1.7.14

Tesouros guardados a sete chaves (1)



A propósito de uma votação no portal de viagens TripAdvisor, em que foram escolhidas «as 25 atracções turísticas mais populares do mundo», geraram-se conversas várias no Facebook, cada um contou os locais que conhecia, discutiram-se escolhas.

Eu conheço 16 das 25 listadas, não sei se são «as atracções turísticas mais populares do mundo» (julgo que não, de todo), mas decidi identificar os locais em que teria muita pena de não ter estado. Ou, pela positiva, monumentos ou paisagens que me marcaram especialmente e que guardo a sete chaves na arca dos tesouros.

Ficam aqui 10, amanhã haverá mais. A ordem não significa hierarquia de preferência: não sou capaz de a estabelecer...


Perito Moreno, El Calafate, Argentina


 
Dunas de Sossuslei, deserto da Namíbia



 Samarcanda, Uzbequistão



Machu Picchu, Peru



Vale da Morte, deserto de Atacama, Chile



Catedral da Sagrada Família, Barcelona, Espanha



Pagode de Shwedagon, Yangon, Birmânia



Ta Prohm, Angkor, Siem Reap, Camboja



Igreja de S. Jorge, Lalibela, Etiópia



Mosteiro de Takshang («ninho do tigre»), Paro, Butão
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Lido por aí (66)


@João Abel Manta

* How will capitalism end? (Wolfgang Streeck)

* Del Sur al Norte: crisis de la deuda y programas de ajuste (Éric Toussaint)

* Mia Couto(entrevista) (Marta Lança)
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Este senhor faria hoje 70 anos



Já se foi embora há 22. Nem sei se o tempo passa depressa ou devagar, mas vai passando. 
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Afogados pela nossa inépcia

Chocámo-nos todos com mais uma notícia: foram encontrados 30 mortos (aparentemente, devido a asfixia), num pesqueiro, parado entre o Norte de África e a costa da Sicília e que transportava cerca de 590 imigrantes.

Segundo as autoridades italianas, este ano já terão desembarcado no país mais de 60 mil pessoas. E «Itália não é o único destino das rotas ilegais a que os migrantes recorrem para entrar no espaço europeu. A Grécia é um importante ponto de passagem para aqueles que pretendem alcançar o norte da Europa através dos Balcãs. Espanha também faz parte desta lista.»

Problema sem solução fácil nem evidente – mas inevitável e urgente. É absolutamente inconcebível que, em pleno século XXI, nenhum país ou instância internacional (com a União Europeia à cabeça) consiga que meia dúzia de governos, dos dois lados do Mediterrâneo, ponham termo a esta vergonha. Custe o que custar.

Ser optimista quanto ao futuro da humanidade – e eu sou – é ter a certeza de que, dentro de algum tempo, os homens nem acreditarão que isto aconteceu. Quando divulguei ontem esta notícia no Facebook, Teresa Pizarro Beleza deixou-me o seguinte comentário: «Talvez daqui a algum tempo o mundo se escandalize com a nossa atitude, como hoje nos escandalizamos com a memória do Nazismo, e se pergunte "Como foi possível?"». É isso, exactamente.

Em alternativa, e aproveitando uma efeméride do dia de hoje, vejamos como, nos idos de 1887, o herdeiro do whiskey Jameson comprou uma menina de 11 anos para a ver comida por canibais.

Mais chocante do que milhares de afogados no Mediterrâneo? Porquê? 
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30.6.14

A culpa morre sempre solteira



«Portugal poderia ter sido um território fértil para Agatha Christie. O seu detective, Hercule Poirot, teria aqui encontrado culpados para todos os gostos.

Seja Paulo Bento, o Tribunal Constitucional, José Sócrates, a Constituição, Passos Coelho, Paulo Portas, Ricardo Salgado, a troika, o FMI e Bruxelas. Ou o árbitro. Os culpados são sempre os outros. Porque a culpa, em Portugal, morre sempre solteira. É um milagre exclusivamente nacional: ignora-se e esquece-se. Arquiva-se. A culpa deveria servir para se tirarem lições dos erros. Mas aqui encena-se a análise do que falhou e repetem-se as mesmas fórmulas na próxima oportunidade. (...)

Não espanta que China e Alemanha se marquem ao centímetro para ver quem compra o quê em Portugal. Tudo isto é o resultado da pobreza intelectual da nossa elite política (e dos círculos de interesses que lhe definem a estratégia). (...)

O historiador Tacitus, descrevendo os romanos, disse um dia: "Eles criaram uma terra desertificada e deram-lhe o nome de paz". É essa paz que está a desfazer este regime.»

Fernando Sobral, no Negócios
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Lido por aí (65)

Nos bastidores



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«Vamos a isso que se faz tarde» – Manifesto do Fórum dos Jornalistas



O «Fórum dos Jornalistas» lançou este Manifesto, na passada quinta-feira:

«Vamos a isso que se faz tarde»

40 anos depois do 25 de Abril, a liberdade de imprensa sofre um dos momentos mais negros da sua história. Sabemos que as questões que afectam o jornalismo não lhe são exclusivas: esvaziamento das redacções, precariedade, concentração da propriedade. Mas o jornalismo tem responsabilidades específicas e, nesta altura, está em risco. Em causa está o próprio paradigma do direito e do dever de informar como sustentáculos fundamentais de uma sociedade moderna, livre e democrática.

A intenção anunciada de um brutal despedimento colectivo na Controlinveste constitui mais um golpe no panorama informativo e serve hoje de pretexto para nos encontrarmos sem nos esquecermos que este é um processo com décadas. Editorias devastadas, partes significativas do território sem cobertura. É demais para quem parte e é demais para quem fica.

Como garantir qualidade informativa sem meios? A falta de tempo, a superficialidade, as redacções amorfas, a precarização não são problemas novos. Temos grande responsabilidade pelo estado a que chegámos. Essa responsabilidade é colectiva mas começa por ser individual. Temos de ser exigentes com cada um de nós, com o colega do lado, com a chefia intermédia, a direcção e a administração. Mas só temos força e poder para exigir dos outros se nos organizarmos, se percebermos que somos classe. Da classe que somos fazem parte os que têm (ainda ou desde há pouco) redacções, os que são precários há 20 anos, os que estão a chegar à reforma, os que saíram pelo seu pé, os que não chegarão nunca a ter uma redacção, os que sonham com uma e a merecem. Juntos, somos e podemos. Cada um por si fica talvez muito pouco: a ilusão de um poder que já nem temos e que perderemos a oportunidade de recuperar se não agirmos já, com inteligência e exigência.

Noutros países, há órgãos colegiais ouvidos pelos partidos, pela tutela, pelos patrões, pelo público. Há fundos de greve usados para fazer greve, quando ela é a última possibilidade para salvar empregos, condições de trabalho, independência, liberdade, democracia. Sim, para tudo isso podemos contribuir, e tudo isso podemos ajudar a destruir. A indignação não pode desaparecer com a espuma dos dias. É obrigatório não prescindir de eleger os órgãos representativos em cada órgão de comunicação social (CR, CT e delegados sindicais) e importa pensar se não será útil formar um colégio que junte representantes de cada um para tornar mais eficazes acções de luta e projectos jornalísticos.

Por fim, mas não por último, é urgente pensar em soluções conjuntas para garantir que as centenas de jornalistas que nos últimos anos perderam os seus empregos possam, se essa for a sua vontade, voltar a trabalhar. Aceitar a inexorabilidade de decisões alheias sobre as nossas vidas e a nossa profissão é aceitar a nossa impotência e, em última instância, a morte do chamado 4º poder. Chegou a hora de acordarmos. Parafraseando o já tão saudoso Manuel António Pina: não é ainda o fim do mundo, mas já se faz tarde.

Ana Luísa Rodrigues / Myriam Zaluar / Sofia Lorena / Cláudia Henriques / Sofia Branco / Ricardo Alexandre / Nicolau Ferreira / Nuno Aguiar / Camilo Azevedo / António Granado / Fátima Mariano / Paulo Pena / Carla Baptista / Pedro Rainho / Tiago Contreiras / Paula Sofia Luz / Frederico Duarte Carvalho / Sara Figueiredo Costa / Augusto Freitas de Sousa / Guilhermina Sousa / Mariana Mata / Miguel Marujo / Alexandre Martins / Nicolau Ferreira / Luís Gouveia Monteiro / Maria João Guimarães / Cláudia Marques Santos / Ricardo J. Rodrigues / José Manuel Rosendo / Isabel Pereira Santos / José António Cerejo / Paulo Martins / Sandra Bernardes / Viriato Teles / Sandra Monteiro / Eugénio Alves / Sofia Quintas / António Loja Neves / Luís Reis Ribeiro / Catarina Almeida Pereira / Sofia Cristino / José David Lopes / Raquel Ribeiro / Carlos Lopes / Abel Coentrão / Nuno Ferreira / Isabel Gorjão Santos / Carlos Branco / Miguel Manso / Dulce Furtado / Bruno Rascão / Sandra Oliveira / Ricardo Bordalo / Manuela Barreto / João Dias / Leonor Figueiredo / Maria João Guardão / Luís Filipe Sebastião / Pedro Jerónimo / António Passos Leite / Margarida Neves de Sousa / Maria Augusta Casaca / Alda Rocha / Alfredo Mendes / Clara Barata / Isabel Lucas / Rui Peres Jorge / António Costa Santos / Isabel Moreira / Tânia Sousa Marques / Áurea Sampaio / António José Vilela / Inês Rodrigues / João Vasco / Rita Travassos / Sofia da Palma Rodrigues / Patrícia Alves / Patrícia Fonseca / Luís J. Santos / Enrique Pinto Coelho (lista às 10:40 de 30/6, via Facebook)
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29.6.14

Ocidente, esse grande defensor dos direitos humanos



Leio e releio a notícia, com uma primeira sensação de não a ter compreendido bem e uma segunda de viver já num mundo às avessas: por iniciativa do Equador e da África do Sul, foi apresentado à ONU um projecto de resolução, que vai levar à elaboração de um tratado que vincule todas as multinacionais a não desrespeitarem direitos humanos nos países em que operam e a serem, para esse efeito, supervisionadas pelos governos dos respectivos países.

De que se está a falar? De «garantir condições de trabalho dignas, que contribuam para equiparar as que existem na Índia ou no Bangladesh às dos assalariados nos estados ocidentais». Também, de «lutar contra a contaminação de solos e de rios e contra a perseguição dos defensores de direitos humanos». Porque é hoje «claro que os crimes de lesa humanidade cometidos por empresas transnacionais (...) não podem continuar e ficar impunes».

A resolução foi aprovada. Óbvio? Sim, à primeira vista, mas deixa de o ser – ou talvez não – quando se vê a distribuição dos 47 votos: 20 a favor, 14 contra, 13 abstenções. Fica aqui a lista:

Votos a favor: Argélia, Benim, Burkina Faso, China, Congo, Cuba, Etiópia, Índia, Indonésia, Costa de Marfim, Cazaquistão, Quénia, Marrocos, Namíbia, Paquistão, Filipinas, Rússia, África do Sul e Venezuela.
Abstenções: Argentina, Botswana, Brasil, Chile, Costa Rica, Gabão, Kuwait, Maldivas, México, Peru, Arabia Saudita, Serra Leoa e Emiratos Árabes Unidos.
Votos contra: Áustria, República Checa, Estónia, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Japão, Macedónia, Montenegro, Coreia do Sul, Roménia, Reino Unido, Estados Unidos.

Realcei os votos contra, por razões que me abstenho de comentar: 11 países europeus, Estados Unidos e dois países asiáticos «ricos». Vergonha, 14 vezes vergonha. 
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É o que nos vale


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O País não é uma empresa



«Um país não é definitivamente uma empresa. Um país não abre falência. Um país, ao contrário de uma empresa, não produz para fora. (...)

Fico arrepiado quando vejo um ministro definir uma estratégia de internacionalização. E economistas, que nunca geriram empresas, a entrar na conversa, recomendando aos empresários go West, todos para o Brasil e outras coisas do género.

Nada contra os desígnios nacionais. Mas o capitalismo iluminado do Estado conduz muitas empresas ao desastre. Internacionalizar, ou simplesmente fazer negócios lá fora, é um processo de racionalidade empresarial. Não uma missão patriótica.

Para um ministro é tão sedutor conduzir empresas em nome da competitividade nacional como para o empresário é aliciante a ideia de gerir um país à imagem da sua empresa. Em ambos, os resultados são igualmente intoleráveis.

A racionalidade da gestão empresarial levaria, por exemplo, ao encerramento dos tribunais, porque não são rentáveis e só dão encargos. Todas as escolas e bibliotecas teriam de fechar. O Estado corta salários, congela novas admissões, faz isso um ano, dois anos, três, contém a despesa, mas degrada a administração pública e os serviços prestados aos cidadãos. Uma empresa, assim, seria varrida do mercado.»

Sérgio Figueiredo

Lido por aí (64)