10.6.14

Morrer atropelado por um eléctrico



Morte insólita teve Antoni Gaudí, a poucos dias de fazer 74 anos: ao sair da sua catedral Sagrada Familia, foi pura e simplesmente atropelado por um carro eléctrico, numa rua de Barcelona. Sem documentos nem dinheiro na algibeira, acabou por ser levado para um hospital e depositado numa ala comum reservada aos pobres.

Estranhando a ausência, os seus colaboradores localizaram-no no dia seguinte, quiseram levá-lo para um hospital com melhores condições, mas viram a proposta recusada pelo próprio e assistiram à sua morte em 10 de Junho de 1926, pelas cinco horas da tarde. Dois dias depois, uma multidão prestou-lhe uma última homenagem, num longo cortejo que acompanhou a urna até à cripta da catedral.

Polémico como poucos, odiado por alguns, idolatrado por outros, único para todos.

Numa viagem a Barcelona há cerca de um ano, vi ou revi (quase) tudo o que Gaudí por lá deixou e escrevi algumas notas neste blogue (aqui, aqui e aqui). Hoje, retomo apenas algumas fotos.





(Fonte)
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Portugal, Eldorado



Pedro Santos Guerreira, ontem, no Expresso diário:

«O Le Monde descreve hoje Portugal como “o novo Eldorado para os aposentados europeus”. Em plenos processo de cortes de pensões, a ironia não poderia ser maior. Ou mais amarga. (...)

Os exemplos multiplicam-se: os vistos gold dão acesso à União Europeia a quem “invista” pelo menos 500 mil euros, “investimento” que acabou por ser sobretudo na compra de casas; um “cérebro” atraído para trabalhar em Portugal tem isenções fiscais, estranho paradoxo num país que só vê “cérebros” sair por falta de oportunidades e por... impostos altos; um investidor estrangeiro tem via verde administrativa e capacidade de negociar incentivos e impostos à sua medida; e os pensionistas que venham viver para Portugal podem ter dez anos de isenções de impostos. Estranho, não? (...)

A criação de paraísos fiscais para pensionistas e trabalhadores estrangeiros cria assimetrias paradoxais. Qualquer dia, compensa a um português pirar-se, naturalizar-se francês e depois voltar para pagar menos impostos. É extraordinário que Portugal se torne um eldorado para estrangeiros. Que bom seria se se tornasse um eldorado para portugueses.» 
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Lido por aí (52)

Curto foi o fanico



... mas podia ter ficado para a História. 
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9.6.14

Uma maioria, um governo, um presidente, uma Constituição



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Incapaz de compreender todo o alcance da lesão de Cristiano Ronaldo – pesem embora os muitos minutos, se não horas, de televisão que lhe são dedicados – optei por leitura mais leve, embora eventualmente subversiva: a da Constituição da República Portuguesa.

Não que me queira arrogar a capacidade de sustentar intensas discussões jurídicas sobre o tema. Mas tenho por bom conselho, em tempos de acesa discussão, retornar às fontes. Uma vez que o primeiro-ministro considerou que os juízes do Palácio Ratton deveriam ser sujeitos a maior escrutínio, teria eu, por distracção, passado em claro alguma mudança do método de escolha dos juízes do Tribunal Constitucional? Mas não, lá está, na alínea h do artigo 163: dez dos seus 13 elementos são eleitos por maioria de dois terços da Assembleia da República e, na alínea 1 do artigo 222, que os restantes três são cooptados pelos eleitos. Pergunto-me se o primeiro-ministro passaria pelo mesmo crivo...

A leitura da Constituição permitiu-me ver também, no artigo 13, o Princípio da Igualdade e o artigo 19 a garantir que «os órgãos de soberania não podem, conjunta ou separadamente, suspender o exercício dos direitos, liberdades e garantias, salvo em caso de estado de sítio ou de emergência, declarados na forma prevista na Constituição» – o que me parece que, apesar da crise, da troika, do ar grave do primeiro-ministro e do seu vice e, até, da lesão de Cristiano Ronaldo, não aconteceu.

O que aconteceu, sim, foi que se cumpriu o desejo de Sá Carneiro de uma maioria, um Governo e um Presidente e, entre os três, se tem vindo a gizar algo com que o antigo primeiro-ministro não terá sonhado – a sabotagem das bases do Estado Constitucional, limitando os direitos e garantias dos cidadãos, pondo em causa órgãos e princípios constitucionalmente consagrados, numa espécie de golpe de Estado palaciano sob a forma continuada.

Escrevendo no Jornal de Notícias, há cerca de um ano, sobre a resposta do Governo a outro «chumbo» do Constitucional, o jurista Pedro Bacelar de Vasconcelos falou mesmo de «terrorismo administrativo e financeiro». Por parte do Governo, entenda-se.

Voltando às fontes: aconselho Malaparte, Técnica do Golpe de Estado.


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Cavaco e Tomás: Manteigas os une


Quando ouvi ontem Cavaco Silva em Manteigas, saltou uma sensação de déjà vu, não porque soubesse que ele tinha lá passado a lua-de-mel (que raio de ideia!...), mas porque a minha memória recuou imediatamente 50 anos (tantos, será possível?!) e repescou um outro discurso de um igualmente inefável presidente da República, discurso esse que ficou célebre por uma daquelas pérolas tão características do raciocínio de Américo Tomás: «É uma terra bem interessante, porque estando numa cova está a mais de 700 metros de altitude.»

E se Cavaco não falou de Viriato, nem Tomás se tinha referido a «nichos de mercado», não reconheço, nas palavras de ambos, a diferença de mentalidades, que meio século de vida de um país faria esperar. Não pretendo com isto dizer que Portugal não mudou ou que a democracia que temos se assemelha ao regime político deposto em 25 de Abril de 1974, mas apenas que continuamos pequenos, «poucochinhos» – ou teríamos sido capazes de impedir a eleição de um chefe de Estado como aquele que agora temos.


(Diário de Lisboa, 31 de Maio de 1964)

Dá sempre jeito


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De regresso à barbárie



A notícia e as imagens correm mundo e o caso não é para menos: em Londres, à porta de um bloco de apartamentos, foi instalado um conjunto de picos metálicos para impedir que um sem-abrigo utilizasse o espaço para dormir.

A discussão vai longa nas redes sociais, onde as associações que se revoltam contra a iniciativa denunciam que o número de pessoas, na capital britânica, que vive nas condições da que foi agora visada, aumentou 75% nos últimos três anos.

É com pregos que se resolvem dramas sociais com esta dimensão? Parece que sim, nesta Europa do respeito pelos humanos. De regresso à barbárie, a passo acelerado.


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8.6.14

É o que dá na TV


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Lido por aí (51)

Fruta da época


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O emigrante trezentos mil e um



Na passada sexta-feira, Nicolau Santos publicou este excelente texto no Expresso diário, só acessível a alguns. Merece ficar aqui na íntegra. 

«Hoje é um dia histórico: depois de nos últimos três anos cerca de trezentos mil jovens e menos jovens terem emigrado, seguindo as sábias palavras do primeiro-ministro, para quem a emigração e o desemprego foram grandes oportunidades que se abriram no âmbito do processo de ajustamento que Pedro Passos Coelho tem conduzido também sabiamente, eis que hoje parte o emigrante trezentos mil e um.

Trata-se obviamente de um marco histórico, não só por ser ultrapassada a barreira histórica dos trezentos mil (a fazer lembrar outros trezentos que estão no nosso imaginário, como as lojas dos trezentos), como pelo emigrante que hoje parte. Trata-se não de um desempregado, mas de um cidadão empregado. E como muitos outros, é um cidadão altamente qualificado, que teve aliás a hombridade de reconhecer que o país tinha gasto muito dinheiro na sua formação, pelo que ele entendia colocar esse saber à disposição da Pátria.

Contudo, os tempos são difíceis, há filhas para criar, a carga fiscal é demasiado elevada no país (hoje também se celebra o dia da libertação fiscal, aquele em que estatisticamente, que não na realidade, deixamos de pagar impostos e na Europa só existem quatro países onde esse período acaba depois do nosso) e a reforma incerta, pelo que o cidadão em causa decidiu mesmo emigrar.

Vai, claro, ganhar mais do que ganhava no país, uns modestos 23 mil euros. O melhor, contudo, é que são 23 mil euros isentos de impostos, já que se trata de um cidadão não residente a trabalhar numa instituição internacional. E ao fim de três anos (está agora com 54) pode pedir a reforma antecipada, ou esperar até aos 65 para a receber por inteiro (70% do vencimento).

Convenhamos que é uma grande oportunidade e em vez do seu talento estiolar nos corredores bafientos da Pátria e ser remunerado mal e porcamente, não há como ir dar-lhe brilho na cosmopolita capital do país mais importante do mundo, onde se reconhece o valor de quem o tem e se paga em conformidade: muito, sem impostos e com reforma assegurada e ao abrigo de qualquer Governo que não respeita os contratos que faz com os cidadãos.

Estou certo, portanto, que todos os portugueses se associam ao voto que aqui faço de que o Prof. Vítor Gaspar tenha uma excelente viagem e que a sua passagem pelo departamento de assuntos orçamentais do FMI que vai chefiar seja coroada de enorme sucesso.

Infelizmente, admito que poucas pessoas estejam hoje no aeroporto a despedir-se do Prof. Vítor Gaspar. Mas avise-nos quando voltar. Se ainda estivermos vivos, depois dos cortes nos salários e no Estado social e do enorme aumento de impostos que se verificaram nos últimos três anos, teremos todo o gosto em ir dar-lhe as boas-vindas ao aeroporto da Portela. Temos a certeza que nos trará uma lembrança, nem que seja o estudo definitivo que nos colocará finalmente entre as economias mais prósperas do mundo (embora a vida dos cidadãos possa não acompanhar essa prosperidade).» 
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