7.4.20

Quem diria, quem diria…



… que seria Marcelo a lançar esta bela frase para comemorar o 25 de Abril! O homem não dá ponto sem nó.

«Quando ouvi a expressão "ganhar em Abril o mês de maio" tive um sobressalto. Senti aquela expressão como uma palavra de ordem de resposta ao "diz qualquer coisa de esquerda" que há dentro de nós. Por um momento, houve uma memória neorrealista que se apoderou desta minha alma confinada. Creio que cheguei mesmo a começar a trautear o "Acordai" de Lopes-Graça. Mas foi só um instante. Um devaneio. Já lá vai.»
José Manuel Pureza no Facebook.
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07.04.1893 - Almada Negreiros



Almada Negreiros nesceu em S.Tomé e Príncipe, em 7 de Abril de 1893. Na minha última viagem a.c. (antes do corona…), visitei e almocei na casa onde nasceu, na Roça Saudade, a 1.500 metros de altitude, da qual o pai era Administrador. Com dois anos, Almada Negreiros veio para Cascais e passou a viver com a família da mãe que ficou em S. Tomé e morreu pouco depois.
(A imagem no topo do post mostra uma das muitas citações de Almada, pintadas na casa hoje transformada em restaurante-museu.)




O Manifesto anti-Dantas, por Mário Viegas:



Vale a pena ouvir um excerto da entrevista que Almada Negreiros concedeu ao programa Zip-Zip, em 1969 (ano anterior ao da sua morte):


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Mais papista do que o papa




Nunca a expressão «mais papista do que o papa» se aplicou tão bem.

«O líder da extrema-direita em Itália, Matteo Salvini, defendeu no domingo que as igrejas devem estar abertas ao público para os ritos da Páscoa, mas a Conferência Episcopal recusou, apelando hoje à responsabilidade em plena pandemia.»
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Covid-19: África – e agora?



«Esta semana começou com 8736 casos confirmados de codiv-19 em África, causadores de 399 mortes e 747 pacientes curados, segundo o Centro de Controlo de Doenças da União Africana, domingo no fim da tarde em Adis Abeba. A soma da África do Sul e dos países da África do Norte representa quase metade do total confirmado que, por comparação com os demais continentes, é o número mais baixo. Em conversa sobre este dado, um dos meus amigos de Dakar disse-me, em tom sarcástico, que os africanos são em maioria jovens e já passaram por algo como uma seleção natural. Sem dúvida, os africanos são como sobreviventes, após fomes, epidemias, guerras, opressões e desgovernos. Se isso contar, o continente tem uma defesa poderosa contra este vírus. Mas é melhor prosseguir atentos ao desenrolar da pandemia, daí a maior parte dos 51 países com casos confirmados, ter decretado confinamentos, estados de emergência ou, pelo menos, recolher obrigatório e anulação de aglomerações.

Na mesma conversa concordamos ser impossível, em África, fechar as pessoas. As condições de luta pela sobrevivência impõem uma busca constante do sustento na rua ou na estrada. Com frequentes taxas de 40% a 50% de emprego informal, ocasional ou precário, um dia sem trabalhar é um dia sem comer. O governo do Benim, por exemplo, fez diversas recomendações mas assinalou que o país não tem meios de confinar as pessoas e garantir a sua sobrevivência. O Senegal prometeu um programa de ajuda alimentar a um milhão de famílias mais vulneráveis.

Assim, a brutalidade policial denunciada em alguns países, no sentido de tirar as pessoas da rua, só poderá ter o efeito de as revoltar pois estão em busca desesperada de algo a levar para casa. Aliás, a própria noção de casa exige aqui explicação. Grande parte não tem água nem luz nem mesmo paredes, portas, janelas ou tetos compatíveis com um confinamento.

Assim, o risco é enorme e só condições ambientais (ou outras desconhecidas) protegem o continente africano até aqui. África é um exemplo dos efeitos causados pela negligência do desenvolvimento social. Com efeito, em todo o mundo, algumas linhas de orientação económica propuseram e aplicaram redução das despesas sociais, justificando tratar-se de medida provisória para concentrar meios no crescimento económico. Além disso, em toda a África e países espalhados por outros continentes, baixaram fortemente as alocações de recursos para pesquisa cientifica, alegando, sobretudo nos países africanos “tratar-se de um luxo”.

A ignorância do link entre economia, conhecimento e condições de vida acaba por, de repente, esmagar a economia. Seja em crises financeiras, conflitos, calamidades naturais, crises sanitárias como esta ou mesmo nas frequentes taxas de crescimento irrisório do PIB. Neste momento, nem as indústrias mais avançadas do mundo conseguem responder à demanda mundial de objetos tão simples como luvas de borracha e máscaras quase artesanais. Se a pandemia durar bastante tempo nem nos países de IDH muito alto os hospitais estarão isentos de colapso e os Estados vão ter de escolher entre aplicar os seus recursos na defesa da vida humana ou prosseguirem com funcionamento económico à custa da precariedade social e inibição do conhecimento.

Afinal, há apenas duas diferenças na luta pela sobrevivência entre os informais africanos e as Pequenas e Médias Empresas do hemisfério norte: a primeira é que aqueles não podem parar um dia e estas não podem parar um mês; a segunda é que estas têm Estados ricos por trás e aqueles não tem nada por trás.

Nestes termos, mesmo que África chegue ao fim deste massacre com menos vítimas individuais, os efeitos económicos serão piores que nos outros porque tem muito menos meios de reagir e reerguer. A menos que a brutalidade desta crise sirva para lançar uma inserção mais equilibrada de África no mundo.

Três requisitos são essenciais nesse sentido: acabar com as imposturas identitárias isolantes, lançadas quer por propagandistas locais quer por forças externas hostis aos africanos; transformar as dívidas africanas ou, em certos casos, os seus juros, em investimentos diversificados (desta vez sem separar economia e sociedade) e, enfim, que as entidades de integração das cinco macrorregiões africanas comecem a ter função coordenadora supra nacional.»

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Perplexidades


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6.4.20

06.04.2011 – O início de um outro confinamento



«Passava já das oito e meia da noite quando o então primeiro-ministro, José Sócrates, falou ao País e confirmou o pedido de ajuda.»
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Solidariedade com música



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Covid-19 – Entretanto, no resto do mundo




«Segundo os dados do organismo, se o avanço da pandemia provocar uma queda de 5% na renda média da população ativa, o número de latino-americanos em extrema pobreza passará dos 67,5 milhões atuais para 82 milhões. Se a diminuição da renda da população economicamente ativa for de 10%, o número disparará para 90 milhões de pessoas (ou seja, 22 milhões de pessoas a mais em relação ao número atual).»
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Vírus e elefantes



«Em poucas semanas, praticamente todos os portugueses ficaram a conhecer o conceito de evolução exponencial. O facto de cada pessoa infectada poder passar o vírus a várias pessoas, aumentando exponencialmente, com o tempo, o número de infectados, passou a estar omnipresente nas nossas mentes, tornando muito familiar uma função matemática que, até agora, era usada principalmente por engenheiros, economistas, biólogos, epidemiologistas e outros cientistas. A verdade é que esta característica exponencial da evolução dos seres vivos é bem conhecida há séculos, e está na base de toda a diversidade que observamos no planeta e na civilização humana. Se não fosse este potencial dos seres vivos para crescerem de forma exponencial, o planeta seria profundamente diferente e nós nem sequer existiríamos. A vida conquistou toda a Terra exactamente porque tem tendência a crescer de forma exponencial.

Charles Darwin publicou, em 1859, o livro que o tornou famoso, A Origem das Espécies, no qual tinha trabalhado durante décadas e que descrevia a teoria da evolução. Cerca de um ano antes, Darwin tinha publicado, juntamente com Alfred Wallace, um artigo que descrevia estas ideias cuja autoria, pelas regras normais de atribuição de crédito científico, deveria ser de ambos os autores. Por diversas razões, as contribuições de Alfred Wallace acabaram por cair numa relativa obscuridade, enquanto o nome de Darwin se tornou conhecido em todo o planeta. A teoria da evolução que, desde então, foi o foco de tantas controvérsias, interpretações e estudos, é talvez aquela que mais revolucionou a forma como vemos o mundo e o papel que, como espécie humana, nele desempenhamos.

A teoria da evolução veio esclarecer definitivamente o que é, talvez, a questão mais central que podemos colocar, como seres humanos: como é que aparecemos, como é que fomos criados? A resposta dada pela teoria da evolução, peremptória e incontornável, é que fomos criados pela evolução natural, por um algoritmo que, ao longo de milhares de milhões de anos, optimizou os seres vivos na sua luta pela sobrevivência. Como Darwin percebeu, a evolução das espécies depende, criticamente, desta capacidade dos seres vivos se reproduzirem de forma exponencial (ou geométrica, para usar uma outra expressão). Darwin escreveu “Não existe excepção para a regra de que cada ser vivo se reproduz a uma taxa tal que, se não for destruído, a Terra ficaria rapidamente coberta pela descendência de um só par. (…) O elefante é supostamente o animal que se reproduz mais lentamente, e fiz algum esforço para estimar a velocidade a que se pode reproduzir: não estarei a errar por excesso se assumir que se reproduz quando tem trinta anos, até atingir os noventa anos, criando três pares de crias nesse intervalo; se for assim, ao fim de cinco séculos existirão quinze milhões de elefantes, descendentes do par original.”


5.4.20

Para sossegar a consciência dos fumadores


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Veados no asfalto



Ontem, em Odivelas.


E cabras algures no Reino Unido: 



(Daqui)
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Os tempos vão mudar?



«Quando editou, em 1964, The times are a’Changin, Bob Dylan previa o futuro. O seu e o da América. John F. Kennedy fora assassinado meses antes e Dylan rompia com o passado. Fora o trovador da renovação da música folk. Mais uns meses e transformar-se-ia num herético: deslumbrado por Rimbaud e pelo LSD, trocava a viola por uma guitarra eléctrica. Os tempos tinham mudado. Recorda agora isso numa canção sem fim, Murder Most Foul. Diz ele, que já viu tudo: “Thousands were watchin'/No one saw a thing”. Fala da morte de JFK em Dallas e da misteriosa digressão mágica das décadas de 60 e 70. Poderia estar a falar de um vírus invisível que dinamitou todas as certezas das sociedades modernas.

Tal como nesses dias, os tempos estão a mudar? É verdade.

Só que, agora, ninguém sabe onde colocar os pés: estes campos colocados à nossa frente, outrora floridos e globais, estão minados. Cheios de espantalhos, de Jokers, de Freddy Kruegers. Estamos num labirinto onde não vemos o Minotauro, mas sentimos a sua presença. Todos desejam respostas. Mas, no mercado, estão esgotadas, como as máscaras ou o álcool etílico. Em Delfos, os gregos perguntavam o futuro à pitonisa. Hoje o Google não nos dá respostas. Nem os políticos. Nem os mercados. Nem os videntes. Como será o mundo depois da covid-19? Sabemos apenas o que desejávamos ignorar. Seremos mais pobres e haverá uma astronómica dívida por pagar. Pior: até quando existirá dinheiro, em países que não emitem moeda, para pagar a paz social? O Estado não é o cofre do Tio Patinhas.

A história do coronavírus é um duelo entre a saúde e a economia. Desejamos que ambas sobrevivam. Mas, até lá, temos de lidar com os vencidos da vida. Do país outrora conhecido como Holanda e agora novamente chamado Países Baixos, esperávamos a subtileza dos quadros de Rembrandt, frutos belos de uma sociedade aberta ao mundo. Pelo contrário coube-nos, nestes dias mais sombrios, o sr. Hoekstra, holograma do sr. Dijsselbloem.

Julgou-se, por momentos, que o Ferrão dos “Marretas”, resmungão que vive num caixote do lixo, e que deseja que a sua vida seja o mais miserável possível, tinha agora assento no Eurogrupo. Não. Esta é uma personagem real, menos carinhosa do que o Ferrão e usa fato e gravata. Cómodo, com a barriga cheia, pensa nele. E não nos outros. Fez bem Portugal, por intermédio do sr. António Costa, em fazer ouvir a sua voz. Não se pode jantar com uma personagem destas. Jean Monnet disse que a Europa será forjada nas crises. O surto de covid-19 é uma dessas crises. É sanitária e económica. Será moral e ética. Não poderá perder tempo com personagens como o sr. Hoekstra.

Portugal vive um momento crucial. No meio da sensatez política, tem sobrado espaço para o dislate. Transformar o Hospital Curry Cabral, por desígnio político do sr. António Costa, numa unidade exclusivamente para o combater a covid-19 é um deles. Tal como foram, antes, as iniciativas políticas para acabar com o Laboratório Militar e o Hospital Militar. Colocar-se já na fila da frente para um sebastiânico governo de “salvação nacional”, como faz o sr. Rui Rio, é outro. Os políticos portugueses usam demasiadas vezes a improvisação como almoço. Raras vezes desenham estratégias. Os resultados costumam ser desastrosos.

Nada que os diferencie, aqui, da Europa dita comunitária. Há um velho ditado grego que apetece recuperar agora: “Aquele a quem os deuses desejam destruir, primeiro enlouquecem”. A Europa, antes de se destruir, está a enlouquecer. Os deuses europeus actuais simbolizam instituições pós-modernas: são indiferentes ao que os cerca. No centro de toda esta tragédia sem solução está uma União Europeia sediada burocraticamente em Bruxelas. E que reage em vez de agir. Poderá assistir, a prazo, a democracias mais musculadas. E quem pagará a crise? E como? E como será a gestão social de um mundo empobrecido, sem presente e com um futuro muito nebuloso? Uma roleta russa?

O mundo tem surfado pelo Instagram, pelo Twitter, pelo Facebook e pelo WhatsApp. Com cada vez menos contacto com a realidade. Algo vai mudar, mas talvez não tanto como alguns desejaríamos. A grande dúvida, no meio do cataclismo, será uma: ficaremos melhores ou piores pessoas do que antes da covid-19? Foi a forma como tentámos domesticar o planeta aos nossos interesses que nos tornou alvos mais fáceis de vírus como estes. Julgávamos ser os conquistadores. Acabámos encurralados. A globalização, o viver numa rede sem fim, fez agora reerguer fronteiras e desconfianças. A economia vencerá a saúde. Mas, mais ou menos mutante, o mercado regressará sedento, como salvador. O vírus será o culpado de todas as desgraças. E, como sempre, serão os mais frágeis que pagarão a crise, no meio das cinzas.»

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