17.3.10

Necrophile is in the air


O país anda preocupadíssimo com assuntos transcendentes e sabe-se agora que alguns pretendem confinar a toponímia ao mundo dos desaparecidos.

Para evitar possíveis abusos, corta-se o mal pela raiz: não haveria mais ruas com o nome de Mário Soares nem de José Saramago (existem às dezenas), as próximas teriam de esperar que a morte se digne levá-los. Jorge Sampaio não seria nome de estádio e pena é que não estejam previstos efeitos retroactivos, a tempo de mandar arrasar umas estátuas de Manuel Alegre.

Tudo isto «inspirado pelos ideais republicanos», como «mais um gesto de homenagem ao Centenário da Implantação da República».

Mas o que é que a República tem a ver com as calças???

P.S.1 - «Uma lei para enterrar os vivos e ressuscitar os mortos é estonteante para qualquer legislador.»

Matusalém (36)

16.3.10

Entre o Tigre e o Eufrates


Hoje somos todos sumérios, com a Mesopotâmia aqui tão perto, Código de Hamurabi à cabeceira e Lei de Talião por divisa. Olho por olho, dente por dente, pensou o nosso Nabucodonosor, e já que me fintaram aí vai.

O quê? O diploma da AR sobre casamento civil de pessoas do mesmo sexo, enviado por Cavaco ao Tribunal Constitucional, juntamente com um parecer jurídico de Freitas do Amaral.

Sabe-se hoje que esta eminência basculante considera imperativo que se reveja a Constituição se se quiser utilizar a sacrossanta palavra «casamento» já que, tal como está, «o que fica assegurado é a procriação da espécie, situação que não permite acrescentar um regime para além da união heterossexual». Também porque, para além de outras razões, a nossa Constituição «aponta de forma directa para o casamento tradicional nos países nascidos das civilizações mesopotâmicas e europeia, que é o casamento monogâmico e heterossexual».

É o que se chama regressar às origens…

P.S. -Aparentemente, na tal Mesopotâmia, o casamento não era tão monogâmico assim – bigamia à vista.

Causas


Há milhares no Facebook, mas a esta aderi sem um minute de hesitação:

Yo acuso al Gobierno cubano


Pela leitura de um artigo de El País de hoje, tomei conhecimento de uma nova campanha - «Yo acuso al Gobierno cubano».

Cidadãos anónimos e outros que o não são – como Antonio Muñoz Molina, Mario Vargas Llosa, Yoani Sánchez e Pedro Almodóvar – fazem mais uma tentativa para pressionar Cuba a libertar os presos políticos. Inútil? Talvez, mas eu disse que não ma calaria até que a voz me doesse - ainda não doeu o suficiente.

O documento pode ser assinado aqui e é este o seu texto:

Pela libertação dos presos políticos

Pela libertação imediata e sem condições de todos os presos políticos das prisões cubanas; pelo respeito ao exercício, promoção e defesa dos direitos humanos em qualquer parte do mundo; pelo decoro e o valor de Orlando Zapata Tamayo, injustamente preso e brutalmente torturado nas prisões cubanas, morto após greve de fome por denunciar estes crimes e a falta de liberdade e democracia no seu país; pelo respeito à vida dos que correm o risco de morrer como ele para impedir que o governo de Fidel e Raul Castro continue eliminando fisicamente aos seus opositores pacíficos, levando-os a cumprir condenações injustas de até 28 anos por "delitos" de opinião; pelo respeito à integridade física e moral de cada pessoa, assinamos esta carta, e encorajamos a assiná-la também, a todos os que elegeram defender a sua liberdade e a liberdade dos outros.


Matusalém (35)


Mouloudji, Tout fout le camp

(Esta vai para o Miguel Serras Pereira, ali no outro lado, onde houve esta noite uma conversa francófila.)

15.3.10

Génios e Jotas

(Clicar para ver maior)

O último número da Visão inclui um longo dossier - «O corredor do poder» - sobre o percurso do «núcleo duro da JS fracturante», cujos membros terão conquistado cargos e peso político «à sombra do poder e influência de António Costa e da liderança de Sócrates» – uma complexa trama de amizades e cumplicidades (estou a ser meiga na escolha das palavras…), onde nem as famílias terão sido esquecidas.

Não sei, nem francamente me interessa muito saber, que percentagem exacta de verdade há em tudo o que é detalhadamente descrito. Mesmo que não ultrapasse os 50%, trata-se de um peça fundamental para entrever o que é o pano de fundo de muito que vemos agora aparecer à boca de cena. Coloquei-a online aqui para quem não tiver tido a oportunidade de a ler e, também, porque pode ainda vir a ser um elemento útil para várias memórias futuras.

Um dos protagonistas é o já célebre Rui Pedro Soares, de 36 anos, que deixou há pouco a PT onde era administrador executivo desde 2006. Dele disse Sócrates, em entrevista recente, que só subiu naquela empresa por mérito próprio. Depois de ouvir um excerto das declarações que fez à Comissão de Ética da Assembleia da República, sinto-me gozada.

O país segue quando for possível.



P.S. - 1,533 milhões de euros de salários, em 2009?

Nem com o efeito Michelle Obama


Vem no DN e é bem visível na fotografia: as barbies negras estão em saldo e custam quase metade das primas esbranquiçadas e sem carapinha. Negócio obriga, a crise chega a todos e a Wal-Mart quer ver-se livre de stocks imprevistos.

Razões para o fenómeno? As meninas brancas preferem ver-se ao espelho? Os pais das meninas afro-americanas têm menos dinheiro para comprar bonecas? Nada disso: apenas um mau departamento de Marketing da Wal-Mart, porque este terrível vídeo que fui desenterrar agora tem mais de um ano.



Serão necessárias mais algumas décadas, sonhos de dez Luther King’s e três ou quatro presidentes negros na Casa Branca. Então, talvez, quem sabe, oxalá…

(Notícia do DN via Vítor trigo)

14.3.10

Em jeito de nostalgia


No fim de um dia em que alguns fomos lendo reacções à morte de Jean-Ferrat, trocámos informações e ligações para vídeos, retenho três apontamentos:

Declarações de Georges Moustaki, 76 anos, um dos poucos sobreviventes da geração de Brel, Brassens e Ferré, sobre Jean Ferrat: «Tínhamos a mesma filosofia, o mesmo olhar», (…) era um homem engagé, mas não gritava ordens, fazia-o com poesia».

Um vídeo de homenagem (France2), com resumo biográfico:


E uma das mais belas canções de amor de sempre:
Aimer à perdre la raison (Aragon)


(Na foto: Ferrat, Brel, Ferré, Brassens e Moustaki)

E de repente, numa tarde de sol


…venceu a cubanização.

Uma ida à praia, umas horas longe de notícias e um enorme esforço para tentar perceber o que era a tal «lei da rolha» que a TSF referia mas já sem explicar.

Ainda não caí em mim mas vou começar a preparar uns posts em defesa de futuros grevistas de fome, encerrados algures numa cave da São Caetano à Lapa.

Perdeu-se o tino – definitivamente.

Diz o nu ao roto


«Sócrates mente tantas vezes que às vezes esquece-se que está a mentir.»

Uma voz a menos: morreu Jean Ferrat


Depois de Léo Ferré, Georges Brassens e Jacques Brel, desapareceu ontem mais um dos muito grandes da canção francesa.

Representante típico de gerações de intérpretes politicamente engagés, para sempre ligado a Nuit et Brouillard e a tantos outros títulos, o eterno compagnon de route do Partido Comunista Francês, que não hesitou em denunciar a invasão de Praga em 1968.
C'est un nom terrible Camarade
C'est un nom terrible à dire
Quand le temps d'une mascarade
Il ne fait plus que frémir
Que venez-vous faire Camarade
Que venez-vous faire ici
Ce fut à cinq heures dans Prague
Que le mois d'août s'obscurcit



Mais informação aqui.