1.12.21

Porque é que ainda os oiço?

 


«Estive a fazer uma lista das previsões realizadas nas últimas 72 horas pelos analistas, jornalistas e comentadores políticos que pululam por aí: são muitos, mas a esmagadora maioria pensa mais ou menos da mesma maneira, o que é monótono. Como espetáculo é mesmo uma maçada. Porém, por isso mesmo, é fácil fazer uma síntese do que encontrei:

António Costa pode ganhar as eleições legislativas de 30 de janeiro.

Rui Rio pode ganhar as eleições legislativas de 30 de janeiro.

Vai haver Bloco Central.

A crise política favorece o Chega.

A crise política prejudica o PCP.

A crise política afeta o Bloco.

O CDS vai desaparecer.

A Iniciativa Liberal pode subir.

Do PAN não se fala mas pode ir para um governo PS.

Vamos ter crises políticas sucessivas.

A seguir fui fazer uma lista das previsões falhadas e das notícias erradas nos últimos seis anos e que foram transmitidas ao povo português pelos tais analistas, jornalistas e comentadores políticos, essa pequena multidão freneticamente preocupada, minuto a minuto, com os destinos da Nação.

Lembrei-me destas:

Paulo Rangel ia ganhar as eleições internas do PSD e Rui Rio saia da vida política.

Fernando Medina ia ganhar as eleições na Câmara de Lisboa.

O PCP ia aprovar todos os orçamentos do PS.

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, ia ser "remodelado".

Em eleições legislativas, Rui Rio iria ter o pior resultado de sempre do PSD.

Francisco Rodrigues dos Santos ia perder a liderança do CDS.

Nuno Melo ia conquistar o CDS.

O PSD de Rio não ia aceitar o apoio do Chega nos Açores.

O Chega ia roubar votos à CDU nas autárquicas.

A Iniciativa Liberal ia ter imensos votos em Lisboa.

António Costa ia remodelar o governo.

Passos Coelho ia voltar.

O PS ia conseguir aprovar todos os orçamentos da legislatura.

Em eleições legislativas, Rui Rio iria afundar o PSD.

Marcelo achava que Costa ia para Bruxelas.

Os cuidados intensivos não iam aguentar a pandemia.

O Serviço Nacional de Saúde ia entrar em colapso.

A ministra da Saúde, Marta Temido, ia ser "remodelada".

Passo Coelho ia voltar.

A Festa do "Avante!" ia espalhar a pandemia.

Iam faltar testes à Covid-19.

A União Europeia ia entregar vacinas rapidamente.

Luís Montenegro ia vencer Rui Rio.

Costa ia convencer Centeno a ficar no novo governo.

Rui Rio ia ser uma tragédia para o PSD.

A "geringonça", na segunda legislatura, ia ter um acordo escrito.

António Costa ia demitir-se por causa da lei de contagem do tempo de carreira dos professores.

O ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues ia ser "remodelado".

O roubo de Tancos ia ser classificado como "ato terrorista".

Joana Marques Vidal ia sair da Procuradoria-Geral da República.

Joana Marques Vidal ia ficar na Procuradoria-Geral da República.

Afinal, Joana Marques Vidal saiu mesmo da Procuradoria-Geral da República.

Passos Coelho ia voltar.

Assunção Cristas ia fazer do CDS o maior partido da direita.

Rui Rio ia perder para Santana Lopes.

Não ia ser possível aumentar reformas e pensões.

O IRS não ia baixar.

O Novo Banco não ia custar dinheiro aos contribuintes.

A União Europeia ia sancionar Portugal por causa das medidas da "geringonça".

O "rating" da dívida pública de Portugal ia descer.

Os juros da dívida iam subir.

Passos Coelho ia ficar na oposição.

Marcelo não ia aceitar as contas orçamentais de António Costa.

António Costa ia demitir o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

O PS não ia aceitar as exigências do PCP e Bloco.

A "geringonça" não ia cumprir os compromissos com Bruxelas.

A "geringonça" ia levar o país à bancarrota.

A "geringonça" só ia durar um ano.

Cavaco Silva não ia dar posse a um governo apoiado por PCP e Bloco.

Não ia haver governo PS.

Faço então um balanço sobre a utilidade, o rigor e a inteligência do jornalismo político português e, irritado, espanto-me com a minha estupidez de viciado em intriga palaciana: mas por que carga de água ainda oiço esta gente, que nada diz ao país?!»

30.11.21

A Ribeira

 


Ribeira, Porto, anos 50/60.
Fotografia de Artur Pastor.
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Marcelo e a Eutanásia (2)

 


Leituras:

Marcelo e a Eutanásia

 

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No limite do tempo

 


[Excerto]

«Volvidas décadas de avisos de cientistas, ativistas pelo clima, discursos políticos e apelos de personalidades diversas, continuamos sem ser capazes de responder à situação de emergência climática em que nos encontramos.

As discussões continuam centradas na (fundamental, mas não suficiente) transição energética e na ideia de dissociação (decoupling) do crescimento económico da exploração de recursos naturais finitos.

Embora a via do decoupling pareça atrativa, na verdade esta peca por continuar a insistir no crescimento económico como condição necessária para o conforto e bem-estar das populações, e por perpetuar esta ilusão de que é possível mudar continuando na mesma. Ou seja, defende-se, e bem, que é necessário estancar a exploração dos recursos naturais, mas continua-se a aspirar a um “crescimento sustentado”, evitando-se confrontar o sistema económico vigente que pretende serem possíveis níveis de crescimento infinitos num planeta finito.

Ao invés de se falar no decoupling do crescimento económico da exploração de recursos naturais, é imprescindível discutir-se o decoupling do bem-estar económico e social das populações do crescimento económico.

Em vez de nos focarmos unicamente em encontrar soluções (mais) verdes para continuar a produzir e a consumir este mundo e o outro, devíamos estar já muito mais focados em discutir como e em quê reduzir produção e consumo.

Em lugar de discussões em torno de como continuar a aumentar produção e consumo sem causar mais dano ao ambiente, importa isso sim questionar a necessidade dos aumentos de produção e consumo em si mesmos. Para quê insistir no aumento de produção se hoje 1/3 dos bens alimentares produzidos não chegam a alimentar ninguém, se 30% da produção de roupa em todo o mundo é descartada sem chegar a ser vendida, se um carro passa mais de 90% da sua vida útil parado? E do lado do consumo, não estamos cansados de saber que, na generalidade dos países do hemisfério Norte, comemos em demasia, compramos e descartamos roupa a uma velocidade incomportável, deslocamo-nos em excesso e trocamos de equipamentos tecnológicos com demasiada frequência?

À semelhança do guloso que espera um medicamento que lhe permita ingerir calorias sem aumentar de peso, somos viciados em consumo que esperam um milagre tecnológico que nos permita não abdicar do vício. Estamos unicamente preocupados com a transição entre tecnologias, e pouco focados em mudar estilos de vida. O ponto não devia estar em trocar o carro a gasóleo pelo elétrico, o plástico por papel ou a roupa de poliéster pela de algodão orgânico. Qualquer solução que a tecnologia traga terá impactos ambientais, pelo que o ponto fulcral tem de estar em menos deslocações (e muito menos deslocações em transporte individual), menos embalagens, menos roupa, etc, etc. Esta discussão é tão mais urgente se pensarmos que há milhões de indivíduos que ainda precisam de aumentar consumo para terem uma vida digna e confortável.

Qualquer aluno de economia aprende, nas primeiras aulas, que o grande desafio desta ciência social é procurar a utilização eficiente de recursos escassos para fazer face a necessidades ilimitadas. Que os recursos são escassos julgo que poucos terão ainda dúvidas, mas temos de começar a questionar-nos se serão mesmo as necessidades ilimitadas ou são ilimitadamente fabricadas pelo marketing, pressão social e aspirações de status

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29.11.21

O campo

 


Da série «Mundo rural», Alentejo, anos 40/50.
Fotografia de Artur Pastor.
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União Europeia

 


Fecha-se entre muros – de água nos mares, de arame em terra, com poucos aviões no ar.
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Uma legião de derrotados

 

«Rui Rio venceu o aparelho. Não me recordo de um caso em que essa vitória tenha sido mais clara, ainda mais com um limite bastante restrito de eleitores. Ou talvez, à última da hora, o aparelho se tenha dividido. Alguém que conheça melhor o partido conseguirá explicar como foi isto foi possível.

E voltou a derrotar as figuras do passado que se recusam a sair do palco. Sobretudo Passos Coelho e Cavaco Silva. O último, de forma direta e quase sempre sem o decoro que se esperaria de um antigo Presidente da República. A intervenção de Passos foi sempre mais discreta e por interpostas pessoas. Nunca conformados com a maioria de esquerda de 2015, os passistas esperam há anos que o povo se mostre agradecido pelo tempo em que se foi para além da troika. E desde que Rui Rio venceu que deixaram claro que o consideram um líder ilegítimo, em contraciclo com a radicalização ideológica que defendem. No sábado, apesar do apoio descarado da comunicação social, os passistas foram mais uma vez humilhados. Porque o seu maior objetivo não era tirar os socialistas do poder, era recuperar a liderança da direita que só lhes caiu no colo, no fim do socratismo, por um acidente histórico.

Depois, há aquele para quem este resultado não foi uma boa notícia: António Costa. A estratégia de dramatização para o voto útil que resultaria com Rangel e a sua tropa é mais difícil com Rui Rio. E o centro já não está no papo. Como já mostrou várias vezes, não é boa ideia subestimar Rui Rio.»

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Duas pandemias?

 


«No dia em que a Europa interditou os voos de e para Maputo, Moçambique tinha registado cinco novos casos de infecção, zero internamentos e zero mortes por covid-19. Nos restantes países da África Austral a situação era semelhante. Em contrapartida, a maioria dos países europeus enfrentava uma dramática onda de novas infecções.

Cientistas sul-africanos foram capazes de detectar e sequenciar uma nova variante do SARS-CoV-2. No mesmo instante, divulgaram de forma transparente a sua descoberta. Ao invés de um aplauso, o país foi castigado. Junto com a África do Sul, os países vizinhos foram igualmente penalizados. Em vez de se oferecer para trabalhar juntos com os africanos, os governos europeus viraram costas e fecharam-se sobre os seus próprios assuntos.

Não se fecham fronteiras, fecham-se pessoas. Fecham-se economias, sociedades, caminhos para o progresso. A penalização a que agora somos sujeitos vai agravar o terrível empobrecimento que os cidadãos destes países estão sendo sujeitos devido ao isolamento imposto pela pandemia.

Mais uma vez, a ciência ficou refém da política. Uma vez mais, o medo toldou a razão. Uma vez mais, o egoísmo prevaleceu. A falta de solidariedade já estava presente (e aceite com naturalidade) na chocante desigualdade na distribuição das vacinas. Enquanto, a Europa discute a quarta e quinta dose, a grande maioria dos africanos não beneficiou de uma simples dose. Países africanos, como o Botswana, que pagaram pelas vacinas verificaram, com espanto, que essas vacinas foram desviadas para as nações mais ricas.

O continente europeu que se proclama o berço da ciência esqueceu-se dos mais básicos princípios científicos. Sem se ter prova da origem geográfica desta variante e sem nenhuma prova da sua verdadeira gravidade, os governos europeus impuseram restrições imediatas na circulação de pessoas. Os governos fizeram o mais fácil e o menos eficaz: ergueram muros para criar uma falsa ilusão de protecção. Era previsível que novas variantes surgissem dentro e fora dos muros erguidos pela Europa. Só que não há dentro nem fora. Os vírus sofrem mutações sem distinção geográfica. Pode haver dois sentimentos de justiça. Mas não há duas pandemias.

Os países africanos foram uma vez mais discriminados. As implicações económicas e sociais destas recentes medidas são fáceis de imaginar. Mas a África Austral está longe, demasiado longe. Já não se trata apenas de falta de solidariedade. Trata-se de agir contra a ciência e contra a humanidade.»

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28.11.21

Uma maldadezinha. Ou não

 

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Entreajuda

 

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Parece que estou a ver

 


«Tenho ali uma fotografia dela: estamos a cara uma da outra.” Maria ainda se lembra da avó. Era a chefe da família. Numa altura em que as crianças abandonavam a escola para irem trabalhar, a senhora fez questão de que os filhos estudassem. “Naquele tempo, no Montijo, era muito raro.” Os quatro filhos e o pai andavam todos sob a sua batuta. Tinha muito pouca instrução, mas “falava e escrevia muito bem e sabia que a educação era uma coisa importante”. A neta está na sala de sua casa, encostada ao cadeirão. Já não é a mulher que foi aos 40 anos. O cabelo está grisalho, apanhado na nuca. Na testa, a ruga não consegue mascarar a ansiedade. “Eu quando era nova, era muito autoritária. Saio à minha avó. Agora já não sou.”

“Ainda me lembro dos cartuchos de amendoins que ela me dava sempre. Eram uns cartuchos pequeninos. Parece que estou a ver o armário onde ela os guardava.” Diz “Parece que estou a ver” e, olhando-me, já não me olha. Vê o armário de cozinha — vejo-o pelos seus olhos. Armário de duas portas tapadas com duas cortinas. Parece que os vemos. Os amendoins que a avó descascou, sobre a bancada. A sertã em que os torra. O cheiro de amendoim torrado, espalhado na cozinha. Os cartuchos de papel manteiga azul enrolados pelas mãos enrugadas da senhora.

“Andavam todos muito engomados, o marido e os filhos, enchapelados. À saída de casa, a mãe punha-os em fila e dava 25 tostões a cada um. 25 tostões era uma fortuna. Eles lá iam com o dinheiro. Mas não era para gastar. Era só para não fazerem má figura, no caso de ser preciso. Ao fim do dia, quando chegavam a casa, ela recolhia os 25 tostões que lhes tinha dado à saída. Era uma senhora assim. Não queria que os homens da casa passassem por desgraçados.” Vejo-os aos cinco, que não conheci nenhum. Engomados e cheirosos de manhã. Estafados do trabalho, à chegada, a devolverem os 25 tostões, que a senhora guarda num saquinho de veludo debaixo da almofada.

Procuro pela senhora em Maria, que não sei quem procuro. Talvez esteja no preceito com que trata da casa e dos seus. Talvez no desejo de não fazer má figura. Fico de ver uma fotografia da avó de Maria, mas ela não a encontra, e não confirmo a parecença. Mas parece que conversa comigo pela tarde, parece que a estou a ver, parece falar pela boca da neta, fosse ela, a ausente, quem finge distrair-se com memórias, no abismo do resultado próximo de exames médicos. Os dias mais belos são aqueles que passam mais despercebidos, entre os domingos e as terças-feiras, horas que parecemos estar a viver, mas nunca vimos. Sentada junto a Maria, estou perante um país que acabou, e do qual apenas sobrámos nós.»

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