8.10.13

Se isto for verdade, o TC tem a tarefa facilitada




Ou seja: se alguém enviuvar enquanto for suficientemente jovem para estar ainda no mercado de trabalho, mesmo que tenha um salário dourado e esteja a receber uma choruda pensão de sobrevivência, não verá esta diminuída nem num único cêntimo. Mas qualquer viúvo reformado, que não seja mesmo pobre (não se sabe ainda exatamente quanto), passará a receber uma percentagem menor do fruto dos descontos que o seu marido, ou a sua mulher, fizeram durante toda uma vida de trabalho.

Tenho para mim que o governo quer mesmo ajudar os juízes do Tribunal Constitucional: não deve ser difícil arrumar isto na prateleira das inconstitucionalidades, em duas penadas e em meia dúzia de linhas. Ou será uma simples provocação? É que até parece...

P.S. – Muito se tem escrito sobre o tema do corte nas as pensões de sobrevivência, mas aconselho a leitura do excelente editorial de Eduardo Oliveira Silva, no jornal i de hoje: Nem os mortos escapam
.

Teatro às escuras



Esta segunda-feira, um grupo de teatro de Coimbra estreou um espectáculo às escuras. Perante uma plateia cheia, seis actores fizeram o seu trabalho sem poder ser vistos e, portanto, o teatro não se cumpriu.

O episódio é insignificante perante o estado do Mundo e a tragédia é outra coisa, como eu sempre digo.

Ou então não.

O grupo é o TEUC e faz parte da Universidade de Coimbra. A estreia às escuras foi uma acção de resistência perante o desinteresse de todos pela actividade que desenvolve, significativamente, há 75 anos. Para o seu espectáculo, precisava de corrente trifásica. Que não teve porque o quadro da Associação Académica está velho e sobrecarregado pelas máquinas do bar; porque os Serviços de Acção Social da UC passaram a entender que o apoio às actividades culturais está fora da sua alçada; porque a Reitoria acha que o assunto não é com ela.

Não duvido que todas estas entidades sejam capazes de argumentar em sua defesa, atirando para as restantes as responsabilidades pelo sucedido. Mas é isso que irrita.

Perante um país em ruptura, mesmo as instituições com tradições e responsabilidades na contestação, no apoio aos mais fracos e no progresso das ideias sucumbem ao conformismo, convertem-se à lógica da rentabilidade e anulam-se a si mesmas.

Diz o TEUC, no comunicado em que explica a situação, que a redução dos apoios de que tem sido vítima vai acabar com o teatro universitário. Peca por defeito. As políticas que impediram a corrente trifásica de chegar à sua sala-estúdio e a cumplicidade de todos aqueles que se comportam como se isto fosse necessário e inevitável são as que conduzem o país inteiro para as trevas e que, pelos vistos, são tão eficazes a cortar-nos a energia vital.

Com ou sem consciência disso, os seis bravos actores que representaram às escuras ofereceram a quem os (não) viu uma extraordinária metáfora do estado em que estamos.

O teatro cumpriu-se, afinal. E nós?

(Via Pedro Rodrigues no Facebook)
.

O espelho mágico



«Quando Portugal consulta o espelho mágico que só fala verdade vê nele a imagem, não de Branca de Neve, mas de Rui Machete. Não se deveria espantar: o ministro dos Negócios Estrangeiros é o reflexo da alegre teia de interesses desinteressados que vai governando o país como se este fosse um concurso de beleza. (...)

A política portuguesa reflecte-se em Rui Machete. E quando este, por motivos insondáveis, diz às claras o que nas sombras é comum entre nós, o país engasga-se contra o silêncio dos inocentes. Rui Machete é inocente de ter sido nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros, numa altura em que acumulava 31 cargos em diferentes entidades. (...)

Rui Machete trocou o silêncio do inocente, porque nenhum destes políticos do regime faz "as coisas por mal", por frases e distracções que mostram que não sabe o que é a diplomacia nem a razão porque é ministro. Mas a culpa não é dele. É deste sistema acantonado em cumplicidades que, quando confrontado com a realidade, desata a gritar que o pecado mora ao lado.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
.

A ouvir, do princípio ao fim


Rafael Marques, ontem, no jornal das 21:00 da SIC Notícias, sobre Machete e Angola.

,,

7.10.13

Tantas desculpas a serem pedidas!



«Mais uma vez, as nossas desculpas, isto é pequeno mas devia dar-vos imenso jeito, até para plantarem mais qualquer coisa, mas pronto, são coisas que não estão nas nossas mãos resolver, até porque o contrato foi celebrado em 1143 e eu nasci em 1940, vejam bem, cheguei tardíssimo» 
.

Estão bem um para o outro



«Rui Machete deve sair pelo seu pé», disse ele, «ultrapassado este período mais quente». Talvez num próximos dia de chuva, quem sabe, ela deve estar a chegar!

Política de farsantes. 
.

Querido cherne



«La gran noticia será precisamente la desaparición de José Manuel Durão Barroso al frente de la Comisión. El político portugués pasará seguramente a la historia de la Unión como una calamidad para la institución que representó. Bajo su mandato, la Comisión ha sido casi irrelevante desde el punto de vista político y la UE ha actuado de manera más intergubernamental que nunca, dominada sin reparos por Alemania. Un fracaso sin paliativos, aunque probablemente su dócil actitud le reporte beneficios personales y termine encontrando acogida en algún otro organismo internacional.

(Daqui)

Sim: bem nos ajudou / está a ajudar a entornar o caldo!
.

«Perdoam-se» dívidas?



Frei Bento Domingues escreve todos os domingos no Público. Ontem, saiu dos seus temas mais habituais e decidiu, ele também, falar da «dívida», mais concretamente do seu «perdão». Alguns excertos e o texto na íntegra:

«Tornou-se uma banalidade e um expediente moralista dizer, com estilo enfático, que as nossas sociedades estão irremediavelmente dominadas por imperativos de produção, produtividade e crescimento dos lucros. Hoje, o poder não é militar, religioso ou ideológico, mas tecno-económico. Os modelos e instrumentos que usa – servidos por gráficos e mais gráficos, números e mais números – dispensam a preocupação com as pessoas e os seus estados de alma ou de corpo.

Seja como for, num mundo onde tudo se compra e vende, parecerá ridículo falar de “perdão da dívida”, embora seja uma questão inevitável, mesmo para Portugal. (...)

Não seria eticamente aceitável fazer despesas com o propósito de as não pagar. Mas o “perdão da dívida”, desde as épocas mais recuadas até aos tempos mais recentes, nada tem de insólito. A própria Alemanha, depois de guerras criminosas, beneficiou largamente desse gesto ancestral.

Há 60 anos, 20 países, entre eles a Grécia, Irlanda e Espanha, decidiram perdoar mais de 60% da dívida da Alemanha Ocidental. Segundo uma análise de Éric Toussaint – historiador e presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo –, a dívida antes da guerra ascendia a 22,6 mil milhões de marcos, com juros. A dívida do pósguerra foi estimada em 16,2 mil milhões. No acordo assinado, em Londres, estes montantes foram reduzidos para 7,5 mil e 7 mil milhões respectivamente. Isto equivale a uma redução de 62,6%. O historiador alemão, Albrecht Ritschl, confirmou que existiu um perdão de dívida gigantesco ao país, que, no caso do credor Estados Unidos, foi quase total. Em 1953, os Estados Unidos ofereceram à Alemanha um haircut, reduzindo o seu problema de dívida a praticamente nada (Cf. Dinheiro Vivo 28/02/2013).

Pedir o perdão da dívida pode ter inconvenientes. Não lutar por ele é continuar com o país estrangulado. Na Eucaristia, os cristãos confessam que é no perdão que Deus manifesta o seu poder. Demos essa oportunidade a Angela Merkel.»



6.10.13

No dia em que percebemos que estamos entregues a vampiros que se julgam urubus

Europa: bem-vindos os mortos



Na passada sexta-feira, o primeiro-ministro da Itália, Enrico Letta, anunciou que todos os mortos no naufrágio de Lampedusa receberão a nacionalidade italiana. À mesma hora, em Agrigento (Sicília), os adultos resgatados eram acusados de imigração clandestina, crime punível com uma multa que pode ir até 5.000 euros e com a expulsão do país.

«De Lampedusa parte um desfile de caixões fechados, alguns brancos, sem nome, numerados de um a 111: "Morto 54, mulher, provavelmente 20 anos. Morto 11, homem, provavelmente três anos ... ".»


Iam 500 pessoas a bordo e, tendo em conta as que foram resgatados, as últimas notícias avançam que o número de mortos pode chegar, ou mesmo ultrapassar, 300.

Fico sem perceber se é proibido enterrar emigrantes ilegais em Itália, e se seria caro deportá-los para os seus países, ou se se considera uma homenagem e uma honra que sejam italianos e europeus post mortem. Realidade fortemente simbólica neste triste continente! 
.

Sim, o quê?


.

O rei vai nu



«Há um clima de embuste, de perda de vergonha, de mentiras, de desprezo absoluto pelos cidadãos que começa a ser asfixiante. Ainda não se tinha acabado de contar os votos das eleições autárquicas e já o Presidente da República, o vice-primeiro-ministro mais a sua assistente Maria Luís e os senhores da troika vinham colaborar na absurda farsa que o País está a viver. (...)

Que ele [Paulo Portas], a troika, Passos Coelho, Banco de Portugal e qualquer português que saiba somar dois mais dois tenham a certeza de que o limite de quatro por cento de défice para 2014 não vai ser atingido e que vai ser negociado lá para Março e renegociado em Maio e voltar a ser negociado em Setembro, mas prefiram fingir que estão a falar a sério, já estamos habituados. (...)

Mas que raio mede a troika? A capacidade de Portas conseguir falar sem dizer nada durante duas horas ? A falta de vergonha que permite a um país civilizado continuar a ter Rui Machete no Governo apesar de todas as mentiras, faltas de memória e sugestões feitas no estrangeiro de que em Portugal não há uma efectiva separação de poderes?

A troika não quer assumir que o seu plano foi um falhanço completo e prefere continuar a destruir um país a ter de arrepiar caminho. Talvez seja mau para o currículo dos arquitectos do plano admitir que não resultou. Talvez dizendo muitas vezes que o plano está a resultar os mercados acreditem e resolvam baixar as taxas. Talvez não queiram embaraçar o primeiro-ministro que achava o plano tão bom, tão bom que o levaria sempre a cabo e até iria para além dele.»

Pedro Marques Lopes