15.12.10

É um vaivém permanente entre Maomé e a montanha


Lê-se que estão técnicos do FMI em Lisboa para discutir reformas estruturais e que Sócrates prepara pacote de «medidas defendidas pelo FMI» para levar amanhã a Bruxelas.

Apregoa-se não ser necessária a presença de quem, afinal, já cá está para ajudar o mau aluno a fazer os trabalhos de casa. Missão cumprida, este parte com o caderninho na mala para ver se consegue passar, em Bruxelas, no exame preparado pelo explicador de Lisboa.

Bem podem os mais do que insuspeitos senadores gritar que o rei vai nu e que o precipício europeu está à vista, que a caravana continua a avançar impavidamente. Bem escreve Mário Soares que «a grande opinião europeia tem de pressionar os líderes europeus do momento, que não querem assumir a situação em que se encontram e os riscos em que incorrem» e no pasa nada. Ouvem-se os apelos quase dramáticos do mesmo Mário Soares e de Freitas do Amaral (ontem na TVI 24, em debate liderado por Constança Cunha e Sá) de «resistência» à actual aliança FMI / EU-Merkel, sob pena de derrocada europeia inevitável, e fica-se com a ideia de que estão a falar para extraterrestres.

Isto não vai acabar bem. Algo está podre e não é no reino da Dinamarca.
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14.12.10

Aprendam que a UBS pode não durar para sempre


O documento tem 44 páginas e descreve, com todo o pormenor, o dress code exigido aos empregados que trabalham em contacto com clientes na UBS (União dos Bancos Suíços).

Absolutamente hilariante, arruma a um canto qualquer responsável pela Loja do Cidadão de Faro e merece uma leitura pelo menos em diagonal (não perder a p.22, sobre uso de perfumes…).

Porque «uma aparência impecável pode proporcionar paz interior e sentimentos de segurança», a UBS não poupa esforços. Algumas (poucas) pérolas:

A roupa interior feminina deve ser da cor da pele, por baixo de blusas brancas, já que, com licença do chefe, se pode despir o casaco do tailleur (sempre liso, preto, antracite ou azul escuro), em tempos de grande calor, e as saias devem descer até 5cm abaixo do meio do joelho. São proibidos óculos «ultramodernos» ou com lentes de cores berrantes. Quanto às camisas de homem, são proibidos botões de punho (?) e mangas curtas.

Deve mudar-se de sapatos pelo menos uma vez por dia, já que pés frescos «aumentam o bem-estar e melhoram a performance no trabalho», «o homem UBS protege a pele com creme hidratante, arredonda as unhas e só usa barba se for curta e bem tratada.»

E um enorme ponto de interrogação quanto a esta directiva para homens:
«A roupa interior deve ser sempre fabricada em tecidos de qualidade superior, facilmente laváveis e que se mantenham em bom estão de conservação após várias lavagens.» A roupa interior? Para que tipo de actividades profissionais?

Mas há mais, muito mais…

(Fonte)
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Da cartomância


É pena que as capacidades de previsão de Cavaco Silva sejam muito limitadas e apenas tenham permitido que antevisse o panorama actual português há sete anos.

O que teria sido deveras interessante era se, exactamente há trinta, em Dezembro de 1980, o então Ministro das Finanças de Sá Carneiro tivesse conseguido adivinhar que um seu sucessor andaria um dia por Pequim a procurar vender a dívida portuguesa que ele tanto ajudou a criar. Pouquíssimos anos depois do fim da Revolução Cultural, ver Deng Xiaoping em viagens pelo mundo para angariar investimentos estrangeiros na China e perceber que um dia a situação poderia inverter-se, isso sim teria sido um golpe de génio profilático!
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Quando «blogar» não é tão fácil assim…


Habituados que estamos a que tudo esteja para nós à distância de meia dúzia de clicks, vale a pena saber como Yoani Sánchez alimenta o seu blogue, Generación Y, a partir de Havana:

«Los detalles técnicos de cómo logro publicar en Internet los he descrito frecuentemente en mi blog y en realidad no han variado mucho en estos dos años. Desde marzo de 2008 el gobierno cubano implementó un filtro que me impide acceder a Generación Y desde los hoteles y otros sitios públicos. Una pantalla en blanco es el resultado cuando escribo la dirección web que me debería llevar a mi blog. Eso me hizo encontrar caminos paralelos para mantener vivo mi espacio virtual. Uno de ellos es escribir varios textos en casa, lo cual dado el carácter reflexivo y de opinión que tiene GY puedo hacer sin miedo a que se pongan viejos los temas. Cuando acumulo tres o cuatro, me voy a un hotel y compro una tarjeta de conexión para enviar por correo electrónico los posts a varios comentaristas de mi blog que se han convertido en mis editores para lograr publicar. Cuando no puedo conectarme en un hotel, ya sea porque la conexión no funciona —cosa que pasa frecuentemente—, el cerco policial no me deja acercarme o no tengo el dinero para hacerlo, entonces envío un sms a alguno de estos amigos para que me llame y grabe el texto leído a través de la línea telefónica.

En los últimos meses descubrí otro camino que me gusta explicarlo diciendo: si los cubanos fuimos capaces de hacer el picadillo de carne sin carne —con cáscara de plátano— cómo no vamos a crear la internet sin internet. Se trata de escribir el post y una vez terminado marcar la tecla Prt SC que le hace una foto a la pantalla del ordenador, pongo esa imagen en un programa donde la corto y la guardo en formato .gif y entonces la ubico dentro de mi móvil. A través del servicio de MMS de Cubacel, envío esa imagen a mis editores que transcriben el texto y lo publican. Así han salido la mayoría de mis textos de los últimos meses y así he ayudado a otros a conocer ese camino alternativo hacia la gran telaraña mundial. Twitter, por su parte, es otra historia. Desde agosto del año pasado aprendí que ese servicio de microblogging tiene un método de publicación por sms para personas sin acceso a la Web. Eso me ha permitido completar los textos reflexivos de mi blog, con la inmediatez que logran dichos mensajes en 140 caracteres. He impartido ya tres cursos de móvil-activismo para traspasar esos conocimientos a otros blogueros, periodistas independientes y personas que están haciendo una labor cívica o cultural. Cada nuevo truco informático que aprendo, es como un código abierto, un software de licencia libre al que todos pueden acercarse.»

(Fonte)
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13.12.10

Menos uma voz


Enrique Morente (1942-2010)



Pequeño Vals Vienés

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.

Federico García Lorca
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Mas a culpa não foi sempre dos computadores?


Dezembro parece ser um mês especialmente pesado para a responsabilidade cívica dessas entidades quase tão humanóides como os mercados.

Já nem nos recordamos talvez mas, há exactamente onze anos, reinava por esta altura o pânico pela iminência de uma espécie de apocalipse se os computadores se revelassem incapazes de reconhecer a mudança de século, com o consequente colapso de aeroportos, bancos, centrais nucleares e quase tudo no mundo. O «bug do milénio», se bem se lembram.

No fim da primeira década deste século XXI, um verdadeiro terramoto, com vários tsunamis ainda em actividade e outros em grande fila de espera, foi ele também provocado pelas potencialidades desses malvados seres, bem mais perigosos do que a máquina a vapor e seus sucedâneos, sem que seja de todo previsível que Obama acorde no dia 1 de Janeiro de 2011 com a certeza de que tudo não passou de um sonho mau e que Wikileaks não é mais, afinal, do que uma nova marca de pastilhas elásticas.

Curiosamente, as primeiras vagas que nos atingiram agora vieram através de um outro «millennium», também já cheio, muito cheio de bugs. Isto deve andar tudo ligado, não?!
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À margem da crise


Regressada há uma semana de dois grandes países – a Argentina e o Chile – vejo confirmadas, pelos dados e pelas conclusões revelados pelo Latinobarómetro 2010 (1), as minhas impressões de turista, embora pouco acidental: a América Latina vai bem, melhor do que há sete anos, e também se recomenda.

Esqueça-se a crise de 2008 e início de 2009, porque se estima que a economia do conjunto da região cresça 5,2% em 2010, o que revela uma solidez macro-económica notável e indiscutível.

Também, e trata-se de um dado importante sublinhado em todas as análises, aumentou entretanto significativamente o «apoio à democracia» (2) – de um modo geral, porque é óbvio que se registam diferenças, por vezes significativas, de país para país –, enquanto o calcanhar de Aquiles continua a ser a delinquência, com 90% dos latino-americanos convictos que podem vir a ser vítimas de crimes violentos.

O vigor da confiança na democracia aparece intimamente ligado às variações no plano económico. A década acaba bem melhor do que começou, nomeadamente com a crise do peso argentino e os receios das reacções à eleição de Lula. E «o caos económico tinha sido associado pelo conjunto das populações latino-americanas ao falhanço das políticas de privatização e de abertura comercial dos governos democráticos dos anos 90, que sucederam aos tiranos da trágica década de 80.» «Democracia» foi então associada por muitos a «corrupção», o que explica os péssimos resultados do Latinobarómetro de 2001.

Deixando agora de lado o relatório e os números – e haveria muitos a referir –, «regresso» às ruas de Buenos Aires e de Santiago do Chile (não necessariamente às de Atacama…): vê-se prosperidade, não se sente nem se fala de crise (a não ser, um pouco, no turismo, mas que é agora largamente alimentado pelos países vizinhos…), as perspectivas parecem tão vastas como as amplas avenidas que cruzam as duas cidades, os projectos tão firmes como os novos e lindíssimos edifícios que não existiam há poucos anos (Puerto Madero, nas antigas docas de Buenos Aires, está irreconhecível!), o lazer tão intenso como o número de restaurantes, de todas as categorias, cheios de gente a todas as horas, o poder de compra tão evidenciado num sem número de recentes complexos comerciais mais ou menos luxuosos.

Claro que o Chile (ainda) ficou pessimamente colocado no PISA 2009 e é verdade que, 24h depois do meu regresso, morreram mais de oitenta pessoas numa prisão de Santiago, em condições talvez impensáveis em qualquer país europeu. Mas o (bom) futuro próximo passa certamente mais por ali… do que por aqui. É só preciso andar de olhos abertos para regressar, com essa certeza, a esta velha Europa!

(1) Para eventuais interessados, coloquei online o Informe 2010, de acesso directo difícil na rede, e que é baseado no resultado de 19.000 entrevistas realizadas em 18 países.
(2) Para mais detalhes sobre este conceito, ver Informe 2010. pp. 38-49.

(A partir daqui.)
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Dar abrigo a WikiLeaks


O Libération explica porque o faz - e muito bem, na minha opinião:

«Libération, anarchiste du Net ? En abritant le site Wikileaks, pourchassé à l’échelle mondiale, sacrifions-nous à l’idéologie de la transparence absolue, dans laquelle Michel Foucault voyait une forme insidieuse de totalitarisme ? En aucune manière. Les Etats démocratiques ont le droit de garder des secrets et d’agir, dans les formes légales, à l’abri de règles reconnues de confidentialité. Mais les organes d’information, sur le Net ou ailleurs, ne sont pas et ne doivent pas être des prolongements des Etats. Ils sont des contre-pouvoirs. Ils ont pour fonction d’informer le citoyen et s’efforcent, pour ce faire, de comprendre ce qui se passe dans les coulisses des organisations, publiques ou privées. Sous une forme radicale, c’est ce que fait WikiLeaks, qui a pris soin, il faut le souligner, de s’arrimer à des titres respectés de la presse mondiale pour rendre publiques les informations qu’il s’est procurées. Les attaques menées contre ces imprécateurs utiles n’ont à ce jour aucune base légale.

Et pour cause : en démocratie, le droit à l’information l’emporte sur la logique des pouvoirs ; s’en prendre illégalement à WikiLeaks, c’est, toutes proportions gardées, mettre en place une sorte de Guantánamo virtuel. Une menace que tous les journaux libres doivent dénoncer.»
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É isso mesmo


… sem tirar nem pôr, Miguel Cardina.

Notícias do interior do mundo

Dizem-nos que não devemos querer saber disto. Que isto perturba a ordem das coisas. Que nos devemos apenas preocupar com o caroço, a fuligem dos dias, a democracia da urna a horas certas. Que podemos dormir descansados enquanto eles tratam das questões verdadeiramente importantes. Que sair da caverna é uma impertinência e uma insensatez. Que não devemos dar crédito a isto, porque neste caso dar crédito é pactuar com o roubo. E o roubo, já dizia um velho francês de barbas, é a designação que alguns atribuem à propriedade. Ler as palavras do poder é ser um comunista primitivo ou um anarquista australiano.
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12.12.10

Vontade de voltar a partir


… ou ainda um pouco no Chile.


Pablo Neruda, La carta en el camiño
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Afundados em silêncio



Pouco qualificados, e portanto não competitivos, com uma corrupção endémica que lhes abafa a criatividade, ansiosos, deprimidos e amargos, estranhamente dóceis e silenciosos, mesmo quando aderem significativamente a uma greve geral - são as conclusões de uma reportagem recente de FR24 sobre os portugueses (vídeo).

Sofrem em silêncio e depois vão-se embora, como sempre fizeram – 100.000 emigraram, em 2009.

Per omnia seculum seculorum, amen??? Talvez não...



(Fonte)
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Só para francófonos


Une petite clémentine
Une petite clémentine, rentrant tard le soir, s'adresse à sa mamandarine. Tu ne diras rien a papamplemousse :
« Je suis sortie avec un joli citron qui me chantait la pomme. Comme j'étais pressée, il a eu un zeste déplacé... et maintenant j'ai peur d'avoir des pépins.»

C'est trop «cute».
Mais j'espère que sa mère ne lui a pas dit: «Orange toi avec tes troubles!»
Bonne journée! Et pourquoi pas... Elle ananas pour longtemps avec ses pépins; faudra qu'elle consulte un avocat afin de ne pas passer pour une poire...ils melon dit!!!
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