18.11.20

18.11.1943 - Manuel António Pina





Manuel António Pina chegaria hoje aos 77, continua connosco, mas todos gostaríamos de saber o que pensaria dos dias que correm, a ler novos poemas, a saber como se comportavam os seus gatos.

A rever: o trailer de um excelente filme de Ricardo Espírito Santo.




A recordar: a última crónica que publicou no JN:

Coisas sólidas e verdadeiras (01.08.2012)

«O leitor que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, "mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político". Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da 'troika', do défice, da crise, de editoriais, de analistas!

Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.

Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?" Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.»
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A culpa da extrema-direita não é da esquerda. É dos convertidos e facilitadores de direita

 


«Parece um conto surrealista mas não é: apesar da derrota, em 2020 Trump teve mais dez milhões de votos que em 2016. Quatro anos de miserável, incompetente, boçal, esquizofrénica presidência Trump depois, dez milhões de pessoas gostaram tanto do que viram que correram a votar. Foi a prestação de Trump como Presidente que lhes ganhou o voto. 

Acrescente-se aos recém-convertidos a base eleitoral republicana que permaneceu leal ao Presidente, não renegando adoração com os escândalos e subterrâneos morais em que Trump a cada semana se enredava. E concluímos: os eleitores de Trump votam na peça porque a apreciam. Gostam do conteúdo e deliram com o estilo. 

Nos últimos quatro anos garantiram-nos que as direitas de índole trumpista eram culpa dos tresloucados desvarios da esquerda, da corrupção, das feministas e dos gays com a mania de sair da casca, de Hillary Clinton que era tão, mas tão corrupta que obrigou os pobres dos eleitores a votar num Presidente que encheu a administração de lealistas, incluindo filha e genro, e aproveitou o cargo para gerar clientela aos seus hotéis e resorts. Ora, é falso: votam na direita populista-reacionária porque gostam deste produto político. A nova direita não é uma reação à esquerda, é um movimento revolucionário por direito próprio. 

E, como ficou escancarado com a não aceitação da derrota de Trump, nem valorizam a democracia. Preferem um líder autoritário defendendo os interesses exclusivos dos seus indefetíveis. Não se incomodam se for corrupto, desde que entregue resultados impondo os seus valores. O que lhes repugna é a convivência democrata, aceitar a decisão das maiorias e negociar consensos. 

Foi uma descoberta que fiz desde 2016. Pessoas que considerava politicamente próximas de mim afinal deleitadas com um racista, boçal, misógino, com passado financeiro sinuoso. Almas que ingenuamente reputara de liberais de súbito apreciando um isolacionista e protecionista com discursos nacionalistas e ataques vis à liberdade de imprensa. 

E as numerosas acusações de apalpões, assédios e violação? Davam os possíveis crimes como ‘questões da vida privada’ (obrigada pela posição política de considerarem mulheres objetos a serem apalpados a gosto) e, na verdade, mostravam-se deliciados com os abusos de Trump. Finalmente, um político punha as mulheres no seu lugar. (A misoginia de Trump tem um apelo tão grande que até os homens negros e latinos votaram com expressividade em Trump em 2020.) 

Cidadãos deveras escandalizados com abusos autoritários e mentiras de Sócrates, porém sorridentes e babados com as falsidades compulsivas de Trump e a essência de animal feroz que não permitia escrutínio ao seu poder, que tentava ilimitado. Ateus de sempre, possuidores em tempos de pouco subtil escárnio pelo catolicismo, transformados em defensores da cristandade (daquela que nada tem que ver com fé, mas sim com clubismo cultural divisivo). 

Nem só em Portugal esta mudança ocorreu. Anne Applebaum escreveu um livro este ano, O Crepúsculo da Democracia, contando a sua experiência com numerosos ex-amigos que saíram da direita democrática para abraçarem a extrema-direita, desde celebridades como a apresentadora da Fox News Laura Ingraham até jornalistas ou intelectuais, com influência mas menos conhecidos. Na versão inglesa tem o subtítulo O Falhanço da Política e [sintomaticamente] a Separação de Amigos. 

Applebaum recorrentemente conta festas ou reuniões acontecidas nos anos 1990 ou no início dos 2000, frequentadas pelas pessoas da então a direita. E termina comentando que muitos desses participantes já não falam entre si. Atravessam a rua se avistam ao longe algum dos antigos amigos, para não se cruzarem. Os centristas e os extremistas já não se toleram mutuamente. 

Parece a história da minha vida nos últimos anos, perplexa e horrorizada assistindo a quem tinha escrito blogues comigo ou tido almoços prazenteiros de discussão política, pessoas que me convidaram para projetos procurando uma direita aberta, cosmopolita e moderna, afinal defenderem – com gosto e convicção – ideias atentatórias da democracia e da dignidade da maioria dos seres humanos (entre os quais eu, por ser mulher). 

Este movimento de radicalização existiu na direita em porções significativas, e não foi culpa da esquerda. Ainda não passou tempo suficiente para conseguirmos perceber de onde vieram as deslocações tectónicas. Alguns serão somente oportunistas. No PSD, a maioria estará nessa prateleira. Por alguma razão obscura, vinda da bolha em que os partidos tendem a viver e os afasta da realidade do eleitorado, convenceram-se que o país quer o regresso a uma moral salazarista, de gente séria, austera, deixando os vícios e os excessos para os degenerados ricos das grandes cidades. 

Contudo, para muitos, o meu palpite vai na linha de não ter havido mudança. Simplesmente estão confiantes, nestes últimos anos, da admissibilidade de demonstrarem as suas ideias sem filtros. 

Por outro lado, o espaço político da extrema-direita não engloba só o Chega. Inclui os que a promovem e os que não se lhe opõem. Há muitos adeptos da tal nova direita e confessos admiradores de Trump na IL. No CDS, Nuno Melo aspira a ser um herdeiro conservador-populista se a estrela de Ventura se apagar. No PSD, tantos admiram pouco secretamente Ventura. Todos, com ímpetos suicidários, têm-se esforçado por promover a extrema-direita. De tão enlevados com as novas/bafientas ideias, nem percebem que promover um concorrente que com eles dividirá um número finito de eleitores lhes retirará votos e deputados. 

Neste momento vejo a direita em muito maus lençóis – moralmente e eleitoralmente. Mas só tem de se queixar de si própria. Por não ter tido líderes que conseguiram construir uma plataforma progressista e reformista de direita, optando ideologicamente por um regresso à moral e ordem social passadas, não terem entranhado a democracia. Podem gritar com a esquerda quanto quiserem: os pecados continuam próprios e de criação exclusiva da direita. 

Como se resolve este imbróglio ideológico e moral da direita? Não sei. Desde logo porque a direita que se opõe à deriva extremista é reduzida. Tendo a pensar que somente com consequências muito dramáticas desta radicalização à direita, em algum país, se mudará a maré. Escalada de terrorismo, ditadura declarada, atropelos aos direitos humanos. E, por cá, se ficarem eleitoralmente em cacos o partido de extrema-direita e os partidos facilitadores. Para que renasça outra direita diferente.» 

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17.11.20

Praga, 17.11.1989 – A «Revolução de Veludo»

 


Poucos dias depois da queda do Muro de Berlim, com início no campus universitário e concentração final na mítica Praça Wenceslas, teve lugar uma marcha pacífica de estudantes, que pretendia assinalar a morte de Jean Opletal em 1939 e o encerramento das universidades checas pelos nazis. A manifestação foi fortemente reprimida pela polícia, facto que desencadeou uma onda de eventos que iria durar até final do ano e que congregou um número crescente de participantes. 

Momento alto em 27 de Novembro, dia de greve geral, em que Mikhaïl Gorbatchev fez uma declaração em que condenou a operação do Pacto de Varsóvia, que pôs termo à Primavera de Praga em 1968, numa clara demonstração de ausência de suporte ao governo da Checoslováquia por parte da União Soviética. 


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Natal será como um Estado de Emergência quiser

 


A imagem lembra a Última Ceia mas tanto faz, tudo isto será este ano como o vírus e mais alguém quiser. Mas fica aqui um bom modelo para o Natal.
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Como se chega ao poder

 



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Fantasmas de um Natal passado

 


«"Mais do que nunca, as novas políticas devem atuar na margem". Esta foi a frase escolhida por Mário Centeno, durante a 10.ª conferência do Banco de Portugal, para defender a limitação dos apoios do Estado à economia, em volume e duração. 

O governador admite que a crise terá efeitos estruturais mas recusa qualquer alteração de fundo nos apoios sociais ou um apoio "massivo" à economia. Preocupa-o que o investimento público vá além dos projetos já em curso e que sejam criadas "barreiras à mobilidade do trabalho", ou seja, medidas legais que visem travar os despedimentos. 

Com palavras diferentes e de forma mitigada, o argumento de Mário Centeno tem a mesmíssima matriz ideológica que, no passado, sustentou as políticas de austeridade e as "reformas estruturais" que castigaram o país. 

Porém, sem medidas orçamentais e legais para manter empregos e penalizar os despedimentos (como o aumento do valor das indemnizações aos trabalhadores despedidos), o resultado será o aumento brutal do desemprego, muito dele de caráter estrutural. Após a pandemia, este desemprego não será absorvido pelos setores que Centeno designa como "mais dinâmicos". Sobretudo, isso não acontecerá sem um investimento público forte e dirigido, combinado com um apoio massivo que sustente rendimentos, pois é da procura interna que depende boa parte das empresas. E, mesmo com a adoção dessas políticas (coisa que o Governo resiste a fazer), o desemprego aumentará. Sem novas regras para os apoios existentes e a criação de outros, este novo desemprego só pode transformar-se em desigualdade e pobreza, agravadas e estruturais. 

Mário Centeno conforma-se com o pior cenário. E tudo em nome de uma preocupação - o aumento da dívida pública. Ora, a realidade já provou que a dívida é caprichosa e ingrata, que se alimenta do desemprego e da recessão. Políticas débeis, como aquelas sugeridas por Centeno, não conseguirão evitar essa deriva. 

Mais eficaz seria, como referia o presidente do Parlamento Europeu, cancelar a dívida gerada no combate à covid. Fazê-lo é apenas uma decisão política. Mas o que pode esperar-se, quando vemos os partidos socialistas europeus a defenderem condicionalidades para o acesso aos fundos de recuperação, chegando a admitir sanções por incumprimento das orientações da Comissão? 

Com a crise regressa, pelas mãos do costume, o discurso das inevitabilidades. Em 2012, os decisores europeus escolheram impor um plano de reengenharia social e económica baseado no empobrecimento da população trabalhadora. Impõe-se um corte definitivo com as ideias que geraram aquelas políticas erradas. E engana-se quem achar que a experiência do passado faz desta uma batalha ganha. Ela está só a começar.» 

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16.11.20

Ana Gomes sobre Marcelo e acordos nos Açores

 


Ainda não vi ninguém chamar a a atenção para o que Ana Gomes disse ontem sobre este tema, na SIC N. Parece-me importante ouvir AQUI, minutos 22:38 a 22:42.
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Maus presságios

Passei há pouco por uma sapataria normalíssima que na montra, renovada para a nova estação, só tinha pantufas e chinelos de quarto.
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Ventura já deu a Rio a “moderação”. É ver o que se segue

 


«As eleições dos Açores provocaram uma mudança no sistema político impossível de imaginar há algum tempo. A ideia de que os partidos da direita estavam prontíssimos para se aliar à extrema-direita já tinha sugerido por Rui Rio quando afirmou na entrevista à RTP que tudo podia acontecer “se o Chega se moderar”. A minimal polémica que estas palavras suscitaram dava a entender que o PSD estava pronto para a associação. Já está: em domingo de recolher obrigatório o deputado André Ventura dá uma entrevista à Lusa em que oferece aquilo que Rui Rio tinha pedido: a sua “moderação”. Não é preciso mais nada para que uma coligação pré-eleitoral venha a ser possível. Ou um lugar de relevo num futuro governo. A avaliar pelo entusiasmo que vai na direita por finalmente agora começar a ver a possibilidade de chegar ao poder, tudo parece possível para o partido Chega. 

É verdade que nem toda a direita está de acordo com esta mudança estrutural que teve como corolário épico a negociação para o governo PSD nos Açores. Neste jornal, Pacheco Pereira e Francisco Mendes da Silva já escreveram sobre o fenómeno. Na edição desta segunda-feira, Jorge Moreira da Silva, claramente atónito, pede um congresso para definir política de alianças. Infelizmente, desconfio de que estas são posições minoritárias. A direita já incluiu o Chega nas suas contas e caminha alegremente para a bancarrota política. 

Então qual é a “moderação” que Ventura ofereceu a Rui Rio? Demarcou-se de Salazar e manifestou-se contra a penalização do aborto. Quanto ao casamento gay, apesar de o partido ser contra, ele defende o princípio legal e também não defende o princípio legal. Ou, para o citar ipsis verbis, desmentindo a entrevista da Lusa em que quase se declara a favor do casamento gay: “Fake news. Em momento algum disse ser a favor do casamento homossexual. Falei de direitos que as pessoas homossexuais não podem deixar de ter”. O que o líder do Chega disse na entrevista é o seguinte: “A minha posição pessoal é a de que um casal de homens ou de mulheres não deve ter menos direitos do ponto de vista da sua presença na sociedade do que um casal homem-mulher”. Estava feita a declaração para efeitos de moderação e, depois, segue-se o desmentido para satisfazer o partido. Este é o procedimento, mas é muito possível que seja o suficiente para Rio ficar satisfeito.» 

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15.11.20

Em Estado de Emergância

 


Fique em casa.
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Covid e comunicação




«Os especialistas ouvidos pela Lusa apontam também a urgência de adequar a mensagem aos diferentes públicos, traçando uma diferença para o que se verificou na primeira vaga, em que o desconhecimento e a perceção de risco eram globais; agora, já se sabe mais sobre o novo coronavírus e diferentes grupos da população olham para o SARS-CoV-2 de forma distinta. 

"A comunicação não pode ser um ato generalizado que funciona em todos os contextos, para todos os públicos, em simultâneo" (…) "A complexidade do vírus e a forma irregular como se comporta acarretam uma especial necessidade de segmentar as mensagens". (…) 
"Têm de ser encontrados canais e parcerias estratégicas, até a nível tecnológico, para chegar a públicos diferentes. É importante perceber onde as pessoas vão agora buscar a informação e em quem é que confiam. Este é um passo fundamental, mas envolve a humildade de quem está a trabalhar a mensagem"».
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15.11.1969 - Washington: «Give Peace a Chance»

 



Há 51 anos, nuns EUA hoje irreconhecíveis, teve lugar «Moratorium March on Washington», considerado o maior protesto anti-guerra da história dos Estados Unidos, contra o conflito que então tinha lugar no Vietname: uma manifestação quase totalmente pacífica de meio milhão de pessoas, que se integrou num vasto movimento que percorreu a América, de S. Francisco a Boston, e não só. Apesar disso e como é sabido, a guerra em questão iria durar ainda quase seis anos, até 30 de Abril de 1975.

No protesto de Washington participaram políticos como Eugene McCarthy, George McGovern e Charles Goodell e cantores como Peter, Paul and Mary, Arlo Guthrie, John Denver e Pete Seeger que interpretou a celebérrimo canção «Give Peace a Chance» (lançada por John Lennon na Primavera desse ano), juntamente com os outros cantores e com a multidão que a terá repetido durante dez minutos.




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