19.3.14

Tratado Orçamental? Não, muito obrigada



«Na relação de Portugal com a Europa, a ligeireza irresponsável que conduziu à perda da soberania monetária e cambial, nos anos 90, na expectativa de uma união política e de uma governação económica solidárias que jamais aconteceram, deu lugar a um medo paralisante. Só assim se explica que no seio dos três partidos do arco da governação possa subsistir a ideia de que há um consenso relativamente ao Tratado Orçamental (TO). (...)

Portugal assinou o TO com a pistola da bancarrota apontada à cabeça. Em vez do "princípio de atribuição" assistimos a um "princípio de coação", que só faria sentido entre países em estado de guerra e não entre Estados amigos, onde impera o primado da lei. Economicamente, o TO condena a Europa ao colapso. A palavra "crescimento" é vazia de sentido concreto, enquanto a "disciplina orçamental" aparece igual para todos, do mesmo modo, e ao mesmo tempo. Como se fosse possível, numa UEM funcional, todos os países poderem ser excedentários sem que o próprio sistema não implodisse. Politicamente ignóbil. Economicamente absurdo. Eis o TO. A lei suprema da Europa do diretório. Há que ter coragem para dizer "não".»

Viriato Soromenho-Marques

18.3.14

Medeiros Ferreira – crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1



«Acontece-me cada vez mais, porque com o passar dos anos crescem as mortes que nos tocam. E cada notícia traz consigo a memória de uma data e um local, mesmo as que falam de pessoas que vimos muitas vezes, ao longo de vários anos.

Assim quando me chegou hoje a notícia da morte de José Medeiros Ferreira. Recordei-o sentado num café que há muito não existe, o Nova Iorque, no lado esquerdo da Avenida dos Estados Unidos, junto a Entre Campos, em Lisboa. Estava um dia de sol e sentou-se à minha mesa. Tratava-o com o respeito próprio a um “mais velho” - dirigente da crise de 62, preso político, autor do comunicado No Dia de uma Universidade Cativa, que ajudara a distribuir, no dia seguinte ao da prisão de cerca de cinco dezenas de estudantes, a 21 de Janeiro de 65, estudante expulso de todas as universidades do país nesse mesmo ano. Irónico, como sempre, parecia, nesse dia, levemente ansioso. Hesitou em pedir um café, optou por um carioca de limão. Percebi que esperava uma hora e alguém, e a minha presença era apenas, de algum modo, um disfarce útil. A certa altura disse-me adeus e saiu, deixando o carioca por beber. Dias depois, alguém me distribuiu a Carta Aberta ao Povo Português com que anunciou a sua deserção do exército português, “por ele estar a executar a sua guerra mais injusta”, escreveu, dizendo também estar “pronto a reentrar nas suas fileiras quando voltar a defender o povo e a lutar pela liberdade em Portugal”.

Com razão ou sem ela, liguei sempre a memória dessa carta e a do carioca de limão deixado por beber.

Talvez o Nova Iorque não merecesse, só por isso, uma placa a recordá-lo como lugar de resistência. Mas penso como seria bom que a Câmara de Lisboa copiasse o exemplo de Porto Alegre, onde, há dias, a propósito das Descomemorações dos 50 anos do Golpe Civil-Militar de 64 – os brasileiros sabem formar novas palavras justas, um golpe como aquele descomemora-se - há dias, dizia, o mandato do vereador Alberto Kopittke lançou um Mapa da Ditadura na cidade, porque, disse, “a memória é fundamental para homenagear a todo(a)s que lutaram para que hoje possamos viver numa democracia”

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A Carta Aberta ao Povo Português, a que Diana Andringa faz alusão, está publicada na Ephemera e pode ser vista AQUI, em formato maior (com a qualidade possível...). 
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Lido por aí (6)

Medeiros Ferreira e o início da sua vida política



A notícia da sua morte, infelizmente mais do que esperada, chegou esta manhã.

As biografias já começam a sair, vou às origens da sua vida política activa – a Crise Académica de 1962. Neste vídeo, José Medeiros Ferreira, então Vice-Presidente da Pró-Associação da Faculdade de Letras de Lisboa, fala da ruptura entre a Universidade e o regime, que a referida Crise significou, e relata alguns episódios relacionados com a proibição do Dia do Estudante de 24/3/1962.


(Fonte do vídeo)
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17.3.14

Árvores e mais árvores



Escolhidas, entre dezenas, de uma viagem por quatro países: Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador.




Mais:


Elis



Elis Regina, essa grande senhora da música brasileira, faria hoje 69 anos e morreu, estupidamente, com 36.

Viveu os «Anos de chumbo» da ditadura brasileira e não lhes passou ao lado, participando em vários movimentos culturais e políticos. Uma das suas canções – «O bêbado e o equilibrista» – funcionou como uma espécie de hino pela amnistia de exilados brasileiros. Notável também, nessa mesma linha, «Aos nossos filhos».






E, como não podia deixar de ser, o seu ícone:

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O tempora o mores




«Teria assinado o manifesto, seguramente», disse ontem Sócrates...
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Uma Europa, duas políticas



«A União Europeia é excepcional na arte do lançamento do martelo. Gosta de atirar o peso dos problemas para o futuro.

Às vezes gostaria de ter uma máquina do tempo para fugir do presente, da crise da dívida, dos dilemas dos défices e da austeridade, da pressão dos eleitorados cada vez mais nacionalistas, da incógnita da deflação. A União Europeia parece hoje estar refugiada nas trincheiras de uma guerra de que não quer ouvir o ruído. Coloca os capacetes na cabeça e espera que os bombardeamentos passem por cima dela. Mas, no meio de tudo isto, os sinais de fragmentação começam a ser mais evidentes. E agora vêm do sul, o mais pressionado pela crise da dívida. (...)

Renzi [em Itália] torneou as trincheiras da União Europeia e ultrapassou o Rubicão: a política prioritária da CE é diferente das linhas estratégicas que está a definir para Itália. O primeiro-ministro italiano quer sobretudo aumentar o consumo interno o que vai contra a barragem que a CE (e o FMI) recomendam. Ou seja, uma Europa, duas políticas. E isso abre mais uma brecha na pretensa unanimidade europeia. De políticas e de opções económicas e financeiras. "A Doce Vida" já não é o que era.»

Fernando Sobral, no Negócios de hoje.
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16.3.14

Lido por aí (5)


@João Abel Manta

* La tierra en que se muere (Antonio Muñoz Molina)

* Uma Aventura das Caldas (Mário Tomé)

* Resnais e a vida (Daniel Sampaio)
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O falhanço das Caldas



Vários órgãos de comunicação social assinalam o 40º aniversário do golpe falhado das Caldas da Rainha, em 16 de Março de 1974. Recorro ao Diário de Notícias de ontem, que ocupou duas páginas (não colocadas online) com vários textos sobre «A coluna rebelde que Spínola e Costa Gomes impediram de ocupar o Aeroporto de Lisboa»:

«A imagem que ficou na memória dos portugueses sobre a intentona tentada pelo Regimento de Infantaria N. º 5 das Caldas da Rainha no dia 16 de Março de 1974 foi a de uma coluna militar que ficou parada às portas de Lisboa. Ilustrava perfeitamente o golpe militar frustrado, que só teria o seu epílogo a 25 de Abril, e que logo deu origem a uma anedota bastante popular. A de que os camiões com 200 militares que iriam ocupar o Aeroporto de Lisboa teriam parado às portas de Lisboa porque o então presidente da República, Américo Tomás, ameaçou que o primeiro a chegar à capital seria obrigado a casar com a sua filha. (...)
A anteceder o 16 de Março tinham- se verificado mais dois factos políticos que fizeram o presidente do Conselho hesitar: a 22 de fevereiro dera- se o lançamento do livro Portugal e o Futuro, do general Spínola, que defendia uma solução política e não militar para a guerra no Ultramar; a 14 de março, o Governo demitira os generais Spínola e Costa Gomes dos cargos de chefe e vice- chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, devido à ausência no evento em que as chefias militares se solidarizavam com Caetano, numa cerimónia definida como representativa da “Brigada do reumático”.
A demissão dos dois generais espoletou a Intentona das Caldas e criou esse ato militar falhado.»


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Nota oficial do governo, difundida às 19:00 de 16 de Março:
«Na madrugada de sexta-feira para sábado, alguns oficiais em serviço no Regimento de Infantaria 5, aquartelado nas Caldas da Rainha, capitaneados por outros que nele se introduziram, insubordinaram-se, prendendo o comandante, o segundo comandante e três majores e fazendo em seguida sair uma Companhia autotransportada que tomou a direcção de Lisboa.
O Governo tinha já conhecimento de que se preparava um movimento de características e finalidades mal definidas, e fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras Unidades não tinham tido êxito.
Para interceptar a marcha da coluna vinda das Caldas foram imediatamente colocadas à entrada de Lisboa forças de Artilharia 1, de Cavalaria 7 e da GNR. Ao chegar perto do local onde estas forças estavam dispostas e verificando que na cidade não tinha qualquer apoio, a coluna rebelde inverteu a marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por Unidades da Região Militar de Tomar.
Após terem recebido a intimação para se entregarem, os oficiais insubordinados renderam-se sem resistência, tendo imediatamente o quartel sido ocupado pelas forças fiéis, e restabelecendo-se logo o comando legítimo. Reina a ordem em todo o País.»

Alguns dias depois, mais exactamente, no dia 22 de Março, na sua última «Conversa em família», Marcelo Caetano referiu-se assim ao golpe das Caldas:



Só faltava um mês.
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S'il vous plaît


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1640 à vista



«Aproxima-se, entretanto, o 1640 de Paulo Portas e ele anda nervoso com as cerimónias inerentes à "Restauração" (terá de atirar algum Miguel de Vasconcelos pela janela, alguém que simbolize a colaboração com o ocupante estrangeiro, e não vejo ninguém mais apropriado do que Passos Coelho). Deve ser por isso, porque o seu timing não pode ser perturbado, que ele se embrenhou num caminho sem honra nem coragem, na questão da co-adopção.»

Miguel Sousa Tavares, no Expresso de ontem.
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