5.2.13

Homens e bichos



«Também ele não soubera o que eram os animais até muito tarde e, tal como sucede a todos os que os descobrem, tratara-se de uma verdadeira conversão, como aquela que se exprime na parábola de S. Paulo, na estrada de Damasco: de súbito acende-se dentro de nós uma claridade que nunca mais é possível apagar. Há muita gente que não gosta de animais nem de pessoas, o que é compreensível; há gente que gosta de animais mas não de pessoas, o que é lógico; mas não há ninguém que não goste de animais e goste de pessoas, esta última hipótese não pode verificar-se, porque quem não consegue experimentar o amor sem causa não pode encontrar em parte alguma causa bastante para o amor.»

Paulo Varela Gomes, O Verão de 2012, p.52

(Roubado ao Luís Januário no Facebook)
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O meu cancro saiu mais barato do que o teu



Terá sido certamente com a melhor das intenções que Correia de Campos defendeu ontem que «cada pessoa que vai ao hospital» deveria receber «uma factura com o respetivo custo real dos serviços que lhe foram prestados». Não os pagaria mas ficaria «a saber quanto é que a comunidade, o Estado, gastou». Pretensamente, esta «factura virtual» provocaria «um aumento da responsabilidade cívica dos cidadãos» que frequentam o Serviço Nacional de Saúde.

Eu sei que os espíritos andam confusos e as almas nervosas. Mas não terá ocorrido a este ex-ministro da Saúde que uma ideia destas é, no mínimo, peregrina e insensata?

Alguém que recorre, por exemplo, a um serviço de urgência não está, normalmente, suficientemente fragilizado para que não lhe atirem à cara quanto fica a «dever» ao Estado ou, mais precisamente, aos seus concidadãos? Um doente com uma doença crónica grave que obrigue a meses de internamento receberia, no momento da alta, uma hipotética dívida virtual de dezenas ou centenas de milhares de euros para se sentir responsável pelos seus males? No limite, a família de um morto também seria informada sobre os custos provocados pelo seu parente?

Para além de sermos responsáveis pela dívida do país e pelo BPN, querem que também nos sintamos culpados por não sermos saudáveis? E alguém acredita que é assim que se melhora o civismo dos portugueses? Repito: isto só pode ser dos nervos...
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A Espanha desenterra humor antigo



... pela actualidade que volta a ter.
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4.2.13

Como é que se diz, em grego, «obrigadinha pela novidade»?

Cuidado para não tropeçar



«Dos 400 homens super-ricos que viajavam em 1.ª classe [no Titanic, em 1912], 70% morreram afogados. Há registos, recordados num ensaio de F. Zakaria, que nos confirmam que J. J. Astor, a maior fortuna do mundo de então, acompanhou a sua mulher até ao bote salva-vidas, recusando-se a entrar enquanto existissem mulheres e crianças por salvar. O mesmo fez B. Guggen- heim, que ofereceu o seu lugar no bote a uma mulher desconhecida. Se o Titanic naufragasse em 2013, estou seguro de que quase todos esses 400 super-ricos chegariam são e salvos, deixando para trás, se necessário, as suas próprias mulheres e crianças. A gente que manda hoje no mundo acredita apenas no sucesso egoísta, traduzido em ganhos monetários, pisando todas as regras e valores. Os aventureiros que conduziram a humanidade à atual encruzilhada dolorosa não passam de jogadores que transformaram o mundo num miserável reality show. Tirando o dinheiro, nada neles os distingue da gente vil, medíocre e intelectualmente indistinta que se arranha para participar nesses espetáculos insultuosos para com a condição humana. Quando andarmos pela rua, é preciso ter cuidado. É preciso olhar lá bem para baixo. No meio do pó e da lama, habita a vilanagem que manda no mundo. Cuidado para não tropeçarmos nalgum deles...»

Viriato Soromenho-Marques
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Então não aguentamos!



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Portugal, 2013



 Com uma revolta mal contida:

«A las cuatro y media del jueves, en una tarde soleada, los niños juegan en una plaza de Elvas (Portugal) tras salir del colegio. Sus madres, en grupo, las miran en silencio y parece una escena corriente. Pero no lo es del todo. Porque basta que llegue una furgoneta traqueteando por una calle al fondo para que el juego termine y los niños corran, ya sin risas, a hacer cola enfrente de la puerta del colegio de la que han salido hace poco, la Escola Basica da Alcáçova. Allí, los de la furgoneta comienzan a sacar cajas con comida preparada que una empleada del colegio ordena en el vestíbulo en unas bolsas de plástico que contienen sopa, un guiso de carne, pan y fruta. Los niños entran en el colegio y cada uno coge una de las bolsas después de firmar en una especie de formulario que reposa en una mesa camilla adyacente. Las madres miran en silencio desde afuera.»

(Daqui)

Rosa Parks – um centenário



Rosa Parks nasceu em 4 de Fevereiro de 1913 e morreu em 2005. Ficará para sempre como um dos símbolos do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, juntamente com Martin Luther King, e ficou famosa por ter recusado ceder o seu lugar no autocarro a um branco, no dia 1 de Dezembro de 1955. Foi então presa mas, em poucos dias, os negros de Montgomery organizaram um boicote à discriminação nos autocarros, que durou um ano, e ganharam a batalha. Até aí, eram obrigados a ocupar os lugares traseiros e a cedê-los aos brancos se o autocarro enchia.



(Também por Pete Seeger.)

A ler: Thank you, Rosa Parks

3.2.13

Mais pinotes no Largo do Rato?



António Costa, em entrevista ao DN / TSF: 
«Ou o secretário-geral do PS é capaz de fazer este esforço, é capaz de alcançar essa unidade, de pôr o partido a funcionar, tem a capacidade de se afirmar como alternativa forte na sociedade portuguesa, ou então eu candidato-me a secretário-geral.» 

Ainda? Até 10 de Fevereiro??? Vamos ter uma semana animada e veremos um António José Seguro, novinho em folha, reencarnado sabe-se lá em que novo tipo de personagem? Ou Costa está apenas a tentar pôr uns pensos rápidos nas feridas, com que saiu de uma batalha perdida, para dizer, daqui a uns dias, que afinal foi ele que a ganhou? Bem mais provável...


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O massacre de Batepá



Republicação actualizada de um texto de Diana Andringa, publicado originalmente em Caminhos da Memória.

Completam-se hoje 60 anos sobre os acontecimentos que ficaram conhecidos como Massacre de Batepá. Agitando o perigo de uma conspiração comunista visando criar um governo dos nativos de S. Tomé, o governador Carlos Gorgulho fomentou uma onda de repressão que resultou num número ainda hoje indeterminado de mortos. 

Muitos foram abatidos a tiro, em verdadeiras caçadas levadas a cabo por milícias de voluntários. Diversos foram queimados. Alguns morreram asfixiados em celas demasiado pequenas para o número de presos que continham. Muitos foram sujeitos a trabalhos forçados na praia de Fernão Dias. Um dos castigos consistia em «vazar o mar»: presos com correntes, eram obrigados a entrar no mar para encher grandes selhas de água salgada, apenas para as despejar em terra, pouco depois. 

Interrogados sob tortura, chicoteados, submetidos à utilização de uma cadeira eléctrica, os presos eram obrigados a confessar o seu envolvimento numa revolta que pretenderia matar o governador e os colonos e distribuir entre si as mulheres brancas. Mais tarde, a própria PIDE havia de negar a existência da conspiração referida pelo governador.

Crónica de uma guerra inventada, de Sum Marky, retrata esses acontecimentos, a que poetisa Alda Espírito Santo dedicou, entre outros, o poema Onde estão os homens caçados neste vento de loucura:


O sangue caindo em gotas na terra

homens morrendo no mato

e o sangue caindo, caindo...

Fernão Dias para sempre na história

da Ilha Verde, rubra de sangue,

dos homens tombados

na arena imensa do cais.

Ai o cais, o sangue, os homens,

os grilhões, os golpes das pancadas

a soarem, a soarem, a soarem

caindo no silêncio das vidas tombadas

dos gritos, dos uivos de dor

dos homens que não são homens,

na mão dos verdugos sem nome.

Zé Mulato, na história do cais

baleando homens no silêncio

do tombar dos corpos.

Ai, Zé Mulato, Zé Mulato.

As vítimas clamam vingança

O mar, o mar de Fernão Dias

engolindo vidas humanas

está rubro de sangue.

- Nós estamos de pé -

nossos olhos se viram para ti.

Nossas vidas enterradas

nos campos da morte,

os homens do cinco de Fevereiro

os homens caídos na estufa da morte

clamando piedade

gritando pela vida,

mortos sem ar e sem água

levantam-se todos

da vala comum

e de pé no coro de justiça

clamam vingança...

... Os corpos tombados no mato,

as casas, as casas dos homens

destruídas na voragem

do fogo incendiário,

as vias queimadas,

erguem o coro insólito de justiça

clamando vingança.

E vós todos carrascos

e vós todos algozes

sentados nos bancos dos réus:

- Que fizeste do meu povo?...

- Que respondeis?

- Onde está o meu povo?

...E eu respondo no silêncio

das vozes erguidas

clamando justiça...

Um a um, todos em fila...

Para vós, carrascos,

o perdão não tem nome.

A justiça vai soar,

E o sangue das vidas caídas

nos matos da morte

ensopando a terra

num silêncio de arrepios

vai fecundar a terra,

clamando justiça.

É a chamada da humanidade

cantando a esperança

num mundo sem peias

onde a liberdade

é a pátria dos homens...



               (É nosso o solo sagrado da terra)
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Se governar...



...não escreva no Facebook. 
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Nós que não apagámos o passado, nem podemos esconder as suas cicatrizes, temos a obrigação de não passar ao lado desta fractura na Democracia



Um texto de Helena Pato, enviado pela autora para publicação neste blogue. 

É muito tarde para eu colocar o curso da vida entre parênteses, mas assim está. Escrevo-vos na primeira pessoa. Sou uma entre muitas, mas agora sou diferente até de mim própria. Deixei de rir às gargalhadas e receio. Mas «receio» já não é a palavra que melhor se ajusta ao que sinto.
No meu bairro, tal como na minha vida, tudo caminha aparentemente sem grandes mudanças. Perto da rua onde vivo, a escola em que dei aulas durante 36 anos parece a mesma. Alguém se apercebe de que têm sido lançadas granadas de longo alcance sobre décadas de construção de um sistema democrático de educação? O sistema educativo dá sinais de começar a esboroar-se. Sem estrondo, inteligentemente destruído aos poucos… (não é exagero meu, é experiência de ensino!)
A mercearia em frente de casa desapareceu e o pequeno restaurante, onde às vezes íamos almoçar, fechou as portas. Por todo o lado, surgem como cogumelos, multiplicam-se, as mini-lojas de compra de ouro e prata, para o empobrecimento envergonhado de gente que não estava no fim da linha, muitos idosos, lisboetas que ainda detinham algumas posses, meia dúzia de coisas de valor… (a salva que foi presente de casamento, a pulseirinha de bebé, o cordão do relógio do avô – uma lástima!). De paredes-meias com o meu bairro, a freguesia dos Anjos envelhece e desfaz-se em pobreza. Os mais pobres dos pobres espalham-se pelos bancos do jardim da Igreja, à espera da refeição que lhes servem caridosamente na «cantina do Sidónio» (triste memória dos anos da Guerra!), ou a fazerem tempo para uma noite enregelada sobre caixas de cartão, debaixo das arcadas da Avenida Almirante Reis… (aguentam!)

Tirando os ricos (onde param?) e tirando os Bancos (logotipados sinistramente pela cara de Ulrich do BPI), quem não estará na bicha da entrada para o inferno? Eu estou. E esqueço que estou, sempre que fico com o coração a estoirar e o pensamento obcecado pelas imagens dos mais velhos dos velhos, a quem tiram a saúde e atiram para a pior das misérias (pensionistas, reformados, um roubo, um escândalo!).
No campo do jogo neoliberal, é a todos nós – gente sem eira nem beira ou explorada até ao tutano pelo capitalismo – que, agora, o Governo e os seus apoiantes (mórmons com fatinho de finanças…) vêm atirar culpas, como pecados. Pecados em remissão: gastámos de mais, produzimos de menos, blá-blá-blá… e, porque assim foi, é preciso pagar a conta celestial e em contrição permanente. Levam-nos o prato, levam-nos o ensino, a casa, a saúde, o carro e os direitos sociais. Levam-nos os filhos para lá das fronteiras da pátria. Enquanto eles (os sem pátria) fincam os pés e ficam – e com uma missão ideológica, numa cruzada.
A crise agrava-se e, na comunicação social, é tão intimidatória a girândola de informação técnica e de opiniões; e são tantas as ilusões, diariamente aí induzidas, que os portugueses regressam (alguma vez terão de lá saído?) à atitude de conformismo dos seus avós e bisavós. São muitos os que se atordoam e, sem verem pela frente um projecto político alternativo, consistente e credível, sentem-se entalados entre as cruéis medidas de austeridade que nos vêm sendo impostas e o medo de que a desgraça se possa tornar ainda maior… (maior? Nada mais enganador!)

Vivi décadas da minha vida num regime que julgávamos afastado para sempre. De repente, deparamos com o regresso de medidas políticas e de concepções sociais desse tempo, despudoradamente expostas por estranhos, na nossa casa… (a casa da Democracia de Abril)
Nós, aqueles que não apagámos o passado, e que nem podemos esconder as suas cicatrizes, temos a obrigação de não passar ao lado desta fractura na Democracia. Evocar, em lamentos, o saudoso 25 de Abril é pouquinho! (cá por mim, morrer antes de ficar incapacitada, não!). Há dias, há horas, momentos, em que o presente é tão assustador e tão humilhante que, para os da minha geração, tem reflexos da ditadura (afinal, companheiros, enganámo-nos: parecia arrumada nas páginas da História, não era?) Os atropelos à liberdade de expressão, a emigração (outra vez, os exílios), os cortes nos direitos de quem trabalha e nos apoios sociais, a progressiva perda do poder de compra, o desemprego que nos rodeia e avança (como uma peste que, por ora, não entrou a minha porta – haja deus!) são o retrocesso, em escalada, nas conquistas da civilização europeia do pós-guerra (Ó céus, como é possível?). Aos meus olhos, é pior do que uma derrocada. Vejo o filme a andar para trás: volto às situações contra as quais lutámos e que, em alguns casos, ainda antes do 25 de Abril, superámos, festejando as vitórias… (é difícil acreditar, não é?).
Transformar o empobrecimento generalizado numa perspectiva estratégica de solução para um país que precisa de mais riqueza é um absurdo. O desmantelamento do Estado Social e a perda de direitos dos trabalhadores representam a negação de Abril (não pode ter sido em vão que tantos cantámos Grândola!). A degradação da Escola Pública e do Serviço Nacional de Saúde, a privatização de empresas públicas em sectores de interesse estratégico nacional, como a água, não podem deixar-nos indiferentes. A rua ainda é um lugar calmo, que nos pertence e que espera por nós.

Só o inverter desta trajectória de empobrecimento e o fim deste ajuste de contas ideológico (aguenta-te, Constituição!) nos colocarão novamente na rota da esperança. A subordinação do Estado aos mercados financeiros não é solução. Tenho medo do futuro (claro!), e não tanto por mim mas pelos nossos filhos, pelas nossas crianças e, sobretudo, por alguns amigos idosos que vejo entre a depressão e o desânimo – e já convivo dificilmente com o pânico dos mais frágeis.
Agora, juntou-se a raiva. Um tipo luzidio (parecendo ser português) chega-se à beira das câmaras da televisão e vomita frases sobre nós, sobre os gregos e os sem abrigo… (tudo «gentinha» que lhe infecta o ar que respira). «Ai aguentam, aguentam!» – diz o banqueiro, com os bolsos atafulhados de centenas de milhões de euros de lucros. Com um descaramento sem par. É a infâmia. Provocação? Apenas sobranceria? Parecerá estranho, mas ao ouvi-lo, qualquer coisa mudou em mim. Como se um nó se desfizesse no meu peito e, por perto, soasse um grito de guerra. Pois que seja este mais um empenhado combate! (e comecei a escrever estas linhas).
Vamos lá outra vez!  Não se pode falhar a manifestação do dia 2. Porque é nossa sendo de todos. 

Tal como durante a luta que travámos, durante décadas, para acabar com o regime fascista, temos naturalmente pressa na mudança. Mas a incerteza acerca do modo e do tempo, em que ocorrerá essa mudança, não pode paralisar-nos no que temos de melhor: a capacidade de acreditarmos que é possível, e de agirmos para alcançar um outro dia. Grândola? (signos!) Talvez. Seguramente, o povo é quem mais ordena! 
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