23.10.18

Dica (821)




«A partir de cinquentão, qualquer pessoa sabe que as memórias recentes são menos fiáveis do que as antigas. Como os computadores, apagamos mais depressa a memória RAM, a de agorinha, do que a memória ROM, de longa duração. Infelizmente, Cavaco Silva preferiu escrever sobre seus recentíssimos tempos de Presidente e não os de acionista privilegiado do BPN. No segundo tomo de Quinta-Feira e Outros Dias, de Cavaco Silva, livro apresentado esta quarta-feira ao público, alguns episódios só têm três anos. 

Perdemos, pois, a possibilidade de saber mais sobre um mistério interessante e até hoje inexplicado, o do BPN, onde da antiga memória armazenada se poderia esperar uma sinceridade porque, enfim, o que lá vai, lá vai.»
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Mas a Itália não é Grécia…




Uma história com consequências imprevisíveis.

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23.10.1956 - A «Revolução Húngara»



A chamada «Revolução Húngara» começou numa terça-feira, 23 de Outubro de 1956, no centro de Budapeste, com uma manifestação de milhares de estudantes que tentaram ocupar a rádio para transmitirem as suas exigências: fim da ocupação soviética e a implantação de um «verdadeiro socialismo». Foram detidos e quem do lado de fora exigia a sua libertação foi alvejado pela polícia a partir do interior do prédio.

Espalhada a notícia, a revolta alastrou primeiro a toda a cidade de Budapeste e depois ao resto do país, provocou a queda do governo e a sua substituição. Mas em 4 de Novembro deu-se a invasão pelas tropas do Pacto de Varsóvia e a resistência não durou mais de seis dias.

Pouco mais de duas semanas, portanto, que se saldaram por duas dezenas de milhares de mortos e por um verdadeiro êxodo de cerca de 200.000 húngaros, sobretudo jovens, que fugiram do país e pediram asilo um pouco por toda a Europa e também na América, do Norte ao Sul. Conheci uns tantos na Universidade de Lovaina, uns anos mais tarde.

Hoje a Hungria tem um dos governos mais sinistros da União Europeia, sem que esta pareça importar-se suficientemente com o facto, líder de uma política militante de rejeição de refugiados e não só. Os estudantes de 56 são agora velhos ou já morreram. Gostava bem de saber o que pensam disto tudo os meus amigos Eva, Nicholas e Elisabete, mas perdi-lhes o rasto… 
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A PSP, a GNR e Bolsonaro



«O que denigre a imagem dos profissionais da PSP, ao contrário do que afirma o Sindicato Vertical de Carreiras da Polícia, não é a pronta e acertada reacção do ministro da Administração Interna. Eduardo Cabrita ordenou um inquérito às circunstâncias da fuga de três arguidos do Tribunal de Instrução Criminal do Porto, suspeitos de dezenas de roubos a idosos, e à divulgação das fotografias dos mesmos após as detenções em Gondomar. Os sindicatos não gostaram disso e acharam que o ministro estava a tomar o partido dos “delinquentes”. Se os sindicatos estão convencidos de que uma fuga patética daquele tipo e a exposição de detidos daquela forma não são suficientes para que um ministro e qualquer um de nós queira saber o que se passou, então é porque acham que os polícias estão acima de qualquer suspeita pelo simples facto de possuírem um crachá.

Os sindicatos e associações das forças de autoridade deveriam preocupar-se tanto com a presunção de inocência dos seus inscritos e associados (claro que a autoria das fotografias em causa será sempre uma especulação) como com a presunção de inocência dos detidos. Os suspeitos, é assim que juridicamente são, não foram ainda sujeitos a qualquer juízo. Percebe-se a solidariedade entre forças da autoridade, mas não é aceitável que a Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda diga, sem qualquer prurido, que os criminosos “não são merecedores do mesmo respeito e consideração” que o cidadão comum.

O que denigre a imagem dos profissionais da polícia — generalizando o que não pode ser generalizado, porque há sempre polícias bons e polícias maus, como nos filmes — é um sindicato que recorre a montagens com imagens de idosos espancados noutros países europeus para nos fazer crer que estes foram vítimas daquele trio de “criminosos perigosos” e com isso atacarem nas redes sociais a tutela com que estão em conflito. A publicação consciente de fotografias fora do contexto, com o argumento de que se trata da defesa de colegas vilipendiados por um ministro, não é apenas um tique “Bolsonaro” de mau gosto. É pura manipulação. E manipulação é coisa séria, que não seria de esperar de um sindicato de polícia que se diz vertical.»

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22.10.18

Macau e a maior ponte do mundo



«É considerada a maior travessia do mundo sobre o mar, vai ligar Hong Kong, Zhuhai e Macau, e será inaugurada na terça-feira, mas só condutores com uma autorização especial poderão circular sobre esta ponte.

A ponte custou aos governos das três regiões cerca de 1,9 mil milhões de euros e a estrutura principal mede 29,6 quilómetros, com uma secção em ponta de 22,9 quilómetros e um túnel subaquático de 6,7 quilómetros que liga duas ilhas artificiais, tendo assim uma extensão total de 55 quilómetros. (…)

É inaugurada dez anos depois, sendo considerada um marco do projeto de integração regional da Grande Baía, que prevê a criação de uma metrópole mundial a partir dos territórios de Hong Kong, Macau e nove localidades da província chinesa de Guangdong - Cantão, Shenzhen, Zhuhai, Foshan, Huizhou, Dongguan, Zhongshan, Jiangmen e Zhaoqing. Segundo os media locais, o Presidente chinês, Xi Jinping, estará presente na cerimónia de abertura oficial da ponte ao público.»

(Daqui)
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A posição de Fernando Henrique Cardoso



O futuro político do Brasil.

A ler.
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Bolsonaro ontem


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Ouvir tudo.
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O Brasil é aqui



«Nos 50 anos do Maio de 68 ocorre-me que tão pouco tempo passou para aqui chegarmos. Aqui, a este lugar onde é proibido (não) proibir. O Brasil vive um momento-chave e de todas as partes há quem ache que não temos nada que ver com isso. Em bom rigor, no sentido estrito, até nem é connosco, mas não é preciso pensar muito para perceber que é. A discussão não anda longe da que foi feita recentemente em relação à Hungria, nem do mal que faz a toda a gente haver no mundo um governo como o de Duterte, nas Filipinas, ou do estremecer que foi a eleição de Trump nos Estados Unidos. Mas, feitas as contas, isso quer dizer o quê? Que é a vida? Que temos de acostumar-nos? Que nesta casa comum não temos nada que ver com nada? Recuso a ingerência, mas recuso igualmente a apatia fria e calculista de quem acha que no silêncio é que está o ganho.

O que se passa no Brasil é um retrocesso gigante e não apenas para quem vive no Brasil. Dizia Agustina Bessa-Luís que pode fazer-se uma revolução sem revolucionários, o que não pode fazer-se é uma revolução sem argumentos. Penso nesta frase e repasso-a para extrapolar que também um retrocesso não se pode fazer sem argumentos. Mas parece que isto é pedir muito. Entre a democracia e a sua antítese, entre o humanismo e a selva, entre a convivência pacífica e a guerra permanente, entre a igualdade e a subtração, entre a liberdade e a opressão, naturalizam-se os negativos. Bolsonaro não pode ser naturalizado pela simples razão de que ninguém sobrevive na sua equação dos a excluir. Duterte quer matar todos os toxicodependentes, Bolsonaro quer fazer a castração química de todas as pessoas que não sejam heterossexuais. Admiradores de ditadores e de torturadores são elevados à condição de democratas porque supostamente dizem umas "verdades", que mais não são do que gigantes mentiras convertidas em massa acrítica. Tudo isto tem de fazer-nos pensar muito bem sobre os vários falhanços não corrigidos ou, muitas vezes, sequer avaliados. Falhanços das forças políticas democráticas, falhanços na promoção da igualdade, falhanços na defesa da liberdade.

Comovo-me com a gente valente que, no Brasil, não desiste da inevitabilidade que querem fazer valer os mercados, uma parte dos media, as elites corruptas. Comovo-me com as mulheres, os negros, os homossexuais e as lésbicas, a gente pobre que levanta a cabeça sabendo que Bolsonaro lhes quer pôr a cabeça a prémio. Não acredito que todas as pessoas que apoiem Bolsonaro sejam racistas, xenófobas, homofóbicas ou sexistas e é também por isso que me comovo mais ainda com todas as pessoas que não escolhem o silêncio.

As eleições no Brasil não são um campeonato entre o PT de Lula e Bolsonaro. São um jogo, sim, ou melhor, foram convertidas num jogo, mas é um jogo sobre a democracia, sobre o Estado de direito, sobre a nossa capacidade de vivermos juntos em comunidade com as nossas diferenças. O Brasil é aqui.

Voltando a Agustina, "mudar o mundo é mudar os ponteiros onde se marca o bem e o mal. Não quer dizer pô-los ao contrário, mas dar-lhes andamento certo". Este Brasil está para além de quem legitimamente pode escolher o futuro através do seu voto. Somos todos e todas nós que podemos mudar os ponteiros. Somos todos e todas nós a ver-nos ao espelho.»

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21.10.18

Brasil 2018


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A barbárie está a avançar por cá mais depressa do que previsto




«O Sindicato Vertical de Carreiras da Polícia partilhou este sábado uma publicação no Facebook onde o Ministro da Administração Interna surge numa montagem junto às caras de três idosos espancados, sugerindo que essas serão as vítimas dos três fugitivos do Porto. (…)

Em primeiro plano aparece a fotografia de Catherine Smith, que foi estrangulada e espancada com uma trela quando passeava o seu cão em Tulse Hill, no sul de Londres, em 27 de julho do ano passado; o segundo caso diz respeito a John Charles Junyent, dono do restaurante La Botticella, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que em 2015 foi espancado por um funcionário; a terceira imagem é de um idoso que há cinco anos foi espancado por criminosos que invadiram a sua casa, na cidade de Tremedal, no interior da Bahia, também no Brasil.»
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Artistas contra Bolsonaro



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Orbán, Trump, Bolsonaro: como chegámos até aqui? (II)



«Mas é mesmo fascismo o que aí vem? Se Bolsonaro chegar à Presidência do Brasil daqui a uma semana, devem os brasileiros preparar-se para uma versão séc. XXI do fascismo? A recorrente atitude de descartar qualquer comparação entre Hitler e Mussolini e figuras como Bolsonaro (ou Trump, ou Orbán, ou Salvini) decorre de um velho vício que é o de, anacronicamente, julgar que o fascismo não existe sem bigodinhos ridículos, paradas noturnas com archotes e Auschwitz – e, contudo, por aí não faltam deportados, campos de prisioneiros, discriminação racial, milícias, retórica anticomunista e discursos de ódio.

Depois de terem promovido a fascização das relações de trabalho (precariedade e falta de liberdade na relação com o empregador, ação coletiva e sindicalização assumidas, na maioria dos casos, como necessariamente clandestinas), a questão reside em saber se os grupos sociais e políticos que se reservam a possibilidade de usar a carta da fascização do Estado acham ainda que os seus interesses estão suficientemente garantidos nos sistemas formalmente liberais em que vivemos. Exatamente como aconteceu na era do Fascismo (1918-45), o problema é mais de oportunidade do que de necessidade: mais do que avaliar a necessidade de proteger os seus interesses eliminando (política e fisicamente) os seus opositores e a resistência social, porque julgados demasiado fortes, o que hoje se pergunta quem empurra Bolsonaro para o poder (e com ele acordou uma agenda económica e social) é se se pode dar ao luxo de perder esta oportunidade, a primeira que se lhe oferece desde o fim da ditadura militar (1985).

Há duas semanas defendi aqui a ideia de que vivemos um pouco por todo o mundo um estádio adiantado de uma transição autoritária, na qual, sem que se quebre a aparência da continuidade do sistema democrático, se evolui na direção da ditadura – exatamente como aconteceu com o fascismo e o nazismo, entronizados no poder por via constitucional. A pergunta, portanto, é se são suficientes os instrumentos que já estão operativos (Estado securitário Big Brother que viola direitos humanos e liberdades fundamentais em nome de uma emergência tornada permanente; inventar uma pretensa invasão demográfica para securitizar as migrações, naturalizar o racismo e dividir os explorados em torno de identidades étnicas/culturais) ou se, pelo contrário, é preciso partir para a violência institucionalizada do Estado.

Que triunfem personagens como Trump e Bolsonaro em duas das sociedades mais violentas e mais policializadas do mundo (segundo o World Prison Brief, 2,1 milhões de presos nos EUA, 0,66% de toda a população, a proporção mais alta de todo o mundo; 700 mil no Brasil, 0,32%; por comparação, 0,13% em Portugal, 0,18% na Venezuela, 0,12% na China), é a prova de como a violência se naturalizou nas relações sociais. Uma parte muito significativa dela é praticada pelas forças policiais, legitimadas que estão por uma opinião que a justifica e que, quanto menos aceitar explicações sociais, mais tende a julgar que a solução é mais violência ainda. Por exemplo, ocupando militarmente cidades inteiras; se necessário, suspendendo o Estado de Direito; se preciso, impondo a ditadura. E aí está Bolsonaro prometendo cinco ministros militares e fazendo campanha no BOPE (Batalhão de Operações Especiais), no Rio, onde foi dizer que, se for eleito, “a classe militar terá um dos nossos” em Brasília (Estado de São Paulo, 15.10.2018). Bolsonaro no poder será sempre violência de Estado; não que ela seja novidade, mas haverá mais, e mais legitimada. E, além dela, haverá a violência praticada por quem se sente politicamente legitimado pela ideologia do Estado.

Em 1924, ano e meio depois de Mussolini chegar ao poder, o deputado socialista Matteotti não precisou de ser detido pela polícia e executado por uma via legal que ainda nem sequer havia sido implantada; matou-o uma squadra de militantes fascistas. No Brasil dos esquadrões da morte e dos assassinos da vereadora Marielle Franco, percebe-se bem do que estou a falar: matar ativista de esquerda é coisa bem mais fácil do que matar Kashoggi. Confrontado com as suas responsabilidades no caso Matteotti, Mussolini, chefe de um governo de coligação que ainda tolerava a existência de oposição legal, limitou-se a dizer: “Se o fascismo é uma associação de delinquentes, sou eu o chefe dessa associação! Se toda a violência foi o resultado de um determinado clima histórico, político e moral, a responsabilidade é minha, porque este clima histórico, político e moral criei-o eu”.»

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