Je t’aime, moi non plus


… disse Cohn-Bendit anteontem a Durão Barroso, quando o Parlamento Europeu aprovou a nova Comissão, referindo-se àquilo que chama uma coligação negativa: «não te damos crédito, mas vamos votar em ti». Sempre ele, virulento hoje como há mais de quarenta anos, num tom inconfundível e não poupando nas palavras.

«Cessem as banalidades e as generalidades: queremos uma Europa política.»
«Quero que tenham ideias, que defendam qualquer coisa!»
«A realidade no mundo é que a Europa não está à altura da crise económica, da crise ecológica e da crise financeira.»

Vale a pena ouvir:

Matusalém (19)




(P.S. - Série de músicas que me marcaram, algures no mundo e na vida, pelos mais variados motivos - quase tão velhas como Matusalém.)

9.2.10

Ilustração musical para o «post» anterior


Um Manifesto e uma Manifestação


Um post de uma linha que escrevi ontem bateu asas e teve efeitos bem longe daqui e em centenas de acessos a este blogue. Li, em silêncio, o que por lá se foi escrevendo a meu respeito porque raramente intervenho em caixas de comentários de turbo-blogues e arrependo-me quase sempre que o faço.

Mas o que está em causa é grave: foi convocada uma manifestação para 5ª feira e lançada uma petiçãoTodos pela Liberdade - que, no momento em que escrevo, ultrapassa as 3.000 assinaturas e terá muitas mais.

O que penso de um modo geral sobre a iniciativa e o seu conteúdo está dito num post que o Miguel Serras Pereira acaba de publicar no 5 Dias: Anti-Social-Fascismo (R)? e dispenso-me de o repetir (*).

Apenas alguns apontamentos adicionais, à minha maneira.

Que a situação do país é gravíssima, que os últimos episódios que envolvem o primeiro-ministro não o são menos e que são necessários esclarecimentos urgentes parece-me absolutamente óbvio. Mas outra coisa bem diferente é pedir sem mais a sua cabeça, de uma forma primária e muito perigosa, como se isso resolvesse todos os problemas. Como diz Miguel S. Pereira: «Se o governo Sócrates merece cair por muitas razões, o apelo omite muitas das principais; e se esse silenciamento é o preço da unidade da acção, receio que seja o branqueamento antecipado de um próximo governo “de verdade”, e das suas previsíveis tentativas de berlusconização do regime por via presidencial ou “mista” (coligação da Presidência e forças político-partidárias eventualmente recombinadas), e de “limitação económica” agravada dos direitos sociais e liberdades.». Não podia estar mais de acordo: o perigo de berlusconização por via presidencial não é uma figura de estilo nem uma «boutade», ele está aí bem vivo e à espera de uma oportunidade que parece receber uma bela ajuda por parte destes peticionário-manifestantes.

Que pessoas de esquerda se tenham juntado à direita, e até enfeitado um pouco a lista dor promotores, é triste e é grave porque demonstram que não entendem o que a dita direita realmente pretende, desta vez como sempre. De repente, alguma esquerda descobriu um objectivo nacional comum e escorregou numa casca de banana magistral e estrategicamente colocada. E lá vai, ufana e feliz, vestida de branco, com estandartes que por acaso até serão azuis, ombro a ombro, em nome de uma blogosfera unida.

Finalmente, não vi ainda suficientemente sublinhada a gravidade da manifestação convocada para depois de amanhã, no meu entender mais chocante do que a petição: «a rua» tem uma enorme força na vida das democracias e há que utilizá-la para objectivos correctos. É talvez um bem ainda mais precioso para quem viveu em tempos de ditadura, onde ela era sinal de carga policial ou, num extremo oposto, o Terreiro do Paço à cunha com Salazar a gritar que «Todos não somos demais». Pelo meio, a rua foi o 25 de Abril. E por isso senti, como uma verdadeira bofetada na cara, que alguém tenha posto num blogue, como convocatória para esta manifestação, um vídeo com os soldados e os cravos e Grândola em música de fundo. Haja decoro.

(*) A ler também este post do Miguel Cardina.

Matusalém (18)




(P.S. - Série de músicas que me marcaram, algures no mundo e na vida, pelos mais variados motivos - quase tão velhas como Matusalém.)

8.2.10

Verde mais verde não há




A Costa Rica elegeu ontem uma mulher para presidente da República e do Governo, num país de regime presidencialista. Com um apelido simpático, representa um partido de centro-esquerda e é considerada grande defensora dos direitos das mulheres. Mas… é contra o aborto e não aprova o casamento gay...

Laura Chinchilla contou com o apoio de Óscar Arias Sánchez, que não pôde recandidatar-se por já ter cumprido dois mandatos - personagem de muito grande prestígio, que no final dos anos 80 se opôs firmemente a que os Estados Unidos utilizassem a Costa Rica como base para atacarem a guerrilha nicaraguense e que recebeu, em 1987, o Prémio Nobel da Paz por ter conseguido que alguns países da América Central (Nicarágua, Guatemala, El Salvador e Honduras) chegassem a acordo sobre um plano de paz que ele próprio elaborou.

Embora atingida pela crise em 2009, a Costa Rica é considerada um caso de sucesso e percebe-se porquê: além do Atlântico e do Pacífico, «entalam-na» o Panamá e a Nicarágua, vizinhos não muito desejáveis. Entre guerrilhas sandinistas de um lado e Noriegas do outro, mantém uma sólida democracia desde 1949, ano em que entrou em vigor uma constituição que atribuiu direito de voto universal aos dezoito anos (inclusive às mulheres e aos negros) e que aboliu as forças armadas. Iniciou-se então um historial de pacifismo, especialmente significativo no contexto geoestratégico em que o país se insere.

Com cerca de quatro milhões de habitantes, 96% de literacia e um terço da sua área protegida ecologicamente, está na moda como destino turístico - a sua principal fonte de receitas – e exporta sobretudo ananases, bananas (*), microships e desenvolvimento de software.

Em 2006, passeei por cinco das suas sete províncias, fiz cerca de 1.300 km por terra e por rio – num país VERDE e absolutamente luxuriante, onde se atinge facilmente 100% de humidade a que só as melhores máquinas fotográficas digitais resistem.

Ir a Tortuguero é uma experiência única. Por razões ecológicas, não é acessível por estrada mas apenas por rio, numa viagem de quase duas horas. Caminha-se por trilhos com vegetação tão cerrada que se ouve chover sem que a água chegue ao chão e é-se acordado a meio da noite por trovões e chuvadas monumentais e, às cinco da manhã, por simpáticos macacos roncadores. Por lá se vêem tartarugas – também verdes, na época do ano em que lá estive — a desovar na praia em noite de lua cheia.

Eu, que nem sou muito dada a excursões ecológicas, fiquei rendida a este país com muitos outros parques, vulcões, termas paradisíacas em cascatas a várias temperaturas, borboletas azuis e rãs vermelhas.

Dito isto, a Costa Rica é um país modesto. As estradas são más (péssimas, por vezes), a arquitectura de luxo não passou por ali, as povoações não são bonitas, as pessoas têm um ar muito simples. Visto a distância, Portugal parece um país de milionários, Lisboa é Paris quando recordada em S. José.

Um toque futebolístico no que seria o paraíso visual para qualquer sportinguista: foi em Tortuguero que vi, na final do campeonato do mundo de 2006, a celebérrima cabeçada de Zidane. Pareceu-me que até os macacos roncaram então com mais força!...

(*) E também plátanos, João! :-)

Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem

Notícias do naufrágio




«Diz-se que, enquanto o Titanic se afundava, no salão de festas a orquestra continuou a tocar. A ter sido assim, deve ter havido um momento em que, ou porque a água chegou aos instrumentos ou porque chegou o pânico aos instrumentistas, a orquestra desafinou.»

Manuel António Pina, no JN.

Matusalém (17)





Yves Montand, Le Roi Renaud de guerre revient

(P.S. - Série de músicas que me marcaram, algures no mundo e na vida, pelos mais variados motivos - quase tão velhas como Matusalém.)

7.2.10

Lost



Julguei que faltava um link num mail que me chegou ontem apenas com uma frase: «E que me dizes tu a isto??????»

Veio a explicação: o «isto» era simplesmente o estado a que «isto» chegou. Juntava-se o desespero de quem está bem mais perto do que eu do centro de todas as gravidades e que se interrogava sobre o que eventualmente pensarão os que mais fizeram, e mais sofreram, para que a democracia chegasse a este país. Por outras palavras: «Terá valido a pena?»

A minha resposta, sem tirar nem pôr uma vírgula:
«Eu nunca penso nesse comprimento de onda mas há quem pense. Acho que, de tudo isto, há-de concretizar-se um dia uma utopia de algo de novo que supere os comunismos que falharam totalmente e o capitalismo que é uma merda! Mas entretanto...»

Balelas inúteis, dirão muitos. Mas é sempre a este plano que regresso quando parece não restar pedra sobre pedra e o disparate reina, como foi o caso da inenarrável semana que agora acabou. Por tabela, ganho assim alguma distância e desinteresso-me dos detalhes quando as histórias se tornam demasiado macabras.

Mas claro que há o «entretanto». E esse é tudo menos brilhante e prenuncia futuros próximos que poderão ser bem piores. Os poderes da República – do primeiro ao quarto – não caíram na rua mas revelam tendências suicidas e não vejo por aí psiquiatras suficientemente activos.

Receio que os responsáveis pelo tal estado a que isto chegou tenham recebido o link para este site e que não saibam neste momento onde é a porta de saída.

Na hora de agradecer o que não merece agradecimentos




Recebi este texto de Marinela Coelho, viúva de Manuel Serra, com pedido de publicação neste blogue e nos Caminhos da Memória. Não esquecerei a força e o sorriso que nunca a largaram, nem depois do fim.

Obrigada, em meu nome e do Manel Serra, a todos os amigos, companheiros, camaradas e também às pessoas anónimas que o admiravam, que nos acompanharam nesta hora triste que é a da partida.

Prestou-se tributo a um lutador que em toda a sua vida nunca abdicou, nem nas horas mais perversas de antes e depois do 25 de Abril, dos seus princípios políticos, ideológicos, morais e cristãos.

Que seja lembrado, enquanto houver memória!

Marinela

Matusalém (16)




(P.S. - Série de músicas que me marcaram, algures no mundo e na vida, pelos mais variados motivos - quase tão velhas como Matusalém.)