1.3.11

Ontem, toda ela se deixou ir


Ainda a propósito da morte de Annie Girardot, um belo texto de Ferreira Fernandes, hoje no DN.

A memória que não perco dela

Ontem, morreu uma das mulheres da minha vida, Annie Girardot. Tive um caso com ela, já o contei há anos numa crónica. Eu tinha 13 anos. Ela nunca soube de nada mas eu chegava para manter a nossa paixão: numa semana vi por três vezes Rocco e os seus Irmãos. A Girardot foi a única mulher de lábios finos que eu amei. Tudo por causa dos seus olhos que riam e da voz grave, a mais bela do cinema (igual só a de outra francesa, Jeanne Moreau). Embora nada sabendo de mim, ela atiçou-me as esperanças. Os jornais contaram que se apaixonou por Renato Salvatori, cara de homem, o boxeur irmão de Rocco. Tivesse ela escolhido Rocco (o bonitinho Alain Delon), eu ficava a saber que eu não teria chances. Há poucos anos, por um comovedor livro da sua filha Giulia Salvatori, A Memória da minha Mãe, eu soube que ela tinha Alzheimer. Um dia, ao entrar num barco para a Sardenha, ela disse: "Não sei subir." Eram simples escadas. Em 2006, filmou o anúncio da sua doença: "Meus amigos, um pouco de mim vai deixar--vos." Em 2008, para um documentário, amigos levaram-na à Place des Vosges, em Paris. Sentada num banco de jardim, foi saudada por vizinhos que a sabiam doente. "Ah, bon...", ainda disse com a sua bela voz. De repente, o seu olhar, o tal outrora provocador, partiu para dentro dela. Esquecera tudo, até a câmara que a filmava. Ontem, aos 79 anos, toda ela se deixou ir.
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Ide e lede


... o que Sérgio Lavos escreveu no Arrastão sobre o Prós & Contras de ontem - está lá tudo. Cheguei a casa a meio do programa (hei-de ver o resto online, mesmo com sacrifício…), mas aquilo a que assisti foi absolutamente lamentável.

Fátima Campos Ferreira, cada vez mais arrogante, julga ter o país nas mãos e as soluções na algibeira. E não o escondeu ontem, uma vez mais. Pelo meio, foi dizendo aos jovens frases como esta que Medeiros Ferreira registou: «Você não é político, espero!»

Comentários para quê. Apenas um: o que ela ganha sai directamente dos nossos impostos.
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Muito melhor do que ouvir o P&C

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28.2.11

Uma desfeita para a Drª Fátima Campos Ferreira

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Com o meu aplauso:

Resposta ao convite do programa Prós e Contras – RTP
Exmos. Srs.,

Vimos pelo presente agradecer o vosso convite a participar no próximo programa Prós e Contras.

Entendemos, no entanto, não ser oportuno aceita-lo. Não nos consideramos representantes, muito menos líderes, de qualquer movimento e, ainda menos, de toda uma geração.

Até agora, 30.000 pessoas já aderiram, no facebook, ao Protesto da Geração À Rasca e estamos cada vez mais certos que, centrar o protagonismo numa ou nalgumas pessoas, só porque estão a dinamizar o evento, será extremamente redutor, tendo em conta a transversalidade do problema e a diversidade de situações de precariedade existentes.

Acreditamos também que, infelizmente, não vos será difícil encontrar testemunhos pessoais sobre diversos tipos de precariedade que afectam, não apenas os jovens, mas toda a sociedade portuguesa.

Agradecemos encarecidamente a vossa compreensão.

Disponibilizamo-nos também para vos prestar todas as informações, acerca da organização do Protesto, de que venham a necessitar futuramente.

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Annie


Tinha 79 anos e morreu hoje - Annie Girardot, a belíssima prostituta de «Rocco e os seus irmãos», de Luchino Visconti, e de dezenas de outros filmes inesquecíveis.

No dia em que o mundo inteiro fala de cinema, depois de uma noite em feira de vaidades que me deixou gelada e totalmente indiferente, é um pouco do meu passado que desaparece com uma das maiores actrizes francesas do século XX. Tanto mais cruelmente quando se sabe o que foram os seus últimos anos, semi-perdida no Alzheimer que a foi destruindo e pelo qual deu a cara em «Ainsi va la vie», de Nicolas Baulieu.






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Um prémio


Alegria em duplicado, quando um belo prémio é atribuído a um livro de um grande amigo.



Na foto, o abraço de Luís Sepúlveda (também visível no vídeo, na primeira fila da plateia) a Pedro Tamen, grande tradutor de muitas das suas obras.

(Via Bibliotecário de Babel)

Um longo casaco de veludo azul
cobrirá um dia a madrugada que fabrico
dia por dia, mastigando os minutos
nos gestos destas mãos.
E ficará perfeita a vida que sufoco
nesta cave insalubre,
na penumbra habitada.
(poema 32, Livro do Sapateiro)
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Cada um viu Tahrir como quis


Pensei o mesmo que Miguel Madeira quando li este parágrafo de um artigo de Pacheco Pereira, editado primeiro no Público (em 19 de Fevereiro!...) e depois no Abrupto. Certamente que não viu a mesma Praça Tahrir que o resto da humanidade, em dezenas de vídeos, ou só olhou para uma ou outra fotografia como a deste post.

«É por isso que uma das coisas que não encaixavam na narrativa sobre a revolta árabe era ver a multidão na Praça Tahrir a rezar. Não que a fé e a oração públicas sejam por si só incompatíveis com a laicidade de um Estado, mas porque não havia excepções na muralha de corpos prostrados. Não havia cristãos na multidão, não havia um ateu, um agnóstico, alguém que não fosse religioso, e permanecesse de pé ou à margem da oração?»

Bem a propósito (ou de propósito?), Paulo Moura publicou um belíssimo texto na Pública de ontem:

Em Tahrir nem todos rezavam

Na praça Tahrir nem todos rezavam. Fazia-o quem queria, o que nunca foi a maior parte dos milhares de manifestantes. Há muitos egípcios muçulmanos que, cinco vezes por dia, fazem as orações prescritas pelo Corão. Quer estejam na praça Tahrir, quer noutro lugar qualquer. Outros egípcios muçulmanos só fazem as orações à sexta-feira, outros fazem-nas raramente, outros não as fazem nunca.

Não sei quais são as percentagens de uns e outros, nem a relação desses números com a classe social de cada um, a idade ou a região de onde provêm. Também não sei qual é a percentagem de portugueses que reza antes do deitar, e se isso depende da classe, idade ou região. Também ignoro se há estudos rigorosos sobre o número de portugueses que, nos anos 50, rezavam antes de dormir e de comer. E, desses, quantos ainda o fazem. E se os seu filhos o fazem. E os netos.

Também não sei qual é a percentagem de cidadãos dos EUA que rezam. E a dos que têm uma Bíblia à cabeceira, e a dos frequentam bruxos, videntes e "psíquicos". Já agora, também não sei o número de portugueses que o fazem.

Perdi a conta ao número de séculos durante os quais os padres cristãos impuseram às pessoas padrões de comportamento. Aliás, não sei bem quando deixaram de o fazer, nem o que ainda fariam se os deixassem.

Não sei quem disse aos muçulmanos que os judeus eram perversos, que o Ocidente conspira, as mulheres devem obedecer aos homens e os não-crentes são seres inferiores. Também não contei quantos milhões pereceram às mãos dos cristãos por serem infiéis, nem quantas mulheres da Cristandade nasceram e morreram sem terem tido vida.

Não investiguei se alguém violou uma jornalista americana na praça Tahrir, ou noutra qualquer praça ou rua do Cairo ou de Aveiro. Nem se o violador apoiava o não Mubarak, era devoto de Maomé ou da Virgem de Fátima, votava no PSD ou no Bloco. Em nenhum dos casos concluiria que a base de apoio do PSD são os violadores, que os bloquistas são frustrados sexuais ou que a vocação dos católicos é estuprar mulheres estrangeiras.

Não sei se há mais crime no mundo islâmico, judaico, cristão ou hindu, nem se há mais frustrações sexuais nos países do Norte ou do Sul, se há relação entre culpa e prosperidade económica, nem se a violência é mais própria dos climas quentes ou frios, ou a indolência directa ou inversamente proporcional à distância da praia.

O que eu sei é que na praça Tahrir nem todos rezavam. Sei, porque estive lá durante 21 dias seguidos. À hora da oração, organizava-se um cordão humano, de mãos dadas, para dar espaço a quem queria rezar. Faziam-no em conjunto, como é hábito entre os muçulmanos. Mas bastava olhar para o lado para ver a multidão que continuava de pé, a conversar. E também os grupos de cristãos que oravam juntos. Era assim, por mais que isto desoriente, incomode e fira a narrativa racista.

É admirável a capacidade humana de construir narrativas. Mas ainda mais a sua aptidão para as rasgar quando já não lhe servem. Leva tempo, porque a História mental é de longa duração. Mas não há nenhuma prova de que as civilizações árabe e muçulmana sejam incompatíveis com a democracia. Não há nada nos árabes e muçulmanos - nem a História, nem a tradição, a geografia, os textos sagrados ou o genoma - que os impeça de serem livres. O único impedimento seria não quererem, e a única ajuda que o Ocidente lhes pode dar é acreditar neles.
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Dia e noite

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(Via Elísio Estanque no Facebook)
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27.2.11

E depois do Mediterrâneo?


Quando olhámos horas e horas para a Praça Tahrir, ou quando nos mostram agora imagens de todas as manifestações, de Marrocos ao Bahrein, vemos jovens, jovens e mais jovens.

Se é sabido, em termos gerais, que a taxa de natalidade nestes países é elevada, outra coisa bem diferente é ler essa realidade reflectida nalguns números: cerca de 60% da população do Médio Oriente e do Norte de África tem menos de 30 anos e a idade média situa-se à volta de 25 (19, no caso extremo do Iémen), como resultado de um verdadeiro boom demográfico que teve lugar a partir de meados da década de 80. Nos últimos 30 anos, o analfabetismo entre os jovens foi drasticamente reduzido de 42 para 10% e o acesso às universidades largamente facilitado (*).

Tudo boas notícias? Sim mas não inteiramente, já que, apesar de registarem um índice de crescimento económico relativamente elevado, estes países não se adaptaram a novas exigências e foram incapazes de integrar as multidões de jovens que foram chegando ao mercado de trabalho. Tudo isto teve também como resultado que a permanência de ditaduras se tornou insuportável para sociedades renovadas, muito mais instruídas e com um acesso crescente, mesmo que limitado, ao mundo global.

O que está agora a acontecer na bacia do Mediterrâneo chegará a outras paragens por contágio ou, pura e simplesmente, por analogia. Estou a pensar, por exemplo, no Sudoeste Asiático, certamente com condições políticas e culturais muito diferentes, mas também com taxas de natalidade elevadas, populações impressionantemente jovens e regimes mais ou menos autoritários. Se há 16% de portugueses com 14 anos ou menos, e se o valor dessa percentagem é 32 no caso do Egipto, sobe para 33 no Cambodja e para 41 no Laos, só para citar dois exemplos onde os reflexos destes números se «vêem» a cada esquina.

Alguém acredita que os quase 5 milhões de cambojanos, nascidos desde 1997, não vão revoltar-se se tiverem no horizonte trabalhar, como os seus pais, 364 dias por ano, sem horários e com ordenados de miséria? Claro que não. Espero que não. E o Ocidente que se cuide.

(*) Fonte
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Da brutalidade

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Entretanto, no Irão.

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Interrogações


(Via Mª Evangelina Silva no Facebook)
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E Fidel não desarma


Dois dias depois de uma primeira intervenção, uma outra na passada quinta feira. Em suma:

«Los medios masivos del imperio han preparado el terreno para actuar. Nada tendría de extraño la intervención militar en Libia, con lo cual, además, garantizaría a Europa los casi dos millones de barriles diarios de petróleo ligero.»

«El Presidente de Estados Unidos habló en la tarde de este miércoles y expresó que la Secretaria de Estado saldría para Europa a fin de acordar con sus aliados de la OTAN las medidas a tomar. En su cara se apreciaba la oportunidad de lidiar con el senador de la extrema derecha de los republicanos John McCain; el senador pro israelita de Connecticut, Joseph Lieberman y los líderes del Tea Party, para garantizar su postulación por el partido demócrata.

Los medios masivos del imperio han preparado el terreno para actuar. Nada tendría de extraño la intervención militar en Libia, con lo cual, además, garantizaría a Europa los casi dos millones de barriles diarios de petróleo ligero, si antes no ocurren sucesos que pongan fin a la jefatura o la vida de Gaddafi.
De cualquier forma, el papel de Obama es bastante complicado. ¿Cuál será la reacción del mundo árabe y musulmán si la sangre en ese país se derrama en abundancia con esa aventura? ¿Detendrá una intervención de la OTAN en Libia la ola revolucionaria desatada en Egipto?

En Iraq se derramó la sangre inocente de más de un millón de ciudadanos árabes, cuando el país fue invadido con falsos pretextos. ¡Misión cumplida! proclamó George W. Bush.

Nadie en el mundo estará nunca de acuerdo con la muerte de civiles indefensos en Libia o cualquier otra parte. Y me pregunto: ¿aplicarán Estados Unidos y la OTAN ese principio a los civiles indefensos que los aviones sin piloto yankis y los soldados de esa organización matan todos los días en Afganistán y Pakistán?

Es una danza macabra de cinismo.»

(Na íntegra aqui.)
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