30.3.11

E não se fala mais disso


Ia escrever um post que começava com «Passos afirma…». O meu corrector não deixou e corrigiu logo para «Passos afirmam…».

OK, desisto do post: coliguem-se à vontade!
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Para a agenda

(Para ler, clicar na imagem e depois aumentar)
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A farsa trágica


Baptista Bastos, hoje, no DN.

«As peripécias da revolução portuguesa sempre tiveram características incomuns. A via original para o socialismo foi um estribilho mais do que um conceito. Até hoje ninguém conseguiu descobrir qual a natureza dessa originalidade. Era uma época em que se bebia em excesso e quase tudo era permitido ou aceito com benigna complacência. Zeca Afonso comentava, irónico, que o álcool era, afinal, a via original para o nosso socialismo. O PREC constituiu mais do que um acrónimo: foi um modo de se tentar ludibriar a História e uma maneira, um pouco louca, um pouco ingénua de se viver a vida. Até então, as coisas eram direitinhas, brunidas, organizadas em esquadrias. Falava-se baixinho, escrevia-se baixinho, amava-se baixinho.

Julgávamos ter estilhaçado o que fora medonha punição, e que éramos os donos do nosso destino. Foi quando uma marcha de José Mário Branco nos reenviou para a realidade: "Qual é a tua, ó meu / andares a dizer quem manda aqui sou eu?!" Todas as festas acabam em melancolia. A nossa fechou em carácter fúnebre. E nunca parou de assim ser, com breves intervalos cómicos. Abstenho-me de os mencionar, por evidentes. Os protagonistas foram promovidos.

De tropeção em tropeção, chegámos a isto. (…)

Tanto o PS quanto o PSD ou a tal coligação, antevista mas já vista, têm liquidado a nossa força e tripudiado sobre a nossa soberania. Não estão interessados nessas minudências. E nós vamo-los aceitando, com a benevolência indolente, que parece ser a marca de um mau fado e de uma inevitabilidade.»
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29.3.11

Síndrome do lacaio


A síndrome do lacaio é uma doença do século XXI, que explica o embrutecimento das multidões, a inércia face ao aumento das injustiças e a generalização do egoísmo social.

O lacaio tem um comportamento patológico que o faz defender sempre as classes mais favorecidas, com prejuízo daquela a que pertence. Não tem consciência política e age sempre a favor dos que o exploram, na esperança de atrair benevolência.

O lacaio não escolhe gostar dos ricos (gosta deles precisamente porque é lacaio) e considera que o dinheiro que lhe faz falta é muito mais útil nos cofres de quem os tem já cheios.

O lacaio ou herda a sua condição (depois de tantos séculos de escravatura e de feudalismo, pode ser que exista já uma transmissão genética...) ou sofre de uma patologia que se desenvolve desde a infância mas se agrava quando o sujeito toma consciência da mediocridade da sua condição.

O lacaio desenvolve estratégias inconscientes para estabelecer um equilíbrio cognitivo que ajude a justificar a aceitação da subordinação e a sublimar a desilusão.

O lacaio tem um vago sentimento de injustiça, mas convence-se que está do lado correcto da barricada e encaixa maravilhosamente medidas de austeridade ou restrições de liberdades. É a favor da existência de câmaras de vigilância, mesmo que estas não o protejam do que quer que seja.

O lacaio sente-se perfeitamente seguro pela pertença a uma classe social a que é perfeitamente estranho e considera-se integrado no conjunto de 1% dos cidadãos privilegiados do seu país – tal como 20% dos seus compatriotas, lacaios como ele.

(A partir daqui)

Explicação completa – e magnífica:


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A não perder


A antestreia do documentário «48» de Susana de Sousa Dias tem lugar hoje, na Cinemateca, às 21h30, e chegará às salas de cinema do próximo dia 21 de Abril - finalmente, depois de ter sido exibido do DocLisboa 2009 (foi quando o vi e me refiz, com dificuldade, de um grande murro no estômago...), percorrido vários festivais em mais de 20 países e recebido muitos prémios!



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Escrito na pedra


Os conselheiros de Estado só vão a Belém depois de amanhã, mas já nos dizem que «querem governo maioritário». Muito bem: tanto trabalho e tanta despesa para que tudo acabe por se reduzir a uma redistribuição do número de cadeiras em S. Bento, com um enorme centro tripartido, que irá até à ponta direita do hemiciclo.

O resto será um sem número de arranjos de bastidores, se possível com pouco alarido para não assustar os mercados. Nada a temer: já todos prometeram ao dr. Cavaco que serão bem comportados e ele já nos informou por fontes enviesadas.


A este respeito, leia-se Pedro Tadeu, hoje no DN: A coligação que vai voltar a governar o País.

«Os problemas dos portugueses vão resolver-se nas próximas eleições? Não. Tudo está a ser construído para que o poder político venha a cair nas mãos de uma coligação de interesses: os dos que defendem o mesmo statu quo que levou o País, desde há 25 anos, a abdicar da sua autonomia económica. (…)

Acusar apenas o PS e José Sócrates - por muito que ele mereça todas as críticas - da situação em que estamos é hipocrisia. A coligação de interesses que ao longo dos anos, apesar de todos os avisos, caminhou sem vacilar para este abismo, incluiu PS, PSD, CDS, os empresários mais destacados, os banqueiros mais relevantes. São estas mesmas pessoas que estão por detrás das alternativas políticas que querem ter, a curto prazo, no novo Governo de Portugal.

Essa coligação de interesses acredita que para resolver o problema basta sacar aos cidadãos, durante meia dúzia de anos, o dinheiro para pagar a falência da sua própria insanidade. Só discute a forma de o fazer, mais ou menos suave, mais ou menos humana...

Esta coligação de interesses não discute que, para além disso e mais do que isso, é preciso repensar a forma como o País vive, trabalha e negoceia, pois o actual modus é trágica e comprovadamente insustentável. Mas como isso é por em causa a sobrevivência da própria coligação de interesses, ela, que se prepara mais uma vez para mudar a cara do poder para assim se perpetuar no poder, não o fará.»
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28.3.11

À esquerda, volver?

@Gui Castro Felga

Portugal vai no décimo século das suas histórias, já por cá andavam bem antes muitas gentes, e nada leva a crer que venha a ter um fim este ano, antes dos festejos do Santo António em Lisboa e de São João no Porto. Reina por aí um estado de alma generalizado de catastrofismo, que em nada ajuda a tirar partido da situação calamitosa (é verdade…), a que aparentemente chegámos.

Por muitos cenários, arranjos ou combinações que os protagonistas imaginem, e que o dr. Marcelo maquiavelicamente desmultiplique, uma coisa parece certa e Monsieur de La Palice não me contradiria: depois das próximas eleições, o PS ou ficará no governo ou na oposição.

Se o PSD for o partido mais votado e, por uma qualquer razão, precisar de albergar Sócrates e as suas tropas, estamos conversados. Adiante. Apenas me interessa acautelar a hipótese de se repetir o cenário de 2009, ou seja, de o PS ganhar mas sem maioria absoluta. Pouco provável? Não sei, mas certamente possível.

Nesse caso, será de excluir, julgo, fazer rewind e recomeçar, como nada se tivesse passado, ou seja, ter o PS de novo a governar sozinho, em minoria. Nem o próprio Sócrates é suficientemente louco para uma aventura dessas, o dr. Cavaco nunca o permitiria e até a senhora Merkel desembarcaria na Portela para o impedir. Mistura com a direita? É o mais provável, com a habitual vitimização de todos os Franciscos Assis e Silvas Pereira do nosso universo, que continuarão a gritar que a culpa é da esquerda que nem é o lobo mau, mas sim o péssimo, e que o virtuoso capuchinho vermelho nada pôde fazer.

Por todas as razões e por mais esta, antes disso e desde já, a esquerda da esquerda – PCP e Bloco - tem obrigação de encostar à parede, honestamente, com toda a frontalidade e uma vez por todas, o Partido Socialista, mostrando-se disposta a com ele governar este país. Não faltam propostas, pedidos lancinantes e petições, para que Jerónimo de Sousa, Louçã e as suas tropas entrem no Rato, de braço dado, para uma (inimaginável) reunião de trabalho. Parece-me impossível, pelo menos em tempo útil, e nem sequer necessário, porque podem fazer as suas propostas separadamente. Se o PS quisesse (se quiser…) aceitar esta viragem, levar o futuro a sério e perder sobranceria, então talvez o país continuasse a votar à esquerda sem ser governado à direita, com esta fatalidade absurda que nos persegue desde há muito.

Mesmo que não queira, os dois partidos que «não são do arco da governação» devem passar por esta prova de fogo, e de vida, e sairão do doloroso período que se avizinha de cabeça levantada e com um novo ânimo. Os seus militantes e os seus eleitores merecem-no – e têm mesmo o direito de o exigir.

P.S. - Por tudo o que escrevi, assino por baixo o último parágrafo da crónica de Daniel Oliveira no Expresso do último Sábado (p. 43 do Caderno Principal, O teatro ou a vida), que ainda não está disponível online.
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Cuts are not the cure

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Será???

27.3.11

Poema Pouco Original do Medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O’Neill, in Abandono Vigiado, 1960
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Vítimas de Kadhafi ou dos «bons» interventores

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Uncut – Londres 26 de Março


Houve duas manifestações, ontem em Londres, uma com 500.000 pessoas (ou 400 ou 300 mil, tanto faz para o caso), outra com umas (poucas) centenas que provocaram desacatos.

Os telejornais portugueses, que eu vi, quase só mostraram relatos e imagens da segunda. Algum espanto?



«There were two demonstrations in London yesterday. The first, and most enduringly important, was that by half a million people against the cuts that are falling disproportionately on vital public services and those who provide them.

The other one was a demonstration of just how easy it is for a few hundred people to steal the occasion with sporadic acts of violence. Last night, it the latter one which was taking the headlines as police and protesters clashed in Trafalgar Square.

Earlier half a million people descended on central London for the biggest protest the nation has seen since demonstrations against the Iraq war eight years ago. They streamed into the capital from across the country to vent their anger at government cuts, their only weapons peaceful chanting and waving placards. There were 500,000 people and, with their disperate causes, represented 500,000 different reasons to take a stand.»

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