19.9.23

Duas portas

 


Portas Arte Nova da Casa Calise, Buenos Aires, 1911-1913.
Arquitecto: Virginio Colombo.

Daqui.
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Entretanto en Derna, na Líbia

 


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Simon & Garfunkel no Central Park – Há 42 anos

 


Em 19.09.1981, teve lugar o memorável concerto que Simon & Garfunkel deram no Central Park de Nova Iorque. Reza a história que assistiram 500.000 pessoas e foi gravado ao vivo, dando origem a um álbum lançado no ano seguinte. Os lucros obtidos reverteram para a reforma e manutenção do parque e nós herdámos um espectáculo inesquecível.

Vídeos com quatro das grandes canções e outro com o concerto na íntegra AQUI.
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Carta aberta de um jovem emigrante a António Costa

 


«Caro primeiro-ministro,

Antes de mais, deixe-me congratulá-lo por apresentar um conjunto de propostas destinadas àqueles que estão agora a entrar no mercado de trabalho. Sem ponta de ironia, é muito positivo ver a geração jovem entrar finalmente na agenda do governo. Enfim, estou de acordo com o Presidente Marcelo quando este diz que são medidas eleitoralistas (o segmento jovem é aquele onde o PS parece ter menos penetração), mas não deixa de ser algo positivo.

Os elogios, contudo, terminam por aqui. É que, além de algumas mexidas no IRS jovem e de umas quantas propostas-cartaz inócuas, a única proposta realmente substantiva é a devolução do valor das propinas a um recém-formado caso se fixe em Portugal. São cerca de 700 euros por ano (1500 euros nos mestrados), não chega a 60€ por mês. Coloquemos estes números em perspectiva, comparando a realidade portuguesa e a realidade belga, com base na minha experiência.

Tomemos o cabaz de bens essenciais definido pela DECO para fazer uma comparação entre os preços praticados no Continente e no Colruyt (uma cadeira de supermercados belga muito popular), excluindo da análise alguns produtos que só estão disponíveis no supermercado português.

Enquanto um cliente do Continente gastará aproximadamente 225 euros por mês, um cliente do Colruyt gastará cerca de 280. A principal diferença está no preço da carne e de algum peixe (especialmente salmão e pescada), que pode ser até quatro vezes mais caro no Colruyt. De resto, as diferenças são mínimas, em produtos agrícolas, comprar no Continente pode até mesmo ser mais caro.

No que toca à habitação, as diferenças também não são abismais, e nalguns casos Portugal até fica mal. Por exemplo, de acordo com a plataforma Numbeo, enquanto a renda de um T1 no centro de Lisboa custa em média 1300 euros, no centro de Bruxelas é 300 euros mais barata.

Nos subúrbios, os preços são equivalentes. Dirá o senhor primeiro-ministro que Lisboa tem problemas próprios, e eu concordo. Comparemos então Coimbra e Leuven, as principais cidades universitárias nos seus países.

De acordo com a mesma plataforma, a média do aluguer de um T1 no centro de Coimbra é de 610 euros, enquanto em Leuven cifra-se nos 830. Ainda assim, o extracto mensal deste que lhe escreve atesta que é possível encontrar oferta bem mais barata em Leuven, na faixa dos 600 euros.

Por fim, um morador de Leuven gasta sensivelmente o dobro de um conimbricense nas contas mensais de electricidade, aquecimento, água, etc., embora os números na plataforma Numbeo estejam bem acima dos cerca de 120 euros por mim pagos a cada mês.

Se não for estudante, também gastará um pouco mais em transportes públicos, mas como tem a sorte de morar numa cidade amiga da bicicleta e onde é raro os autocarros se incendiarem (coisa em que a frota dos SMTUC é pródiga), um leuvenaar não precisa de um carro e pode por isso poupar em combustível (que, já agora, é em média ligeiramente mais barato na Bélgica).

Tudo somado, o custo de vida será cerca de 25 a 30% superior na Bélgica do que em Portugal. Isto assumindo, claro, que não se mora no centro de Lisboa, onde não estou certo sequer que o custo de vida seja mais barato do que no país onde estou radicado.

Ora, se nas despesas as diferenças não são assim tão grandes, o mesmo não se pode dizer das receitas. Pois é, senhor primeiro-ministro, sem fazer grandes sacrifícios, ao fim de cada mês, qualquer diplomado na Bélgica consegue pôr de lado um valor dentro dos quatro dígitos.

Vou repetir. Descontados os impostos e pagas todas as despesas essenciais, sobram acima de 1000 euros a qualquer jovem qualificado, até mesmo aos que estão em início de carreira. Poupa mais um jovem belga num mês do que muitos jovens em Portugal recebem em termos brutos. Diga-me, senhor primeiro-ministro, posto isto, acha mesmo que os 60 euros mensais que oferece serão suficientes para fazer um recém-licenciado repensar a decisão de emigrar? Claro que não.

Este exercício foi feito com a Bélgica, mas podia muito bem ter sido com os Países Baixos, a Alemanha, a Dinamarca, qualquer um dos países que tem recebido, com agrado, recursos humanos de excelência sem ter pagado um cêntimo pela sua formação.

A realidade é simples: neste momento, só mesmo factores emocionais podem reter jovens qualificados em Portugal. No entanto, quando até morar sozinho é um luxo para muitos inatingível, não há amor a Portugal que chegue para resistir ao apelo de fazer as malas. Acredite, senhor primeiro-ministro, muitos adorariam ficar, só que as consequências das suas políticas simplesmente não lhes dão outra opção, e oportunidades tentadoras não faltam.

Por isso, senhor primeiro-ministro, deixe-se de medidas superficiais que nada resolvem. Deixe-se de tentar comprar os jovens com tostões e promessas vãs. Foque-se em impulsionar a economia portuguesa e em fazer chegar o seu crescimento aos portugueses, jovens e menos jovens, qualificados e não só, que a sangria não se cinge a quem tem canudo.

Foque-se em incentivar a boa gestão nos serviços públicos e em melhorar o funcionamento das instituições. Se for preciso, ganhe coragem e tome algumas decisões difíceis, talvez muito impopulares para quem o rodeia. Enfim, seja arrojado, pois só assim consegue devolver um horizonte de esperança a quem não o vislumbra dentro de portas.

Garanto-lhe que dessa forma conseguirá convencer muitos jovens licenciados a ficar. É que... Portugal será sempre o nosso Portugal. Se, em vez disso, preferir manter as coisas na mesma e ocasionalmente dar umas migalhas para acalmar as massas, não só não conseguirá estancar a emigração qualificada, como o resultado será inevitavelmente o desastre. Não poderá dizer que foi falta de aviso.

Com os melhores cumprimentos,

Um jovem emigrante»

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18.9.23

Regressam as portas

 


Porta da Casa Tallberg, Helsínquia, 1898.
Arquitectos: Herman Gesellius, Armas Lindgren e Eliel Saarinen.

Daqui.
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Greve na TSF

 


COMUNICADO:

Esta 4a feira, dia 20 de Setembro, a TSF - Rádio Notícias vai viver a primeira greve, só da rádio, em 35 anos de existência. Pelas 10h30, haverá uma concentração junto à sede, nas Torres de Lisboa.

Lutamos pelo desbloqueio de um processo negocial que começou em Fevereiro e que está parado desde Junho e cujo objectivo final é uma subida generalizada dos salários, que não acontece há praticamente duas décadas.

Em Junho, os trabalhadores decidiram “não rejeitar” uma proposta da Administração para esses ajustes salariais, mas, até hoje, essa proposta não foi aplicada. A administração também continua sem explicar porque não aplica uma proposta que foi por si apresentada!

Acrescem atrasos no pagamento dos salários de Julho e Agosto. No primeiro caso, os trabalhadores receberam um e-mail que justificava o atraso com um “problema operacional”; no segundo, não foi dada qualquer explicação.

Por fim, há cerca de uma semana, o director Domingos de Andrade foi afastado e substituído sem que o Conselho de Redacção se tenha pronunciado, conforme sua competência definida na lei. Reiteramos a confiança em Domingos de Andrade, provado que está o seu total e permanente respeito pelos valores da autonomia editorial da TSF e pela luta que sempre travou por uma rádio independente.

Foi este o episódio que levou o plenário a reunir-se na passada 2a feira, 11 de setembro, e, tendo em conta esta acumulação de situações, que consideramos desrespeitosas dos trabalhadores da TSF, aprovámos por unanimidade a realização de uma greve de 24 horas na próxima 4a feira, 20 de setembro, e uma concentração pelas 10h30 desde mesmo dia junto à sede da rádio, nas Torres de Lisboa.

Estão todos convidados a participar!

Obrigada!
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Jorge Sampaio

 


Seriam 84, hoje. Já não foram.

O gozo que dá recordar isto:

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O eterno retorno de Cavaco

 


«Quando o ainda relativamente jovem Paulo Portas garantia, como coisa definitiva, que nunca faria política na vida, declarou: “Acho injusto comparar o Dr. Cavaco ao Dr. Salazar. Injusto para o Dr. Salazar em muitas coisas. O Dr. Cavaco não é democrata nem deixa de ser. O Dr. Salazar era voluntariamente antidemocrático. Ou seja, tinha preocupações e pensamento político, o Dr. Cavaco não tem. O Dr. Salazar escrevia admiravelmente e era um cínico como não se repete na vida política portuguesa. E o Dr. Cavaco não escreve nem fala nada de especial, é mesmo muito maçador, e também não é tão cínico. Está longe desse ‘refinement’ no exercício do poder.” Perante a pergunta “então porque ganha eleições?”, o jornalista conservador respondeu: “pensões e autoestradas”.

É uso dizer-se que a esquerda nunca suportou Cavaco Silva por elitismo. A citação recorda de onde vinha esse tipo de desprezo. Justiça seja feita, foi esta direita elitista que exibiu com eficácia o lodaçal em que vivia um primeiro-ministro que se tentava apresentar com as vestes austeras do velho ditador: Dias Loureiro, Duarte Lima, Arlindo Carvalho, Costa Freire, Oliveira Costa... As capacidades de avaliação ética de quem o deveria rodear, uma das qualidades fundamentais para um líder, são mais uma vez evidentes na pessoa que escolheu para apresentar o seu livro, que até em Bruxelas conseguiu ficar mal visto por não ter cumprindo o período de nojo politicamente recomendável para se apresentar ao serviço na Goldman Sachs.

A imagem que Cavaco Silva passava de si nunca bateu certo com as suas companhias. Mas era mais do que isso. A forma como lidou com o escrutínio ao seu próprio comportamento nunca mudou. Em 2011, perante o regresso da acusação de que Oliveira Costa lhe teria vendido, fora de bolsa, ações da SLN a um euro (um mês depois eram vendidas aos clientes do BPN por 2,1) para dois anos depois lhe recomprar a 2,4 euros, garantindo, a si e à sua filha, um lucro de 147,5 mil euros e de 209,4 mil euros, respetivamente, disse: “façam as investigações que quiserem, publiquem tudo, que talvez depois de dia 23 (data das eleições) eu possa ler.” O homem que dizia que uma pensão de nove mil euros mal dava para as despesas estava-se nas tintas.

Quem diz que nunca se viveram tantos “casos e casinhos” como no governo de António Costa, ao ponto disso ser motivo para dissolução do parlamento, deveria ir aos arquivos de “O Independente”. Dará alguma vontade de rir ouvi-lo dar lições de como fazer remodelações, aliás.

Só a meio da sua segunda maioria absoluta é que Cavaco teve de lidar com uma comunicação social mais agressiva. A primeira vez que foi a votos sem que a RTP (que o governo controlava com empenho) estivesse sozinha no terreiro, nas presidenciais de 1996, perdeu. Perante as contrariedades, ou ignorava (orgulhava-se de não ler jornais), ou se enfurecia (ao Tribunal de Contas chamou “força de bloqueio”) ou, quando não havia mais a fazer, recorria à força da bastonada (estudantes, camionistas, trabalhadores, agricultores ou mesmo polícias). Para "arte de governar", já se viram métodos mais sofisticados.

A sobranceria moral de Cavaco, para quem é preciso nascer duas vezes para ser mais honesto do que ele, é tão inexplicável como a sua arrogância intelectual ou, cima de tudo isto, a convicção que pode dar lições de governação a quem o sucedeu. Não vale a pena desenvolver muito. Já me dediquei a isso quando escrevi sobre as suas políticas agrícolas ou de habitação. Ou quando, perante mais um panegírico a si mesmo, disfarçado de critica ao governo, tentei mostrar como Cavaco tortura a realidade e os números para esconder as suas próprias responsabilidades no rumo que o país seguiu.

O impacto negativo que a adesão ao euro teve na nossa economia pode dizer muito sobre o próprio euro. Mas quem acha que esta escolha foi a acertada só pode concluir que Cavaco Silva, que ocupou o poder nos primeiros dez anos de integração europeia e em boa parte da caminhada para a moeda única, não aproveitou os enormes recursos que teve para precaver o que aí vinha. Quem se lembra desse tempo sabe bem que não o fez, aliás.

A sua sorte foi, depois de ter ido fazer a rodagem do carro até à Figueira da Foz (outro mito que o mais profissional dos “não políticos” inventou sobre si mesmo), ter caído no poder quando o país foi inundado de dinheiro europeu, que gastou sem os constrangimentos atuais. Cavaco Silva não faz a mais pálida ideia do que seja governar com os limites hoje impostos e, por isso, nunca olhou a gastos quando era preciso vencer eleições. Usando, com muito mais margem, os mesmíssimos artifícios eleitoralistas que são apontados a Costa. Cavaco nunca foi o governante rigoroso e austero que se apresenta. Foi o oposto.

É por isso que não li ou vou ler as lições do professor. Já chega. Uma coisa é ler um artigo, outra é o investimento de tempo para ler um livro de Cavaco. Nisto, concordo com Portas: Cavaco é muito maçador. E não lhe reconheço, na sua experiência governativa, autoridade política e moral para ensinar outros a governar com rigor estratégico para preparar o país para o futuro.

Interessam-me, neste momento, apenas as consequências destas recorrentes investidas cavaquistas.

Dois homens verdadeiramente sérios nunca se entregaram a este eterno regresso: Ramalho Eanes e Jorge Sampaio. Mário Soares sim. Uns dirão que é o mesmo ímpeto de cidadania, outros que é a mesma tola vaidade. Mas há uma grande diferença entre os dois: como nunca antes fingira que não era político, Soares nunca se colocou no lugar intocável de oráculo da Nação. Arriscou, já com proveta idade e quando tinha um lugar no pedestal reservado ao “fundador da democracia”, uma derrota eleitoral em Presidenciais.

A prolixa produção autoelogiosa de Cavaco Silva nem sequer tem como objetivo criar problemas ao governo. Não há figura que una mais a esquerda de forma quase pavloviana. Estes episódios são balões de oxigénio para António Costa. A motivação é sempre a mesma e tem menos “refinement” político (permitam-me continuar a usar Portas como bengala) do que se pensa. Cavaco só tem um desígnio político: alimentar o seu insaciável ego. Sempre foi isto. Falar de si, elogiar-se e dar a si próprio um determinado lugar na história.

Estas aparições recorrentes, que se transformam em factos políticos graças ao vazio da oposição, são um problema para a direita. Fragmentada, longe do poder há demasiado tempo e condicionada por um racista ambicioso, está encalhada em personagens do passado – Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva. Mas Passos ainda pode fazer alguma coisa por ela, regressando para a desforra. Uniria a direita e dividiria profundamente o país. Já Cavaco Silva faz o que sempre fez: esmagar, com a sua douta banalidade, quem à sua volta queira brilhar. E sublinhar que o PSD, centrado nas protagonistas do passado, vive numa confrangedora ausência de futuro.»

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17.9.23

Museu em Aveiro

 


Museu de Arte Nova (Casa Major Pessoa), Aveiro, 1907-1908.
Arquitectos: Augusto da Silva Rocha e Ernesto Korrodi.

Daqui.
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Exactamente, senhor Presidente

 


(Marcelo no Canadá)
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Segredos e desigualdades

 

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Cuidado com os velhos punks

 


«A terceira idade é a idade da libertação. Como não vai haver quarta, a ambição é urgente: é morrer livre. E passar os últimos anos a aprender e a praticar essa liberdade, para vingar os anos todos em que se viveu preso, preso às regras e expectativas dos outros, a começar por aquelas a que nos prenderam os nossos pais.

Um velho livre, a votar e a fazer merda, a bater com o pé e a dominar invejavelmente as redes sociais e a Internet é um perigo. É o pesadelo de quem trabalha: velhos anarcas a esbanjar a fortuna de que dispõem, o tempo.

Na nossa sociedade, são tão mal tratados os velhos, que é inexplicável que não sejam punks, velhos anarcas a bater com os cajados nos tejadilhos dos carros que lhes barram o caminho, a exigir regalias que ninguém lhes possa dar.

O mal dos velhos é o mal de toda a malta: não se organizam. Sendo punks anarcas, cada um puxa para si próprio: os outros que se organizem, mas deixem-me em paz!

A terceira idade é a idade das urtigas. É o tempo de mandar tudo e toda a gente para as urtigas. Já se sabe que não irão mas tivemos, pelo menos, a satisfação de os mandar para lá. Esta semana libertei uma velha Lacoste cheia de buracos. Em vez de ir para o lixo, ficou como bata de pintor.

Sabe muito bem não me preocupar com as manchas de tinta. A verdade é que vai ficando cada vez mais gira, parecendo um Jackson Pollock. Mas um Jackson Pollock feito por Cecilia Jimenez, a punk de 82 anos que restaurou-destruiu aquele fresco de Jesus.

O pior é quando me esqueço que a tenho vestida: é tão confortável, como toda a roupa muito velha (velhos são os trapos e ainda bem), que saio para a rua como se estivesse apresentável.

Quanto mais digo aos vizinhos que “estou a pintar!”, mais eles acham que eu pirei. Já reconheço à distância todas as sílabas galegas da frase “coitadinho, já não sabe o que faz”.

Também devo marimbar-me para o que pensam os outros? Ou terei de fingir que me envergonho do meu pólo de pintura?»

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