25.8.21

25.08.1988 – Quando o Chiado ardeu

 


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Sei onde estiveste no inverno de há vinte anos



 

«O tempo pode ser cruel quando a memória nos serve: há vinte anos, um jornal de referência titulava a duas páginas “Guerra ao Islão”, os vigilantes admoestavam severamente quem se atrevesse a duvidar da ordem de Bush, “não há mas”, só a obediência total era permitida. Mário Soares e Maria de Lurdes Pintasilgo, entre quem criticou a ideia selvagem da guerra para impor um regime, foram apontados como capituladores e comparados a Chamberlin perante Hitler. No parlamento, Assis admoestava Soares e comparava-se a si próprio a Churchill em nome do “partido da guerra”, para Cabul todos e em força, enquanto os partidos de direita lamentavam que Portugal não tivesse a força operacional para ajudar a ocupar outros países. Foi-nos garantido que o Bem triunfaria sobre o Mal na senda das bombas que iriam civilizar o Afeganistão.

Vinte anos depois, esta narrativa tropeça na realidade, mas ainda é enunciada nos recônditos da ideologia. Um dos bilhetistas do Correio da Manhã reduz o caso ao anedótico: “As tropas americanas deviam e podem ser uma força para o Bem. E é por isso que a saída atrabiliária de Cabul dói: aos afegãos na carne, pelo abandono; ao mundo, por ver o Bem recuar”, depois de “duas décadas de belíssima liberdade das mulheres afegãs”. Ora, a “belíssima liberdade” foi um raro privilégio para as poucas mulheres que puderam estudar e, para a maioria das adolescentes, a continuação do analfabetismo e do casamento forçado; a “força para o bem” foi a generosa corrupção que permitiu triplicar a área dedicada à produção do ópio. E, se o Bem tanto fazia pela civilização, porque negociou com o Mal e lhe cedeu o país? E logo o campeão do Bem, Donald Trump, e o seu sucessor, Joseph Biden, irmanados na entrega do poder ao Mal?

Como não há nenhum dos chefes do “partido da guerra” que agora venha dizer que continuará a ocupação, soa a falso toda a sua prosápia recente (quem foi que disse Chamberlin?). Diz Merkel que foram cometidos “muitos erros” e que a “comunidade internacional se enganou por completo na avaliação da situação”. A comunidade internacional, aqui, é a Nato, ou seja, ela própria e os seus aliados. O que ela não nos diz é se a derrota militar e política podia ser evitada, se é possível criar um regime a partir de uma ocupação estrangeira, ou o que queria fazer depois de criado o problema desde esses dias sinistros em que os EUA e o Paquistão financiaram e apoiaram o que hoje chamamos talibãs, naquele tempo em que a “belíssima liberdade” das mulheres não interessava. Os talibãs são filhos do império e do obscurantismo, quando os meios não olhavam para os fins.

Por isso, dizendo ou não dizendo o que querem fazer agora com os “muitos erros”, o que não nos podem pedir é que esqueçamos como andaram nas últimas décadas a destruir aquele país. Chamem-lhe o Bem e o Mal, mas volta-se a descobrir que entre os que se consideram mais civilizados estão os mais selvagens, que usam a guerra como um brinquedo.»

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24.8.21

20 anos depois

 

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24.08.1916 – Léo Ferré

 


Léo Ferré nasceu no Mónaco, o pai trabalhava no Casino, a mãe era costureira e Léo, com 7 anos, já cantava no coro da catedral.

Deixou-nos preciosidades que resistem a todas as décadas, com letras suas ou de Aragon, Rimbaud e mais uns tantos. Três entre muitas outras:






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Afegãs – «Esperança? O que é esperança?»

 


«Sajida tinha 22 anos quando esta fotografia foi tirada (em 2016, por Lalage Snow).

"Nunca fui à escola porque sempre houve combates na zona onde vivia e depois os Taliban chegaram. O meu pai é deficiente (um produto da guerra), o meu irmão mais velho morreu. Não me casaram porque sou eu que mantenho a família. Bebemos chá e comemos pão. Tudo o que ganho é para pagar as propinas das minhas irmãs, para que possam estudar, ser professoras e ter uma vida melhor que a minha."

Agora regressaram os Taliban. Que esperança?»

Helena Ferro Gouveia no Facebook
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Liberdade e censura

 


«Em muitos aspetos, Portugal sofre as consequências da sua história. E isso é evidente no que diz respeito ao jornalismo que se pratica. E nas relações que os cidadãos reclamam ter com os jornais e que estes procuram manter com eles.

Comparados com os de boa parte dos países da Europa ocidental, o aparecimento e o desenvolvimento da imprensa em Portugal são tardios. Que se trate da instalação do primeiro prelo, como dos lançamentos do primeiro semanário ou do primeiro diário. Até porque em termos de geografia física como de geopolítica, Portugal viveu longe da Europa onde se operavam as grandes iniciativas na matéria. Mas também porque a Igreja Católica tudo fez, aqui como noutros países de influência católica, para manter “o povo de Deus” no analfabetismo (ao contrário do protestantismo que quis que ele pudesse ter diretamente acesso à Bíblia e demais “textos sagrados”).

Consequência deste vasto analfabetismo, quando a imprensa dita popular surge, os grandes títulos como o Diário de Notícias (em 1865) e O Século (em 1881) nunca atingem tiragens de diários de países europeus com demografias comparáveis. A instabilidade política e social da Primeira República, e a repressão permanente do Estado Novo em nada contribuíram para a afirmação de uma imprensa e de um jornalismo fortes. E Portugal chega ao 25 de Abril com uma taxa de analfabetismo elevada e sendo um dos raríssimos países da Europa ocidental a não dispor de uma formação académica em jornalismo. Até mesmo os comparsas fascista, nazi e franquista do salazarismo tinham criado escolas nesta área profissional.

Quando Portugal pode enfim viver em liberdade e democracia, condições indispensáveis a uma prática jornalística no sentido forte do termo, o país encontra-se com uma “classe” desprovida de sólida formação profissional e geralmente mesmo de formação superior em qualquer outra área. “Classe” que se manterá aterrada pela dolorosa lembrança da Censura e da autocensura. Enquanto jornalistas e leitores, à imagem da eclosão social a que o 25 Abril abriu portas, passam a adotar uma conceção desabrida da liberdade, marcada pelo ferrete do individualismo. O que leva jornais e jornalistas a práticas insustentáveis e de certo modo suicidárias.

Porque um jornal é uma entidade com personalidade própria, necessariamente dotada de sensibilidade, de coluna vertebral, em conformidade com um projeto societal inicial. Condições essenciais para tornar possível a proximidade e a identificação com o seu público. Pelo que não pode ser uma manta de retalhos de conteúdos heteroclíticos em termos de démarche intelectual e de prática profissional. Muito menos uma espécie de painel de afixação onde qualquer colaborador exterior ou simples leitor pode publicar aquilo que lhe dá na real gana, à revelia dos princípios editoriais que norteiam o jornal.

A paisagem jornalística escrita portuguesa é terrivelmente pobre em termos de diversidade: os pretensos diários “nacionais” generalistas impressos não são mais de cinco, a que vem juntar-se um digital mais ideológico do que informativo. O que explica que os editores (no sentido original da palavra) façam estranhos cálculos de base: o jornal não deve tomar posição nos grandes debates de sociedade e tem que ser aberto às posições mais contrastadas e até contraditórias, em nome de um extravagante pluralismo. Pensam assim ser capazes de acolher toda a espécie de públicos, quando de facto fazem afastar muitos dos que foram fiéis leitores.

Perante a seleção de “peças” que correspondem ao projeto editorial, à qualidade de escrita e de argumentação do jornal, os autores (internos e externos) cujas produção é excluída rotulam isso de “censura”. Quando se trata quase sempre de simples aplicação de critérios editoriais previamente definidos e consignados por vezes num “livro de estilo” cuja preocupação prioritária é a qualidade do conteúdo proposto aos leitores. Uma séria aplicação destes critérios e uma exigente produção jornalística supõe, porém, uma equipa de redação qualificada numerosa. Como implica uma formação teórica e prática prévia que não parece ser o que propõem as escolas de (ciências da) comunicação bem pouco jornalísticas que proliferam pelo país fora…»

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23.8.21

23.08.1927 – Sacco & Vanzetti

 


Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram acusados do homicídio de duas pessoas, nos Estados Unidos, e acabaram por ser condenados à pena de morte e electrocutados em 23 de Agosto de 1927, apesar de, cerca de dois anos antes, uma outra pessoa ter confessado ser autora dos crimes.

Na sessão do tribunal em que a sentença da condenação foi lida, Vanzetti incluiu o seguinte nas suas longas declarações finais:

«I would not wish to a dog or to a snake, to the most low and misfortunate creature of the earth. I would not wish to any of them what I have had to suffer for things that I am not guilty of. But my conviction is that I have suffered for things that I am guilty of. I am suffering because I am a radical and indeed I am a radical; I have suffered because I am an Italian and indeed I am an Italian...if you could execute me two times, and if I could be reborn two other times, I would live again to do what I have done already.»

Nunca pararam as reacções e os protestos contra um caso que, com toda a sua trama, passou a funcionar como um símbolo de desrespeito flagrante pelos princípios da justiça na América.

Deu origem a um filme, inspirou escritores, pintores, músicos como Woody Guthrie. Joan Baez viria a consagrar uma das canções mais divulgadas, até Dulce Pontes interpretou «The Ballad of Sacco e Vanzetti», etc., etc.







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Balanço de um almoço com menos confinamento

 


Entrou hoje em vigor a regra que permite aos restaurantes sentarem mais clientes à mesa, no interior e nas esplanadas. Tudo bem. Qual é a consequência? O espaço foi reorganizado juntando mesas para mais pessoas e foram quase eliminadas as que só podem albergar uma ou duas. Resultado? Quem almoça sozinho, ou só com um parceiro, tem de ir muito antes das 13h ou depois das 14 e tal. Sim, porque está tudo bem mais cheio de grupos do que antes da pandemia (e sem um único turista). E hoje é segunda-feira. Mistérios…
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A questão não é em quem não se vota. É não votar

 


«Meio século de voto feminino sem restrições, sistemas de quotas e leis de paridade para confirmar que também há mulheres nos boletins de voto não chegaram para garantir que os portugueses votam nelas. Uma primeira-ministra, 39 ministras e 69 presidentes de câmara eleitas é o saldo de quase 50 anos de democracia em Portugal. Não por falta de escolha ou de medidas que forcem o equilíbrio nas listas. Simplesmente os portugueses que votam - mulheres incluídas - preferem votar em homens.

Esta estatística é reveladora de um problema bem mais grave do que o da paridade - mas que também a condiciona: desde 1979, a abstenção nas eleições tem subido sustentadamente, sendo cada vez menos aqueles que elegem os supostos representantes de todos os portugueses. Seja para as autárquicas (45% em 2017), para a Assembleia da República (51,4% em 2019) ou para a presidência (60,8% em janeiro deste ano), a abstenção é que verdadeiramente ganha eleições neste país. E nem sequer entremos pelas europeias, que definem a nossa voz nos centros de decisão europeus e há 30 anos que não merecem a atenção de mais de um terço dos cidadãos deste triângulo periférico e cada vez mais atrasado relativamente aos seus parceiros de continente.

Os portugueses deixaram de votar. Não veem utilidade em fazê-lo, não se reveem nos partidos, nas suas propostas ou naqueles que lhes dão voz, não encontram ideias de valor nos programas eleitorais ou simplesmente não entendem que demitir-se de participar na escolha é abrir espaço a que decidam por eles - quantas vezes contra eles. E com essa falta de ação não só viabilizam e precipitam o enfraquecimento da democracia como a pobreza intelectual daqueles que se disponibilizam para a representar.

O que é mais grave, porém, nem é o comportamento dessa metade dos portugueses que não vai às urnas. É que quem está em posições de liderança pública não veja nesse afastamento da participação política e cívica sinais de alarme, caminhando alegremente em direção ao abismo - por distração, por ignorância ou por preferir empenhar as possibilidades que o país teria se contasse com todos os seus a troco de manter um status quo podre que alimenta a clientela estabelecida.

Ter apenas metade dos eleitores a escolher os destinos do país e quem decide sobre o futuro de todos é pior que mau. Sobretudo quando grande parte desses que se abstêm são os mais jovens, aqueles que vão herdar os efeitos das decisões tomadas, que não querem viver de esmolas mas não conseguem emprego com salários que lhes permitam sair de casa dos pais antes dos 35 anos, que acabam por preferir emigrar porque este país é cada vez menos para eles.

Esses que não votam - cujo intervalo se alargou para a faixa dos 18 aos 44 anos - já têm os objetivos de sustentabilidade (económica, ambiental, social) gravados no ADN. Esses que não se reveem neste sistema político são nativos digitais e movem-se pelo sentido de pertença a algo maior do que eles, não pela garantia de empregos para a vida. Esses que não participam não precisariam de quotas para eleger mais mulheres. Mas para eles ninguém fala. E não há quem verdadeiramente se preocupe com isso.»

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22.8.21

Autárquicas 2021 – A Palma de Ouro vai para…

 


… estes dois outdoors do PSD. Como alguém comentou, isto tem ares de Auschwitz 2.0.
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Aquecimento Global

 


É mesmo a sério.
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O pesadelo de Biden

 


«O grande acontecimento era a retirada americana do Afeganistão. Mas o colapso do exército e do governo afegãos, aliados à incompetência americana, criaram um explosivo foco de crise, que pode passar de Cabul para Washington. “Os próximos dias serão decisivos”, avisa Ian Bremmer, analista de estratégia.

Todas as opções do Presidente Biden eram más. A pior seria denunciar o acordo de Fevereiro de 2020, celebrado entre a Administração Trump e os taliban, prevendo uma retirada militar em Maio deste ano. Significaria reacender uma guerra perdida e o risco de escalada militar.

A retirada é benéfica para a posição internacional dos Estados Unidos. Entretanto, surgiu a catástrofe: uma estranha acumulação de erros ameaça anular os efeitos da retirada, transformando-a em humilhação e abrindo uma crise na própria América. Lá iremos.

A guerra do Afeganistão estava perdida desde o tempo de George W. Bush, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque. É inútil repetir factos e argumentos. Quando uma guerra está perdida, resta pôr-lhe fim. Este debate dividiu a elite dirigente americana desde 2009, quando Barack Obama se resignou a aceitar um reforço das tropas para o Afeganistão numa estratégia de contra-insurreição.

A retirada não significa o declínio internacional dos Estados Unidos. Houve um raro “momento unipolar” em que os EUA se imaginaram como hiperpotência planetária. Esse “momento unipolar” acabou com a derrapagem da guerra no Iraque e com a crise financeira de 2007. O fim da “arrogância imperial” não impediu que os EUA continuem a ser a primeira superpotência. Antes significa que não têm força e legitimidade para fazer o que lhe apetece. Hoje, travam uma longa batalha com a China sobre a hegemonia mundial. Hegemonias improváveis num mundo decididamente multipolar.

É muito arriscado fazer comparações históricas. Podemos, no entanto, usá-las a título de ironia. As imagens de Cabul fizeram lembrar as de Saigão em 1975. E o Afeganistão foi apontado como o “Vietname de 2021”. A comparação é imperfeita, porque os americanos já tinham retirado as suas tropas quando o Vietname do Norte lançou a ofensiva geral no Sul.

Na época, a União Soviética terá interpretado a retirada americana como sinal de inexorável declínio estratégico americano. Invadiu o Afeganistão e implantou-se em África. Qual foi o desfecho? Quinze anos depois da queda de Saigão, os Estados Unidos assumiam a hegemonia mundial enquanto a União Soviética se desintegrava.

O ponto de vista da Ásia

É útil interrogar a repercussão da retirada do Afeganistão entre os aliados asiáticos dos EUA. Eles atribuíram o fracasso da “viragem para Ásia” da Administração Obama à persistência do seu atolamento no Médio Oriente. Explica Hiroyuki Akita, analista do Nikkei, o grande diário económico japonês: “Agora, os países asiáticos estão a procurar saber atentamente se o fim do envolvimento militar no Afeganistão afectará a política do Presidente Biden para a região do Indo-Pacífico. Os governos, de Tóquio a Taipé, não acreditam que a agitação no Afeganistão tenha repercussões negativas para o Indo-Pacífico, e não só pela importância geo-estratégica da região. Pelo contrário, saúdam a retirada do Afeganistão na medida em que permite a Washington envolver-se mais profundamente no Indo-Pacífico.”

É evidente que a Rússia e a China procurarão preencher o vazio deixado pela retirada americana. Pequim é um sério candidato, esperando retirar grandes vantagens económicas. Mas a região do Indo-Pacífico substituiu o “grande Médio Oriente” como palco principal da política internacional.

Os países da região querem manter um equilíbrio perante a ascensão da China mas recusam uma ordem regional dominada por Pequim. Há acordos económicos a refazer depois da desastrada retirada americana da Parceria Trans-Pacífico, por Donald Trump.

Acrescenta Akita: “Do ponto de vista da segurança, aliados como o Japão querem desempenhar um papel muito maior. É muito claro. O que falta são medidas concretas dos Estados Unidos e dos seus aliados para estabelecer uma nova divisão das responsabilidades na manutenção da estabilidade no Indo-Pacífico.”

Dirigindo-se sobretudo à Europa, o analista britânico Robin Niblett, director do think tank Chatham House, escreve pragmaticamente: “Os aliados dos Estados Unidos sabem que Washington precisa deles mais do que nunca”.

Por outro lado, tal como o falhanço no Vietname não travou o domínio económico e geopolítico, “também o caótico êxodo do Afeganistão não anuncia um declínio global no século XXI”. Conclui Niblett: “O poderio nas relações internacionais é sempre relativo. E, em termos relativos, os Estados Unidos irão muito mais longe, estrutural e socialmente, do que os dois principais rivais geopolíticos, em especial se trabalharem intimamente com os seus aliados.”»

Do lado da América

“A desastrosa retirada americana do Afeganistão representa a primeira verdadeira crise da Administração Biden em política externa”, escreve Bremmer. “A culpa não pode ser atribuída à declaração de retirada: foi um erro de aplicação, não um erro estratégico.” Aquela que era um a decisão difícil e justa deu lugar a uma catástrofe.

Comentando o desastre, Francis Fukuyama chama a atenção para outro plano: “A verdade é que o fim da era americana começou muito antes. E as fontes a longo prazo da fraqueza e do declínio americanos são mais domésticas do que internacionais.” Após o pico da sua hegemonia, entre 1989 e 2007, “o auge da hubris americana foi a invasão do Iraque, em 2003, quando concebia refazer não só o Afeganistão (invadido antes), mas todo o Médio Oriente.”

Sublinha: “O maior desafio ao estatuto internacional da América é doméstico. A sociedade americana está profundamente polarizada e tem dificuldade em encontrar consensos seja sobre o que for. (…) A polarização já prejudicou a influência global da América.”

O Afeganistão tem sido um tema secundário para a opinião pública americana, focada na covid-19 ou na economia. A retirada das tropas é bem vista num país cansado de “guerras eternas”. No entanto, a situação pode inesperadamente mudar e voltar-se contra Biden.

“O pior ainda está para vir”, avisam correspondentes. Ontem, em Cabul, havia cerca de 10.000 civis americanos a repatriar e talvez 80.000 afegãos com dupla nacionalidade, com a green card ou com um visto. E muitos cidadãos americanos ou binacionais terão de atravessar um território controlado pelos taliban.

O risco de incidentes é altíssimo. Se um americano for feito prisioneiro ou refém, a situação torna-se explosiva, não só em Cabul, mas também na até agora indiferente opinião pública americana. É o pesadelo de Biden, dos seus aliados e, provavelmente, dos adversários. A crise mudaria subitamente de natureza.»

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